Redação Pragmatismo
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Desigualdade Social 28/Jan/2015 às 17:49
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Por trás do discurso da "meritocracia", o nosso passado mal resolvido

O uso da “meritocracia” como verdade suprema acaba servindo a quem ignora que as pessoas não tiveram acesso aos mesmos direitos para começarem suas caminhadas individuais e que partem de lugares diferentes. Uns mais à frente, outros bem atrás

meritocracia
O discurso da “meritocracia” esconde o nosso passado mal resolvido

Leonardo Sakamoto

A palavra “meritocracia” funciona em um debate como um coringa num jogo de buraco: quando falta carta para bater, ela aparece para salvar uma sequência incompleta. Não fica lá a coisa mais bonita do mundo, mas resolve sua vida porque todo mundo aceita que aquela carta pode preencher um vazio.

“Discordo de cotas étnicas, sociais ou por cor de pele no vestibular porque defendo a meritocracia.”

“A preferência para pessoas com deficiência em seleções de contratação é, a meu ver, um erro porque não segue a meritocracia.”

“Se vivêssemos em uma sociedade em que a meritocracia valesse algo, não haveria porcentagem mínima obrigatória de mulheres candidatas em cada partido nas eleições.”

Ela acaba passando um senso de lógica, racionalidade e Justiça que ergue o interlocutor a um patamar mais elevado dos mortais. Em suma, algo do tipo “venha, querido, não se misture com essa gentalha”.

Eu não sou contra que competência e experiência individuais sejam parâmetros de avaliação. Uma coisa é o mérito em si. Outra, um sistema de poder criado em torno dele como justificativa para manutenção do status quo.

O problema é que o uso dessa palavra como verdade suprema acaba servindo a quem ignora que as pessoas não tiveram acesso aos mesmos direitos para começarem suas caminhadas individuais e que, portanto, partem de lugares diferentes. Uns mais à frente, outros bem atrás.

Achar que um estudante que comia bolachas de lama, brincava com ossinhos de zebu, andava 167 quilômetros por dia para chegar à escola e ainda trabalhava no matadouro do município para ajudar na renda da família parte com igualdade de condições com outro que frequenta uma escola com laboratórios que simulam gravidade zero e possui professores com pós-doutorado em Oxford e são remunerados à altura, que viaja para um lugar diferente todos os anos a fim de conhecer o mundo e não precisará trabalhar até o final da pós-graduação é um tanto quanto irracional.

Os dois podem chegar lá. Mas se o segundo caso cruza a linha de chegada mais vezes, o primeiro é um a cada milhão. Por isso, essas histórias são contadas e recontadas à exaustão: primeiro, nós gostamos de falar de milagres e, segundo, são histórias úteis para convencer os outros que se um consegue, todos podem.

O que não é verdade. Pois, dessa forma, jogamos a responsabilidade de erros históricos não compensados e de uma desigualdade crônica de condições nas próprias pessoas que terão que vencê-las.

Há muita gente contrária a conceder benefícios para tentar equalizar as condições de quem a sorte sorriu menos. Acreditam que a única forma de garantir Justiça é tratar desiguais como iguais e aguardar que as forças do universo façam o resto.

E esse discurso é tão bem contado que, não raro, são apoiados por pessoas que, apesar de largarem em desvantagem, venceram. “Tive uma infância muito pobre e venci mesmo assim. Se pude, todos podem.” Parabéns para você! Mas ao invés de pensar que todos têm que comer o pão que o diabo amassou como você, não seria melhor pensar que um mundo melhor seria aquele em que isso não fosse preciso? De vez em quando penso que, quando nos esforçamos, podemos ser bem mesquinhos.

Como não boto muita fé que o lema “Pátria Educadora” vá resultar em melhoria do sistema educacional público, o que ajudaria a igualar um pouco as condições, e como não é possível acabar com o direito a qualquer herança (o que, hipoteticamente levaria cada geração a começar do zero, mas destruiria a sociedade como a conhecemos), o jeito é continuar apoiando medidas compensatórias e que tratam diferentes de forma diferente.

E demonstrando muito amor e paciência com quem acha que, quem não vence, é vagabundo.

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Comentários

  1. João Paulo Postado em 28/Jan/2015 às 20:42

    A meritocracia deve ser discutida olhando um ou dois séculos atrás. Como se conseguia terras e riquezas naquelas épocas? Compravam em financiamentos de 35 anos um espaço de 50 m2? Todos trabalhavam? E os escravos, o que recebiam pelo trabalho que prestavam? Quais eram os méritos? Quais descendentes se favoreceram com isso?

