Redação Pragmatismo
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Política 25/Mar/2015 às 18:31
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Um manual prático para os embates políticos do momento

O Brasil está no caminho certo? Você sabe qual é o melhor caminho? Segue um breve manual autoral para ajudá-lo a participar do momento político brasileiro atual de forma “qualificada”

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por Ricardo de João Braga*

O Brasil está no caminho certo? Você sabe qual é o melhor caminho? Segue um breve manual autoral e um repertório de ideias para ajudá-lo a participar do momento político brasileiro atual de forma “qualificada”.

Se quer apoiar o governo, leia O Capital (Karl Marx), A Grande Transformação (Karl Polanyi), Formação Econômica do Brasil (Celso Furtado), História Econômica do Brasil (Caio Prado Jr.), Sociedade de Classes e Subdesenvolvimento (Florestan Fernandes), tenha saudades da Cepal dos anos 50 e 60 e afirme que este governo está lutando para dar um destino autônomo ao país, para emancipar o povo, para criar um capitalismo nacional (talvez mesmo como preparação para o socialismo). Você pode utilizar como palavras de ordem o ataque ao imperialismo e às perdas internacionais, pode sempre retirar da manga o argumento que a classe trabalhadora é explorada, pode também ─ está muito na moda ─ identificar a classe média brasileira à pequena burguesia e todo cidadão crítico a um machista conservador que odeia pobres, nordestinos e direitos das mulheres e minorias. (Se estiver num ambiente mais acolhedor, diga que Cuba é uma grande democracia e que lá o poder econômico não influencia as eleições, que são livres). Saiba que o mundo é dividido entre o bem (a sua causa) e o mal, e aquele que leu os mesmos livros que você é do bem, os outros, do mal. Neste caso você deve se esquecer que boa parte do eleitorado do PT hoje tem ideias conservadores, e que a mesma classe média pequeno burguesa de 2015 era a elite intelectual que apoiou as várias campanhas presidenciais de Lula no passado.

Esqueça também que foi o capitalismo que multiplicou por centenas de vezes a capacidade produtiva e tecnológica de nossa sociedade, com avanços na medicina, nos transportes e na comunicação (evite falar ao celular ou ser visto utilizando-o, pois é um invento capitalista). Ignore solenemente o fato de que os países mais ricos e desenvolvidos são também aqueles com mais liberdades civis. Não hesite, não tenha dúvidas. Se precisar, parta pro confronto.

Se você deseja atacar o governo, leia A Riqueza das Nações (Adam Smith), O Caminho da Servidão (Friedrich Hayek), A Revolução dos Bichos e 1984 (George Orwel), aprenda sobre as Expectativas Racionais (Robert Lucas) e a PublicChoice (J. Buchanan; G. Tullock), acredite que o FMI e o Banco Mundial são órgãos apenas técnicos e afirme que os adversários do governo estão realmente interessados em adotar uma nova forma de governar, com menos Estado, mais transparência e mais liberdade econômica. Neste caso você pode sempre atacar o governo por ser ineficiente, ladrão e corrupto, por comprar votos do povo com o programa assistencialista Bolsa Família e por dar direitos a falsas minorias e a vagabundos. Acredite que aquele que não percebe a ciência destes argumentos é burro, e você, inteligente. Neste caso você deve esquecer que as ideias e os programas liberais fizeram a Bolívia privatizar a água da chuva, o Chile acabar com a previdência pública, a Argentina cortar direitos trabalhistas e terem ajudado a América Latina ter sido e continuar sendo um continente exportador de produtos agrícolas tropicais e minérios (que paga baixos salários e tem uma enorme quantidade de pobres).

Deve esquecer também que os países que tem se desenvolvido nas últimas décadas investiram muito em educação e deram forte apoio estatal às indústrias e às exportações. Se vir um pobre na rua, fique tranquilo, afirme que ele não quis estudar e não gosta de trabalhar, enquanto você no seu carro merece o que tem pelo trabalho duro e pelo estudo.Não hesite, não tenha dúvidas. Se precisar, parta pro confronto.

