Redação Pragmatismo
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Exploração Trabalhador 26/Feb/2015 às 11:16
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A água marrom que as trabalhadoras da Contax são obrigadas a beber

Funcionárias da Contax gravaram vídeo no celular em que revelam a cor marrom da água disponibilizada no bebedouro. Doenças como síndrome do pânico, lesão por esforço repetitivo e até infecção urinária foram constatadas pelo Ministério do Trabalho. Empresa é responsável pelo teleatendimento do Bradesco, Citibank, Itaú, Santander, Net, Oi e Vivo

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Água marrom disponível para os funcionários da empresa Contax (Imagem: Pragmatismo Político)

Na central de atendimento da Contax, só se entra com uma garrafa d´água e a roupa do corpo – nada mais. O ponto começa a contar depois que o funcionário liga o computador, coloca o fone no ouvido e digita sua senha. Se atrasar um minuto do horário de entrada, perde bônus.

A partir de então, um gerente faz a ronda, ditando ordens em voz alta. E há a ronda virtual: cada palavra dita aos clientes é gravada para que a equipe de escuta possa checar se o funcionário seguiu o script da empresa – e se o fez com um “sorriso na voz”. Se estiver num dia triste, perde bônus.

As ligações entram continuamente pelo fone de ouvido, só param nos intervalos determinados pela empresa: 20 minutos para o almoço e dois intervalos de 10 minutos para o banheiro ou água. No caso de um chamado da natureza, um cronômetro marca o tempo que o funcionário leva para atender a urgência fisiológica. Para não perder o bônus, alguns preferem trabalhar de fralda geriátrica.

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Além de perder um complemento importante ao salário, quem não segue cada uma das regras acima pode levar bronca do supervisor e corre o risco de entrar no que a empresa chama de “linha de corte”: um limbo que antecede a demissão por justa causa. Uma vez na linha de corte, cada deslize vira advertência ou suspensão. A maior aspiração dos funcionários é conquistar o que chamam de “degrau da rua”: a demissão sem justa causa.

Esse é a rotina dos atendentes da empresa de telemarketing Contax, onde ficam as principais centrais de teleatendimento do Bradesco, Citibank, Itaú, Santander, Net, Oi e Vivo. A descrição acima foi baseada nos registros feitos pelo Ministério do Trabalho durante mega fiscalização em 2014, quando unidades da Contax em sete estados foram inspecionadas. O órgão considerou a terceirização ilícita e responsabilizou os bancos e empresas de telefonia por um conjunto de infrações de trabalhistas que somaram R$ 300 milhões em multas e R$ 1,5 bilhão em débitos salariais.

Apesar das exigências para que corrigissem as infrações, em janeiro desse ano os auditores voltaram a encontrar os mesmos problemas nas centrais de atendimento do Itaú, Bradesco e OI – todas sediadas na Contax de Recife, Pernambuco. Essas centrais foram interditadas em 21 de janeiro por não atender a mudanças como, por exemplo, parar de constranger o trabalhador a não usar o banheiro. Além de contabilizar diversos casos de adoecimento, os auditores entenderam que as violações sistemáticas apresentam um risco grave e iminente de adoecimento para todos os operadores.

Mas as centrais não ficaram muito tempo de portas fechadas. Um dia depois da interdição, a Contax entrou com um mandado de segurança e conseguiu uma liminar para voltar a funcionar . Com base na defesa da empresa, que diz estar implementando as mudanças necessárias, a 14ª vara da Justiça do Trabalho de Pernambuco não só liberou o funcionamento, como proibiu o Ministério do Trabalho de emitir novas multas.

Nós continuamos a receber denúncias dos trabalhadores, mas estamos de mãos atadas”, alerta Cristina Serrano, uma das auditoras fiscais do trabalho à frente da operação. “A empresa diz que está tomando providências, mas seus funcionários nos procuram para dizer que continuam sofrendo os controles excessivos. Recebemos denúncias de funcionários com infecção urinária, depressão e síndrome do pânico que continuam trabalhando”.

Para piorar, novos problemas surgiram. No dia em que voltaram a trabalhar, funcionárias da Contax gravaram vídeo no celular em que revelam a cor marrom da água disponibilizada no bebedouro. Uma delas afirma que já pegou uma infecção por conta disso.

Os problemas de saúde foram o principal fator que motivou a interdição. Só em 2013, essa unidade recebeu mais de 23.000 atestados de afastamento devido a lesões por esforços repetitivos e doenças osteomusculares. Os auditores registraram alto índice de problemas psíquicos e identificaram grande risco para a ocorrência de problemas vocais e de audição. “São todas doenças resultantes da organização do trabalho: decorrentes de assédio moral, exigência para que fiquem sentados na mesma postura por longos períodos, ritmo de digitação acelerado”, diz Odete Reis, médica e auditora fiscal responsável pela parte de saúde e segurança da inspeção.

