Redação Pragmatismo
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PT 11/Mar/2015 às 14:59
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O que se esconde por trás do ódio ao PT?

O ódio contra o PT é menos contra o partido do que contra o povo pobre que foi tirado do inferno da pobreza e da fome e está ocupando os lugares antes reservados às elites abastadas. Estas pensam em apenas fazer caridade, doar coisas, mas nunca em fazer justiça social

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Leonardo Boff

Há um fato espantoso mas analiticamente explicável: o aumento do ódio e da raiva contra o PT. Esse fato vem revelar o outro lado da “cordialidade” do brasileiro, proposta por Sérgio Buarque de Holanda: do mesmo coração que nasce a acolhida calorosa, vem também a rejeição mais violenta. Ambas são “cordiais”: as duas caras passionais do brasileiro.

Esse ódio é induzido pela mídia conservadora e por aqueles que na eleição não respeitaram rito democrático: ou se ganha ou se perde. Quem perde reconhece elegantemente a derrota e quem ganha mostra magnanimidade face ao derrotado. Mas não foi esse comportamento civilizado que triunfou. Ao contrário: os derrotados procuram por todos os modos deslegitimar a vitória e garantir uma reviravolta política que atenda a seu projeto, rejeitado pela maioria dos eleitores.

Para entender, nada melhor que visitar o notório historiador José Honório Rodrigues, que em seu clássico Conciliação e Reforma no Brasil (1965) diz com palavras que parecem atuais:

Os liberais no império, derrotados nas urnas e afastados do poder, foram se tornando além de indignados, intolerantes; construíram uma concepção conspiratória da história que considerava indispensável a intervenção do ódio, da intriga, da impiedade, do ressentimento, da intolerância, da intransigência, da indignação para o sucesso inesperado e imprevisto de suas forças minoritárias” (p. 11).

Esses grupos prolongam as velhas elites que da Colônia até hoje nunca mudaram seu ethos. Nas palavras do referido autor: “a maioria foi sempre alienada, antinacional e não contemporânea; nunca se reconciliou com o povo; negou seus direitos, arrasou suas vidas e logo que o viu crescer lhe negou, pouco a pouco, a aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que continua achando que lhe pertence”(p.14 e 15). Hoje as elites econômicas abominam o povo. Só o aceitam fantasiado no carnaval.

Lamentavelmente, não lhes passa pela cabeça que “as maiores construções são fruto popular: a mestiçagem racial, que criava um tipo adaptado ao país; a mestiçavel cultural que criava uma síntese nova; a tolerância racial que evitou o descaminho dos caminhos; a tolerância religiosa que impossibiltou ou dificultou as perseguições da Inquisição; a expansão territorial, obra de mamelucos, pois o próprio Domingos Jorge Velho, devassador e incorporador do Piaui, não falava português; a integração psico-social pelo desrespeito aos preconceitos e pela criação do sentimento de solidariedade nacional; a integridade territorial; a unidade de língua e finalmente a opulência e a riqueza do Brasil que são fruto do trabalho do povo. E o que fez a liderança colonial (e posterior)? Não deu ao povo sequer os beneficios da saúde e da educação”(p. 31-32).

A que vêm estas citações? Elas reforçam um fato histórico inegável: com o PT, esses que eram considerados carvão no processo produtivo (Darcy Ribeiro), o rebutalho social, conseguiram, numa penosa trajetória, se organizar como poder social que se transformou em poder político no PT e conquistar o Estado com seus aparelhos. Apearam do poder as classes dominantes; não ocorreu simplesmente uma alternância de poder mas uma troca de classe social, base para um outro tipo de política. Tal saga equivale a uma autêntica revolução social.

Isso é intolerável pelas classes poderosas que se acostumaram a fazer do Estado o seu lugar natural e de se apropriar privadamente dos bens públicos pelo famoso patrimonialismo, denunciado por Raymundo Faoro.

Por todos os modos e artimanhas querem ainda hoje voltar a ocupar esse lugar que julgam de direito seu. Seguramente, começam a dar-se conta de que, talvez, nunca mais terão condições históricas de refazer seu projeto de dominação/conciliação. Outro tipo de história política dará, finalmente, um destino diferente ao Brasil.

Para eles, o caminho das urnas se tornou inseguro pelo nível crítico alcançado por amplos estratos do povo que rejeitou seu projeto político de alinhamento neoliberal ao processo de globalização, como sócios dependentes e agregados. O caminho militar será hoje impossível dado o quadro mundial mudado. Cogitam com a esdrúxula possibilidade da judicialização da política, contando com aliados na Corte Suprema que nutrem semelhante ódio ao PT e sentem o mesmo desdém pelo povo.

