Redação Pragmatismo
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Direitos Humanos 24/Mar/2015 às 12:28
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Martin Luther King desprezaria Marco Feliciano

Marco Feliciano volta a citar Luther King de maneira descontextualizada para manipular seus seguidores. O pastor brasileiro, que chega a se comparar ao pastor e ativista estadunidense, finge esquecer as palavras mágicas que permeavam o discurso de Luther King: justiça, fraternidade, liberdade e igualdade

feliciano luther king
Marco Feliciano volta a se comparar a Martin Luther King (Imagem: Pragmatismo Político)

Christiano Souza Granja, Portal Geledés

Desnecessário relembrar os lamentáveis acontecimentos sobre a ascensão do deputado Marco Feliciano à presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados em 2013. E lamentáveis porque “todos” sabem que aquele senhor não pauta sua conduta parlamentar pelas linhas que desenham a democracia neste país.

A despeito disso, àquela época Marco Feliciano insistiu na falácia da cristofobia (um neologismo estúpido para fazer chacota à concretude da homofobia no Brasil) e da perseguição religiosa, afirmando inclusive que a indignação por sua escolha deveu-se ao fato de ser pastor: “Disseram ser da Idade da Pedra ou dos tempos de caça às bruxas a escolha de um pastor para presidir a Comissão de Direitos Humanos”. E na sequência, soltou a seguinte pérola: “Lembro que o maior defensor dos direitos humanos de todos os tempos foi um pastor: Martin Luther King” [relembre aqui].

Agora em 2015, ressentindo-se com os elogios ao seu sucessor, Assis do Couto, Feliciano voltou a repetir a mesma bobagem e completou: “Ao falar dentro da sua igreja, Luther King citava a bíblia, e a gente cita o que é errado e o que é certo, o que é pecado e o que não é”.

O conferencista Feliciano, ou é um péssimo exegeta ou um incontido manipulador de discursos – e eu prefiro ficar com a segunda definição. De fato, o humanista e pastor protestante Luther King fez diversas referências à fé e a Deus naquele que ficou conhecido como o seu mais famoso pronunciamento, como “agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus”. Mas há muitas outras palavrinhas mágicas que permeiam o discurso de Luther King: justiça, fraternidade, liberdade e igualdade.

“[…] Eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.

Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença – nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais.

Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade.

Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado de Mississippi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça. […]”

Para Luther King, o verdadeiro significado da crença daquela nação é de que os HOMENS SÃO IGUAIS, e por conta disso poderão viver sobre o manto da FRATERNIDADE, da LIBERDADE e da JUSTIÇA. Ora, onde King encontra repousado o pressuposto da igualdade entre as pessoas daquela nação? Na Constituição Americana. Em momento algum o pastor Luther King sobrepõe suas convicções religiosas à Carta Magna dos Estados Unidos da América.

A partir da afirmação de Hjelmslev, de que a linguagem é inseparável do homem e segue-o em todos os seus atos, percebe-se que o pelotiqueiro Marco Feliciano, ao contrario da sua fonte de inspiração, põe a Bíblia acima da Constituição, e isso é bastante claro nas suas declarações “[…] a Bíblia, nosso livro sagrado […], nossa Carta Magna, pois esse termo que significa livro maior de tão importante, que tal título também denomina nossa Constituição Política” (há supressões no período, mas que não alteram o sentido real da afirmação, que pode ser conferida em seu inteiro teor em http://goo.gl/IFrDL).

Para Feliciano, há uma sobreposição de autoridade entre os referidos livros, assim como uma clara noção de valor entre um e outro. E um deles é tão valoroso e mais importante, que o outro imita-lhe o apelido. Parece então que, ao contrário de Luther King, para Feliciano não é a Constituição a régua que mede a igualdade, a fraternidade, a liberdade e a justiça das pessoas, mas a Bíblia.