  2. poliana Postado em 28/Jan/2015 às 22:43

    124 bilhões em prejuízo oriundo da privataria tucana e nenhum retorno em políticas sociais compensatõrias. Apenas enriquecendo mais ainda a fortuna de uma pequena minoria desse país...isso com certeza tb n foi meritocracia, hein, seu hipócrita!!! Indignação seletiva eh osso!!!!!

    • Silva Postado em 29/Jan/2015 às 00:18

      124 bilhões? Qual a fonte dessa informação? Pq mesmo com o PT no poder a mais de 10 anos nunca houve uma pressão por parte do governo para apurar as informações contidas no livro A Privataria Tucana escrito pelo “jornalista” Amaury Ribeiro Jr. que foi indiciado por 4 crimes, pela Polícia Federal em Outubro de 2010? Será que o Ministério Público e a Polícia Federal são constituídos por tucanos reacionários anti-PT?

    • poliana Postado em 29/Jan/2015 às 03:01

      Imagina silva...vc tá certo. Eh tudo invenção do pt. Nunca houve qq desvio durante a era tucana, e todo dinheiro arrecadado com as privatizações foram destinados à investimentos em políticas sociais. Foi uma grande era para o brasil. Deixou muita saudade o período em q o príncipe foi o nosso presidente. Vc ta certo...todos esses dados são falsos e o livro eh uma mera obra de ficção.

    • Silva Postado em 29/Jan/2015 às 08:03

      É serio, esse é o seu melhor argumento? Eu apenas solicitei a fonte das informações, não afirmei que naquela época não houve corrupção. Se vc deixasse de ler a cartilha do PT e estudasse a situação micro e macro econômica do país quando o FHC assumiu a presidência, quem sabe vc entenderia o que de fato aconteceu ao invés de ficar repetindo o discurso ptista.

    • Diego Postado em 29/Jan/2015 às 12:05

      Silva, sério mesmo que você acha que as fontes serão encontradas facilmente no google ou ferramentas correlatas? Sério mesmo que você acredita que houve negociação fidedigna na Vale do Rio Doce, vendida por 3 bilhões de reais, avaliada na época em 92 bilhões e hoje em dia em 300 bilhões? É muita inocência de sua parte. Tivemos um pico no número de desempregados e miseráveis no final da década de 90. Além disso, no último mandato de FHC o real se desvalorizou a ponto de 1 dólar valer 4 reais. Lembro de meus amigos procurando emprego, pais de família, andando 10 km ou mais a pé, no sol quente, pois não tinham dinheiro sequer para pagar o ônibus e entregar currículos nas empresas, afinal, tínhamos 12% de desempregados. Me desculpe meu caro, que o PT e praticamente todos os outros partidos - inclusive o PSDB - se beneficiaram do esquema da Petrobras eu não nego, entretanto, achar que houve honestidade durante a era tucana no governo federal e durante as privatizações, é no mínimo ufanismo da sua parte.

    • Caio Postado em 29/Jan/2015 às 15:54

      Poliana, é doentio pensar que não se quer ver TODOS OS CORRUPTOS presos e condenados, você não está acima da justiça, logo, ainda que seja verdade o que diz, cabe a justiça julgar, e, isso não livra a cara de quem apoia os canalhar. Outra coisa que você precisa saber, ainda que seja verdade isso, é a mão do estado intervindo!!! Lembre-se que, PSDB e PT são filhos do mesmo pai.

    • Silva Postado em 29/Jan/2015 às 19:55

      Diego, por favor, aponte nas minhas respostas algum trecho onde eu afirmo que houve uma “negociação fidedigna” na privatização das estatais? Como uma pessoa faz uma afirmação (140 bilhões) com base em informações sem credibilidade? Como eu posso levar a sério um argumento baseado no famoso “eu ouvi dizer”? Você realmente acredita que o Brasil mudou do dia para noite, que tudo aconteceu de um ano para o outro? Você ao menos sabe o que aconteceu com o país a partir da década de 70? Faça-me um favor, analise o cenário macro e micro no primeiro mandato do Lula e compare com o primeiro e segundo mandato do FHC, além dos desafios que ambos tiveram que enfrentar durante o seu governo. E para finalizar, sim, muitos erros foram cometidos durante o período FHC, além de corrupção, mas hoje vejo o governo cometer erros crassos e ter companheiros envolvidos com escândalos de corrupção, e o que a militância faz... NADA.

    • eu daqui Postado em 30/Jan/2015 às 09:42

      E por que então tanto a tucanalha quanto os petralha foram os que chegaram ao segundo turno? A mim parece que brasileiro gosta da corruptocracia.

    • Thiago Teixeira Postado em 30/Jan/2015 às 12:14

      Poliana, esqueça esses vigilantes de sites de esquerda, eles perderam as eleições e ficarão até 2018 jogando areia no Chopp.

