Mailson Ramos
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Cultura 05/Feb/2015 às 17:29
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Carnaval de Salvador e o processo de elitização dos espaços públicos

O carnaval de Salvador é fruto da indústria cultural e não conserva, senão no nome, nenhuma qualidade essencial resguardada de sua origem. Perde suas qualidades de festa popular, porque não é, de longe, uma representação castíssima do respeito do baiano ao espaço como foi há algumas décadas.

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Mailson Ramos*

O carnaval de Salvador, exibido por algumas emissoras de TV, é um conto de fadas. Porque as câmeras somente alcançam o camarote, onde estão posicionadas, e os blocos que fazem um cortejo elitista em torno dos trios elétricos. A pipoca – grupo de foliões posicionados entre os blocos e os tapumes dos camarotes – tem seu espaço cada vez mais dirimido no contexto da festa. Cabe dizer aos leitores que a pipoca ou os foliões populares foram os verdadeiros criadores do carnaval, uma festa originada pela mistura de classes, pela difusão da cultura baiana, pelo amor dos baianos à alegria e, sobretudo à música. Este contexto não existe atualmente porque o carnaval se tornou uma festa das elites ou de quem tem dinheiro para gastar nos camarotes e no desfile dos camisados.

A administração pública da cidade de Salvador, através dos seus prefeitos, transformou uma festa popular em negócio; esta característica incoercível do sistema capitalista – que converte absolutamente tudo em dinheiro ou investimento – foi aplicada ao carnaval com o intuito de gerar receitas, postos de empregos, visitas turísticas, crescimento do comércio, enfim.

Naturalmente estes valores são necessários para qualquer cidade, especialmente Salvador. O que se contesta aqui é a evolução gradual do elitismo, da valorização do poder, da submissão de classes inferiores a um espaço reduzido no carnaval que é uma festa do povo. Existem pessoas que não podem pagar um “abadá” (camisa que garante a entrada no bloco) ou a entrada num camarote. Estas pessoas podem curtir o carnaval, desde que posicionadas numa minúscula e invisível faixa do circuito.

Leia também: Segregação no Carnaval de Salvador?

Não faz muito tempo os cantores nos trios saudavam a pipoca com reverência digna a quem de fato fazia o carnaval. Os pipoqueiros seguiam num cortejo massivo atrás do trio, dividindo proporcionalmente o espaço com os blocos. Camarotes sempre foram a essência do separatismo, uma vez que eles eram inicialmente reservados às autoridades e suas famílias.

Com o tempo, os blocos engrossaram – devido também a uma melhoria de vida do brasileiro – e os camarotes passaram a marcar o roteiro do carnaval, em suas laterais, de ponta a ponta.

Em 2012 alguns cantores, mobilizados com a supressão da pipoca, pediram ao prefeito para desfilar sem bloco. Na verdade este é um luxo reservado a bandas ou cantores consagrados no carnaval, uma vez que os blocos e camarotes geram receitas também para eles.

O turista que visita a cidade talvez não perceba estes aspectos, mas eles acontecem todos os dias durante festa. O folião de camarote somente consegue ver o panorama de onde está; assim como o ocupante dos blocos não enxerga cores diferentes, além daquelas que prevalecem no seu círculo. Posso falar de cátedra porque já tive a oportunidade de ver o carnaval de Salvador destas três perspectivas. Basta parar um minuto para pensar no sistema produzido por este separatismo social e econômico. Um sistema que evolui ano após ano, caracterizando uma diferenciação do público a partir de sua classe e de suas posses.

Leia aqui todos os textos de Mailson Ramos

Naturalmente esta análise tem a intenção de demonstrar o quanto elitista ainda é nossa essência, porque não gostamos de dividir nem mesmo o espaço.

