Redação Pragmatismo
Compartilhar
Racismo não 25/Mar/2015 às 20:00
23
Comentários

New York Times: brasileiros ainda negam o peso do racismo na sociedade

NY Times: o país que abriga a maior população negra fora da África continua a viver em negação sobre o peso do racismo na sociedade. Escritora nigeriana diz que raça e classe estão conectados no Brasil: "eu fui a restaurantes bons e não vi uma única pessoa negra"

racismo brasil
De acordo com New York Times, mídia brasileira também contribui para a negação do racismo no Brasil (Oswaldo Corneti/Fotos Públicas)

Em uma noite de sexta-feira no mês passado, faltava luz nas ruas da Palmeirinha, uma favela no Rio de Janeiro. Três adolescentes negros estavam brincando em frente de suas casas. Um deles começou a correr e os outros seguiram, rindo. Naquele momento, a polícia saiu atirando. Chauan Jambre Cezário, 19, foi gravemente ferido. Alan de Souza Lima, 15, morreu no local com celular nas mãos – ele registrou tudo em vídeo, incluindo seus próprios últimos momentos agonizantes (relembre aqui).

Segundo a nota oficial divulgada no dia seguinte, os rapazes foram baleados depois de um confronto com a polícia. Os policiais alegaram ter encontrado duas armas no local e acusaram Cezário de resistir à prisão. O rapaz, que vende chá gelado na praia de Ipanema, foi levado para o pronto-socorro e algemado ao leito do hospital.

Dias depois, o vídeo por celular de nove minutos se tornou público. As imagens mostram claramente que os adolescentes não tinham nenhuma arma e que não houve nenhum confronto ou resistência. Segundos após os disparos, um policial perguntou porque estavam correndo, ao qual um Cezário sangrando respondeu: “A gente tava brincando, senhor”.

As acusações foram retiradas, mas sua experiência, e a morte de seu amigo mais jovem, reflete a história da violência contra os homens negros jovens no Brasil.

Os afro-brasileiros – pessoas que identificam a si mesmas como negros ou morenos – correspondem a 53% de nossa população, um total de cerca de 106 milhões de indivíduos. É a maior população negra fora da África e a segunda maior depois da Nigéria. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), brasileiros negros com idades entre 12 e 18 anos apresentam uma probabilidade três vezes maior de serem mortos do que seus pares brancos, e uma pesquisa pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontou que os negros brasileiros representam 68% de todas as vítimas de homicídio.

A probabilidade também é maior de serem vítimas de mortes pela polícia. Um estudo feito pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) mostrou que 58% de todas as pessoas mortas no Estado de São Paulo pela polícia militar eram negras. Elas correspondem a 72% de toda a população carcerária do país.

“Quando você vê uma viatura de polícia, seu coração gela”, me disse Luiz Roberto Lima, um fotógrafo negro do Rio de Janeiro, que morou nas ruas na adolescência. “Eles podem matar você por estar na rua ou por defender seus direitos, e também podem matar você por prazer. Mesmo que não tenha ficha criminal, eles podem inventar algo contra você.” Ele se referia às infames “mortes por resistência”, quando as vítimas são baleadas após supostamente dispararem contra a polícia e não há maior investigação –o que provavelmente teria acontecido em Palmeirinha se não fosse pela evidência em vídeo.

A desigualdade racial tem raízes históricas óbvias. A escravidão no Brasil durou por aproximadamente três séculos, do início do século 16 a meados do século 19, um período durante o qual cinco milhões de escravos foram trazidos da África para cá – cerca de 11 vezes mais do que para a América do Norte. A nação foi a última nas Américas a abolir a escravidão, em 1888.

Mas muitos afro-brasileiros ainda estão confinados às margens da sociedade. Hoje, quase 70% das pessoas que vivem na pobreza extrema são negras. E estão quase totalmente ausentes das posições de poder. Todos os 39 ministros do gabinete da presidente Dilma Rousseff são brancos, com exceção de um: a ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.

Em uma recente entrevista para jornal, a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie disse que “o Brasil está em negação sobre a questão racial”. Ela ficou surpresa ao saber, durante uma visita poucos anos atrás, que não falávamos muito sobre o assunto aqui, como se racismo não fosse uma questão. Ela acrescentou: “Não consegui deixar de notar como raça e classe estão conectadas no Brasil. Eu ia a restaurantes bons e não via uma única pessoa negra”.

Essa observação pode ser confirmada pelo que alguns brasileiros chamam de “teste do pescoço”. Cunhado pelo servidor público Francisco Antero e pela professora de história Luzia Souza, ele consiste de contar o número de pessoas brancas e negras em papéis diferentes em circunstâncias diferentes. Estique o pescoço em uma joalheria, por exemplo, e conte quantos vendedores são negros, e então conte quantos são clientes. Ou espie em uma escola particular cara e conte quantos alunos e professores são negros, e quantos são serventes.