    • Preto Velho Postado em 22/Oct/2015 às 17:02

      Leiam o livro "A Privataria Tucana", coxinhas. Depois voltem aqui para defender as privatizações.

  3. Melki-Tsedek Postado em 28/Jan/2015 às 22:58

    "um estudante que comia bolachas de lama" <-- Isso aqui realmente é a realidade da sua cidade ou de qualquer lugar que vc conheça ou é o mesmo discurso mentiroso dos que fingem não entender o que seria "meritocracia"? Um exemplo decente para explicar meritocracia seria o de Suzanne Louise von Hitchthofen - a assassina do Brooklin - e seu irmão Andreas. Ambos tiveram as mesmas condições, mas ela se tornou uma assassina e estragou a vida e ele se tornou professor universitário, após perder sua família numa grande tragédia. Hj em dia, todo mundo tem acesso a informação e os meios para estudar e tentar melhorar de vida, mas uns preferem jogar bola e empinar pipa a estudar e ainda ensinam seus filhos a jogar a vida fora dessa maneira. Uns usam a internet para redes sociais e para "debater", outros usam para fins educativos. Podemos assistir aos mesmos filmes estrangeiros, uns, à versão dublada, outros, à versão legendada pq é uma oportunidade para estudar o idioma. Uns vão para baile funk, outros para a igreja. Uns acham que não tem tempo para nada, outros arrumam tempo para o que importa.

    • José Ferreira Postado em 28/Jan/2015 às 23:58

      Concordo com você Melki. Pena que o Sakamoto não vai saber o que você disse, pois ele não lê os comentários. Ele mesmo confessa que tem ouvidos moucos e seletivos.

    • Vicente Postado em 29/Jan/2015 às 08:08

      "Hj em dia, todo mundo tem acesso a informação e os meios para estudar e tentar melhorar de vida, mas uns preferem jogar bola e empinar pipa a estudar e ainda ensinam seus filhos a jogar a vida fora dessa maneira". Melki, essa sua afirmação é verdadeira (para algumas pessoas), mas não resolve o problema da meritocracia: como eu, trabalhando o dia inteiro e estudando à noite vou concorrer em um vestibular contra jovens que estudam pela manhã e à tarde e que à noite descansam? Todos tem acesso, mas as condições não são as mesmas.

      • Yallen Postado em 29/Jan/2015 às 11:18

        As condições não são as mesmas é fato, porém não se deve pregar a uma sociedade que o Estado tem que provir tudo, isso tira do individuo a ideia que ele tem que trabalhar para conquistar, além do mais a vida é feita de escolhas e atitudes, se quero algo tenho que fazer por merecer, mesmo sabendo que existem pessoas que tem aquilo de forma mais fácil, não é por que o Bill Gates é rico que vou exigir do Estado que me dê as mesmas condições de ter a vida que ele tem, além do mais essa historia de nascer em berço de ouro, tem que se entender que aquele berço não se formou de uma hora para a outra, famílias ricas normalmente tem uma historia de gerações de trabalho, então tem que se entender que a desigualdade sempre vai existir de uma forma ou de outra, então sim a meritocracia é o caminho certo, se você quer ter algo, corra atrás e vença as adversidades,não espere por ninguém, corra atrás, a responsabilidade de seu sucesso só depende de você.

      • Melki-Tsedek Postado em 31/Jan/2015 às 11:05

        "À noite descansam" <-- já identifiquei pelo menos um erro seu aqui. Quem quer passar em vestibular para certas vagas tem de estudar de 10 a 16 horas por dia. Todos os que são contra essa questão de mérito pq aprenderam a rezar cartilha de partido e tal, precisam aprender a se sacrificar. Se vc não tem mesmo condições de estudar tanto quanto um rico, vai ter de se sacrificar de outras maneiras, vai ter de prestar vestibular para outras universidades, talvez em outros estados. Se vc trabalha e estuda, vc faz como a maioria. Se vc trabalha, estuda e assiste tv, joga videogame, lê 50 tons de cinza, passa uma hora por dia na internet, etc, vc não tem de passar em vestibular nenhum. Nem todo mundo precisa ter ensino superior para ter sucesso na vida tb. Vc pode ser um empreendedor começando por outros caminhos.

  4. Félix Postado em 29/Jan/2015 às 08:43

    Soma aí os dois mandatos de FHC quando a propina era de 10%. 7% mais meritocrático! rsrsrs http://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/11/empresario-tucano-nunca-se-roubou-tao-pouco.html

    • Silva Postado em 29/Jan/2015 às 10:36

      http://lucianoayan.com/2014/11/21/nunca-se-mentiu-tanto-para-esconder-a-corrupcao-petista-ou-o-esforco-indigno-de-ricardo-semler-na-defesa-do-indefensavel/

  5. eu daqui Postado em 29/Jan/2015 às 11:00

    Não se pode falar em meritocracia sem antes democratizar oportunidades e condições. Mas também não se pode falar em justiça se o mérito não constar da lista de parâmetros.

