Redação Pragmatismo
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Religião 10/Feb/2015 às 09:35
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O Papa Francisco e a polêmica das palmadas

Chutes, socos e tapas. O Papa Bergoglio, neste início de 2015, parece se assemelhar mais a Bud Spencer do que ao manso Francisco, pontífice da ternura

papa francisco palmada

Ele tinha começado janeiro advertindo (em referência aos insultos satíricos contra o sentimento religioso, leia-se Charlie Hebdo) que, se alguém “diz um palavrão para a minha mãe, espere-se um soco”. Depois, voltando de Manila, o papa tinha confessado a sua tentação – nos tempos de Buenos Aires – de dar um chute “lá onde não bate o sol” em um negociador, que se apresentou com a oferta de uma doação de 400 mil dólares a ser dividida pela metade.

Na quarta-feira passada, Francisco elogiou um pai que lhe contou que, “de vez em quando, tenho que bater um pouco nos filhos, mas nunca na cara, para não humilhá-los”. Imitando o tapa, o papa abençoou quem pune, “faz o que é justo e segue em frente” (sem ofender a dignidade do filho, acrescentou).

O Pe. Mazzi aplaude, porque o pontífice “usa uma linguagem que todos nós usamos… Nunca é artificial… E fala como falariam os nossos pais”. Discordam aqueles que negam a pedagogia do tapa.

Pensava-se que, quando Francisco, no avião, havia exposto aos jornalistas a imagem do soco, se tratava de um deslize. Em vez disso, a nova linguagem parece refletir uma estratégia para sacudir a terminologia do “politicamente correto”, afastando de si qualquer suspeita de bonismo adoçado e começando a levantar interrogações incômodas.

Se a liberdade de sátira é um direito absoluto, é justo se fazer também a pergunta das reações que pode provocar em situações inflamadas? Sabe-se que uma parte da imprensa anglo-saxã rejeitou as caricaturas do Charlie Hebdo, sentindo-se igualmente livre para criticar a forma da crítica e, portanto, não publicá-las.

No plano educativo, Bergoglio também põe em questão – com palavras de pároco – a ideologia pedagógica do “proibido proibir”, com o seu corolário “palmada, nunca”.

Questão controversa, que muitas vezes produziu resultados contrastantes: os rebeldes mimados ao extremo em família, onde tudo é permitido, na maioria das vezes postos em confronto com as rígidas hierarquias sociais no mundo real, se arrastam diante das autoridades ou das supostas autoridades. O fato é que Francisco continuará produzindo surpresas.

Sem metáforas, ao contrário, é a carta por ele enviada aos superiores das congregações religiosas e aos presidentes das Conferências Episcopais, que exorta todos a uma maior energia contra os abusos sexuais.

Palavras secas: “Absolutamente não há lugar no ministério para aqueles que abusam dos menores… Não poderá, portanto, ser dada prioridade a outro tipo de considerações, de qualquer natureza que sejam, como, por exemplo, o desejo de evitar o escândalo”.

A indicação é clara: que o clérigo culpado “seja excluído (do) ministério público, se tal ministério é de perigo para os menores ou de escândalo para a comunidade”.

O documento papal tem duas repercussões específicas para a Itália. Ele compromete a Conferência Episcopal Italiana (CEI) – que até agora se recusou a assumir responsabilidades nacionais – a um dever de vigilância e de controle direto sobre como são abordados (ou não) os abusos nas dioceses. E ilumina, consequentemente, a singular inércia da CEI e do Vicariato de Roma em um caso clamoroso de pedofilia.

Desde junho de 2008, arrasta-se a história do padre Ruggero Conti, titular de uma paróquia em uma diocese suburbicária de Roma, condenado, em primeira instância, em maio de 2013, por vários abusos a 14 anos e dois meses de prisão.

Conti espera, no próximo dia 12 de março, a audiência no Supremo Tribunal italiano, mas, enquanto isso, já desencadeou a vergonha da prescrição por três casos. Por mais de seis anos, nenhuma autoridade eclesiástica – nem a CEI nem o Vicariato de Roma (diocese do papa), nem o bispo Gino Reali, superior direto do padre Conti para a diocese suburbicária de Porto-Santa Rufina – jamais comunicou quais sanções canônicas foram tomadas contra o padre abusador.

À luz da carta do papa, a CEI já está expressamente chamada pela “verificação de cumprimento” das diretrizes emitidas em 2014. Descarregar tudo sobre a Congregação para a Doutrina da Fé, segundo a práxis atual, não é mais possível.

