Redação Pragmatismo
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Terrorismo 20/Feb/2015 às 17:13
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Como é viver em cidades dominadas pelo Estado Islâmico

Estima-se que mais de 8 milhões de pessoas estejam vivendo sob o domínio do "Estado Islâmico". Várias delas contaram as suas experiências

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É possível ter uma ideia da dimensão da tragédia no Iraque ao se conversar com os passageiros de um táxi coletivo, viajando de Erbil a Kirkuk. No banco da frente, está um homem grande, chamado Marwan. Ele pagou 5 mil dinares iraquianos (14 reais) a mais para poder sentar no lugar do carona.

Outro passageiro é Youssef, que move o olhar do para-brisa aos vidros laterais constantemente, aparentando estar tenso. O velho Ahmed parece cochilar, mas se revela desperto quando seu neto ameaça cair de seu colo.

Quase 80 quilômetros separam Erbil, no Curdistão iraquiano, da cidade petrolífera de Kirkuk, que era controlada por Bagdá até o avanço da milícia terrorista “Estado Islâmico” (EI), em junho do ano passado.

Apesar dos milicianos terem invadido grande parte do norte do Iraque, Kirkuk é protegida pelas tropas peshmerga curdas, que foram mais rápidas do que os combatentes do grupo armado radical.

Apoio inicial ao EI

No banco da frente, Marwan diz que não aguenta mais ficar em Mossul. Ele resistiu em sua casa até agora, mesmo depois da chegada de cada vez mais combatentes do “Estado Islâmico“, que acabaram por dominar a cidade.

No início, pensávamos que eles iriam sair depois de derrubarem os governantes“, diz. Mas as pessoas que acabaram assumindo a administração eram conhecidas na cidade, já ocupavam cargos públicos na época do governo de Saddam Hussein. Por isso, segundo Marwan, não houve grande resistência da população local ao novo regime imposto pelo EI.

O próprio Marwan conseguiu de volta seu cargo na administração pública. “Pensávamos que seria tudo como antes“, diz. Ele não sabia de onde vinha o dinheiro para pagar os salários, mas o que importava era que tudo era pago em dia.

Após a queda de Saddam, as pessoas já não estavam mais acostumadas com isso. A interminável disputa entre as facções políticas na cidade e na província e os conflitos com o governo central em Bagdá impediram o desenvolvimento de Mossul. A corrupção e o nepotismo se tornaram rotineiros. “As pessoas estavam cansadas“, explica Marwan por que a população de início simpatizou com o Daesh – como o “Estado Islâmico” é chamado no mundo árabe.

Com dois milhões de habitantes, Mossul é a terceira maior cidade do Iraque e a primeira que foi tomada pelo EI. Em seguida, vieram Tikrit e pequenas cidades nas províncias de Salaheddin e Dyala e quase toda a província Anbar.

Alimentos enlatados proibidos

Estima-se que mais de 8 milhões de pessoas estejam vivendo sob o domínio do “Estado Islâmico” no Iraque e na Síria. Em termos de área controlada, o território do Daesh se estende do oeste do Iraque até o leste da Síria, com dimensões semelhantes às do Reino Unido. Nesse meio-tempo, as cidades de Kobane e as montanhas de Sinjar foram recuperadas. Mas essas foram derrotas mínimas para o EI, considerando-se os 230 mil quilômetros quadrados do califado autoproclamado.

Quem não conseguiu fugir teve de se submeter aos extremistas. No território controlado, não é permitido álcool nem música, exceto cantos islâmicos. Além disso, há a segregação por gênero, ocultando todas as meninas e mulheres.

Isso tudo é demais até para Marwan, um fervoroso sunita, mesmo que ele tenha chance de se dar bem no regime dos milicianos. O “Estado Islâmico” segue uma interpretação rígida da jurisprudência sunita. “Mas isso não é vida“, argumenta o iraquiano de 46 anos.

