Redação Pragmatismo
Compartilhar
Religião 26/Feb/2015 às 08:00
8
Comentários

O fenômeno das 'famílias seculares' nos Estados Unidos

Um fenômeno moderno são as famílias seculares, famílias em que pai e mãe não se identificam com religiões nem crenças. Nos Estados Unidos, eles são chamados de “Nones”, por que afirmam não acreditar em nada em particular.

Lá, este fenômeno está dando origem a outro: o das crianças que “crescem sem Deus”. O número delas tem crescido, de cerca de 4% nos anos 1950 a 11% após 1970, segundo um estudo de 2012. As informações são do LA Times.

Atualmente, cerca de 23% dos adultos nos Estados Unidos alegam não ter religião, e mais de 30% dos americanos entre 18 e 29 anos dizem o mesmo. E como são estas crianças, que crescem sem agradecer as refeições ou ir ao culto dominical? Como é a moral e a ética deste povo?

O professor de gerontologia e sociologia Vern Bengston supervisionou o Longitudinal Study of Generations (Estudo Longitudinal de Gerações) durante 40 anos, o maior estudo sobre religião e vida familiar feito no país, e tem uma ou duas coisas a contar sobre o assunto, baseado nas suas descobertas.

Por exemplo, as famílias seculares apresentam muito mais solidariedade e proximidade emocional entre pais e filhos, com padrões éticos e valores morais sendo passados para as próximas gerações. Segundo o professor, “muitos pais não religiosos eram mais coerentes e envolvidos com seus princípios éticos que alguns dos pais ‘religiosos’ em nosso estudo. A maioria parecia viver vidas plenas caracterizadas por uma direção moral e um sentido de que a vida possui um propósito”.

As famílias seculares têm seus próprios valores morais e preceitos éticos, entre eles a solução racional de conflitos, autonomia pessoal, livre-pensamento, rejeição de punições corporais, um espírito de questionar tudo e, principalmente, empatia. Para quem é secular, a moralidade tem um simples princípio: a reciprocidade empática, conhecida como a Regra de Ouro, que significa tratar os outros como gostaríamos que fôssemos tratados. Este é um imperativo ético antigo e universal, e não há nada nele que force a crença no sobrenatural.

“Afinal de contas”, pergunta uma mãe ateia, “se a sua moralidade está presa a uma crença em Deus, o que acontece se algum dia você questionar a existência de Deus? Sua moralidade vai se desfazer em pedaços? A maneira que estamos ensinando nossos filhos, não importa o que eles escolherem acreditar mais tarde na vida, mesmo se eles se tornarem religiosos, eles ainda terão este sistema moral”.

Na prática, os resultados são encorajadores. Adolescentes seculares têm menos tendência a se preocupar com o que os garotos populares estão pensando, ou de expressar uma necessidade de se enturmar com eles, do que os adolescentes religiosos.

Quando estes adolescentes se tornam adultos, eles tendem a apresentar menos racismo que seus colegas religiosos. E muitos estudos mostram que adultos seculares tendem a ser menos vingativos, menos nacionalistas, menos militaristas, menos autoritários e mais tolerantes, na média, que os adultos religiosos.

A tendência é de que crianças seculares continuem sendo não religiosas quando crescerem. Isso pode ser bom. Os adultos seculares têm uma tendência maior a compreender e aceitar a ciência do aquecimento global, a apoiar a igualdade feminina e os direitos dos gays. Sem esquecer que os números baixos de ateus em prisões também parecem indicar que ateus e pessoas sem religião são os que menos se metem a cometer crimes.

No cenário internacional, países democráticos com os menores níveis de fé religiosa são também os que têm as menores taxas de crimes violentos e gozam de bem estar social relativamente alto. Se os pais seculares não pudessem criar crianças com boa moral e comportamento, então a preponderância deste tipo de família significaria o desastre social. Só que o que acontece é o contrário.

A pergunta que alguns pais se fazem, se eles podem estar cometendo um erro ao criar seus filhos sem a crença em Deus, tem uma resposta clara: não. Crianças que crescem em um lar secular não têm deficiências em nenhuma virtude ou traço positivo, e devem ser bem-recebidas pela sociedade.

Por Phill Zuckerman, Los Angeles Times. Tradução: Cesar Grossmann, HypeScience

Recomendados para você

Comentários

  1. ingrid Postado em 26/Feb/2015 às 10:16

    Sou ateia, não fui criada numa família de ateus, na verdade mesmo hoje sendo adulta ainda sou julgada como errada, maluca, pecadora e todas essas coisas, só porque não acredito em Deus e olha que eu não sou nenhuma militante do ateísmo, detesto militâncias e nesse assunto não é diferente. Acho que toda família deve ter o direito de mostrar ao filho aquilo que acha que é o certo, não discordo que um pai religioso diga ao filho pequeno que existe um Deus que o ama e tudo mais. Porém o que me deixa indignada é que as famílias não dão o direito aos filhos de pensarem diferente, de acreditarem em outra coisa ou até mesmo em nada, é ai que começam os insultos, os castigos, as rejeições. não sei de quem é essa frase que ouvi uma vez, mas que me parece muito correta " Seus filhos são sua responsabilidade, não sua propriedade"

    • Rodrigo Postado em 26/Feb/2015 às 10:57

      (Outro Rodrigo) Gostei da frase de encerramento!

