Redação Pragmatismo
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Rio de Janeiro 26/Jan/2015 às 22:32
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A história mal contada do assassinato de Patrick, 11 anos

O caso de Patrick, criança de 11 anos assassinada em uma favela no Rio de Janeiro, já foi esquecido pela grande mídia. A PM alegou ter encontrado com o menino uma pistola, drogas e um rádio transmissor. Será mesmo?

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Criança de 11 anos morre em uma favela do Rio de Janeiro. Estarrecido por ver que o caso está sendo esquecido pela grande mídia, quero aqui descrever, com muito desconforto, o que está sendo o extermínio do povo da favela.

Quando há um caso como o do menino Patrick, vemos o futuro da favela ser exterminado junto com ele. A criança de apenas 11 anos, morreu a tiros na manhã de quinta-feira (15), na comunidade Camarista Méier, Zona Norte do Rio. A incursão da polícia na favela tirou a vida de um menino e alegou ter com ele uma pistola, uma mochila com drogas e um rádio transmissor.

Ainda para elucidar o caso, segundo o jornal O Dia, o pai da criança afirma que não havia qualquer pistola perto do corpo logo depois que o menino foi baleado. O caso foi registrado na 25ª DP (Engenho Novo), que descreveu o caso como morte decorrente de intervenção, ou seja, mais um auto de resistência.

O que me deixa estarrecido, como falava no inicio do texto, é a naturalização da violência. Uma CRIANÇA de 11 anos foi morta a tiros e a população não se incomoda com isso. Ao saber do ocorrido fiquei com uma dor horrível, me frustrei e me perguntei se a sociedade sentiu a dor que eu estava sentindo. Pelo jeito não.

Pouco importa para a sociedade se mais um negro foi morto na favela. Foi só mais um dos milhões que a política de segurança quer exterminar. Acho que na verdade foi menos um. Menos um que não vai para o asfalto para roubar o playboy. Menos um que não ira ser o assaltante que roubou o empresário, que sequestrará o seu filho. Foi só menos um que não vai tirar a vaga do seu filho branco na universidade.

Leia também: Negros têm 2,6 vezes mais chances de morrer do que brancos no Brasil

Quando uma criança negra da favela morre desta forma, vemos nitidamente as faces do racismo institucional. Historicamente a criminalização da pobreza esconde as tragédias que são cotidianas dos moradores das comunidades periféricas. Se Patrick estava ou não envolvido com o caso não cabe a mim julgar, mas caracterizar o ocorrido como pena de morte para um menino de 11 anos é, no mínimo, um problema de saúde mental e um grande complexo de divindade.

Perdemos mais uma criança para a violência, mais uma que pode vir a ser julgada de ‘menos uma’. Me pergunto: Patrick se continuasse vivo seria um perigo para a sociedade? O futuro de uma criança negra da favela é mesmo julgado pelos registros de violência na comunidade? Sinceramente, gostaria de falar que na favela os sonhos são cortados na sua raiz e poucos são os sobreviventes desta guerra. Patrick foi a vítima da vez. Quem será o próximo?

Walmyr Junior, Jornal do Brasil

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Comentários

  1. Priscila Postado em 27/Jan/2015 às 09:23

    Lamentável como esses casos são ignorados. É muito fácil plantar uma arma para justificar o ocorrido... Revoltante!

  2. Félix Postado em 27/Jan/2015 às 09:40

    Ficamos menos tristes quando morre um negro. É como se já esperássemos e por isso pouca ou nenhuma indignação. O racismo já nos dominou, nos modificou, se institucionalizou. Algum padre, pastor, filósofo, professor, precisa avisar que um menino negro de 11 anos é apenas uma criança.

    • eu daqui Postado em 27/Jan/2015 às 12:07

      Tem que ser muito fracassado, e por mérito, pra conceber que alguém pode não se sensibilizar com o trucidamento de um menino de 11 anos. Nem vou perguntar sua raça/cor pq alguém que fica atribuindo, a torto e direito, a própria imundície aos outros pertence a subraça dos psicopatas.

      • jarbas Postado em 27/Jan/2015 às 19:39

        lamentável. isso é o brasil? aposto que não! porem é um brasil que não gostamos de lembra e se possível é "melhor" esquecer... não tem como por que sua sombra tende a atormentar a vida dos vivos!

      • Félix Postado em 28/Jan/2015 às 08:22

        Somos então racistas e por consequência psicopatas. Ficar indignado aqui nos comentários já é um começo. Você compareceu ao protesto pela morte deste menino? Lógico que não. Nem houve manifestação. E na manifestação pela morte do surfista? A imprensa cobriu, foi emocionante. EU DAQUI também fiquei comovido! Daqui, por lá eu não fui! Minha psicopatia impedia.

    • Andréa Postado em 28/Jan/2015 às 10:34

      Pois é, Félix, a ferida está aberta. E não é o fato de que a a ferida está aberta e exposta que deixa as pessoas indignadas. É o fato de que alguém vai lá e enfia o dedo nela. Patrick não é o menino Bernardo. Não é branco como o menino Bernardo. Se acham um bebê branco no lixo, toda a imprensa cobre e alardeia, uma nação inteira deseja adotá-la. Se acham um bebê negro, é só mais um, que vá para algum lugar ( longe dos meus olhos ou da minha responsabilidade ) quiçá ser criado como bicho. As pessoas entendem que enfiar o dedo na ferida é uma agressão, e não uma denúncia. Falar a verdade é coisa que agride os ouvidos sensíveis da nossa grande massa hipócrita.