Eu apliquei recentemente o teste do pescoço em uma sorveteria cara em um bairro rico de São Paulo. Cinco dos sete funcionários eram negros, em comparação a um entre 30 clientes – e suspeito que ele era estrangeiro. Então, em um ônibus municipal, dentre duas dúzias de passageiros, eu notei que era uma das apenas três pessoas brancas.

Para melhorar esta situação, o governo brasileiro introduziu nos últimos anos alguns poucos programas afirmativos, como destinar para minorias raciais um certo percentual de empregos no Serviço Público e vagas em universidades públicas. Ele também concedeu direitos parciais de propriedade para nove comunidades formadas por quilombolas (descendentes de grupos de escravos fugitivos). Apesar desses direitos de propriedade serem garantidos pela nossa Constituição, apenas estimados 5,8% das 214 mil famílias que vivem em quilombos as receberam.

O mais antigo programa de ação afirmativa em universidade existe há 10 anos, mas ainda enfrenta fortes críticas. Um dos maiores jornais do Brasil assumiu uma firme posição editorial contra as cotas raciais em universidades, argumentando que um sistema que encoraje a diversidade socioeconômica bastaria. Os críticos às vezes consideram as cotas como discriminação reversa ou temem que possam incitar o ódio racial em nossa imaginada “democracia racial”, onde negros e brancos brincam lado a lado nas ruas sem serem baleados no peito.

É como Adichie disse. O Brasil ainda está em negação.

Vanessa Barbara, The New York Times. Tradutor: George El Khouri Andolfato

Acompanhe Pragmatismo Político no Twitter e no Facebook

Recomendados para você

Comentários

  1. Alcino Postado em 25/Mar/2015 às 21:17

    O que eu posso dizer?

  2. Carlos Postado em 25/Mar/2015 às 21:22

    Coitadismo de sempre, sobra pra PM do nada kk

    • Galvão Postado em 25/Mar/2015 às 21:26

      Você é um escroto. Deve ser filho bastardo de um meganha.

    • Jose Antonio Postado em 25/Mar/2015 às 22:11

      E voce é um vagabundo idiotizado.

      • Thiago Lopes Postado em 26/Mar/2015 às 09:44

        Olha sua foto, José, tá na cara de que idiota aqui é vc, seu paspalho.

    • Thiago Lopes Postado em 26/Mar/2015 às 09:43

      Carlos, o coitado aqui é vc. Não passa de um coitado, um intelectualmente inferior. Lixos como vc devem ser exterminados.

  3. Ricardo Postado em 25/Mar/2015 às 22:03

    Maria fazendo mariazice...

  4. Túlio Postado em 25/Mar/2015 às 22:28

    Oras porquê isso? Simples diferente do racismo do EUA que e Genótipo(esta em sua descendência quem tem um avô negro e negro) o racismo do Brasil e Fenótipo(esta expresso na cor de sua pele, o fenômeno que se apresenta na cor), e como o Brasil tem a maior população negra fora do Continente África, e quase todos os brasileiros têm sangue negro correndo nas veias, e meio que contraditório assumir isso. Infelizmente sabemos que ao BRANCO tudo o que e belo, correto, puro enquanto e atribuído e ao NEGRO e feio, imoral, errado! Tudo isso foi culturalmente incutido em nossas mentes pelos nossos antepassado, pensassem bem,como justificar o injustificável ? Os raptos de pessoas para servir de escravos, os estupros, as destruições culturais: língua, fé, musica(esse resisti e muito, prova as variações musicais) as formas de se vestir! Pensem, outra coisa, lembrem quem introduziram a AGRICULTURA e a METALURGIA para o Brasil foram os negros, Africanos, mas quase nunca que isso e dito nos livros de historia!

  5. Luh Souza Postado em 26/Mar/2015 às 05:27

    Existe sim, mas quem é racista não é o policial, é a corporação. Quando vestem a farda, deixam de ter cor para seguir as regras. Se de 56 mil jovens mortos, 77% eram negros, pergunte agora pq a bala só encontra cor preta, hum? Veja bem, escreva no Google assim: Documento interno da policia mostra que a corporação tem ordem para abordar negros e pardos.

    • Eduardo Ribeiro Postado em 26/Mar/2015 às 10:04

      Tá bom Maria. Essa é a falácia mais safada, mais desonesta e mais batida que os racistas usam quando ficam acuados. Mas você tá sertinha. Inclusive, já que você citou a estatística, é por isso que se formam mais médicos, advogados e engenheiros negros do que o resto, afinal, "70% do povo brasileiro é negro ou pardo", então "é natural" que haja muito mais médicos negros. Não é isso aí? É, a estatística não mente. Tá sertinha...

    • Eduardo Ribeiro Postado em 26/Mar/2015 às 10:05

      O Pragmatismo tem um texto bom. "O Teste do Pescoço". Leia ele. Vai te fazer bem, vai clarear sua mente cheia de estatística.