O carnaval de Salvador é fruto da indústria cultural e não conserva, senão no nome, nenhuma qualidade essencial resguardada de sua origem. A propósito, o carnaval perde suas qualidades de festa popular, porque não é, de longe, uma representação castíssima do respeito do baiano ao espaço como foi há algumas décadas. Isso não significa que devamos odiar o carnaval, boicotá-lo ou penalizar que frequenta camarotes ou desfila em blocos. Independente da ação das pessoas, existe um processo em curso que visa capitalizar o carnaval ainda mais nos próximos anos. O futuro talvez seja um trio elétrico seguido por blocos e observado por camarotes; a pipoca não vai mais existir porque seu espaço é reduzido todos os anos.

Continuará sendo uma festa agradável? Evidente que sim. Mas não será nada parecido com o que se entendia por carnaval.

*Mailson Ramos é escritor, profissional de Relações Públicas e autor do blog Nossa Política. Escreve semanalmente para Pragmatismo Político.

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Comentários

  1. Luiz Postado em 06/Feb/2015 às 01:25

    O carnaval de rua não se permite a elitização, já que a festa é essencialmente do povo. Em contraste ao carnaval baiano, que perde força pela vontade de se elitizar, o carnaval carioca é feito essencialmente pela mistura entre classes, cores e td mais que usualmente se contrasta. O abadá não vale nada. São mais de 400 blocos espalhados pela cidade que exigem unicamente do folião a alegria e a fascinação pela vida. Cada qual traz inúmeras histórias. Fatos marcantes para décadas futuras. Pontos de lembrança que põem aos lábios um belo sorriso. Mas isso tudo só acontece porque há uma mistura entre aqueles que no ano inteiro costumam festejar separadamente. O momento se torna o show da variabilidade de gestos, de poses, de olhares e sorrisos que sinergicamente transformam a atmosfera do farrista. É o ser sendo ser. É estar desgarrado do prescindível pela magia. Logo, qualquer barreira que se queira impor para resguardar interesses puramente comerciais, preterindo a essência do carnaval, é um lástima para quem realmente vive esta época do ano.

    • Franklin Postado em 08/Feb/2015 às 07:48

      Tens toda razao.O carnaval do Rio,so necessita ter mais,mais...So na Bahia essa loucura.

  2. Thiago Teixeira Postado em 06/Feb/2015 às 09:55

    Tudo que é elitizado, como camarotes, espaço Vip, primeira classe, sertanejo universitários, forró universitário, pagode universitário, universitário, pra mim é tudo um grande LIXO. Depois reclamam das brigas, assaltos, tráfico e toda violência gerada pelo ódio daqueles que não se contentam em ficar do lado de fora assistindo os riquinhos de divertirem.

    • eu daqui Postado em 09/Feb/2015 às 10:07

      E pq esse ódio não é usado pra fazer uma revolução? Ou pra vc traficar, assaltar, estuprar e matar é sinonimo de revolução?

      • Marcos Postado em 09/Feb/2015 às 10:09

        Na visão do thiago teixeira matar, assaltar e estuprar são atos permitidos e até meritórios desde que cometidos por pobres e negros contra riquinhos brancos. eleitores do Aécio, de preferência.

      • eu daqui Postado em 10/Feb/2015 às 09:35

        Quando a vitima embarca no prórpio vitimismo, torna-se vilão e cúmplice do mesmo sistema que a vitimou. A história taí pra materializar essa tendencia morbida: Alemanha de perdora da primeira guerra pra genocida na segunda. Israelitas de exterminados na segunda guerra para genocidas de hoje. Somente a superação do sentimento de vitmização é que faz a transmutação da vítima para herói, aquele que luta contra os valores do sistema que fabrica vítimas e vilões.

  3. Marlon Bravo Postado em 07/Feb/2015 às 17:27

    Segunda consta, os donos da festa são da família do Antônio Carlos Magalhães !