  3. Cebola Postado em 27/Jan/2015 às 12:34

    Dr. Orlando Zaccone explica o que ocorreu nesse caso, e em inúmeros outros...

  4. João Paulo Postado em 27/Jan/2015 às 13:49

    Olha não creio em nada até que me provem o contrário, porém ao meu ver, não importa se a criança estava armada ou não, e se, supostamente estivesse mesmo armada, como é bem provável se começarmos a fazer várias conjecturas, nada mais seria do que reflexo direto de um povo mal cuidado e esquecido pela sociedade, sempre morando em morros, becos, mananciais, beira de rios, e córregos, com falta de saneamento básico velho!!!! E pessoas se martirizando com o racionamento vindo por aí e que vão ficar sem água... enquanto boa parte das pessoas nos grandes centros urbanos, em todos os tipos de periferia, enfrentam essa realidade quase que quotidianamente. Não dá pra julgar a polícia em si, são robôs alienados à situação moldados através de um discurso cercado de falácias, "seguidores de ordens", reflexo de uma ditadura recente num país sem memória, e muito menos podemos julgar o tráfico de drogas nas periferias, pois seria coincidência o tráfico coexistir nas comunidades carentes, ou será que nas classes mais altas é feito vista grossa? Afinal eu posso pensar e chegar na conclusão que sempre tem alguém ganhando dinheiro com drogas, armas, etc... envolvimento político por trás financiando será isso? Gente de alto escalão na alta sociedade, nos governos? Vários escândalos políticos acontecendo há mais de vinte anos, desde as Diretas Já, praticamente. Sempre tem um Peixe Grande... Chega de "Guerra às Drogas"!!!! Me lembro bem nos debates políticos nas eleições passadas a emissora Rede Globo dizendo: "Agora nossa próxima pergunta que vai para o candidato XYZ, o assunto é... (sorteando) ... "GUERRA ÀS DROGAS"" e não é que estava escrito mesmo isso no papel do mediador do debate... Fiquei maluco quando pensei o quanto essa mensagem "subliminar" continua sendo inserida na mente da população. Chega dessa palhaçada na nossa sociedade, vamos pensar, refletir, argumentar honestamente, compartilhar conhecimento, tocar na ferida, vamos mudar de opinião se for o caso, vamos ser humildes nessa jornada e vamos juntos, unidos, enriquecer culturalmente nossa sociedade brasileira com mais amor, mais igualdade, mais justiça, e muito mas muito mais educação e participação de nós mesmos. Não cobre a mudança no outro antes de começá-la em si mesmo. E quem sabe assim podemos ter um pouco de respeito e paz.

  5. josue ferreria Postado em 27/Jan/2015 às 14:23

    O que pode estar por tras disso poderia ser a recusa do menino em roubar e compartilhar o lucro com o policial. Ou a falta de algum pagamento que geralmente o policial criminoso e corrupto cobra para permitir que certas criaturas possam ir e vir no seu dia a dia. Esse tipo de policial, geralmente tem sido mantido e protegido pela bancada da bala que controla o congresso brasileiro e impede qualquer atitude positiva dos direitos humanos e ate mesmo ridiculariza aos que denfendem os direitos de liberdade e protecao a vida. A grande midia ganha com isso ao proteger os mesmo e tambem por esconder as verdades e institucionalizar as mentiras. Ta passando da hora de democratizar o sitema de comjnicacao e inforamacao brasileiro!

  6. Leopoldo Postado em 27/Jan/2015 às 16:22

    A pergunta "Patrick se continuasse vivo seria um perigo para a sociedade? " não deve nem ser cogitada. Independente da resposta, a a pena de morte é ilegal em nosso país, e onde ela é legal, é , sob muitas interpretações, imoral.

  7. J Junior Postado em 27/Jan/2015 às 16:39

    Um menino negro morto na favela por policiais corruptos não é notícia. Se fosse branco teria cobertura um pouco maior. Mas se fosse branco classe média morador da zona sul , seria noticia por um mês. Cansado desse imprensa hipócrita e tendenciosa e parte de nossa sociedade racista e mal informada.

  8. O livro de ouro Postado em 27/Jan/2015 às 17:20

    Perdeu-se os valores e virtudes da vida, esse era o sonho do iluminismo, o homem puro e bom. Mas qual é acor a classe social de quem mata? http://liberal.com.br/noticia/FC293A56859-marido_mata_mulher_a_facadas

  9. Ágapo Abdellcader Postado em 28/Jan/2015 às 07:56

    Não é a primeira e nem será a ultima vez que casos como esses ocorrem nas favelas. Lamentar somente, não muda a historia de ninguém, o mundo precisa de menos gente revoltada e mais gente revolucionaria que arregace as mangas e comece a mudar a realidade desse quadro a partir de seu próprio prisma de enxergar a vida.

  10. Husani Ahmadu Postado em 28/Jan/2015 às 11:45

    quem vai ser o proxímo!?simples...outro preto!

  11. Luh Souza Postado em 28/Jan/2015 às 16:48

    ESTADO POLICIAL "Depois que a polícia convence o público branco de que o negro é um elemento criminoso, a polícia pode chegar e interrogar, brutalizar e assassinar negros desarmados e inocentes. E o público branco é manipulável o bastante para lhes dar apoio. Isso faz da comunidade negra um Estado Policial. Isso faz do bairro negro um Estado Policial. É o bairro mais patrulhado. Tem mais polícia que qualquer outro bairro e ainda assim tem mais crimes que qualquer outro bairro. Como pode ter mais policiais e mais crimes? Como pode? Isso mostra que a polícia deve estar envolvida com os criminosos." MALCOLM X