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Racismo não 20/Feb/2015 às 10:52
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Racismo? Onde?

Pedro se arrumava para o trabalho e Clara ainda tentava dormir, mesmo com todo o barulho que ele fazia, entre por sapato, tomar o café e correr pelo quarto procurando uma gravata (...)

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Pedro se arrumava para o trabalho e Clara ainda tentava dormir, mesmo com todo o barulho que ele fazia, entre por sapato, tomar o café e correr pelo quarto procurando uma gravata. Ops, precisamos fazer a apresentação.

Clara e Pedro: um jovem casal que divide um apê na grande São Paulo – ambos brancos de classe média alta. Clara Lima ainda está na universidade cursando Ciências Sociais e Pedro Gonzales trabalhava no escritório de Arquitetura do seu pai. A rotina deles era até que bem agitada, adoravam noites e mais noites de boemia na Augusta, festas underground e, ultimamente, estavam indo bastante em manifestações. Sentiam-se mais engajados, precisavam lutar.

A violência só aumenta”, o jornal da manhã trazia essa manchete. Pedro, enquanto lia em voz alta, escutava Clara reclamando lá do quarto. Ele adorava incomodar a namorada, por isso sempre respondia as insatisfações com: “Hoje é dia de branco, amor”.

O que chegava a ser irônico: um trabalhava na empresa da família e sempre chegava depois das 10h, a outra nunca tinha feito nem a própria cama. Mas voltando a nossa estória…

Pedro saiu e Clara ficou esperando a empregada chegar enquanto ela tomava o café da manhã. Pelo menos duas vezes por semana uma senhora, dona Joana, ia limpar o apartamento do casal. Clara costumava dizer até que ela era quase da família, mesmo que o quase na frase deixe explícito que não ela não era; e por isso nem merece entrar pela porta principal, só pela Porta de Serviços, como a jovem dona de casa sempre exigiu. Dona Joana era uma senhora negra de uns 57 anos, que tinha uma neta bolsista no mesmo curso de Clara, o nome dela é Stela. Clara não curte muito essa moça, ela tem ciúmes de Pedro e acredita que aquela moreninha dá em cima de tudo quanto é homem (além de ser uma pretinha metida a inteligente). Só de pensar na garota, Clara perdia a fome.

Clara lia suas revistas e Joana limpava tudo. Era um dia comum, tirando o fato de que hoje a jovem iria almoçar com sua mãe, então não teria como fiscalizar a faxina de Joana. Por isso, apenas gritou: “Não desperdice os produtos de limpeza, a coisa está preta”. Enquanto entrava no elevador e a empregada fechava a porta, Clara pensava “como é difícil confiar em pobre, sempre podia sumir algo”. Além do mais, tinha certeza de que Joana sempre saía mais cedo do trabalho quando ela não estava lá para vigiar. Afinal, o ditado popular já dizia: “Preto parado é suspeito, correndo é ladrão“.

Pedro tinha chegado ao prédio do escritório, contudo o porteiro não estava na portaria, o que o deixou bem bravo. Estava cansado de todo aquele descaso, serviço de preto. Nesse momento ele riu, lembrou que o Tião da portaria era negro, quase tição, então começou a gritar no interfone: “Tião Tição, abre esse portão!”.

Já em sua sala, Pedro foi informado pela secretária que seu pai havia olhado um projeto que era sua responsabilidade e encontrou alguns erros. Pedro ficou enfurecido, o moço tinha pedido para estagiária fazer seu trabalho e ela fez errado. Impressionante que a moreninha jambo fosse tão incompetente, “preto é uma merda, quando não caga na entrada, borra na saída”, ele pensou.

Nisso lembrou-se de um cara da sua turma, João, aquele sim era um cara legal, era negro, mas tinha a alma branca, não era desses que ficavam reclamando de tudo, só falando de racismo. Além disso, era amigo de balada, pegador. Pedro sempre achou que o amigo tinha privilégios porque, afinal, fama de pauzudo ajuda muito na hora de pegar mulher. Enquanto o moço lembrava dos velhos tempos, a estagiária chegou em sua sala. Pedro deu uma bronca nela, mas, claro, com jeitinho. Era da cor do pecado a mulata gostosa, mulher para fuder devia ser quente. Se fazia de difícil, mas Pedro sabia que ela queria. “Essas mulheres são todas iguais“, ele pensava enquanto a moça prestava atenção nos erros e tentava corrigi-los, desesperada.