    • poliana Postado em 09/Feb/2015 às 17:27

      é mentira marlon! os donos da central do carnaval n tem nenhum parentesco com a família magalhães..a central é de uma família cujo irmãos fizeram uma sociedade, e passaram a ter a administração de quase todos os blocos q saem no carnaval, exceto os blocos coco e cerveja e cia, q pertencem a ivete e durval lelis. todos os demais são dos criadores da central. essa conversa de q tudo na bahia era de acm, vem de antigamente, enqto acm era vivo...então tudo na bahia, qq empreendimento do setor empresarial, diziam q era dele. mas o carnaval privado de salvador, pertence a uma outra família.

  4. Luciano Matos Postado em 07/Feb/2015 às 21:21

    Tá quase tudo certo ai, mas muito do Carnaval popular ainda existe em Salvador, feito na luta de ir pra rua mesmo, mas acontece. Ainda existem trios sem cordas, por sinal, onde tudo é mais pacífico. O problema é que as "grandes estrelas" estão quase sempre com blocos lotados e os trios independentes em geral com horários ruins. Há novidades acontecendo e toda a crise que vive o Carnaval de Salvador creio que será muito boa para reinventar a festa. As novidades existem, uma música baiana mais rica também existe, mas ainda está longe da atenção da mídia.

  5. vanderlei Postado em 08/Feb/2015 às 13:01

    Cultura criada pelo carlismo em salvador, .Megas camarotes, blocos elitizado, com abadás a preço de forca, e aí é só alegria suor e cerveja, e o povão ferrado sem espaço.Cadê os blocos pipocas?

  6. Sonia Dantas Postado em 08/Feb/2015 às 13:35

    Da outra forma era muito bom!!! Velhos tempos! Belos dias!!!

  7. luciana Postado em 08/Feb/2015 às 13:50

    Sou soteropolina e vi a carnaval de Salvador se "capitalizar". Ok. E daí? Ainda fica a opção de dizer não. Se recusar a ficar espremido entre camarotes e blocos. E parar c a reclamaçao de uma situaçao q nao volta mais.

  8. SERGIO MOREIRA Postado em 08/Feb/2015 às 15:11

    é a maior expressão do clássico: CASA GRANDE E SENZALA.

  9. Anderson Postado em 08/Feb/2015 às 15:27

    por esse motivo fiz uma Musica---- Nossa mortalha já foi a tradição,Só serve agora pra fazer pano de chão.A moda agora é o Ábada, mas sem dinheiro não podemos mais brincar.Tem arquibancada tem -Tem camarote e a Prefeitura dividiu a festa em lote .Tem arquibancada tem ,Tem Camarote e a Prefeitura dividiu a festa em lote--Lá na pipoca tem confusão e os Malhados a socar o folião- nos rets agora Televisão deitado em casa pra sair da confusão.

  10. eu daqui Postado em 09/Feb/2015 às 11:19

    Um mes antes da festa os caminhadores e corredores da cidade já não tem mais orla nem praças para se exercitar.....como é que tem saúde?

  11. José Flores Postado em 09/Feb/2015 às 11:43

    em Salvador existe muitos blocos que ainda conseguem desfilar sem corda. mantendo assim sua tradição e essência. (quando conseguem patrô ou financiamento. colocar um trio elétrico e os músicos e toda uma equipe precisa receber algum $ pra trabalhar) o Carnaval do Rio fora o primeiro a excluir o povo, com frisas e camarotes a preços absurdos. nem vou entrar em por menores. nao quero aqui defender o carnaval de Salvador, alias sou um dos mais críticos. ja estive presente nas 4 dimensões. em cima do trio, no camarote, no bloco e na pipoca e acredite. a pipoca é mais divertido. é libertador. é pra quem tem coragem. é pra quem é de Salvador. quem quer saí no seu bloco, acompanha seu artista. investe o dinheiro que a ele é cabível e segue sua festa. uma forma de monetizar e pagar o seu idolo por proporcionar essa alegria. mas o baiano, o soteropolitano, mesmo depois de terminado seu bloco, continua na festa, indo atrás de outros blocos, aproveitando a alegria da pipoca.

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