Sobre esses números, a juíza Camila Augusta Cabral de Vasconcellos, que liberou o funcionamento das centrais, julgou que “é plenamente possível que, em um contingente de milhares de trabalhadores, como é o caso da Contax, alguns apresentem enfermidades”. Com um prédio que abriga 14.000 funcionários, a média anual de atestados por esforço repetitivo da unidade supera o total de trabalhadores contratados. A rotatividade é alta. Isso sem contar os atestados por problemas psíquicos, de voz e de audição. A grande incidência de doenças chama ainda mais atenção quando se considera que os funcionários são jovens: 83% têm menos 30 anos.

Ana Aranha, Repórter Brasil

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Comentários

  1. Cecília Postado em 26/Feb/2015 às 11:32

    precisamos de uma nova Lei Auerea

    • Michel Postado em 27/Feb/2015 às 08:50

      Como se a Lei áurea tivesse servido pra aulma coisa...

  2. Danila Postado em 26/Feb/2015 às 11:37

    Essa porcaria de telemarketing só é vantajosa para as empresas. É prejudicial para o trabalhador, e também para o cliente. Agora entendo porque sempre sou tão mal atendida pela "Oi".

  3. Marcos Silva Postado em 26/Feb/2015 às 12:16

    Os "trabalhos" - com aspas, pois não são trabalhos de verdade - degradantes, desumanos e escravos, devem tornar-se crimes gravíssimos. É isso o que são. A iniciativa privada brasileira - da péssima e histórica má distribuição de renda, da Escravidão, da humilhação e do "poder paralelo" - já passou dos limites há centenas de anos. É necessário que haja uma conscientização geral da sociedade brasileira para acabar com esses os crimes "trabalhistas". O povo do Brasil tem que saber que é nada mais do que obrigação da empresa pagar um salário que atenda às necessidades básicas, disponibilizar um ambiente adequado para o trabalho, tratar o trabalhador com respeito e dignidade, etc. A grande mídia faz uma grande propaganda contra os serviços públicos e governos. Nós precisamos propagar todas as desumanidades e estragos gigantescos que os donos dos meios de produção causaram e ainda causam ao nosso País. Espalhem a mensagem!

  4. Jonas Schlesinger Postado em 26/Feb/2015 às 12:34

    Graças a deus que não tenho a oi, mas tenho o bradesco. E pelos céus, já fui muito mal atendido. Os Call centers (como são chamados) demoram demais no atendimento, ou dão informações erradas, ou são ignorantes... talvez nem a culpa seja dessas pessoas, mas o mau treinamento que recebem e as más condições de trabalho. Acho que não pode entrar com celular no escritório com esses computadores... a pessoa que tirou a foto se arriscou demais. E por tudo o que há de sagrado... O QUE SÃO 20 MINUTOS DE ALMOÇO! PQPARIU!

    • Gabriel Gabo Postado em 26/Feb/2015 às 13:23

      Acha 20 minutos pouco? Os bancos dão 15 minutos de almoço, e para compensar, um vale-alimentação de R$ 550 por mês. Tenho alguns amigos que ficam feliz de ter dinheiro pra gastar em restaurantes aos finais de semana, mas a maioria com problemas gástricos.

    • Thassia Postado em 27/Feb/2015 às 16:51

      Concordo que é um tempo muito pequeno para qualquer tipo de refeição, mas quanto a isso precisamos ter em mente que a empresa age conforme a legislação. De acordo com o Art. 71 da CLT, § 1º, "Não excedendo de 6 (seis) horas o trabalho, será, entretanto, obrigatório um intervalo de 15 (quinze) minutos quando a duração ultrapassar 4 (quatro) horas". Os intervalos de 10 min foram somente conquistados quando a Norma Regulamentadora nº 17 do MTE passou a vigorar - antes, nem isso. Quero deixar claro que não defendo em nada as atitudes da Contax; quero apenas levantar a urgente necessidade em se rever e atualizar a CLT, uma vez que as novas relações de trabalho não lembram em nada as relações de trabalho que embasaram a CLT, lá em 1943.

      • Andreia Postado em 28/Feb/2015 às 06:29

        Sim, infelizmente a CLT acaba colaborando para conduta opressora de empresas como a Contax. Também fiquei surpresa com a decisão da Justiça de suspender as multas, Quem vai defender os trabalhadores? Enfim, os call centers são o maior símbolo da exploração capitalista feita aos trabalhadores nos tempos atuais, enquanto isso as empresas que terceirizam o serviço como Itaú e Bradesco estão se deliciando com seus bilhões

  5. Mallu Postado em 26/Feb/2015 às 17:06

    Trabalhem, trabalhem, proletários, para fazer crescer a riqueza social e as suas misérias individuais, trabalhem, trabalhem, para que, tornando-se mais pobres, tenham mais motivo para trabalhar e para ser miseráveis. Tal é a lei inexorável da produção capitalista. Paul Lafargue

  6. Eduardo Postado em 26/Feb/2015 às 23:08

    entende a outras empresas também, inclusive do governo, não sei porque foi omitido esta informação.

