Redação Pragmatismo
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Terrorismo 13/Jan/2015 às 12:54
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"Eu não sou Charlie. Sou Maomé. É impossível ser os dois"

Em escolas francesas, jovens de origem muçulmana rejeitam homenagem à 'Charlie Hebdo'. Entre adolescentes da periferia houve boicote ao minuto de silêncio e críticas ao conteúdo da revista

je suis charlie hebdo
“Eu não sou Charlie”: luto não é unanimidade entre adolescentes franceses de origem muçulmana (reprodução)

Amanda Lourenço, Opera Mundi/Paris

Quinta-feira, ao meio-dia, a França fez um minuto de silêncio em homenagem às vítimas do ataque terrorista que deixou 12 pessoas mortas no dia anterior. Os transportes públicos fizeram uma breve pausa e os museus ficaram silenciosos. Todos os prédios públicos participaram. Em algumas escolas, porém, foi mais complicado. “No meu colégio muitos alunos não queriam fazer um minuto de silêncio, fizemos porque fomos obrigados. Outros decidiram ler um livro durante esse tempo”, diz Sarah, estudante de 16 anos.

Sarah, que não quis ter identidade e imagem reveladas, disse ao portal Opera Mundi que aquele minuto de silêncio significava um “encorajamento à provocação”, fazendo referência à linha editorial do revista satírica Charlie Hebdo, principal alvo dos ataques. Muitos jovens admitiram que o atentado foi equivocado e que um verdadeiro muçulmano não deve matar ninguém, mas, ao mesmo tempo, ressalvam: “eles procuraram”.

Em escolas da periferia de Paris, com grande concentração de alunos de origem muçulmana, a rejeição à homenagem foi mais frequente do que as autoridades gostariam. Em uma turma, apenas um quinto dos alunos aceitou fazer o minuto de silêncio. Um pacote suspeito com a frase “Je ne suis pas Charlie” (Eu não sou Charlie) foi encontrado na sala dos professores de um dos colégios. Não havia nenhuma bomba dentro, apenas fios e detonador.

A mobilização nacional contra os ataques terroristas parece unir todas as instituições francesas e europeias, inclusive as muçulmanas, porém o luto não é uma unanimidade entre os adolescentes, especialmente os de origem árabe. “Eu não sou Charlie, eu sou Maomé”, afirmou Mina, uma jovem de 18 anos. “E é impossível ser os dois”, completa. Ela acha incoerente ser muçulmana e ao mesmo tempo defender uma revista que satirizava sua religião. Perguntada se a punição pelas caricaturas não foi rígida demais, Mina responde: “Você ainda não viu nada”.

Por trás de posturas tão determinadas, há muitas vezes certa ingenuidade. Uma professora escreveu nas redes sociais que o que mais a impressionava é que os estudantes não sabiam exatamente o que tinha acontecido. Alguns sequer tinham visto os polêmicos desenhos. Em uma página do Facebook que critica as charges da revista, é possível ver a confusão dos participantes, que perguntam se Charlie é uma das vítimas e por que só o nome dele é citado.

Neste contexto, Patrick Teulade, diretor regional de educação de Nancy-Metz, em declaração à imprensa francesa pediu cuidado na “interpretação de atos de provocação adolescente diante da figura de autoridade” afirmando que “pode ter ocorrido uma confusão dos jovens entre ato de submissão e ato de respeito”.

Le Pen n’est pas Charlie

Os adolescentes de origem muçulmana não são os únicos a rejeitar Charlie. O fundador do partido de extrema-direita FN (Frente Nacional), Jean-Marie Le Pen, pai de Marine Le Pen, atual presidente da legenda e candidata à presidência nas próximas eleições, também anunciou que não apoia a mobilização em torno da revista: “Desculpe-me, mas eu não sou Charlie. Sinto, sim, a morte de 12 compatriotas franceses, apesar de suas posições políticas. Eles eram inimigos do FN e pouco tempo atrás fizeraram uma petição pela dissolução do partido”.