ALERTA: para permanecer convicto não misture os autores das duas listas. Ao contrário, ataque a lista adversária (sem mesmo ter lido e compreendido) e acuse-a de “ideologia barata”. Permaneça firme na que você escolheu!

Se espera encontrar no panorama político brasileiro um grupo impoluto e que irá lhe salvar, evite ler Os Donos do Poder (Raymundo Faoro) ou A Gramática Política Brasileira (Edson Nunes). Neste caso, ignore sempre os argumentos sobre patrimonialismo, familismo, nepotismo, etc. Evite a todo custo ler Casa Grande e Senzala (Gilberto Freyre) ou Raízes do Brasil (Sérgio Buarque de Holanda), mas caso leia estes livros, de forma alguma olhe-se no espelho, sob pena de parar de acreditar no Brasil (você é o Brasil). Não duvide da chegada de um salvador da pátria, e ignore que o sistema político é reflexo das relações sociais criadas e mantidas no dia a dia.

Contudo, caso você acredite que o meio termo, o equilíbrio, a razoabilidade podem fazer algum sentido, caso acredite que você tem importância na superação do conflito atual, leia todos os livros acima e considere que eles não estão de todo certos, nem de todo errados. Neste caso acrescente também algum livro da religião de sua preferência, ou algum pensador que lhe agrada, e leia sempre com uma perspectiva humanista. Parecerá claro a você que o diálogo e a serenidade são o melhor caminho.

* Ricardo de João Braga é doutor em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Iesp/Uerj) e economista. É professor do Mestrado Profissional em Poder Legislativo, da Câmara dos Deputados. (Congresso em Foco)

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Comentários

  1. Luis Postado em 25/Mar/2015 às 22:11

    Comparar O Capital com a riqueza das nações ou o caminho da servidão é covardia hein, já li os três e a qualidade dos dois últimos é infinitamente maior à qualidade do livro do Marx

  2. Onda Vermelha Postado em 25/Mar/2015 às 22:44

    Ué? Para aqueles que desejam "atacar o governo" e combater "isso que está aí" ficou faltando listar os "pensadores" brasileiros contemporâneos que, literalmente, fazem a cabeça dos coxinhas que estão a solta por aí. Não deixem de ler seus livros pois são best sellers que não podem faltar na sua estante. Respeitadíssimos num "mundo acadêmico coxinha"! Hehehe! Lá vai: Olavo de Carvalho, Lobão, Rodrigo Constantino, Reinaldo Azevedo, Demétrio Magnoli, Ponde, Marco Villa, Ali Kamel, Diogo Mainardi, Guilherme Fiúza, etc. Obs.: Não compre, em hipótese alguma, qualquer livro de FHC. Ele já pediu encarecidamente que ESQUEÇAM o que ele escreveu. Ok? Oh, miséria....E como "brinde" ofereço, gratuitamente, a Melô dos Coxinhas no YouTube em www.youtube.com/watch?v=K6fl93vKdZw

  3. Carol Postado em 25/Mar/2015 às 22:52

    Uma indicação. Acho que vale a pena ser visto esse vídeo eu vi ontem e gostei muito, mesmo não concordando com algumas coisas achei muito sensato ! https://www.youtube.com/watch?v=mWbU0jKv1vo

  4. Fabio Postado em 26/Mar/2015 às 00:29

    Com todo respeito ao autor, a defesa do atual modelo de governo brasileiro vai, na pratica, muito além da teoria literária que ele cita. É, entre outras coisas, a defesa de uma série de conquistas (mesmo dentro de um regime capitalista) nunca antes proporcionada por outros governos neste país. Conquistas tanto sociais quanto econômicas (reservas, grau de investimento etc.), que nem de longe se restringem a essa conversa de defesa de um modelo socialista e luta de classes.

  5. Renato Postado em 27/Mar/2015 às 15:14

    Esse texto é um oásis de bom senso em meio a tanto ódio e radicalismo.