Através deste expediente, poderiam lograr um impeachment da primeira mandatária da nação. É um caminho conflituoso pois a articulação nacional dos movimentos sociais tornaria arriscado este intento e talvez até inviabilizável.

O ódio contra o PT é menos contra PT do que contra o povo pobre que por causa do PT e de suas políticas sociais de inclusão, foi tirado do inferno da pobreza e da fome e está ocupando os lugares antes reservados às elites abastadas. Estas pensam em apenas fazer caridade, doar coisas, mas nunca fazer justiça social.

Antecipo-me aos críticos e aos moralistas: mas o PT não se corrompeu? Veja o mensalão? Veja a Petrobrás? Não defendo corruptos. Reconheço, lamento e rejeito os malfeitos cometidos por um punhado de dirigentes. Traíram mais de um milhão de filiados e principalmente botaram a perder os ideais de ética e de transparência. Mas nas bases e nos municípios – posso testemunhá-lo – vive-se um outro modo de fazer política, com participação popular, mostrando que um sonho tão generoso não se mata assim tão facilmente: o de um Brasil menos malvado. As classes dirigentes, por 500 anos, no dizer rude de Capistrano de Abreu, “castraram e recastraram, caparam e recaparam” o povo brasileiro. Há maior corrupção histórica do que esta? Voltaremos ao tema.

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Comentários

  1. Thiago Postado em 11/Mar/2015 às 15:20

    Bom...lotear a Petrobras até que ela se tornasse símbolo mundial de corrupção e queda pode ter ajudado a aumentar esse ódio. Mas não sei, é só suposição minha. Com certeza o pragmatismo, que é isento e símbolo do jornalismo sério, deve discordar.

    • Thiago Teixeira Postado em 12/Mar/2015 às 09:49

      Cara, faz uma gentileza, vá postar no G1 ou no Blog do Reinaldo Azevedo. Aqui é o espaço de pessoas que pensam por si próprias, e não replicam as ideias do Boechato e Merval.

    • Thiago Postado em 12/Mar/2015 às 14:31

      O pragmatismo político é o espaço de pessoas que pensam por si próprias? Isso é uma piada? Todos só fazem reproduzir chavões da Guerra Fria de "elite burguesa", "elite branca, "grande mídia", etc. Mais patético do que acreditar na "grande mídia" é acreditar na propaganda oficial do governo (e o pragmatismo é uma enorme peça de propaganda). Eu gosto de ler aqui porque acho importante ver como o discurso do governo é reproduzido, e mais importante, como ele é assimilado por acéfalos como você. Vai comprar sua Carta Capital, pra poder se informar com "mídia verdadeira e imparcial".

  2. José Ferreira Postado em 11/Mar/2015 às 15:37

    Essa reportagem também é boa e representa um pouco do relacionamento do povo com o PT. Não é só a "elite branca". O jornal também é de esquerda, para não falarem que é da "mídia golpista": http://www.cartacapital.com.br/politica/o-pt-ainda-nao-entendeu-o-antipetismo-7998.html

  3. Mauro Postado em 11/Mar/2015 às 16:57

    O PT é um partido bom de ideologia na teoria, na prática não. Simples assim.

    • Thiago Teixeira Postado em 12/Mar/2015 às 09:46

      Realmente, na prática o PT privatiza estatais estratégicas, reduz os ministérios a nada (pois ministério da reforma agrária e igualdade racial é coisa tucana portanto foram extintas), não faz politicas sociais como o DEM, é inimiga dos países de esquerda, as relações diplomáticas com a Russia - China - África do Sul - Índia são zero, nem ao menos fundaram um banco como fez o FHC, não segue o exemplo do Agripino que faz viagens constantes a Cuba ... realmente o PT é tudo teoria.

  4. Luis Postado em 11/Mar/2015 às 17:40

    Toda vez que vejo um texto com esse assunto eu já fico impaciente e adivinho corretamente os argumentos lá dentro. Esse papinho de que só elitista que odeia pobre não gosta do PT já abusou, nossa. Troquem o disco. Ninguém com mais de dois neurônios ainda cai nessa.

  5. eu daqui Postado em 12/Mar/2015 às 10:46

    Ótimo diferenciar caridade de justiça. A vontade de fazer justiça é que nasce do amor. A caridade nasce da culpa ou da necessidade de se dar um polimento na prórpia imagem social. Precisamos de mais textos assim. Parabéns PP.

  6. eu daqui Postado em 12/Mar/2015 às 10:48

    Meu ódio contra o pt não é nada mais nada menos do que o mesmo ódio que tenho pelo psdb.