Redação Pragmatismo
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Religião 27/Jan/2015 às 18:21
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Crianças sem religião nos EUA têm forte senso de moralidade, diz estudo

Longe de ser disfuncional, niilista e sem rumo, sem a suposta retidão pregada pela religião, as famílias seculares estão proporcionando aos seus filhos uma sólida base moral, baseando-se em um princípio simples: a reciprocidade empática

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Mais crianças estão “crescendo sem Deus” do que em qualquer outro momento na história dos Estados Unidos. Elas são descendentes de uma população secular em expansão que inclui uma relativamente nova e crescente categoria de americanos chamada de nones. São assim apelidados porque afirmam não acreditar em “nada em particular“, de acordo com estudo de 2012 pelo Centro de Pesquisas Pew.

O número de crianças sem religião tem aumentado significativamente desde a década de 1950, quando menos de 4% dos americanos relataram que cresceram em uma família não religiosa, segundo estudos recentes.

Esse número atingiu a casa dos dois dígitos quando um estudo de 2012 mostrou que 11% das pessoas nascidas depois de 1970 disseram que tinham sido criadas em lares seculares. Isso pode ajudar a explicar por que 23% dos adultos nos EUA afirmam não ter religião, e mais de 30% entre as idades de 18 e 29 dizem o mesmo.

Então como tem sido a formação moral dessas crianças que não oram antes das refeições nem vão à escola dominical? Vai indo muito bem, ao que parece.

Longe de ser disfuncional, niilista e sem rumo, sem a suposta retidão pregada pela religião, as famílias seculares estão proporcionando aos seus filhos uma sólida base moral, de acordo com o professor de sociologia Vern Bengston.

Por quase 40 anos, Bengston tem supervisionado o Estudo Longitudinal de Gerações, que se tornou o maior estudo da religião e da vida familiar conduzida em várias extratos geracionais nos Estados Unidos.

Quando notou que crescimento dos nones estava se acentuando, Bengston adicionou em 2013 as famílias seculares em seu estudo, na tentativa de entender como está ocorrendo as influências entre as gerações dos sem religião.

Ele ficou surpreso com o que encontrou: altos níveis de solidariedade familiar, com proximidade emocional entre pais e jovens não religiosos, e fortes padrões éticos e valores morais transmitidos de uma geração para outra.

No estudo, muitos pais não religiosos eram mais coerentes e apaixonados por seus princípios éticos do que alguns dos pais religiosas“, disse Bengston.

A grande maioria parecia ter metas firmadas por valores morais e uma vida com propósito.”

Minha própria pesquisa em curso entre os americanos seculares — e de outros cientistas sociais que voltaram recentemente o seu olhar sobre a cultura secular — confirma que a vida familiar de não religiosos está repleta de valores morais de sustentação e de preceitos éticos enriquecedoras.

Destacam-se nessas famílias a solução racional de problemas, a autonomia pessoal, a independência de pensamento, ausência de punição corporal, um espírito de “questionar tudo” e, acima de todo, a empatia.

Para as pessoas seculares, a moral se baseia em um princípio simples: a reciprocidade empática, conhecida como “Regra de Ouro”. Tratar os outros como você gostaria de ser tratado. É uma antiga, imperativa ética universal. E não requer crenças sobrenaturais.

Debbie, a mãe em uma dessas famílias, disse: “A maneira de ensinar aos filhos o que é certo e o errado é incutir neles um sentimento de empatia. É tentando lhes dar a sensação de como é estar do outro lado de suas ações. E eu não vejo nenhuma necessidade de Deus nisso.”

Se a sua moral é toda ligada a Deus, isso significa que o seu universo moral pode desmoronar a qualquer momento, em situação em que a existência do sobrenatural possa ser colocada em dúvida. A forma como estamos ensinando nossos filhos não se preocupa no que eles possam escolher em acreditar mais tarde. Mesmo que se tornem religiosos ou qualquer outra coisa, eles ainda vão ter essa estrutura de pensamento.”

Estudos de 2010 da Universidade de Duke descobriram que os adolescentes seculares quando amadurecem estão menos propensos ao racismo do que os jovens religiosos.

Estudos psicológicos mostram que adultos seculares tendem a ser menos vingativos, menos nacionalistas, menos militaristas, menos autoritários e mais tolerantes, em média, do que os religiosos da mesma faixa etária.