E o que significa tudo isso? Que não é o fato de ser pastor que desabonou Marco Feliciano ao exercício da presidência da CDHM, mas sim o fato de que os direitos humanos devem ser balizados por outros princípios que não aqueles que balizam a sua fé, notadamente os artigos I, II, VI, VII, XII, XVIII da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ratificada pelo Estado brasileiro, e os incisos II e III do artigo 1º e o artigo 5º da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

Marco Feliciano, o pelotiqueiro, travestido na pele de cordeiro, é traído pelo seu discurso – que não é de direitos humanos – e acuado, escora-se maldosamente na figura de um verdadeiro militante, usando enganosamente o argumento do seu ministério e da fé para legitimar o seu não-lugar na CDHM. Naturalmente, pensa que os militantes de direitos humanos são idiotas e que Luther King foi um homem de um discurso só. Não foi. E se soubesse disso, teria prestado atenção no finalzinho de Beyond Vietnam, um dos tão importantes discursos de King:

“Esta é uma época revolucionária. Por todo o planeta homens se revoltam contra antigos sistemas de exploração e opressão e, longe das feridas de um mundo debilitado, novos sistemas de justiça e igualdade estão nascendo. Os miseráveis da terra se levantam como nunca antes. Aqueles que viviam na escuridão viram uma luz grandiosa.”

A(s)cendemos a(a) luz, Marco Feliciano. E seu show já acabou!

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Comentários

  1. Orlando Postado em 24/Mar/2015 às 12:52

    Com raríssimas exceções eu só vejo dois tipos de evangélicos. Os que doam os 10% e os que recebem!

  2. Jeferson Santos Postado em 24/Mar/2015 às 12:54

    Sério que esse pastADor está se comparando a Martin Luther King? É verdade mesmo o que esse elemento disse?!?!? O Pragmatismo e o Geledés que me perdoem, mas isso só pode ser matéria roubada do Sensacionalista...

  3. Diego Postado em 24/Mar/2015 às 12:57

    Esse cara é um babaca. A sociedade Brasileira devia passar a ignorá-lo. Como ignoram um louco que devaneia nas esquinas da cidade.

    • poliana Postado em 24/Mar/2015 às 15:38

      diego, como ignorar uma corja q vem crescendo a cada ano no nosso cenário político nacional!!!! é pra sentar e chorar!!!!

  4. Hélio Postado em 24/Mar/2015 às 13:08

    me sinto até mal em ver a foto desse humano do lado de feliciano. Tinha necessidade de colocar do lado desse patológico e inverosímil deputado que pensa enganar e intimidar alguém por andar com uma bibliazinha embaixo do braço? Ninguém vivo quer ser visto do lado disso. Acho que por respeito não deveríamos colocar a foto de verdadeiros homens de Deus do lado desse doente.

  5. Eduardo Ribeiro Postado em 24/Mar/2015 às 16:28

    Poxa....abriu meus olhos essa verdadeira história...MLK era mesmo um canalha mulherengo. Os ideais pelos quais ele lutou - justiça, fraternidade, liberdade e principalmente IGUALDADE - são coisa pequena e ficam em segundo ou terceiro plano diante de uma vida sexual tão devassa. Um imoral. Não o admiro mais.

    • nina Postado em 25/Mar/2015 às 10:55

      hahahahahahahaahaha, boa!

  6. Robert Postado em 24/Mar/2015 às 17:49

    "- I have a nightmare..."

  7. André Postado em 24/Mar/2015 às 18:25

    Dois homens: Qual destes idealmente deveria ser escolhido para liderar uma nação? O primeiro: Descuidado, mulherengo, comete imensas gafes, possível alcoólatra, fuma charutos. O segundo: Não fuma, não bebe, vegetariano. Ambientalista. Cuidadoso. Comunicativo. Idealista. O primeiro homem: Winston Churchill O segundo homem: Adolf Hitler Conhecer não se resume apenas a caracterizar, definir, ou medir “qualidades”. Agora larga a mão de ser imbecil, o que tem isso haver com a causa.

    • Eduardo Ribeiro Postado em 24/Mar/2015 às 22:18

      É você mesmo que tem que responder, nobre coxinha. O que tem a ver? Não fui eu quem trouxe a vida sexual de MLK à baila com a intenção de desmoraliza-lo enquanto agente ativo na luta pelos mais nobres ideais, e numa discussão que envolve ele e Marco Feliciano (!!!!).