SAIBA MAIS: Papa Francisco repudia terrorismo mas critica insulto à fé

Marco Politi, para o jornal jornal Il Fatto Quotidiano. Tradução: Moisés Sbardelotto, Unisinos

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Comentários

  1. Matheus Magalhães Postado em 10/Feb/2015 às 09:56

    Nunca foi "pontífice" da ternura. Só no mundo mágico dos escritórios de RP do Vaticano. Comemora a derrota de projetos de lei contra a homofobia, é contra planejamento familiar, impede pessoalmente que o antigo movimento para que mulheres possam ser cardeais ande para frente, vem revivendo práticas medievais como o exorcismo e a lista continua... A nova, das palmadas, é só mais um dos milhares de avisos que ele manda diariamente e os progressista que se apaixonaram por ele se recusam a ouvir. A carência da esquerda por lideranças é tão enorme que até um Papa pode preencher a vaga e alguma palavrinha bonitinha, escrita por um marqueteiro qualquer, ou uma falsa modéstia e simplicidade (daquelas que o sujeito só possui quando usa badulaques de ouro) é suficiente para virar um novo Che.

    • João Batista Postado em 10/Feb/2015 às 14:34

      Meu caro, com minha resposta não pretendo reafirmar em Francisco "uma liderança revolucionária", como você cinicamente insinua e que infelizmente muitos desenformados afirmam. Contudo antes de enxergar Bergoglio como um populista "estrelinha", é preciso analisar mais profundamente quem de fato é o bispo de Roma por trás da batina e do solidéu. Trata-se de um homem que reflete em seu papado toda uma vida voltada para a caridade e fraternidade, chegando, só para dar um exemplo, a esconder dentro dos domínios jesuítas da argentina e a ajudar a se exilarem dezenas de perseguidos políticos da ditadura argentina (que faz a brasileira parecer um governo democrático rsrsrsrs); além de refletir os anseios de uma Igreja mais próxima do povo e de seu povo, como tanto desejaram João XXIII e Paulo VI, e que pouco ficaram a parentes na Igreja de Bento XVI!

  2. André Campello Postado em 10/Feb/2015 às 10:02

    Apóio irrestritamente a doutrina papal. Nenhum pai/mãe quer bater em seus filhos, mas se isso for necessário para corrigir-lhes a conduta e aplicada a pena com moderação, mal não fará. Lembro que em minha geração isso era prática comum de todos os pais com todos os filhos e não conheço nenhum dos meus amigos de outrora que tenha se tornado um marginal, todos se tornaram cidadãos de bem.

    • Raquel Postado em 10/Feb/2015 às 10:29

      Concordo, Andre. As palmadinhas que levei nunca me traumatizaram, pelo contrário, me educaram. A criança precisa conhecer limites, e nem sempre a voz firme ou o castigo funcionam. Palmadinha de leve nunca fez mal a ninguém!

      • ines hypolito Postado em 10/Feb/2015 às 11:40

        Acredito que fui educada de outra forma, estou com 60 anos, meus pais não fizeram uso da palmada pedagógica e sim de diálogo. Não me tornei uma pessoa não inserida na sociedade. Também criei minhas filhas assim e nunca foram crianças sem limites (hoje adultas). Acho que uma boa troca de idéias resolve.

      • Cesar Maldonado Postado em 10/Feb/2015 às 12:10

        Certo e.melhor apanhar em casa do que na Rúa por outras pessoas por ser mal educado!

      • francisco Postado em 10/Feb/2015 às 19:37

        quem apanha em casa aprende a fazer o mesmo la fora..esta é a velha educação..

    • Athus Alves Postado em 10/Feb/2015 às 10:29

      Olha que lindo, parabéns pro seu circulo familiar e de amigos, que exemplo você, você acha que não se tornou marginal por conta de seus pais já te castigarem com agressões físicas? eu acho que sou a evolução então, porque sou um cidadão de bem e meus pais nunca encostaram a mão em mim, se quer gritavam comigo, e agora muito menos preciso de um falso moralista como dizendo como criar meus filhos, o que eu posso ou não fazer.

      • asouza Postado em 10/Feb/2015 às 12:53

        Meus pais nunca precisaram encostar a mão no meu rosto com força pq eles me respeitaram e dava exemplos de respeito para que isso não acontecesse nem comigo nem com o meu próximo. Quem levou palmadas em algum momento crítico fará com o seu próximo. Rezem para esse momento crítico não chegar.