Clara almoçou, mas, infelizmente, não o tanto que queria. Afinal, a filha da empregada estava na cozinha, tinha uns dois anos a menina. A mãe não conseguiu deixar na creche, levou para o trabalho e ela não parava de chorar. Era uma mulatinha manhosa, a mãe era branca. Uma vez a mãe de Clara até disse: “Ê, tristeza, essa mulher tem a barriga suja”. “Branca com filha escura só podia ser desgraça, macumba, magia negra“, refletia Clara, que tinha até pena.

Depois do almoço, Clara foi à faculdade. Enquanto andava, percebeu uns homens olhando para ela, ficou brava e gritou: “Não sou tuas nêga”. Que raiva ela tinha dessas cantadas de pedreiro. Chegou à facul atrasada e furiosa. Deu de cara com Stela, a netinha da sua empregada, que estava apresentando um seminário sobre racismo. Clara estava achando tudo um saco, o único intuito da vida de Stela era esse “mimimi”.

Por isso resolveu fazer uma pergunta, só para provocar a neguinha metida a intelectual: “Stela, você não acha que só pensa em denegrir os brancos? E o racismo com brancos? Acho que você é racista!?”.

Stela a ignorou. No entanto, Clara, inconformada, gritou: “Ô, cabelo duro, é com você mesmo. Responde, morenina fedida!”.

Nisso, Stela apenas a acusou de racismo, o que a deixou mais raivosa. Clara estava cansada daqueles criolos todos na universidade. “Depois das cotas tudo piorou.”

Enfim, essa história acabou na delegacia. Enganam-se as pessoas que acham que o mundo é justo. Clara fez uma denúncia em relação à Stela por calúnia e difamação. Ela não aceitava ser chamada de racista, ela não era racista, tinha até amigos negros e um parente distante era negro, como assim racista? Ela até tinha chorado em “12 anos de Escravidão“! Era tudo, menos racista!

Pedro estava enfurecido com a situação, ia perder o jogo do Grêmio, seu time do coração e achava que Clara tinha uma inveja branca de Stela. Mas depois do que aconteceu só sentia raiva. “Preta metida, nega maluca”, pensou. E disse à namorada, tentando acalmá-la: “Mereciam ser fichados esse neguinhos que entram na universidade e ficam se achando. Tudo culpa dessa merda de cotas, só entra gente burra e que não se esforça, sem mérito, querem tudo fácil”.

Sábio era seu avô que dizia: “Preto só faz negrice, para ser um macaco só falta o rabo“.

Riu, porque no fundo sabia que a bandida ia pagar por isso. O lado ruim era que suas chances de comer a moreninha exótica tinham diminuído. Então, acendeu um cigarro enquanto observava a sua mulher gritando que queria demitir a empregada, que queria justiça e que o Brasil era uma merda.

Stephanie Ribeiro, Festival Marginal

NOTA: Esse texto é uma ironia, eu nunca escreveria algo assim como sendo positivo. O intuito é denunciar. Eu sou mulher negra, pobre e cotista. Já escutei e passei por algumas situações que estão relatadas. Eu sou fruto de mais de 300 anos de escravidão, eu carrego comigo cicatrizes do meu povo para sempre e eu uso as palavras para me indignar e chibatar a realidade racista na face de muita gente que diz: “Não, não sou racista”. Mas vai ler esse texto e se identificar com muito dos usos de expressões, palavras e atitudes racistas aqui citados.

Eu só tenho uma certeza: esse texto é coisa de mulher preta para gente branca.

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Comentários

  1. Rodrigo Postado em 20/Feb/2015 às 11:13

    (Outro Rodrigo) A fim de que estabeleçamos um ponto, o blog vai passar a tratar de “estórias” (que até têm semelhanças com a realidade), adotando a linha "cartas do fórum" ou "'estórias' que se conta"? Porque se for, poderia tratar do racismo/discriminação comum e generalizado que temos em nossa sociedade (brancos, negros, pardos, indígenas, orientais, ciganos, homens, mulheres, homossexuais, religiosos, ateus, nordestinos, nortistas, sulistas, centroestistas etc., uns contra os outros), assim não se aproximando do maniqueísmo. Poderia, pois, abordar a intolerância humana, em vez de abordar apenas parte dela, de modo a buscar o cerne, a origem, curando essa doença psíquica que nos leva a crer que somos bons, perfeitos e altivos, ao que, quanto aos demais, temos o poder de imperativamente declará-los como maus e irremediáveis. Em vez, pois, de conjecturas, elocubrações, “estorinhas”, partirmos para a grave e comum intolerância que nos assola, que nos deixa surdos e cegos quanto aos concidadãos, demais seres humanos. Em vez, pois, da "conjunção atrapalhativa" "se", mais uma vez, que valoremos o "ici" (aqui, do Francês), de modo a nos atermos à realidade que nos circunda, à convivência diária a ser exercitada. E, se o “efeito espelho” for ter lugar, se formos insistir em ver no outro o que somos, que não vejamos nossa intolerância, nosso ódio, nosso rancor, mas a nossa humanidade. Que não nos prestemos, pois, a “ler a mente” do outro, determinar o que ele está pensando e o acusá-lo, ou seja, que renunciemos ao posto de tirano da verdade e da razão e convivamos, coexistamos.

