Redação Pragmatismo
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Racismo não 14/Feb/2015 às 17:00
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Eu nunca vi um corpo como o meu na TV

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Jessyca Liris, Meninas Black Power

Eu nunca vi um corpo como o meu na TV. Mal via pessoas como eu. Estudava em escola particular com um monte de meninas brancas, e na aula de natação, uma delas gritou: “sai daí, Jessyca, com essa bunda cheia de estria! Ninguém quer ver não“. Nem sabia o que era isso, e daí veio todo o medo. Quando digo que nunca vi alguém como eu, quero dizer: mulher preta, de cabelo crespo, não-magra, com curvas sem simetria, com celulite e estrias.

Eu cresci achando que estava sempre errada, com medo de me mostrar, com pavor de que alguém visse esse tanto de defeito que a sociedade me grita a todo momento. Eu ia à praia de bata de manga comprida (só usava biquíni em casa); “meu corpo é feio“, pensava, e isso martelava na minha cabeça. “As pessoas vão ficar me olhando, apontando pra minha bunda feia e pra minha falta de peito” martelava minha cabeça o tempo todo… Já não bastava ter a bunda toda cheia de estrias, celulites e mole, tinha ainda os seios pequenos. “Toda errada“, martelava e martelava.

Um momento novo se iniciou, e comecei a ter relações sexuais, e só enquanto houvesse uma luz apagada, eu estava ali, e assim ia. Fui levando e sempre de luz apagada, mas tive a sorte de ter, por um tempo, um namorado que me ajudou a desconstruir toda essa ideia negativa e eu passei a rejeitar menos o meu corpo. Ele elogiava excessivamente a minha bunda porém ria dos meus seios, o que me fez querer, por alguns anos, fazer uma cirurgia pra poder aumentá-los e me sentir menos pior. Mais algum tempo se passou, o relacionamento terminou e a necessidade de ter relações sexuais crescia, e agora?

Alguns relacionamentos frustrados e eu já não queria mais namorar. “Mas como vou mostrar esse corpo estranho pra alguém sem que haja algum sentimento? Ninguém que não me goste ao menos um pouco vai querer esse corpo estranho.” Isso martelava na minha cabeça. Fiquei por anos transando mal e achando meu corpo estranho. Nunca me sentia à vontade por achar que os caras estavam contando quantos buracos eu tenho na bunda (isso porque nem vou falar da minha vagina, que dobra o complexo) e os meus seios que sempre são alvo de comentários, por serem pequenos, quase zero. Foi assim até que assumi o meu cabelo crespo, aumentando minha autoestima, a minha confiança. Passei a ir a praia de biquíni com as amigas, mas nada de foto e com short também, afinal, “ninguém precisa ficar vendo essa bunda estranha“.

Assumi o cabelo, ia a praia de biquíni, comecei a andar com outras pessoas e logo a transar com outras pessoas. Repetia pra mim “teu corpo não é estranho e o racismo não vai te engolir“, como um mantra, e comecei a entender meu complexo em relação ao meu corpo. Comecei a entender que a culpa é do racismo e do machismo que me fazem desejar ter o único corpo preto que aparecia na televisão: o da Globeleza, que nada tinha igual ao meu corpo, a não ser a cor meio amarronzada.

Fazer parte do movimento negro, de um coletivo de mulheres pretas, ouvi-las e lê-las, me fez compreender o ódio ao meu “corpo preto estranho” e atualmente não é muito diferente. Hoje me olhar no espelho ainda é estranho, ainda dói, ainda aparecem um monte de possíveis reparos e incontáveis perguntas do tipo “pra que e por que um corpo tão estranho?”.

Mesmo sem um desfecho brilhante vi a necessidade de escrever, tentando dizer que (difícil por em palavras)… que eu sei que não sou a única. Senti necessidade de dizer que não criem esse complexo como o meu, e que nosso corpo preto é mais do que parece. Senti necessidade de dizer que nosso corpo com essas formas contam histórias.

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Comentários

  1. Carlos Postado em 14/Feb/2015 às 20:20

    Jessyca, este texto também trata da ditadura do "corpo perfeito". Não sei se vc o conhece, eu o acho sensacional: http://www.gluckproject.com.br/como-ter-um-corpo-perfeito-para-o-verao/.

  2. Joe Doe Postado em 14/Feb/2015 às 20:38

    https://www.youtube.com/watch?v=1XggjorHpdk

  3. Si. Pero no mucho. Postado em 14/Feb/2015 às 21:01

    Na minha concepção não há problema em ser "feia", o problema é negar isso e ao mesmo tempo afirmar a feiura como beleza, é uma inversão de valores que você faz para, de forma fantasiosa, resolver sua angústia. Acho que falta o senso da realidade na autora em perceber que existem pessoas mais bonitas, melhores e portanto diferentes no mundo.

    • Alexandre Postado em 20/Feb/2015 às 16:19

      Pessoas mais bonitas e melhores? O quê diabos você quer dizer com isso? O que é ser melhor? E a beleza não se trata de um padrão? Por acaso você considera a beleza uma grandeza absoluta, como uma equação matemática, e não a soma dos valores e expectativas impostas socialmente? Por quê uma criança branca de olhos claros é considerada mais bonita (é só observar a publicidade) do que uma negra? Seria ela realmente mais bonita e ... melhor?

  4. Fernando silveira Postado em 14/Feb/2015 às 22:36

    Ja pensaste em fazer academia e comer direito, nao so pela questao de estetica como de saude, ate sua percepcao reduZida e dualista da realidade podera ser reavaliada devido ao Bom Humor q virar das endorfinas do exercicio realizado, abs FICA a dica

  5. nadja rocha Postado em 14/Feb/2015 às 23:06

    Obrigada Jessyca e parabéns pelo texto.

  6. Fernando Postado em 16/Feb/2015 às 14:50

    Aguardo a liberacao do meu primeiro comentario

  7. Tiago Postado em 18/Feb/2015 às 03:29

    Achar celulite feio agora é machismo? a culpa dessa moça ter um corpo feio é dos homens preconceituosos? Tenho amigos bem gordos, outros muito magros que também não se sentem bem com o corpo e tem dificuldades de auto estima com isso, além de não pegar ninguém. um dos muitos males das feministas é imaginar que só as mulheres têm problemas.

  8. eu daqui Postado em 19/Feb/2015 às 13:50

    Eu também nunca vi nada similar a mim na tv e estou pouco me lixando !!!!

  9. Victor Hugo Postado em 20/Feb/2015 às 10:32

    Já vi várias pessoas na tv com esse perfil descrito no texto, agora normalmente não estão lá mostrando o corpo, porque padrão de beleza realmente é algo complicado. Tão complicado quanto "querer" que a tv mostre uma beleza (diferente) nesse tipo de estereótipo. A pessoa pode se colocar como quiser, mas querer exigir que achem bonito é bem diferente. Muita reclamação para pouco conteúdo.