Redação Pragmatismo
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Capitalismo 20/Mar/2015 às 12:55
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Mujica recebe Leonardo Boff em sua Chácara

“Precisamos de uma cultura alternativa à cultura do capital. Ela não pode nos dar felicidade, pois, na ânsia de acumular, não nos sobra tempo para viver”. Para Leonardo Boff, conversa de quase 2 horas na casa de Mujica foi 'uma experiência de choque'. Confira o relato completo

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Pepe Mujica em sua chácara, nos arredores de Montevidéu

Leonardo Boff*

Participando de um congresso iberoamericano sobre Medicina Familiar e Comunitária, realizado em Montevidéu entre os dias 18 a 22 de março, tive a oportunidade sempre desejada de um encontro com o ex-presidente do Uruguai José Mujica. Finalmente foi possível no dia 17 de março por volta das 16:00 horas. Tal encontro deu-se em sua Chácara, nos arredores da capital Montevidéu.

Encontramos uma pessoa que vendo-a e ouvindo-a somos imediatamente remetidos a figuras clássicas do passado, como Leon Tolstói, Mahatma Gandhi e até com Francisco de Assis. Aí estava ele com sua camisa suada e rasgada pelo trabalho no campo, com uma calça de esporte muito usada e sandálias rudes, deixando ver uns pés empoeirados como quem vem da faina da terra.

Vive numa casa humilde e ao lado, o velho fusca que não anda mais que 70 km a hora. Já lhe ofereceram um milhão de dólares por ele; rejeitou a oferta por respeito ao velho carro que diariamente o levava ao palácio presidencial e por consideração do amigo que lho havia dado de presente.

Rejeita que o considerem pobre. Diz: “não sou pobre, porque tenho tudo o que preciso para viver; pobre não é não ter; é estar fora da comunidade; e eu não estou”.

Pertenceu à resistência à ditadura militar. Viveu na prisão por treze anos e por um bom tempo dentro de um poço, coisa que lhe deixou sequelas até os dias de hoje. Mas nunca fala disso, nem mostra o mínimo ressentimento. Comenta que a vida lhe fez passar por muitas situações difíceis; mas todas eram boas para lhe dar sábias lições e por e fazê-lo crescer.

Conversamos por mais de uma hora e meia. Começamos com a situação do Brasil e, em geral da América Latina. Mostrou-se muito solidário com Dilma especialmente em sua determinação de cobrar investigação rigorosa e punição adequada aos corruptos e corruptores do caso penoso da Petrobras. Não deixou de assinalar que há uma política orquestrada a partir dos Estados Unidos de desestabilizar governos que tentam realizar um projeto autônomo de país.

Isso está ocorrendo no Norte da África e pode estar em curso também na América Latina e no Brasil. Sempre em articulação com os setores mais abastados e poderosos de dentro do país que temem mudanças sociais que lhes podem ameaçar os privilégios históricos.

Mas a grande conversa foi sobre a situação do sistema-vida e do sistema-Terra. Aí me dei conta do horizonte vasto de sua visão de mundo.

Enfatizava que a questão axial hoje não reside na preocupação pelo Uruguai, seu país, nem por nosso continente latino-americano, mas pelo destino de nosso planeta e do futuro de nossa civilização. Dizia, entre meditativo e preocupado, que talvez tenhamos que assistir a grandes catástrofes até que os chefes de Estado se deem conta da gravidade de nossa situação como espécie e tomar medidas salvadoras. Caso contrário, vamos ao encontro de uma
tragédia ecológico-social inimaginável.

O triste, comentava Mujica, é perceber que entre os chefes de Estado, especialmente, das grandes potências econômicas, não se verifica nenhuma preocupação em criar uma gestão plural e global do planeta Terra, já que os problemas são planetários. Cada país prefere defender seus direitos particulares, sem dar-se conta das ameaças gerais que pesam sobre a totalidade de nosso destino.

Mas o ponto alto da conversa, sobre o qual pretendo voltar, foi sobre a urgência de criarmos uma cultura alternativa à dominante, a cultura do capital. De pouco vale, sublinhava, trocarmos de modo de produção, de distribuição e de consumo se ainda mantemos os hábitos e ‘valores’ vividos e proclamados pela cultura do capital. Esta aprisionou toda a humanidade com a ideia de que precisamos crescer de forma ilimitada e de buscar um bem estar material sem fim. Esta cultura opõe ricos e pobres. E induz os pobres a buscarem ser como os ricos. Agiliza todos os meios para que se façam consumidores. Quanto mais são inseridos no consumo mais demandas fazem, porque o desejo induzido é ilimitado e nunca sacia o ser humano. A pretensa felicidade prometida se esvai numa grande insatisfação e vazio existencial.