    • Rocken Postado em 22/Feb/2015 às 03:11

      Concordo com tudo que você disse, e o mais interessante é que o cerne e a origem da intolerância é notado até entre os que ficam o tempo todo falando sobre racismo, é incrível como estes "especialistas" são hostis e estigmatizam quem quer dar uma opinião diferente sobre o assunto

      • Alex Sandro Postado em 30/Mar/2015 às 20:27

        O que você chama de opinião diferente? relativizar o racismo? Talvez aquilo que você identificou como intolerância se trate de reação, da resposta daqueles que ainda brigam para serem ouvidos. Isso incomoda um bocado. Seria mais fácil não falar em racismo, tratá-lo como uma fantasia que só existe na cabeça desses negros que gostam de se fazer de coitados. Ou também podemos invalidar aquilo que é dito por esse povo que só fala de racismo, apontando pra eles que o branco, o gay, a mulher, o careca, o feio o lula e o diabo também sofrem preconceito e discriminação. Portanto, está tudo certo, eles não são o únicos, então não há necessidade de tanto alvoroço por uma questão tão banal... pra quem mesmo?

    • Helder Postado em 22/Oct/2015 às 18:01

      Você precisa é estudar Rodrigo pra parar de escrever essas merdas. Não sei como a equipe do Pragmatismo suporta ler e analisar essa defecação mental todo dia, pelo amor de deus.

  2. BRUNO SILVA Postado em 20/Feb/2015 às 12:18

    Digo que foi um belo texto pelo fato de mostrar os pensamentos claros de preconceito que nossa sociedade sempre inventa para denegrir a imagem da população negra do nosso país, que sempre esteve junto na contrução e crescimento de nosso país. Foi uma ótimo texto pelo fato de mostrar as atitudedes e pensamentos de pessoas que não tem pensamento social e ajudar a nossa população e sociedade a se tornar mais igual para todos, e isso precisa ser feito. PS: infelizmente sempre haverá alguém para fazer algum comentario racista e sempre se esconder com o nome anonymous.

  3. Rodrigo Viana Postado em 20/Feb/2015 às 12:24

    É incrível praticas como essas dominam nosso dia a dia, certo dia, ouvi uma adolescente, de 17 anos, reclamando que as cotas não eram justas, e se não fosse por elas ela teria conseguido passar para o curso de medicina, e que isso é mérito dela porque ela estudou pra isso, foi então que eu disse que ela só poderia falar em mérito, quando ela tivesse que trabalhar para pagar seus estudos, ao invés de viver às custas da sua família, que por sinal, possui muitos recursos. Infelizmente, perguntei ainda quantos médicos negros ela conhecia, e se ela iria a um ginecologista negro, e olha que moramos em uma cidade que tem uma das maiores faculdades de medicina do brasil, com o vestibular mais concorrido. O racismo velado, presente em nosso pais tem caráter ofensivo, e destrutivo, já que, ao invés de julgar uma pessoa pela sua honra e seu caráter julgamos pela cor e posição social. Lamentável isso que estamos vivendo. Excelente história, contrasta perfeitamente com a realidade.

    • José Ferreira Postado em 20/Feb/2015 às 15:22

      Vida pessoal é uma coisa, prova é outra. Quem tem que passar é o mais competente e não o mais "coitadinho". E conheço médicos negros que se tornaram médicos antes das cotas.

      • Thiago Teixeira Postado em 20/Feb/2015 às 17:42

        Quantos médicos negros? Nomes? Pois isto é raridade no Brasil. E tem mais, entrar na faculdade é uma coisa, se formar é outra, não existe cotas nas aprovações de disciplinas acadêmicas, todas fazem a mesma prova.