A Frente Nacional não foi convidada para a marcha que acontecerá neste domingo, em Paris. A situação é singular, já que, ao mesmo tempo em que o contexto político do terrorismo favorece a popularidade da extrema-direita, as vítimas eram grandes críticos do FN e seria contraditório a presença de Marine Le Pen em tal ato de homenagem.

No Brasil há um movimento considerável contra-corrente que questiona a legitimidade das caricaturas publicadas por Charlie Hebdo e que também se apropriou da hashtag #JeNeSuisPasCharlie. Muitos críticos acham que a revista ultrapassou os limites do bom senso e que a liberdade de expressão não justifica desenhos que consideram ofensivos.

Já na França, palco dos acontecimentos, a conjuntura é outra. Pouco se fala em conteúdo ou qualidade, o debate é focado na liberdade. Por isso, até o momento não há nenhuma grande mobilização contra as homenagens além dos jovens de origem muçulmana.

VEJA TAMBÉM: O desenho premonitório do diretor do Charlie Hebdo

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Comentários

  1. Caio Postado em 13/Jan/2015 às 15:01

    Parece que os próprios sobreviventes são contra as manifestações. Um deu entrevista repudiando o apoio interesseiro de políticos.

  2. Eudson Postado em 13/Jan/2015 às 15:15

    Como voltar para o lugar onde se é bem tratado se é justamente isso que a Europa tirou de árabes, africanos e asiáticos durante o neocolonialismo do século XIX e XX?

    • Luiz Postado em 13/Jan/2015 às 21:49

      Fale-me mais sobre imperialismos. Que tal falar dos turcos otomanos que atacaram Viena? Que tal falar do califado que atacou a Península Ibérica e quase conquistou a França? Que tal falar dos árabes quando atacaram o norte da África e obrigaram todos a se converterem a sua religião? Não são só os europeus os escrotos nessa história meu caro...

  3. Renato Postado em 13/Jan/2015 às 15:30

    Por que eles voltariam? A maior parte dos paises europeus pagam bolsas e ficam sustentando eles em seus países.

  4. Kelsen Postado em 13/Jan/2015 às 15:52

    Qualquer um tem direito a falar o que quiser. Se não concorda não compre, não leia, não divulgue, ridicularize ou tente combater por meios legais, simples assim. Outra coisa, os dogmas de qualquer religião só são válidos para quem é de tal religião e mesmo assim, como qq um pode perceber, a maioria que segue qq religião tb não respeita a maioria destes dogmas arcaicos. Pode-se ver isto em matanças por aí que são feitas contra os próprios muçulmanos (Síria, Iraque, Nigéria, etc) que não são considerados fiéis o suficiente pelos grupos radicais. Enfim, JesuiCharlie não quer dizer que vc concorde com o conteúdo da revista e sim com o fato de que todos tem a liberdade de dizerem oq bem entendem. Muita coisa ruim já foi feita em nome da religião (TODAS ELAS) e isso sim não faz sentido algum. Ter a habilidade/capacidade de ser contrariado e rir ou não ligar é oq deveriamos fazer.

    • ademar Postado em 13/Jan/2015 às 18:35

      Boa análise, gostei da parte que diz : "Enfim, Je sui Charlie não quer dizer que vc concorde com o conteúdo da revista e sim com o fato de que todos tem a liberdade de dizerem oq bem entendem". Vem da mesma França o filósofo Voltaire: "Posso não concordar com nada do que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dize-las"

    • rafa Postado em 15/Jan/2015 às 02:15

      bem argumentado, kelsen. jamais se deveria atacar charlie hebdo - deveriam atacar quem ataca crianças mundo árabe afora, na líbia, na síria, no iraque, no afganistão: EUA-OTAN - mas nao o povo, só os generais, os políticos beligerantes, os fabricantes de armas, os financiadores da guerra.