Agora, até mesmo a venda de alimentos enlatados foi proibida sob o argumento de que seria contra a sharia. Assim, os comerciantes tiveram que retirar das prateleiras latas de feijão, lentilhas, frutas em calda e carne.

Cristãos foram os primeiros expulsos

Youssef acaba de passar dois dias em Mossul. Ele voltou à antiga residência para buscar documentos a fim de provar às autoridades que era mais um dos milhares de refugiados. Mas ele ouviu de vizinhos que o Daesh estava morando em sua casa e, por isso, teve que deixar a cidade outra vez – sem os papéis.

Quando os radicais islâmicos chegaram a Mossul, os cristãos foram os primeiros a serem expulsos. O EI tomou suas casas, móveis e jóias, além de raptar e violar as mulheres. Usaram megafones para pregar a conversão de todos ao islã. Foi iniciada a cobrança da jizya – imposto para cidadãos não muçulmanos num Estado islâmico. Nessas condições, a maioria dos cristãos preferiu deixar a cidade.

Youssef, de 53 anos, diz que não existem mais cristãos em Mossul. “Depois que os cristãos foram expulsos, o alvo foram os yazidis“, conta o caldeu. Ele pertence ao maior grupo cristão dentro da diversidade étnica e religiosa iraquiana. No entanto, os caldeus já haviam sido reduzidos à metade desde a invasão americana e britânica em 2003 e a intensificação das atividades terroristas.

Assim como nós, os yazidis são considerados infiéis“, diz Youssef. Ele ouviu dizer que as mulheres da minoria religiosa são submetidas a casamentos forçados e tratadas como escravas.

Recentemente, mais de 200 yazidis de Mossul foram libertados, na estrada entre Erbil e Kirkuk. Eram velhos e doentes, dos quais o jihadistas provavelmente queriam se livrar.

Cobrança de aluguel

No Ocidente, o “Estado Islâmico” é considerado uma milícia terrorista brutal. Na prática, o fenômeno é muito mais complexo e, por isso, provavelmente não será passageiro. Estima-se que o EI tenha um contingente de 100 mil combatentes.

O turcomeno Ahmed diz que os extremistas tomaram sua casa em Tilkef – a cidade mais ao norte ocupada pelo EI, a cerca de 30 quilômetros de Dohuk. Ele conta que não estava em casa quando os radicais chegaram e ocuparam todas as residências desabitadas.

Agora, o EI começou a cobrar aluguel dos próprios proprietários das casas, conta Ahmed. O mercado imobiliário do califado tem regras homogêneas. O inquilino paga ao Daesh 83 dólares (230 reais) por semana por um apartamento e 125 dólares (347 reais) por uma casa. Conforme os três homens no táxi, o modelo está sendo aplicado em Tilkef, Mossul e também na província de Anbar. “O Daesh quer introduzir o socialismo“, brinca Marwan.

A viagem chega ao fim no posto de controle na entrada de Kirkuk. Depois de registrados, os refugiados recém-chegados são interrogados pelo serviço de inteligência curdo. É hora de Marwan, Ahmed e Youssef recontarem suas histórias.

Birgit Svensson, de Kirkuk, DW

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Comentários

  1. Jonas Schlesinger Postado em 20/Feb/2015 às 17:38

    Não tem conversa, só uma guerra pra acabar com EI. Eu apoio os EUA e o conselho de segurança. E o Brasil devia ajudar nessa luta para dizimar os terroristas enviando tropas. Duvido nada que os malditos muçulmanos tbm querem atacar a America latina inclusive o Brasil, pois ele têm ódio da américa e do ocidente. Esses muçulmanos que costumam carregar 10 kg de tnt nos peito e acabar com quem tiver por perto. Muçulmanos intolerantes, preconceituosos, machistas e ultra conservadores. Acho que se esse Maomé n tivesse existido, o mundo seria muito melhor. Morte aos terroristas do estado islamico.