A cultura do capital, acentuava Mujica, não pode nos dar felicidade, porque nos ocupa totalmente, na ânsia de acumular e de crescer, não nos deixando tempo de vida para simplesmente viver, celebrar a convivência com outros e nos sentir inseridos na natureza. Essa cultura é anti-vida e anti-natureza, devastada pela voracidade produtivista e consumista.

Importa viver o que pensamos, caso contrário, pensamos como vivemos: a espiral infernal do consumo incessante. Impõe-se a simplicidade voluntária, a sobriedade compartida e a comunhão com as pessoas e com toda a realidade. É difícil, constatava Mujica, construir as bases para esta cultura humanitária e amiga da vida. Mas temos que começar por nós mesmos.

Eu comentei: ‘o Sr. nos oferece um vivo exemplo de que isso é possível e está no âmbito das virtualidades humanas’.

No final, abraçando-nos fortemente, lhe comentei: ‘digo com sinceridade e com humildade: vejo que há duas pessoas no mundo que me inspiram e me dão esperança: o Papa Francisco e Pepe Mujica’. Nada disse. Olhou-me profundamente e vi que seus olhos se emudeceram de emoção.

Saí do encontro como quem viveu um choque existencial benfazejo: me confirmou naquilo que com tantos outros pensamos e procuramos viver. E agradeci a Deus por nos ter dado um pessoa com tanto carisma, tanta simplicidade, tanta inteireza e tanta irradiação de vida e de amor.

*Leonardo Boff é filósofo, teólogo e escritor. Edição: Pragmatismo Político

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Comentários

  1. Luis Postado em 20/Mar/2015 às 13:22

    Se os esquerdistas pregam tanto que precisamos renovar nossa visão do mundo e deixar o capital de lado, não entendo a obsessão deles com o capital alheio e novos impostos, taxações sobre grandes fortunas...

    • Carlos Postado em 20/Mar/2015 às 13:45

      Pobre defensor da propriedade privada alheia.

    • Arthur Vinicius Pereira Postado em 20/Mar/2015 às 14:03

      Deve ser porque vivemos em uma sociedade ainda capitalista e novos impostos taxações sobre grande fortunas trazem novas conquistas sociais! :D

    • Carlos Postado em 20/Mar/2015 às 14:40

      Até aí tudo bem, tu n entende pq é burro.

    • Gabriel Postado em 20/Mar/2015 às 14:52

      Parabéns pela tua ignorância.

    • Daniel Postado em 20/Mar/2015 às 15:59

      A preocupação de todos os que almejam um mundo menos consumista e mais humano é justamente para não deixar que os mais consumistas a capitalistas passem por cima dos interesses da maioria, ou seja, dos que são pobres e vivem na extrema pobreza. Isso deveria ser compartilhado a todos para que todos tivessem as mesmas garantias, direitos e conforto e, assim, a sociedade fosse mais igualitária.

  2. Olga Postado em 20/Mar/2015 às 13:28

    A pior pobreza que existe, não é a material, que é sinistra e cruel e obriga ao homem lutar todo o dia por sobreviver , a pior pobreza é a intelectual e espiritual, pois estas são um mal que condena o homem para toda a vida a não ter consciência, a egolatria, a mesquindade, ao erro, a não saber onde esta parado no mundo, a arbitrariedade, ao preconceito, ao ódio, a ser juiz de outrem e condenar sem o minima reflexão.e quem pensa que esta com toda a ração e a verdade, pode ser o mais errado de todos. Só para lembrar... quando a gente tem alguns anos apos os 50, tem a consciência que todo lo que vale a pena não se compra, nem se vende... todo o que temos es prestado, e ficará aqui para outros usarem, desfrutarem, destruírem, esquecerem...Pepe Mujica sabe que o melhor a fazer é fazer pelos outros o melhor que possa, deixou sua imagem no mundo, e deixara sua alma na gente.

    • Thiago Teixeira Postado em 20/Mar/2015 às 14:39

      Excelente Olga!

    • olga Postado em 20/Mar/2015 às 14:57

      Quando sua pergunta é essa, depois do conteúdo do meu comentário, prefiro nem responder-la.