Uma pesquisa recente mostrou também que as crianças nones tendem a permanecer sem religião à medida que envelhecem.

Adultos seculares são mais propensos a compreender e aceitar a ciência sobre o aquecimento global e também apoiam mais a igualdade das mulheres e os direitos dos homossexuais.

Os ateus eram quase ausente da população carcerária até 1990, compreendendo menos de metade de 1% dos presidiários, de acordo com pesquisa do Federal Bureau of Prisons.

Isso reflete o que a criminologia tem documentado por mais de um século: os sem igrejas e os não religiosos se envolvem muito menos em crimes.

Outro fato significativo: os países democráticos com os mais baixos níveis de fé religiosa — como a Suécia, Dinamarca, Japão, Bélgica e Nova Zelândia — têm as mais baixas taxas de crimes violentos do mundo e desfrutam de altos níveis de bem estar social.

Eu sei da angústia de pais seculares quando eles não conseguem ajudar seus filhos. Por isso, cabe a pergunta: eles estariam cometendo um erro ao criar seus filhos sem religião?

A resposta inequívoca é não. Crianças educadas sem religião não carecem de virtudes, e elas devem ser muito bem recebidas na sociedade como um grupo que está crescendo.

Phil Zuckerman, LAtimes. Tradução: Paulopes

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Comentários

  1. Leonardo Postado em 27/Jan/2015 às 20:00

    Só lembrando que sem religião não quer dizer ateu.

    • Augusto Postado em 28/Jan/2015 às 08:54

      Muitos ateus que fazem do ateísmo uma religião. Em muitos casos fanáticos. Vejam o exemplo do Charlie Hebdo.

      • Matheus Postado em 29/Jan/2015 às 08:54

        Augusto, o que você disse é um contrassenso já na semântica das palavras, consulte o dicionário sobre o significado de fanático. ;) Não bastasse isso, não confunda anarquismo com ateísmo. Ambos tem discurso contra a figura da autoridade (religiosa, política, familiar etc), mas as semelhanças não vão além disso. Recomendo (além de consultar mais vezes o dicionário) se informar sobre o propósito da publicação, os membros que já passaram pela equipe e os 30 anos de história do periódico. Você, como muitos de nós brasileiros, deve ter visto 3 ou 4 capas, fora do seu contexto social e temporal, não deve ler francês, não leu a matéria de capa no interior do jornal e está formulando seu juízo no discurso de alguém que inferiu algo sobre o desenho sem base objetiva alguma. Isso se chama manipulação, que tal procurar algumas edições e julgar por si mesmo? Evite dar ouvidos a outros que "sabem" tanto quanto você. Mesmo que seu raciocínio estivesse correto, aposto que a maioria adoraria trocar fanáticos religiosos que (na maioria) matam, torturam, explodem, enforcam, apedrejam e segregam por extremistas anarquistas (ou mesmo ateus) que (na maioria) criticam, ironizam, satirizam, desenham e discursam. Ave atque vale

    • Matheus Postado em 29/Jan/2015 às 08:58

      Concordo, no entanto, a matéria trata de: "São assim apelidados porque afirmam não acreditar em “nada em particular“ ". ou seja, ateísmo.

  2. Vanderlei Postado em 27/Jan/2015 às 21:48

    Só lembrando que sem religião não quer dizer que existe um Deus desprezado

    • Augusto Postado em 28/Jan/2015 às 09:03

      Só lembrando religião não diminui o desprezo por Deus. "(...) Não adianta ir à Igreja rezar e fazer tudo errado." Eu já penso que estas cerca de duas horas por semana que muitos usam para "praticar" suas religiões poderiam ser usadas para agradar à Deus. Ex.: capinar a frente da sua casa, plantar árvores, ensinar alguém a ler, matemática, informática, etc.

      • Víctor Marcelino Postado em 28/Jan/2015 às 22:37

        Perfeito, Augusto. Faço suas as minhas palavras... Apesar da influência católica, todo o meu respeito aos sem religião!

  3. Rege Tigre Postado em 28/Jan/2015 às 10:36

    Mas no caso acima sim!

  4. Randy Postado em 28/Jan/2015 às 14:49

    "Os ateus eram quase ausente da população carcerária até 1990, compreendendo menos de metade de 1% dos presidiários, de acordo com pesquisa do Federal Bureau of Prisons." Vixe... eu acho que o Datena e o Ratinho perderam a razão mais uma vez...