  7. Cleber Postado em 27/Feb/2015 às 08:06

    Então se eu ligo para a Vivo, na vdde estou ligando para essa empresa? Quer dizer que o atendente nunca saberá resolver meu problema? Pq é permitido isso? Pq uma empresa paga outra empresa pra cuidar do seu cliente? E pq continuamos consumindo produtos destas empresas?

    • Macunaíma Prestes Postado em 27/Feb/2015 às 11:07

      Essa prática é bastante comum. Em países do tal "primeiro mundo" falantes da língua inglesa, por exemplo, quando você liga para o serviço de auto-atendimento de muitas empresas, quem atente é um funcionário trabalhando num call center na Índia. Isso somente não é prática comum nas empresas brasileiras por que não há muitos falantes do português na Índia ou em outros países com "leis de trabalho flexíveis".

  8. Gabriel Teixeira Postado em 27/Feb/2015 às 09:48

    Esse cara merece cadeia, pelo trabalho alusivo a escravidão. Baixos salários, péssimas condições de trabalho (sem poder se movimentar, sem poder ir ao banheiro, sem poder expressar sentimentos ou incômodos) um verdadeiro campo de concentração. E ainda tem a violência psicológica praticada pelos gestores, ao exercer pressão e ameaças sobre seus subordinados. Este é o padrão CONTAX.

  9. Meel Postado em 27/Feb/2015 às 09:51

    Sou trabalhadora da contax recife e estou afastada de lá pq segundo os médicos do ambulatório da contax eu estava com tendinite, passei sete meses me tratando de tendinite. Sem aguentar mais as fortes dores, procurei outro médico e quando fiz os exames descobri q era câncer e fui submetida a uma cirurgia de urgência e perdi os movimentos do ombro esquerdo, perdi 100%.

  10. Leila Postado em 27/Feb/2015 às 10:17

    Não é só na Contax, já trabalhei em telemarketing de empresa estatal (que virou economia mista depois), e é bem parecido: intervalo para alimentação de 15 min, assédio moral, "premiação" para quem não ia ao banheiro, atendimentos ininterruptos enquanto estávamos no posto de atendimento, muito estresse e doenças de todo tipo, perseguição velada a quem precisava de atestado médico, etc. Tive sorte de conseguir emprego melhor e conseguir sair de lá quase ilesa (com um pouco de ansiedade, esquecimentos e com a audição um pouco pior do que quando entrei).

    • Maria Postado em 27/Feb/2015 às 21:55

      sabe o que é pior?é que isso são técnicas modernas de gestão/administração. isso é ENSINADO e ESTUDADO. Esse abuso é disseminado e, também, defendido! ISSO É MAIS ABSURDO AINDA!

  11. abolicionista Postado em 27/Feb/2015 às 10:35

    Modelo neoliberal de empresa. 99% se esfalfa para sustentar a riqueza de 1% endinheirado.

  12. MaxvMatos Postado em 27/Feb/2015 às 10:43

    Entendo que reclamações tem que ser expostas assim como as reivindicações. Porém nós moradores do Jardim Baiano não somos obrigados ao sacrifício pelas convocações às greves pelo SINTEL, que pela manhã até as 3 da tarde com o carro de som não nos deixa escutar nada e nem ao menos descansar. O sintel por não ter poder de mobilização, oferece; bolo, picolé, chocolate e camisetas aos funcionários da Contax para convencê-los a aderir à chamada.

  13. leonardo Postado em 27/Feb/2015 às 10:55

    O mundo pelo visto não mudou nada isso nada difere de trabalhos forçados na Antiguidade, levando em conta que não havia poluição stress e outros problemas, o mundo se vocês repararem tanto importa com ou sem lei aurea continua o mesmo, sempre a classe baixa sustenta a alta no desejo de um dia se juntar e casar com ela, é uma busca pelo belo humana e inútil que continua indefinidamente indo mais longe uma busca por uma felicidade humana de papel que só existe em contrastes, qualquer pessoa mais instruída sabe que a vida aqui é temporária e que depois de bem cumprida se nasce em planetas melhores.

  14. Stella Postado em 27/Feb/2015 às 11:51

    Mas que absurdo!!! Como eles podem tratar o ser humano desse jeito??? O pior é a certeza da impunidade nesses país. Estamos em 2015, século XXI e o trabalhador continua sendo tratado com descaso.

  15. Rafael Martini Postado em 27/Feb/2015 às 16:40

    A tal "mão invisível do mercado" é a do operador de telemarketing, com tendinite e segurando um vale-refeição de sete reais.

  16. Luís Fernando Postado em 28/Feb/2015 às 12:18

    Nicooooooo!!!! Pentax! Trabalhava naaaaaaa Contax!! Nicoooo!!! Trabalho em telemarketing só aconselho para quem esteja passando fome. É um sub-emprego. Aqui em São Paulo tem vagas de sobra. É só você escolher em qual firma quer trabalhar.