  2. eu daqui Postado em 26/Feb/2015 às 10:29

    Não entendo nenhuma das duas cetezas: nem a dos teístas nem a dos ateístas. Como pode saber ou conhecer aquele que ainda não morreu? Somente podem, sim, crer ou descrer.

    • Júlio Pimentel Postado em 26/Feb/2015 às 11:15

      Na minha cabeça, com ateu, não existe certeza. Eu, como ateu, não tenho certeza que deus não existe mas, simplesmente não acho que essa discussão seja relevante, uma vez que se trata apenas de fé, ou seja, acreditar cegamente ou não. O ateu deveria ter outras coisas mais importantes na cabeça do que tentar provar a não existência de deuses. Ai que está a diferença. Um ateu militante (já fui, hoje acho perda de tempo), apenas tenta mostrar o quão absurdos são os argumentos teístas. Além disso é bastante incomodo notar que os teístas fazem de tudo para impor sua forma de vida (geralmente o que há de pior nas religiões), aos outros.

  3. Roberto Pedroso Postado em 26/Feb/2015 às 10:39

    Mas o poder de mobilização e portanto de se eleger representantes dos setores religiosos conservadores é bem maior e mais eficaz nos Estados Unidos principalmente, o tenebroso e famigerado Tea Party por exemplo comprova isso infelizmente.

  4. Marcos Silva Postado em 26/Feb/2015 às 10:44

    Eu espero que um dia as religiões sejam coerentes e respeitem o ser humano, a vida e o planeta. Segregação social por causa de religião? Pena de morte por causa de religião? Sacrifício de animais e outros dogmas prejudiciais em nome de religião? Não! Eu compartilho solidariedade, educação de qualidade, igualdade social, respeito às diversidades culturais, sociedade justa, preservação da natureza, oportunidades iguais para todos, melhoria dos serviços públicos e dos privados, e tudo o que nos ajude a fazer um mundo melhor.

  5. Rodrigo Postado em 26/Feb/2015 às 10:57

    (Outro Rodrigo) O grande erro é isso, procurar fora de si uma razão, um princípio, moral e ético determinado por terceiro, sem reflexão. Kant, que era religioso, não fundamentou sua filosofia na religião, não impôs Deus ao seu leitor. Expôs, o filósofo, que exercemos nossa liberdade de forma plena, ética, quando respeitamos a nós mesmos e ao outro - o dever que o imperativo categórico nos traz há de ser imposto pelo indivíduo (ao mesmo tempo que revela uma liberdade, revela que esta há de ser exercida com responsabilidade). Tenho minha religião e tenho direito a tê-la, assim como o ateu, o agnóstico, aquele que professe fé outra, tem o mesmo direito que eu, o respeito havendo de ser mútuo, a ética de uns e outros não devendo decorrer de um movimento exterior irrefletido. Então, se você fundamenta sua moral e ética meramente em ser religioso ou em não ser religioso, o conceito de liberdade resta "capenga"; diz Kant: “Que agir moralmente consiste em agir com base em regras universalizáveis, que qualquer outro ser racional possa adotar como suas; que devemos agir com base em regras universalizáveis pela simples razão que somos racionais”. Nesse sentido, a quem interessar possa, sugiro duas obras: "A Educação do Homem Integral" (do filósofo brasileiro Huberto Rhoden) e "Justiça: o que é fazer a coisa certa" (do filósofo e professor de Harvard Michael J. Sandel). P.S.: meras sugestões, sem qualquer conotação de imposição de verdade, o interessado que lê-las tendo todo o direito ao senso crítico.

  6. Gabriel Postado em 26/Feb/2015 às 11:12

    Na Europa Ocidental isso é fenômeno antigo e muito difundido. São quase sociedades ateias. É diferente ver igrejas vazias e o tal do fenômeno da ex-igreja: a construção antiga, com vitrais e tudo, que virou bar ou outro estabelecimento comercial. É um sinal do desenvolvimento. Religião como fenômeno social tem relação com ignorância e pobreza. Nos EUA demora mais para perder força por causa das raízes mais profundamente religiosas dos founding fathers. Ainda há muitos loucos fundamentalistas. Mas cedo ou tarde acontece.