    • Eduardo Ribeiro Postado em 26/Mar/2015 às 14:52

      Pergunta sem sentido nenhum. Volte apenas depois de fazer o famigerado teste do pescoço.

    • poliana Postado em 26/Mar/2015 às 15:35

      maria, por favor, reformule sua pergunta sobre salvador...n entendi!!!!

    • Carlos Postado em 26/Mar/2015 às 18:08

      A polícia tem relação com 1% desses homicídios, os outros 70% tem relação com trafico de drogas, vai estudar.

    • poliana Postado em 26/Mar/2015 às 20:11

      vc está perguntando qtos negros foram prefeitos em ssa???? se for isso, a resposta é nenhum! aonde vc quer chegar? continuo sem entender...

  6. George Postado em 26/Mar/2015 às 07:43

    o NYT falou o que aqui é chamado de "coitadismo" por aqueles que juram de pé junto que não existe racismo no Brasil. O jornal gringo falou a realidade que a mídia oligárquica brasileira não fala.

  7. Thiago Teixeira Postado em 26/Mar/2015 às 08:03

    Preto maria. Negro tem tudo que morrer. Negro mata negro. Negro é tudo vagabundo. Negro são bolsistas. Negros são Cotistas. Negro é tudo de ruim. Negro acha ainda que sofre racismo. Negros são Vitimistas. O que mais? Pode continuar...

    • poliana Postado em 26/Mar/2015 às 12:45

      Thiago, por via das duvidas eh melhor vc dxar claro q vc foi irônico.Vai por mim...rs

  8. Denisbaldo Postado em 26/Mar/2015 às 08:55

    Lendo alguns dos comentários aqui consigo entender claramente a razão da existencia destes índices. Tão óbvios para alguns e nem um pouco para outros. Ao chamar de coitadismo a dor e revolta de um povo, estes indivíduos encontram uma maneira muito "científica" e "humana" para explicá-los. Chamem-nos todos de vagabundos logo, como faziam antigamente. Eh mais sincero pelo menos.

  9. BRUNO SILVA Postado em 26/Mar/2015 às 09:15

    E com isso vc tenta embassar qual argumento? A de que no Brasil infelizmente não tem preconceito? Sair pra passear e abrir os olhos para a sociedade e começar a argumentar tudo aquilo que vc acha certo ou errado é bom pra sociedade e para sua mente. Tente pensar nisso.

  10. Thiago Lopes Postado em 26/Mar/2015 às 09:45

    E qual a sua cor dos que falam idiotices como as suas, Maria?

  11. Eduardo Ribeiro Postado em 26/Mar/2015 às 10:30

    Olha esse comentário...

  12. Carioca Postado em 26/Mar/2015 às 11:38

    Vivemos no país do MATRIARCADO, somos quase escandinavos. rs Não houve política do embranquecimento com a vinda de imigrantes famigerados. A atmosfera é de democracia racial. A negação de uma realidade é a mais nefasta forma de discriminação. Eu tenho a pele clara, porém me considero afrodescedente, com isso alguns conhecidos me hostilizam por achar q sou coitadista. E quanto ao meu direito de me orgulhar das minhas raízes negras? Só os EURODESCENDENTES têm direito a um PASSADO, MEMÓRIA, ORGULHO E ANCESTRALIDADE? Quanto mais as pessoas tentam negar, mas próximas elas ficam do seu racismo. Porém, a existência dessas pessoas é tão dolorosa e abjeta q a incapacidade para velar o racismo é pífia. Essa classe mérdia fracassada e rica midiotizada - os famosos pastéis de vento - acham que tudo foi superado com a abolição do regime escravocrata. Típico de alguém q foi adestrado nesses centrinhos educacionais q só acumulam horas-bunda. Esse comentários cruéis acima violam da mesma maneira quanto uma postura racista. "NÃO SOU RACISTA, MAS".. Não sou homofóbico ou machista, mas....! As nossas universidades são tão elitistas que para ser médico vc tem q se fantasiar de branco - literalmente.Pois os cubanos são indignos dessa profissão."Mas vá.rs RIDÍCULO. Contudo, nem estão entre as melhores do mundo. Nunca vi ninguém citar o meio acadêmico brasileiro como referência científica o tecnológica, apenas normose. Se não fosse a cultura negra - mundial até - a nossa forma de ver o mundo seria monótona, brochante e ortodoxa.. A nossa culinária seria simulacro do simulacro. Ir a SP para comer pizza. Foda, essa identidade cultural e eles se orgulham como se tivessem criado. Ter orgulho de ser branco é aceitável, agora externar sua africanidade é exacerbar ou se vitimizar. Aos racistas, só Sinto ASCO. Vcs são vazios intelectualmente. A indigência espiritual bate a sua porta.