      • Luís Postado em 20/Feb/2015 às 18:40

        Enquanto continuarmos impregnados pela mentalidade do coitadismo, do revanchismo e menosprezo ao mérito, e acharmos que faculdade é lugar de sanar a "injustissa çoçial', continuaremos tendo uma das piores redes de ensino superior do mundo, inaceitável para um país importante como o nosso, e sempre ficando na rabeira dos outros países quando o assunto é ciência, tecnologia, inovação e conhecimento. Lugar de sanar "injustiça social" é na BASE, na educação fundamental, nas boas escolas públicas, não no ensino superior, nos concursos públicos, etc.

      • Vinicius Postado em 20/Feb/2015 às 20:54

        Senhores José Ferreira e Luís, esse coisa de "coitadismo" é um discurso totalmente fraco e inconsistente de gente que esta dentro da "normalidade"(homem, heterossexual,branco) e no fundo não aceita ver negros, homossexuais, e outras minorias conquistarem seus espaços na sociedade. Ao Luís não entendi porque há menosprezo ao mérito, pelas cotas também tem que ter mérito, para vaga nos cursos há concorrência, e dentro do curso o ritmo é o mesmo com todos os alunos.E eu gostaria da fonte de que o brasil tem as piores redes de ensino superior do mundo. É porque com mais negros e pobres não podemos nós destacar na ciência e tecnologia? Concordo que se tem que haver uma justiça social na educação fundamental,mas na superior e em concursos também é necessária.*Outro Vinicius

      • Thiago Teixeira Postado em 21/Feb/2015 às 08:47

        Deixa eu ver se entendi Sr. LuÍs... Negros na universidade é proporcional ao fracasso tecnológico? Lugar de Negro é na escola pública de base? Eu era contra as cotas raciais, mas cada vez que vejo os comentários racistas e preconceituosos como o seu sobre a raça negra eu vou começar a apoiar sim, pois só com políticas sociais essa país pode superar o preconceito. Fico imaginando quantos negros você deve ter recusado em entrevista, ou se for profissional acadêmico, quantos você negou ou reprovou para bolsas de pesquisas.

    • Vinicius Postado em 20/Feb/2015 às 20:32

      No ensino médio de escolas particulares esse pensamento é muito comum, até mesmo entre professores. Eu estava terminando o ensino médio quando implementaram as cotas para escolas públicas, foi um auê danado. Tem que ter cotas sim!, para negros e estudantes de baixa renda pelo tempo que for preciso. Essa "revoltinha" das elites é mais um preconceito. *Outro Vinicius

      • José Ferreira Postado em 20/Feb/2015 às 23:00

        É só avaliar os rankings internacionais que vemos que apenas a USP é competitiva em âmbito internacional. Ao contrário de muitos pseudo-intelectuais, eu não acredito em no "milagre" das cotas, pois é uma forma de punição aos que nunca escravizaram ninguém, além de ser uma medida ineficaz (apesar da "cara bonitinha" que ela possa ter. Enquanto as escolas públicas não foram iguais as melhores particulares, nenhuma "gambiarra" será eficaz.

  4. Gabriel Gabo Postado em 20/Feb/2015 às 14:29

    Aprendi a origem do termo 'denegrir' com a minha grandiosa professora de Geopolítica, e desde esse dia, não aparece no meu vocabulário e faço questão de explicar à quem não sabe. Não sei se a intenção da autora foi expor (não me pareceu isso) a expressão pejorativa, mas pra quem não sabe e o emprega (mesmo não intencionalmente), tem significado de tornar negro/manchar a reputação com a cor negra.

  5. Douglas Postado em 30/Mar/2015 às 15:48

    Nunca li algo tão idiota e forçado, "Time do Grêmio" KKKKKKKK

  6. Marcelo Postado em 30/Mar/2015 às 15:52

    Pesado...esse texto.

  7. Alexandre Postado em 30/Mar/2015 às 15:57

    Ele tinha de ser torcedor do Grêmio? Todo gremista é racista mesmo

  8. Jânia Paula Postado em 30/Mar/2015 às 16:22

    Do que adianta - salvo o endividamento e a manipulação da consciência popular - o acesso à faculdade se lá, com o aumento da demanda, os cursos superiores (maior parte) se tornaram meramente doutrinadores, formadores de mão de obra semiqualificada? Do que adianta um negro analfabeto funcional com um diploma universitário? Vejam o exemplo dos milhões (brancos e pretos) reprovados nos Exames da Ordem. Passaremos toda a eternidade sendo destratados por brancos, a maioria pobres que acham da "classe média alta", que além de não terem mais bom ensino, nunca tiveram boa educação.