    • Zenio Silva Postado em 20/Nov/2015 às 17:33

      Excelente André! O João Saldanha foi questionado por ter convocado o Brito para zagueiro da seleção de 70. Pois bem, o motivo do questionamento era que o Brito era mal caráter e outras coisitas mais... Resposta do João Saldanha: convoquei o cara para ser zagueiro da seleção, não para casar com minha filha!!! Temos que separar as coisas, esses juízos, supostamente morais, são perigosos e nos levam a lamentáveis erros!!!!

  8. Rogério Postado em 25/Mar/2015 às 01:11

    Em 1958, enquanto estava escrevendo uma coluna de aconselhamento para a Revista Ebony, o Dr. King respondeu a um jovem gay que estava procurando orientação. Para evitar ser acusado de citar apenas trechos que gosto, eis o texto integral: Pergunta: Meu problema é diferente dos problemas que a maioria das pessoas tem. Sou um rapaz, mas sinto acerca dos rapazes do jeito que eu deveria sentir acerca das moças. Não quero que meus pais saibam acerca de mim. O que posso fazer? Existe algum lugar para onde eu possa ir para ter ajuda? Resposta: Seu problema não é de forma alguma incomum. Contudo, requer atenção cuidadosa. O tipo de sentimento que você tem para com rapazes provavelmente não é uma tendência inata, mas algo que foi adquirido da cultura. Suas razões para não adotar esse hábito foram agora conscientemente suprimidas ou inconscientemente reprimidas. Portanto, é necessário lidar com esse problema voltando para algumas experiências e circunstâncias que levaram a esse hábito. A fim de fazer isso eu recomendaria que você fizesse uma visita a um bom psiquiatra que possa ajudar você a tirar do subconsciente todas aquelas experiências e circunstâncias que levaram a esse hábito. Você já está no caminho certo para uma solução, pois você reconhece com honestidade o problema e tem um desejo de resolvê-lo.

  9. Thiago Teixeira Postado em 25/Mar/2015 às 08:10

    Esquerdistas são COMEDORES SIM!!!!!!!!!!!!! E com muito orgulho, temos tesão na vida. Já a direita ... pregam pela moral, hipocrisia e bons costumes ao som do sertanejo dor de côrno.

    • Thiago Teixeira Postado em 25/Mar/2015 às 16:05

      Viiiixe cara, estava só brincando meu! Mas se você não sabe brincar ... paciência. Desculpe.

  10. Roberto Pedroso Postado em 26/Mar/2015 às 09:24

    Estranho esse comportamento (muito comum entre partidários da direita)em usar possíveis falhas de conduta e caráter de lideres ou personalidades que lutavam pela igualdade no intuito de desmoraliza-los e depreciar e diminuir a importância de seus ideais e de suas lutas,um conceito chamado de desconstrução, o que realmente importa são as idéias os ideais,princípios e conceitos de suas obras e não a conduta da vida pessoal do sujeito! os equívocos da vida privada de grandes lideres e pensadores não devem ser usados para abalar,atacar, depreciar ou menosprezar suas obras.Esse é um comportamento tipico de quem não possui argumentos,pois é sempre mais fácil atacar o homem do que rebater e contestar no campo da retorica seus argumentos e conceitos.

  11. Roberto Pedroso Postado em 26/Mar/2015 às 10:37

    É fato inconteste que Luther King desprezaria Marco Feliciano, assim como Harvey Milk desprezaria Jean Wyllys, em uma questão apenas a direita e a esquerda se assemelham: oportunistas existem de ambos os lados.

  12. Antonio Palhares Postado em 27/Mar/2015 às 14:18

    O que vale para mim é o conjunto da obra.E é inegável sua participação inconteste na luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos.Agora é fácil falar e julgar em um contexto totalmente diferente. Ele certamente foi uma das maiores almas do século vinte.E o Feliciano é o que?