Redação Pragmatismo
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Educação 09/Jan/2015 às 16:42
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Esquema de violência na Faculdade de Medicina da PUC envolve médicos formados

Estudantes detalham esquema de violência física e de humilhações na Faculdade de Medicina da PUC. Estrutura de poder baseada na hierarquia conta com a participação de médicos formados e alunos veteranos

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Alunos denunciam trotes violentos na Faculdade de Medicina da PUC-Campinas (Imagem: Pragmatismo Político)

Em longo depoimento na CPI instalada na Assembleia Legislativa para apurar violações dos direitos humanos e outras ilegalidades nas universidades de São Paulo, alunos da Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica (PUC)-Campinas denunciaram hoje (7) um esquema de intimidação, ameaças, violências física e moral e trotes humilhantes.

O esquema tem a participação de alunos veteranos e mesmo médicos formados. Segundo os alunos, a Associação Atlética Acadêmica Samuel Pessoa é um dos pilares do esquema, cuja estrutura de poder seria baseada na hierarquia na qual a ponta superior teria a participação ou anuência de professores da instituição. A entidade destina-se a promover e coordenar eventos esportivos e “integração” dos alunos da faculdade, organizando festas e outras atividades.

Os veteranos e alunos, de modo geral, são submetidos a um sistema de hierarquia e a todos são atribuídos apelidos, que são dados numa data específica, o “Dia do Apelido”. “A pessoa ganha um apelido e perde a identidade”, disse um dos depoentes. O sistema de intimidações e trotes violentos envolve alguns veteranos conhecidos por alcunhas como Castor, Cebola, Xoxota e Boner, alguns dos citados na audiência. É comum que um veterano se especialize em um tipo de trote.

O apelidado Boner, por exemplo, é conhecido por ter preferência pela “esternada”: esse trote consiste simplesmente em um soco desferido no esterno, osso situado acima do estômago. De acordo com os alunos, o veterano conhecido como Castor tem o hábito de urinar nos calouros.

Um dos mais “respeitados” entre os veteranos – na verdade já formado – é o conhecido como Xoxota, que faz residência médica em pediatria, segundo os depoimentos. Embora já tenha terminado o curso, mesmo assim ele participa dos trotes. “Os trotes não são feitos só para humilhar, mas para a pessoa entrar na estrutura“, contou um dos depoentes. Afinal, os calouros serão os futuros veteranos responsáveis por aplicar o “batismo” às novas turmas.

No alto da hierarquia, segundo a reportagem apurou, estariam os médicos Carlos Osvaldo Teixeira, o Caiá, chefe do departamento de Clínica Médica da PUC-Campinas e fundador da Associação Atlética Acadêmica Samuel Pessoa, e Maria Aparecida Barone Teixeira, a Cidinha, responsável por indicar o formando que vai entrar na clínica médica. Caiá seria adepto de ter sua mão beijada. Os alunos contaram que “todo mundo da família tem que adorar Cidinha e Caiá”.

As violências não são fatos isolados. Os membros da “sociedade” formada a partir da Associação Atlética se autointitulam “a Família”. As meninas são submetidas a situações humilhantes, como ser obrigadas publicamente a simular sexo oral com bananas ou pedaços de pau. A “Família” obriga os alunos a decorarem hinos de teor misógino, machista e de estímulo à violência sexual. Eles são forçados a aprender esse hinário sob ameaças, como em exercícios militares.

Os alunos que se recusam a participar das atividades sofrem ameaças não apenas de violências física ou moral, mas de terem inclusive sua vida profissional prejudicada. O medo de retaliações faz com que os alunos evitem denunciar o esquema. Os alunos mais jovens costumam ouvir frases como: “se você não é da família, eu não vou poder te ajudar (quando o aluno se formar)”. “Isso assusta muito quem está no primeiro ano, começando uma vida na faculdade. O medo de ficar seis anos na faculdade e depois não conseguir trabalhar”, disse um dos depoentes.

Entre outras obrigações a que os “bixos” (calouros) são submetidos, está a de furtar lençóis do hospital (fornecidos pelo SUS) para serem usados em festas.