    • Thiago Teixeira Postado em 20/Feb/2015 às 17:55

      Ninguém é burro de atacar a América Latina, se isso ocorrer (toc toc toc) levarão uma surra, pois a mobilização será geral, pode apostar. E mais, esses grupos não tem marinha muito menos aeronáutica, o que tornar impossível chegarem aqui, exceto um atentado terrorista ...

    • Jonas Schlesinger Postado em 20/Feb/2015 às 18:29

      José, isso foi quando? Idade Média? O Papa prega a morte de gays, e afins? E os Muçulmanos? Aceitaram a maldita Sharia. Olha o caso da Arábia Saudita para outro país cristão hoje (que na vdd são laicos). No Ocidente vc (se tu fores muçulmano) tem a liberdade religiosa; lá na Península Arábica se tu fores católico,lascou-se. Não me venha com demagogias baratas, porque pra mim entra para um ouvido e sai pelo outro. Sec XXI, sabe o que é? E n falo como católico, muito menos como evangélico. Falo em nome da Laicidade, cuja a proibição continua por lá. E, se para haver laicidade deve haver guerra, que há de ruim nisso? Se o maldito Abdullah era ferrenho e não era tão ultra radical assim, imagine esses vermes terroristas. Guerra, e o mundo deve se unir. Fui...

    • Jean Michell Postado em 22/Feb/2015 às 19:37

      Filhão, não fala besteira, concordo sobre a guerra, mas deixa agente queto falou? Nada de Brasil se metendo nisso, não quero meu povo sendo dizimado por eles, pense em todos os brasileiros que vivem lá, o que ocorreriam com eles? E o povo de lá que se infiltra aqui para pegar gente dos nossos? É muito fácil eles matarem inocentes do nosso país, você viu o que ocorreu na França? Eles recrutaram uma turminha e eles desceram a porrada na Charlie Hebdo, não amigão, cada um no seu quadrado, essa não é a nossa guerra, é a guerra deles, e que continue assim.

    • saulo Postado em 23/Feb/2015 às 14:58

      Os americanos criaram o monstro, eles que se virem. Todas as vezes que os americanos fazem besteira alguem tem que assumir a guerra com eles. Jamais.

      • eu daqui Postado em 24/Feb/2015 às 11:07

        Que o monstro alcance casa branca e pentagono..........

  2. José Postado em 20/Feb/2015 às 18:03

    Jonas, pela tua lógica todo o católico apostólico romano também é tudo isso que escreveste: invadiu em nome da fé territórios, alheios, exterminou ou catequizou à força populações inteiras na América, na África, Ásia e até na Europa. Perseguia, torturava a matava infiéis, hereges e possuídos. Combateu a ciência e condenou cient istas (Giordano Bruno, Copérnico, Darwin). Apoiou a escravidão, a família patriarcal, a submissão da mulher ao homem; apoiou monarquias nada democráticas e foi parceira do fascismo na Itália. Vais dizer que todos os cristãos são maus?

    • Zemauro Postado em 23/Feb/2015 às 17:39

      A maldita religião, sempre foi assim e o povo embarca nessa canoa furada da fé, negocio lucrativo e prospero, pensem! Se nós não cuidarmos estaremos no mesmo barco das guerras santas por aqui mesmo, veja o exemplo da presidencia da câmara dos deputados, é só o começo, vai se tanger para o fundamentalismo cristão protestante/evangelico, que hoje já segrega um contigente de 35 mi, de evangelicos e outros tantos catolicos, e estão junto e misturado com estado, é só esperar. a começar pelas minorias, gays, umbandistas, macumbeiros, espiritas, só uns exemplos minimos, fazer crer em alguem que não reclama é muito conviniente, povo sob a egide de um senhor invisivel, arrogante prepotente,machista, homofobico, e que confere poder absoluto a seus pseudos enviados, acho que vou fundar uma bodega dessa...