      • Rei Brasília Postado em 10/Feb/2015 às 14:13

        Então me diga Athus, desde criança, como você conheceu os limites? simplesmente por que seus pais falaram que não podia fazer, e você não fez? Desde criança você soube o que era melhor pra você? Tinha esse nível de consciência? Dúvido. Não é de hoje que o medo da repreensão e da pena limitam a vontade de agir. Apanhei muito pouco na minha vida, mas sempre tive medo de apanhar. Hoje, velho, conheço os limites e tenho certeza que meus pais sabiam o que era melhor pra mim. Desde sempre a história nos mostra que corrigir os filhos fisicamente não afeta nada. Agora me diga quantos milhões de casos existem de filhos que não foram corrigidos em casa, muito menos na escola e se tornaram pessoas ruins? Francamente... Não é necessário ser cristão para acreditar no que o Papa reafirmou. A grande desavença desse assunto é que muitos ateus são contrários ao castigo físico simplesmente por que sobre ele é falado e aceito nas igrejas, e não cristãos, em sua maioria, detestam tudo que vem de qualquer que seja a igreja. Entrei nessa página (defensora de um governo medíocre) apenas para ver as aberrações de sempre, que mais uma vez se confirmaram.

      • jcosta Postado em 10/Feb/2015 às 15:28

        eheheheheh Athus, tu eh muito tolo cara. nega o que afirma.

      • Daniel Santana Postado em 10/Feb/2015 às 18:08

        Acredito que os bons pais mostram o certo e o errado ao seus filhos dando exemplo. Os jovens são péssimos em ouvir conselhos, são muito melhores seguindo exemplos. A força física é a ferramenta de opressão do mau pai, aquele que não tendo conquistado o respeito do filho, necessita usar da força para fazer valer o que é certo. É o velho: "Faça o que eu digo, não faça o que eu faço".

    • Daniel Santana Postado em 10/Feb/2015 às 18:01

      Opinião desinformada e apática! Minha já me deu umas "palmadinhas" quando necessário, nunca tive raiva dela por isso, mas o mundo não está restrito a casos como o meu. Visitem um educandário que vocês verão vários casos de pais que agridem e abusam de seus filhos violentamente, verão que nesse lugar, mãe é sinônimo de algo ruim. Existem casos e casos. Mas uma lei não tem como mensurar quem são os bons e os maus pais para decidir para quem a lei se aplica, logo, a lei tem que se aplicar a todos. Pelos comentários aqui até parece que todos os pais são iguais, mas não são, logo, só existem dois cenários possíveis: 1) Não aprovar a lei: neste caso todos os pais podem bater, tantos os bons quanto os agressores e abusadores. 2) Aprovar a lei: neste caso ninguém pode bater, nem o bom e nem o mau pai. A escolha é mais difícil do que as pessoas fazem parecer. Mas quem defende que a lei não seja aprovada deve assumir também que está defendendo que milhares de crianças sejam agredidas por pais violentos e não tenham respaldo nenhum da lei.

    • francisco Postado em 10/Feb/2015 às 19:34

      recomendo o mesmo para com o papa e os políticos quando erram.

  3. Raquel de Oliveira Postado em 10/Feb/2015 às 10:13

    A força de Deus e do Vaticano é tamanha que inspiram ridículas manifestações desta...

  4. Vinicius Postado em 10/Feb/2015 às 10:38

    Não sou católico, bem como nunca apanhei da minha mãe. Mas isso porque nunca precisei apanhar, sempre a respeitei e obedeci. Creio eu que existem casos e casos, somos seres pensantes, com personalidades e consciências distintas, o que deve prevalecer é sempre o bom senso, jamais deve-se perdoar um espancamento infantil, mas algumas palmadas educativas, dependendo da necessidade e no local e momento certo, não vai humilhar criança alguma.

  5. Thiago Teixeira Postado em 10/Feb/2015 às 11:09

    Pai que é pai, mãe que é mão tem que sentar a mão na cara dos filhos (as) sim. Se não fizer dentro de casa, a rua fará, e os filhos, baterão nos pais também. Respeito e ordem se ensina no berço.

    • poliana Postado em 10/Feb/2015 às 15:58

      Oi???? Thiagoooo...cara, juro q n sei mais identificar ironia nos seus posts? Agora vc foi irônico, n foi???? Pelo amor de deus, me diz q sim!!!!!!!!

      • Thiago Teixeira Postado em 10/Feb/2015 às 20:46

        Cuidado Poli, fica de nhêm nhêm nhêm com seus filhos e verá o resultado!!!! Filho tem que ver a mãe e pai e sentir um gelo na espinha. Mas claro, comece a dar chutes depois dos 12 anos, pois já estão mais fortinhos.