Não posso acreditar que numa universidade possa acontecer isso. A igreja católica não pode respaldar, acolher coisas que acontecem na Faculdade de Medicina da PUC de Campinas. Eu sou um homem de esquerda e minha formação é católica. Estou totalmente agredido, isso é uma barbárie”, disse o deputado Adriano Diogo (PT), presidente da CPI da USP. A comissão vai convocar professores e membros da instituição da faculdade para depor. “Nosso objetivo aqui é formar médicos mais humanizados. Se as coisas não mudarem, daqui a dez anos vamos continuar ouvindo as mesmas histórias”, disse um dos alunos na CPI.

Por motivos de segurança, seus nomes não foram divulgados. As denúncias serão levadas ao Ministério Público.

Eduardo Maretti, RBA

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Comentários

  1. jarau Postado em 09/Jan/2015 às 17:00

    Pior trote neste pais é a rede globo e folha de são Paulo, junto com o lixo da VEJA.

  2. enganado Postado em 09/Jan/2015 às 17:16

    Circo dos horrores!

  3. AQUINO Postado em 09/Jan/2015 às 18:01

    CONCORDO JIRAU. TRISTE UM PAÍS COMO NOSSO NÃO TER UMA MÍDIA DESCENTE. TEMOS MUITO CHÃO PELA FRENTE PRA APRENDERMOS A FAZER UMA MÍDIA QUE FAVOREÇA O CRESCIMENTO DE UM POVO E NÃO O INVERSO.

  4. Eduardo Postado em 10/Jan/2015 às 01:58

    PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA, PUC, uma das mais conceituadas universidades particulares do Brasil, e tem umas babaquices destas.... e numa área que é intitulada de HUMANAS.... como humanas se são animais irracionais que a frequenta.... o soco no esterno pode ser mortal é um dos golpes do karatê para tornar o agressor sem ação.... isso não é trote é tentativa de homicídio....

    • fernando Postado em 12/Jan/2015 às 15:51

      Rs, o soco no esterno pode ser fatal... sem exageros, e so pra lembrar que medicina nao faz parte das HUMANAS...

  5. Thiago Teixeira Postado em 10/Jan/2015 às 16:31

    Querem ser radicais? Querem fazer trote cruel aos futuros Médicos? Passem o dia num asilo limpando bunda e raspando saco de véio, seria mais útil a sociedade. Em nosso trote em 2000 pegamos lata de tinta e fomos pintar uma escola, trocamos e parte hidráulica dos banheiros e acabamos o dia numa grande festa. Sem violência e sem desrespeito. Trote comunitário é coisa do passado.

    • Vinicius Postado em 11/Jan/2015 às 01:25

      Essa é uma ótima idéia, mas ter o poder sobre os outros é infelizmente prioridade para esse tipo de gente.

      • Thiago Teixeira Postado em 12/Jan/2015 às 08:16

        Acho que as comissões de vestibular deveriam se estender além do processo seletivo, até a semana do trote. Um trote organizado, sadio, em pleno acordo com os vetáramos, todos podem curtir e quem sabe, em casos extremos, um trote voltado ao social. O problema que estes trotes estão nas mãos de "moleques", e "moleques" querem encher a cara de bebidas, drogas, putaria e poder de dominação.

  6. Luis Postado em 11/Jan/2015 às 08:54

    Esses "procedimentos" são comuns a várias faculdades de medicina tradicionais. Se investigar vai aparecer mais.

  7. Paulo Postado em 13/Jan/2015 às 09:24

    Quando comecei a ler a respeito, logo desconfiei que teria gente graúda no meio, não é possível que dentro de uma Faculdade não tivessem como coibir uma atividade deplorável desta. Tantos pensadores, professores, cientistas e etc... e nada acontece, é porque existe muita conivência, espero que o Ministério Público realmente faça alguma coisa, puna esses imbecis, todos de preferência.

  8. Bruno Postado em 02/Feb/2015 às 17:35

    E depois são esses mesmos formados que vem proferir seus discursos de ódio contra o PT.bANDO DE PALHAÇOS.Cadê o Conselho federal de medicina ou mesmo os regionais?

  9. juarez Postado em 08/Feb/2015 às 15:04

    esse caras devem ser todos boiolas

  10. Luiz Postado em 09/Feb/2015 às 10:50

    E são esses camaradinhas que querem convencer a gente que médico cubano não presta. O povo sempre engoliu aquela que o SUS é uma porcaria por causa do governo e que os médicos dão o sangue pela saúde do Brasil, mas quem vai um pouco mais a fundo vê que a realidade não é assim tão bonita quanto os queridos doutores pregam.