    • eu daqui Postado em 24/Feb/2015 às 11:08

      O fundamentalismo cristão não justifica o fundamentalismo islamico, mas somente o agrava.

  3. José Postado em 20/Feb/2015 às 19:21

    Jonas, entendo mas não compartilho generalizações à respeito de povos e países. Sou agnóstico, respeito todas as crenças de todas as sociedades e sou contra qualquer fundamentalismo religioso interferindo na vida pública e nas liberdades cidadãs. Mas veja bem: o islamismo está entre as maiores religiões do mundo, existem bilhões de muçulmanos - maioria pacífica, trabalhadora e "de bem". Tu mesmo classificou muçulmanos de forma geral- te garanto que falaste com muito poucos ou sequer conheces a realidade desses sociedades e ainda usaste um exemplo de um país, que por sinal é aliado do ocidente e que se fala bem pouco no que se refere ao regime político e social. Essa guerra que o ocidente está travando (e em parte criou) tem a ver com motivos geopolíticos e econômicos e muito pouco a ver com combate à fundamentalistas. O EI só existe porque os antigos Estados da região foram destruídos por anos de guerra (em parte fomentadas por interesses de países do ocidente). Se meteram lá, deixaram vácuo de poder, se aliaram com grupos radicais- tudo em nome de controlar a geopolítica de uma região rica em recursos energéticos. Guerra ao EI é só mais uma justificativa para esse controle. Te aconselho a te interessar mais pelos desdobramentos do controle, produção e distribuição do petróleo pelo mundo (aí sim tens que ter receio pelo América Latina que está descobrindo várias reservas, não só no brasil) do que pelo fundamentalismo religioso (não só islâmico) para compreender o que está em jogo nesse momento.

  4. Carlos Postado em 21/Feb/2015 às 17:56

    Eles de fato são doentes, são criminosos disfarçados de políticos, ideologias assassinas idolatradas em toda parte, utilizam o estado para propagar o ódio, dividir a nação e se perpetuar no poder através da miséria que eles mesmo geram, essa é a tal "revolução".

  5. Daniela Cabral Postado em 23/Feb/2015 às 12:42

    Eu acho engraçado "nossa preocupação" com os países dominados pelo "estado islâmico", quando somo dominados pelo PCC, comando vermelho e pela corrupção dos NOSSOS partidos políticos...estamos numa merda mais profunda que eles, nem sequer nos levantamos contra o governo, mas enchemos a boca para falar de outros países...

    • Nesar Postado em 23/Feb/2015 às 17:19

      Parabéns pelas colocações. Tem gente aqui postando opiniões sem nem saber onde ficam os países mencionados.

    • eu daqui Postado em 24/Feb/2015 às 11:10

      Trata-se de aberração tipicamente brasileira: malhar a casa do outro é mais fácil do que limpar a própria. E depois brasileiro não quer ser malhado...........

    • MIron Postado em 24/Feb/2015 às 21:41

      cerveja, futebol, novela... varias décadas de alucinógenos Global deu no que deu... muita alienação de direitos...

  6. jaadiel rocha Postado em 23/Feb/2015 às 17:14

    É tudo muito complexo. Agora eu penso que o Brasil não deveria se envolver diretamente nesses conflitos. Nós já enfrentamos a nossa guerra civil de cada dia. Para que mandar mais homens para morrerem se aqui mesmo eles acham a morte na porta de casa? Mas se for preciso, estejamos atentos...quando eles começarem a carregar nossas moças apaixonadas para lutarem pelo EI, aí é a hora de o Brasil agir com violência!!!

  7. Paulo Postado em 23/Feb/2015 às 20:01

    É uma vergonha uma organização que abusa de mulheres e prega violência em nome da religião, eles precisam sim serem exterminados, assim como os nazistas foram um dia... O mundo precisa se unir para matar essa raça de vermes