  5. Bryan Ferreira Postado em 13/Jan/2015 às 16:11

    Tambem não sou Charlie... Sou absolutamente contra a violência, e a favor da liberdade de expressão, porém, tenho certeza que houve um exagero por parte dessa revista, um exagero que não caracteriza necessidade de violência, mas também não é digno de tantas "homenagens" recebidas... Mas que aproveitemos o momento para tentar entender melhor o lado do próximo em qualquer discussão, principalmente as de nível mundial, para que não aconteçam mais problemas simples sendo resolvidos com violência.

    • rafa Postado em 15/Jan/2015 às 02:17

      o problema é simples?

  6. Priscila Postado em 13/Jan/2015 às 16:29

    Oportunismo é o que mais rola diante deste acontecimento...

  7. Daniel Postado em 13/Jan/2015 às 18:33

    http://m.cdn.blog.hu/an/antivirus/image/201112/zin1.jpg

  8. Rogerio Postado em 14/Jan/2015 às 10:14

    Ser contra o assassinato dos cartunistas está sendo confundido com apoiar ofensas. Nem uma coisa nem outra. Só psicopatas doentes apóiam a xenofobia, racismo, homofobia ou outra forma de preconceito.

  9. poliana Postado em 14/Jan/2015 às 11:57

    nenhum direito é absoluto! se nem o direito a vida é absoluto, pq o seria a liberdade de expressão! tudo tem limite! por acaso a liberdade de expressão está numa redoma inatingível, e por causa dela podemos falar o q quisermos?! já ouviram falar em bom senso? no direito costuma-se usar o binômio razoabilidade + proporcionalidade. por acaso a liberdade de expressão vem sendo utilizada de forma razoável e/ou proporcional mundo a fora? NADA JUSTIFICA UM ATAQUE TERRORISTA, mas em nome da liberdade de expressão, n devemos sair por aí ofendendo as pessoas, tripudiando da fé alheia, e ridicularizando a tudo e a todos! dizer q é algo simples, basta procurarmos o judiciário pra punir os excessos, é um tanto qto leviano e cruel (como se a resposta do judiciário ocorresse da noite pro dia, hein?!). qdo a ofensa é com o vizinho, podemos ter senso de humor e rir de tudo, em nome da liberdade de expressão né?! mas qdo essa tal liberdade nos atinge, será q é tão engraçado assim? já viram um vídeo de um "comediante" no youtube, em q ele ridiculariza as pessoas excepcionais? a APAE precisou entrar nessa história...será q devemos tolerar e aceitar isso como comédia, em nome da liberdade de expressão? e qdo um outro comediante chama negros de macacos, tb devemos rir e achar o máximo!? se um negro se incomodar, q vá pro poder judiciário pedir indenizaçãao? é algo simples assim??? mais uma vez,NADA JUSTIFICA UM ATAQUE TERRORISTA, mas esse ataque ao charlie foi apenas a ponta do iceberg (como o próprio pp já falou a respeito). as pessoas colhem o q plantam! da mesma forma q querem colocar a liberdade de expressão num patamar inatingível, como sendo um direito absoluto, então tb aceitem o fundamentalismo religioso como tal e q deve tb ser respeitado!!! sabe akela história da ação e reação!!??? ou melhor, a lei do retorno!!!??? pois...continuem achando q a liberdade de expressão é um direito absoluto e uma permissão para ofender, tripudiar e fazer piada de tudo e de todos, principalmente de uma minoria, mas depois aguentem as consequência. definitivamente, EU TB N SOU CHARLIE!

    • rafa Postado em 15/Jan/2015 às 02:24

      bem argumentado. claro q nao era charlie q deveria ter sido atacado, e sim o capital bélico e seus sus-tentáculos

    • poliana Postado em 15/Jan/2015 às 06:49

      Consequências*

  10. Guilherme Freitas Postado em 14/Jan/2015 às 15:02

    Amigão, esses jovens são FRANCESES. Nasceram e estudam no país, falam a língua, consomem cultura francesa em sua vida. Portanto não tem como eles voltarem. Entendeu? É a nova identidade cultural europeia.