      • poliana Postado em 10/Feb/2015 às 23:30

        Kkkkkkkkkkk...ainda n sou mãe thiago. Mas eh q achei suas palavras agressivas...pareceu um pai violento. Sei la...fiquei assustada qdo li. Olha, sabe akele ditado: "pé de galinha n mata pinto"?. Até concordo, mas olhando a minha infância, apanhei algumas vezes sim, mas nessa situação, apenas sentia medo de meu pai. Nada tinha a ver com aprender os limites e tal. Por outro lado, eu morria qdo em vez de me bater, meu pai me colocava de castigo e me deixava um unico dia sem ver televisão, os programas q eu gostava. Por isso acredito q um castigo como esse tem um efeito pratico sobre a criança muito mais eficaz do q a violência física. Mas mais uma vez, n sou mãe, então n posso julgar a forma com que os pais educam seus filhos, tampouco acho q o estado deva interferir nisso. Óbvio q estamos falando dos casos dentro da normalidade, eh claro, sem considerar os excessos ....mas eh um assunto polêmico msmo.

  6. vinerib Postado em 10/Feb/2015 às 12:41

    Povo sem ilusao esses que acham que a correção nao se faz necessária. A correção deve ser aplicada sim quando necessario. Ninguém fica traumatisado por isso. Eu ja apanhei muito e sou uma pessoa integra hoje , ao contrário da maioria dos meus primos que não sofreram correção, esses estao em uma vida quase sem solucao hoje. Para mim , antes ser corrigido pelos pais em casa do que apanhar das outras pessoas na rua e da policia na vida adulta.

  7. Felipão Postado em 10/Feb/2015 às 14:30

    O papa está certa.

  8. Rodrigo Postado em 10/Feb/2015 às 17:50

    (Outro Rodrigo) A questão é simples de resolver, bastando para tanto nos afastarmos de alguns conceitos que teimamos seguir, a exemplo do "8 ou 80" e da discussão como um fim em si mesma, devendo ser ganha a todo custo, nos moldes propostos por Schopenhauer. Então, vendo o Papa como um homem, mas não como um Deus, nem mesmo um ídolo, perceberemos que o analisaremos, bem como suas respectivas falas, a partir de sua humanidade (se não quer se desiludir com o Papa, com um político, basta não se iludir). O Papa, pois, fala em palmadas, vocábulo este que não denota espancamentos, abuso sexual, nem mesmo qualquer outro abuso, conforme ele próprio bem ressalta - nem 8, nem 80, nem buscar "colar" na imagem do interlocutor tudo aquilo que seria de repugnante, a fim de desmerecer totalmente sua imagem, mas não seu discurso (a velha tática do: "se não posso ir contra seu argumento, vou contra você". Ao fim, apenas resta mais uma contradição do blog, vez que, quando da eleição do Papa, foi ele pintado como auxiliar do regime ditatorial de direita argentino; o tempo passou, o Papa mostrou-se carismático e passou a ser "feio" criticá-lo, especialmente sem provas, ao que passou a ser enaltecido; então, a partir de falas do mesmo das quais alguém discorda (discordância sendo um direito legítimo), em vez de impugná-las, é buscada a desconstrução do Papa. Fica difícil acompanhar essa linha editorial "ao sabor dos ventos e das ondas do mar, para aonde eles me levarem".

  9. Luiz Postado em 10/Feb/2015 às 18:14

    Olha, pelo que eu saiba não é permitido surrar ninguém. Agressão ja é crime. Mas existe uma boa distancia entre palmada e espancamento. Acho que o estado não tem o direito de dizer como você tem que criar seus filhos. Levei, e todos os meus amigos também, palmadas e não me tornei um sequelado.

  10. Lann Postado em 10/Feb/2015 às 19:16

    Eu acho que ser pai e mãe é acompanhar o filho constantemente, sem exageros, pulso firme, seja numa voz imponente, seja no tapa, seja o que for, tem que ser constante e esclarecedor. Minha mãe batia e conversava e hj sou uma pessoa descente. Meu Tio só falava c meu primo e ele virou um perdido....e uma tia chegava a quebrar vassoura em outro primo, que também virou um perdido... pq eles só apareciam com o método corretivo esporadicamente.

    • Thiago Teixeira Postado em 10/Feb/2015 às 20:49

      Eu apanhei muito dos meus pais, até voadora eu levei kkkkk. Não sinto e não tenho nenhum rancor disso, muito pelo contrário. Não sei se sou um exemplo de homem, mas não virei bandido, aprendi a respeitar as pessoas, hierarquia e a me comportar. Minha irmã nunca apanhou por ser mulher, sempre passavam a mão na cabeça dela, e começou a usar drogas aos 12 anos.

  11. Marcos Postado em 13/Feb/2015 às 13:20

    Ainda não tenho opinião concreta sobre o uso de violência contra crianças, mas, a princípio, tal uso me parece desnecessário, pois seria como se os pais corrigissem os seus próprios erros de educação batendo nos filhos. Seria coerente, nesses casos, se batessem em si mesmos. Quanto às religiões, percebo que elas vêm maltratando e matando, com seus poderes persuasivos e impositivos, bilhões de pessoas.