    • irene Postado em 20/Mar/2015 às 15:15

      Apoiada

    • Pedro Postado em 20/Mar/2015 às 15:23

      Obrigado pela bela reflexão e, adiante, parabéns resposta ao irrespondível. Tão boa de ler quanto a entrevista.

    • Eliane Postado em 20/Mar/2015 às 19:12

      Linda !

    • Zemauro Postado em 20/Mar/2015 às 22:22

      Olga pena não te conhecer pessoalmente, porem gostaria imensamente de conhece-la, Olga porque você não forma um grupo pra debater esses temas, porem in-loco? pois irei onde você estiver quero aprender de você, seria um grande privilégio para mim, diga topas e eu te encontrarei, precisamos sair de nossa zona de conforto de nossos teclados, e fazermos algo concreto, quem sabe não encontraremos uns Pepes(a) por aqui, obrigado por sua aula de como se pode ser e viver, um abraço fraterno...

      • Vinicius Postado em 21/Mar/2015 às 22:04

        Também estou dentro. *Outro Vinicius

    • Oblivion Postado em 21/Mar/2015 às 18:51

      Cara, o assunto aqui é humanidade, consciência, bem comum, etc, e tu vens aqui com esquerda e direita... É muito analfabetismo político. Tenha a santa paciência...

  3. Neide Sainz Postado em 20/Mar/2015 às 13:42

    Carlos prado, Minduim e Luis, fiquei com muita pena de vocês! Vocês são muito pobres! Pobres de Espírito!

  4. Rodrigo Postado em 20/Mar/2015 às 13:51

    Com o tempo as pessoas se dao conta mesmo de que a vida eh muito curta, e que dela nada material levamos. Ha que se dar conta do que se leva espiritualmente falando, pois isto eh o que realmente importa.

  5. Adriana Postado em 20/Mar/2015 às 14:33

    Tem gente q leu, não entendeu e vem aqui "vomitar" seu ódio... a questão não eh se "acostumar" com a pobreza, ou vcs acham q um pobre q mal termina de pagar um cel(por exemplo), já se "enfia" em outra prestação pra comprar outro "melhor" vai sair da pobreza por isso? Ps. Ou do q adianta ter uma super máquina de lavar e não ter água...

  6. Thiago Teixeira Postado em 20/Mar/2015 às 14:50

    Parece praga estes reacionários de plantão. Eles tem toda a grande mídia a favor, todos os grandes portais da internet, todo o legislativo, o SFT, o MP, a PF, revistas e jornais de grande circulação todos falando a mesma língua que eles, e essa gente vem aqui querer tumultuar um ambiente alternativo de quem busca noticias editadas por jornalistas que não pensam igual o senso comum. Vão procurar a turma de vocês galera.

    • Luiza A. Rabelo Postado em 20/Mar/2015 às 15:36

      Disse tudo, Thiago. Em frente e sempre à esquerda.

  7. dafner Postado em 20/Mar/2015 às 15:01

    Esse Senhor é meu ídolo, sem mais!!

  8. celio penteado Postado em 20/Mar/2015 às 15:24

    Vamos relaxar um pouco com os reaças. Esse ódio que eles sentem faz mal principalmente a eles mesmos, que têm uma vida frustrada e infeliz.

  9. bruno Postado em 20/Mar/2015 às 15:29

    depende do ponto de vista, o que é pobreza para você ?

  10. Cristina Postado em 20/Mar/2015 às 15:58

    Olga, disse tudo

  11. Mauro Brandão Postado em 20/Mar/2015 às 16:20

    A diferença, "Miudin", é que a maconha consumida no Brasil é adquirida na mão do crime organizado, e no Uruguai a maconha é regulamentada de tal forma que não dá margem à formação do crime organizado e das mazelas que são consequência deste.

  12. Alex Postado em 20/Mar/2015 às 17:07

    Mujica e Leonardo Boff são grandes exemplos. Mas os reacionários admiram o FHC, o Maluf...

  13. poliana Postado em 20/Mar/2015 às 18:30

    o encontro de dois mitos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! pepinho é eterno e mitológico!!!!!!!!!!!!!

  14. Suzana Postado em 20/Mar/2015 às 19:19

    Pena que o lula seja o oposto desse aí... locupletou-se!

  15. Leonardo Postado em 20/Mar/2015 às 21:43

    Vamos reler o texto ?

  16. Aristóteles Postado em 21/Mar/2015 às 15:14

    De onde vocês da direita inculta e demagoga tiraram a idéia de que Lula é rico? Aposto que a "fortuna" do Lula não chega aos pés da fortuna do FHC que você tanto veneram!