    • eduardo Postado em 28/Jan/2015 às 18:31

      eu duvido que algum crenelho chame estes bandidos convertidos para trabalhar com eles.Só se for pra roubar dizimo.

  5. Caio Postado em 28/Jan/2015 às 17:06

    As pessoas devem estar acima da moral

  6. André Campello Postado em 28/Jan/2015 às 20:03

    É cada imbecilidade que escuto nesta página! A tal da "reciprocidade empática", que tanto se apregoa no texto, nada mais é do que Cristo já nos ensinava a mais de 2.000 anos: "Não fazei ao teu próximo, o que não queres que te façam"! Vejam bem o que uma suposta pessoa esclarecida disse: "Se a sua moral é toda ligada a Deus, isso significa que o seu universo moral pode desmoronar a qualquer momento, em situação em que a existência do sobrenatural possa ser colocada em dúvida." Ora, se Deus pode ser colocado em xeque, que se dirá dos pretensos valores morais que essa meia-dúzia está se vangloriando?

    • Rocken Postado em 29/Jan/2015 às 03:14

      deus pode ser colocado em xeque, tanto que eu e outros acham que ele é o maior folclore de todos os tempos, mas e agora? como os meus valores morais vão desmoronar se ele é baseado na realidade? estamos todos na Matrix?

    • Roger Postado em 29/Jan/2015 às 07:21

      O mesmo que veio trazer a espada, né... Mas isso voc, provavelment, esconde ou fala em contexto. Valores morais, eu prefiro dizer valores étnicos, são comuns a qualquer pessa, independente de crença mística. Vocês, crentes, é que se vangloriam por sua crença sem base palpável. Não aceitam que se pode ser ético ou moral sem a imposição do medo.

    • Matheus Postado em 29/Jan/2015 às 09:18

      Caro André, Buda e Zaratustra já pregavam a "regra de ouro" séculos antes de Cristo, você vai se surpreender quando começar a estudar religiões que não te ensinaram a acreditar, tem muita coisa interessante e, adicionalmente, você pode até descobrir que deu o azar de nascer no país com da religião errada. A reciprocidade é uma das três dinâmicas básicas da antropologia, é um comportamento padrão humano desde as comunidades primitivas, mas infelizmente ainda hoje tem gente que não faz nem o básico. Praticando isso em nome de Jesus, em respeito a Buda ou por bom senso mesmo, todos saem ganhando.

  7. Rogério Postado em 29/Jan/2015 às 10:02

    As crianças ateias tem algum senso de moralidade pq sintetizam a cultura religiosa que impregna a sociedade. Mas na França há um estudo que mostra que os jovens de famílias ateístas se tornam radicais: http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2015-01/maioria-dos-jovens-recrutados-por-extremistas-e-francesa-e-de-familias Ou seja, quando chega adolescência vem a crise de identidade.

    • Matheus Postado em 29/Jan/2015 às 10:40

      Rogério, penso que o fato de não admitirmos mais a escravidão ou o genocídio de hereges no ocidente é prova de que a religião é subproduto da cultura e não o inverso. Se a moral das crianças (ateias ou teístas) ainda fossem produto de religião no ocidente, seria inadmissível jovens consumarem atos sexuais antes do casamento, consumir álcool, tabaco ao mesmo tempo que achariam natural termos trabalhadores em regime escravagista em fazendas no norte e fábriquetas no sudeste. Penso que quando a maioria compreender que a religião ou a falta dela não pressupõe bondade ou maldade irão enfim fazer parte da solução, não do problema. Mas enquanto alguns teístas e ateístas tiverem a convicção que são o ápice da virtude e o modelo de moral ainda teremos que aturar discursos de vaidade. PS: Interessante que essa matéria prova que enquanto eram ateus não provocavam problemas aos outros, ao se tornarem religiosos viraram terroristas.

      • Eduardo Postado em 01/Apr/2016 às 12:08

        A escravidão fora abolida na Idade Média, e só voltou durante o Renascimento e Idade Moderna, com a ressurreição de valores da Antiguidade. Portanto, não jogue a escravidão na conta do cristianismo. E mais, não houve nunca nenhum genocídio de hereges, a não ser na cabeça dos fantasiosos anticlericais. As mortes na fogueira foram pontuais, e predominantemente políticas.

