Nicolas Chernavsky
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Europa 27/Jan/2015 às 14:30
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Syriza pode virar a página da era pós-guerra na Europa

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, a Europa percorreu um caminho que a tirou das trevas da destruição e a devolveu à civilização humana, mas esse caminho acabou; agora, essa península da Ásia que foi tão influente no mundo nos últimos cinco séculos precisa virar a página da “reconstrução” do pós-guerra e iniciar a página da integração não-autoritária com o resto do mundo, e a vitória do Syriza na Grécia pode ser o estopim desse processo

Syriza esquerda pós-guerra Europa

Nicolas Chernavsky*

Observando-se a história da democracia europeia, pode-se fazer uma distinção bastante clara entre alguns movimentos políticos recentes, como o Syriza, na Grécia, e o Podemos, na Espanha, e os outros movimentos políticos que algumas vez tiveram chances reais de liderar o governo de um país europeu. Uma vez que a Grécia vai ter eleições parlamentares neste domingo, não há melhor momento para analisar estes movimentos do que agora, até porque há grandes chances do líder do Syriza, Alexis Tsipras, ser o novo primeiro-ministro grego, e com maioria absoluta de seu partido no parlamento.

Que ideia está por trás do Syriza e do Podemos? Lá no fundo, o que caracteriza estes movimentos políticos? Sim, é verdade, ambos são canalizados por líderes supercarismáticos, como Alexis Tspiras e Pablo Iglesias. Mas estes líderes são justamente canais para algo mais, para uma ideia. Que ideia é essa? Para responder a essa pergunta é preciso olhar um pouco mais atrás no tempo, ainda mais atrás do que a Segunda Guerra Mundial. Aliás, bem mais atrás.

Nos últimos cinco séculos, a Europa dominou o mundo. Mesmo que há algumas décadas os Estados Unidos tenham assumido o protagonismo nesse papel, este país tem uma fortíssima influência europeia (apesar de que, de fato, há diferenças importantes com a Europa). Assim, com o fim do domínio árabe na península ibérica e o início de um período em que a China passou a ter um perfil mais baixo no panorama global, a Europa, especialmente a partir do século XVI, assumiu o protagonismo mundial. Hoje vivemos a volta da China como potência mundial de primeiro nível, além de outros movimentos de médio prazo em relação à ascensão da Índia e da América Latina (sendo que esta última não deixa de ter forte influência europeia, assim como os Estados Unidos). O fato é que, geograficamente, o fim do domínio europeu do mundo vai ficando óbvio. A península da Ásia que interessantemente é considerada por muitos um continente precisa aceitar essa realidade, aliás, muito bem-vinda.

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Mas e quanto às pessoas que moram na Europa? Como elas estão lidando com esse processo? Até o surgimento de movimentos como o Syriza e o Podemos, parecia não haver uma liderança política na Europa que entendesse este processo suficientemente. Os líderes europeus em geral ficavam discutindo como a Europa poderia sair da crise econômica e social em que se encontra sem falar do fato de que os lucros advindos do domínio do resto do mundo fluem cada vez com menos intensidade relativa para a península. Um símbolo desse processo foi que um país europeu, pertencente à União Europeia e à Zona do Euro, a Grécia, foi tratada pela própria Europa da forma que estava reservada às regiões do mundo dominadas. Foi a gota d’água: a Europa percebeu que o ciclo da dominação do mundo se esgotou, já que a Europa começava a “dominar” a própria Europa!!!

O Syriza, sob a liderança de Alexis Tsipras, tem condições de ser o estopim para um movimento de larga escala na Europa, no sentido da ascensão de governos que implementem uma nova relação da Europa com o resto do mundo, não mais de dominação, mas de integração muito mais igualitária. Só isso poderá tirar a Europa da crise econômica e social atual, permitindo que a península colabore com o resto do mundo no sentido de construir um sistema econômico mais adaptado ao desenvolvimento tecnológico da humanidade neste século XXI. Bem-vinda, Europa, a um novo tempo rumo ao futuro, com novos líderes, como Alexis Tsipras.

*Nicolas Chernavsky é jornalista formado pela Universidade de São Paulo (USP), editor do Cultura Política e colaborador do Pragmatismo Político

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Comentários

  1. Melki-Tsedek Postado em 27/Jan/2015 às 18:07

    Juro que não entendi. A Grécia deve dinheiro aos demais países (principalmente Alemanha, França e Itália) ou está sendo escravizada, humilhada, colonizada? Moratória seria a solução para "mostrar a essa Europazinha elitizada e atrasada que a Grécia e as demais nações pobres são soberanas, poderosas e lindas"?

  2. Jonas Schlesinger Postado em 27/Jan/2015 às 19:24

    Sempre haverá uma nação ou região que dominará o mundo. Hoje é os EUA e espero que seja assim por muito tempo. Voltando pra Grécia, é vdd que vai mudar muito, mas nunca deixará de fazer parte da UE. Uma potência com grande influência. Otan do mesmo jeito, só pq um partido de esquerda venceu automaticamente vai desfazer acordos? Claro que não. Portanto ainda gosto muito da Grécia (tbm por estar na Europa).

  3. Rodrigo Postado em 28/Jan/2015 às 12:31

    É uma pena que poucas pessoas conheçam este sistema de dominação que enriquece poucos e escraviza muitos. Este é sistematicamente aplicado à América Latina durante anos e precisa mudar, precisamos nos encontrar com nós mesmos e nos considerar apenas um. Só quando isto acontecer poderemos deixar de ser colônias de insignificantes.