  6. Roberto Pedroso Postado em 29/Jan/2015 às 12:08

    Quatrocentos anos de escravidão trezentos anos de colonização juntamente com a abolição da escravidão realizada de forma a transformar os escravos recém libertos em cidadãos de segunda classe ao invés de se realizar um esforço coletivo no sentido de integrá-los ao contexto da nova sociedade que se formava,tudo isso contribuiu para o estabelecimento do esteio imoral e conceitual do segregacionismo que sempre pautou as estruturas e relações sociais em nosso País, esses ecos históricos perduram até hoje e mesmo com tentativas de se aplicar ações afirmativas formuladas para tentar reduzir os princípios de desigualdade e segregação que regem a nossa sociedade assistimos sempre uma oposição severa por parte de setores mais conservadores que sempre lucraram ou se beneficiaram diretamente com isso.Talvez alguns careçam de um estudo mais apurado da estruturação social de nosso País bem como os fatos históricos que reverberam até os dias atuais,não podemos tomar a exceção a regra como um exemplo de "superação",todos deveriam ter desde a mais tenra infância igualdade de oportunidades e condições para estudar, crescer e se desenvolver sem necessariamente ter que se sacrificar,pois nesta situação é onde reside o verdadeiro nó górdio de nossa sociedade; constatamos portanto que o discurso da meritocracia é confortável e palatável a uma parcela alienada de nossa sociedade ( talvez a classe média a qual Marilena Chaui se referia?),tão desprovida de conhecimento acerca dos problemas sociais de nosso País suas origens,causas e seus reflexos.

  7. Rodrigo Postado em 30/Jan/2015 às 10:30

    Se o governo tem que investir no social concordo que tenha que haver medidas compensatórias como cotas em universidades (ja que todos contribuímos e apenas as classes mais altas usufruem) e outros ações politicas sociais focalizadas e de transferencia de renda. Mas a questão principal é o motivo de toda essa desigualdade de renda e oportunidades. Analisar causa e consequencia não é o forte dos socialistas. O motivo de termos toda essa desigualdade é justamente a falta de meritocracia durante toda a nossa sociedade, baseada apenas em força e guerras, onde existem vestígios até hoje, pois como todos sabemos no Brasil baste ter algum contato com o governo que voce se dará bem. Essa é a grande questão, no Brasil os ricos nao tem o merecimento, o melhor investimento é um contato com o governo e isso sim tem que acabar, as pessoas devem receber pelo que produzem. Isso não será prejudicial para os que tem menos como essa reportagem tenta nos dizer, muito pelo contrario pois com a meritocracia eles podem melhorar o padrão de vida e um dia chegar na classe alta (algo impossivel a alguns anos), e para acabar com o status quo onde as pessoas nao precisam de nenhum merito, apenas um contato. Os mais ricos do Brasil são todos ligados ao governo e pegam dinheiro do BNDES (nosso dinheiro) e com isso tem a melhor vantagem competitiva do Brasil, acabando com as oportunidades das pequenas empresas em competir e ganhar espaço no mercado, tornando o Brasil um pouco mais eficiente e igual.

  8. Carlos Postado em 30/Jan/2015 às 12:06

    As cotas (apenas na área educacional) devem ser sociais e não raciais. Pobre é pobre e passa pelas mesmas agruras seja ele preto ou branco. Já as cotas na área trabalhista não se justificam. Ou será que o preto pobre precisa mais de um emprego do branco miserável.

    • Thiago Teixeira Postado em 30/Jan/2015 às 12:12

      Por favor, pare de se autoconvencer que racismo não existe. Tem uma vaga de recepcionista no seu consultório, quem você vai contratar? A loirinha ou a neguinha? As duas moram no Capão Redondo, e ai? Você acha que negros e brancos pobres são iguais? Fez o teste do pescoço? Não vou perder meu tempo com essa discussão. Cotas não vão resolver o problema e muito menos prejudicar os brancos, pois as vagas e melhores salários no mundo privado estão reservadas para vocês.

      • B. Ferreira Postado em 22/Jun/2015 às 12:25

        SENSACIONAL, Thiago!

  9. DOMENICO Postado em 31/Jan/2015 às 06:56

    ISSO E MERITOCRACIA DE TODOS OS PARTIDOS. TODOS SEM EXCESSAO, INFELIZMENTE.

  10. Jose Antonio Postado em 24/Oct/2015 às 11:30

    Deixa de ser imbecil. Até para ser idiota deveria ter limite. O assunto foi bem exposto para o debate, mas intolerantes, burros e midiotas como voce preferem fugir do debate. Medíocre.