  8. eu daqui Postado em 29/Jan/2015 às 11:17

    Retidão? PQP ! Que palavrinha mais chata, brocha e insípida: bem a cara de quem precisa de um deus pra conter o caráter. Sempre vou prefereir o termo moralidade: soa idealista, heróico e romantico.

    • Luiz Henrique Postado em 29/Jan/2015 às 13:50

      Retidão me parece a palavra mais correta e coerente pra descrever qualquer religião (principalmente as cristãs monoteístas). As pessoas são levadas a crer que somente o deus louvado naquele grupo é a resposta para a salvação e que o único caminho é a submissão completa a ele.

  9. Aníbal Postado em 29/Jan/2015 às 16:48

    Existe na pesquisa um falso estatístico quando se evidencia que em países mais desenvolvidos há mais ateus, ou que há poucos criminosos ateus. Isso é óbvio, mas não está ligado a religião, mas educação. Quanto maior o nível de educação, maior o poder questionador, e portanto, menor a influência de crenças e misticismos sem nenhuma base empírica. Em contrapartida, quanto maior a miséria, a ignorância e as necessidades, maior a facilidade de aceitar o conforto de um deus abstrato.

  10. Slash Postado em 30/Jan/2015 às 08:54

    Moralidade nunca dependendo da religião. E em alguns casos, a religião até prejudicou a moralidade, por conta de sua incapacidade de se adaptar as constantes mudanças da sociedade. Gosto de uma moralidade debatida e discutida. Reprovo uma moralidade imposta. (Principalmente uma moralidade de um tempo que não é o nosso e de um povo que não é o nosso).

  11. Pereira Postado em 10/Feb/2015 às 12:20

    Sim claro, o fato de crianças serem influenciados por pais ateus deve ser muito bom. Talvez esses pais desconheçam que o objetivo real não é acabar com religiões e crenças, e sim com o cristianismo. Se você falar mal de crendices afros será chamado de racista, se falar mal do islamismo de islamofóbico. Agora lascar o pau na ética cristã(a única que deu certo até agora) está liberado. todo o mundo se esquece que onde o cristianismo chegou, barrou atos de desumanidade no passado. A vida humana passou a ter valor após o advento da ética e moralidade cristã. Aquele negócio de: "não pode matar" , "não pode roubar" pasmen !!! foi o cristianismo que lançou, a "religião" cristã. Posso citar a pedofilia legalizada que havia em roma, os casos de pedofilia dentro da igreja católica não chegam a 1% da pedofilia que havia no tempo de calígula e outros. O cristianismo barrou espetáculos de selavageria para divertir plateias como aconteciam em lutas de gladiadores. Agora é o mundo do relativismo. O cristianismo teve papel determinante para o fim da escravidão na américa. Claro para quem quer acabar com os valores cristãos como o pessoal da esquerda, o relativismo é a tábua de salvação. É tanta mentira que contam que não há mais nada objetivo, só relativo. Qualquer mentira como a do texto em questão, pode ser tratada como relativo quando for desmascarada. O objetivo de se acabar com a ética cristã é deixar uma brecha para se impor um modelo relativista de moralidade. A tal "sociedade sem culpa" que a Marilena Chauí fala. Isso está cada vez mais forte na sociedade, vemos os padrões de hierarquia se esfacelando e sendo implantados outros. Hoje um menino pobre da favela não vê incentivo a trabalhar, dentro da moralidade, ou formar-se; vê incentivo em cantar funk para ganhar dinheiro para "pegar" mais mulheres. Claro sendo apadrinhado e produzidos pelo traficante da comunidade(como são esses mc's). Esses são so tipos dos novos padrões de moral em substituição da moralidade cristã. Quando essas crianças se tornarem adultos e adolescentes mimados, impulsivos e sem ética não reclamem. Não reclamen de, por exemplo, de universitários que foram criados por ateus e pais sem religião fizerem trotes violentos e estuprarem colegas nos campos. Afinal de contas eles não sentem culpa pelos estupros que comentem e nem pelos prejuízos físicos que causam aos seus novos colegas. Eles foram educados para "não sentis culpa".

    • Ricardo Postado em 20/Apr/2015 às 22:26

      Kkk, o cristianismo barrou tudo isso? caramba ter fé é show mesmo!