Redação Pragmatismo
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Música 08/Jan/2015 às 17:57
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Como funciona a parceria de Roberto Carlos com a Globo

Entenda como funciona a operação de limpeza da imagem do cantor Roberto Carlos na Rede Globo

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Como funciona a parceria entre Roberto Carlos e a Globo (Imagem: Pragmatismo Político)

Kiko Nogueira, DCM

O primeiro episódio da adaptação manca para a TV do filme sobre Tim Maia foi retirado do site oficial na Globo na sexta passada. O segundo episódio não foi ao ar ali. É a primeira vez em que isso acontece com esse tipo de atração.

Como você já sabe a essa altura, o longa tem várias sequencias sobre as dificuldades de Tim em encontrar o amigo tijucano Roberto Carlos, ex-parceiro do conjunto Sputniks. Roberto, em 1966, havia se tornado o rei da Jovem Guarda e Tim voltara quebrado dos EUA, pedindo uma força.

Na versão para a televisão, Roberto saiu bonito. Testemunhas da história foram chamadas para falar, dando o tom de um “docudrama”. RC mesmo dá um depoimento livrando a própria cara, explicando que ajudou, sim, Tim Maia.

O pacote cinema e tv provocou uma enorme confusão por causa do conjunto de patacoadas malandras. O diretor Mauro Lima reclamou, no Instagram, do que chamou de “subproduto”. Deu para trás em seguida na Folha, muito agradecido à mutilação (a mulher dele, Alinne Moraes, é a atriz principal do longa). Não faz sentido ele reclamar. A produtora é a Globofilmes. Sem sutileza alguma, as cenas de noticiário da internação de Tim após um show em Niteroi — ele morreria uma semana mais tarde — levam, todas, a marca d’água da Globo.

Nos créditos, a obra aparece como baseada em “Vale Tudo”, de Nelson Motta. Há cenas, porém, tiradas de “Roberto Carlos em Detalhes”, a biografia censurada de Paulo César de Araújo. Uma delas é a do dinheiro amassado e atirado ao chão para Tim pelo empresário de RC.

Mas o que ficou explicitada é a relação incestuosa entre a Globo e seu contratado Roberto Carlos. RC tem na emissora um general fiel na tentativa — inútil, de resto — de higienizar sua trajetória.

Como funciona essa “parceria”?

Paulo César de Araújo dá uma boa amostra desse modus operandi em “O Réu e o Rei”, livro sobre os bastidores de sua batalha judicial com seu ídolo transformado em inimigo.

Em 1974, Roberto assinou um contrato de exclusividade com a TV Globo para um programa anual que existe até hoje e é tão certo, na vida, quanto a morte. Foi o início de uma bela amizade.

Era duplamente vantajoso, escreve Paulo César: “Se, no tempo da Record, ele ganhava relativamente pouco para aparecer muito, a partir de seu contrato com a Globo ele ganharia muito para aparecer pouco, evitando o desgaste da superexposição depois de uma década de absoluto sucesso”.

RC teve na Globo o seu Pravda, só com notícias a favor. Já havia sido assim com a Bloch Editores. Ele passava notas oficiais às publicações da casa e tinha um tratamento privilegiado. Quando a Polícia Federal apreendeu seu iate Lady Laura III, por exemplo, a revista Manchete veio com a chamada: “Maré mansa para o rei Roberto Carlos: ‘Quem não deve não teme’”. No divórcio de Nice, em 1978, a capa era: “Roberto Carlos e Nice: Nossa separação é um ato de amor” (!??).

Em 2006, RC entrou com uma ação para tirar a biografia de circulação. “A Globo não o decepcionou. Foi realmente seu porto seguro, o seu para-raios. No limite da irresponsabilidade jornalística, a emissora calou o réu e deu voz apenas para o rei”, diz Araújo.

Leia também: Cineasta de ‘Tim Maia – Vale tudo’ detona versão global

Dois programas marcaram entrevista com o escritor: o Fantástico e o Altas Horas. Maurício Kubrusly representaria o dominical. “Na manhã do dia combinado, a produção do Fantástico me ligou adiando a entrevista. A justificativa foi que a crise nos aeroportos do país teria impedido Maurício Kubrusly de se deslocar de São Paulo para o Rio.”

Houve outro adiamento até o não definitivo, com a desculpa de que o assunto tinha saído da pauta. Mesma coisa no Altas Horas.

Quando em janeiro do ano seguinte Roberto Carlos confirmou a ameaça, entrando na Justiça contra mim e a editora Planeta, isso foi assunto de toda a mídia nacional — menos da TV Globo, que insistia em negar outro item dos seus ‘princípios editoriais’: o de que ‘não pode haver assuntos tabus. Tudo aquilo que for de interesse público, tudo aquilo que for notícia, deve ser publicado, analisado, discutido’. (…) Somente quando a proibição parecia definitiva a capa da biografia foi finalmente mostrada na tela da Globo. A fatura parecia liquidada”.

Até que veio o artigo de Paulo Coelho na Folha, “muito chocado” com a “atitude infantil” de RC. O Fantástico ligou novamente, escalando Patrícia Poeta para uma conversa na casa de Araújo. Na manhã do dia combinado, telefonaram suspendendo o papo.

Roberto Carlos foi aconselhado por seus assessores a dar uma entrevista para o Fantástico e se explicar de uma vez por todas. A condição foi a de que o artista não podia ser contraditado. Ou seja, a palavra dele e de mais ninguém”, relata. Cid Moreira, irônico, apresentou o biógrafo como alguém que “se diz fã do rei desde criancinha”.

Por tudo isso, ao fim de seu show comemorativo de cinquenta anos de careira, no Maracanã, Roberto agradeceu não apenas ao público e aos patrocinadores Itaú e Nestlé, mas também à Rede Globo de Televisão ‘pelo apoio e parceria ao longo de todos esses anos’”, diz.

O Réu e o Rei” tem um trecho premonitório. Em 1992, Tim Maia recebeu Paulo César de Araújo para uma entrevista. A certa altura, lembrou do velho camarada. “Roberto Carlos não vai se ver nunca livre de mim. Quando a gente morrer, lá em cima eu vou dizer: ‘Como é que é, Roberto!’”

VEJA TAMBÉM: Globo suja biografia de Tim Maia e tenta livrar Roberto Carlos

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Comentários

  1. Cícero Postado em 08/Jan/2015 às 19:10

    Nós esperamos muito dos artistas. Muito mais do que podem oferecer com a arte. Mas eles têm um grande defeito. São demasiadamente humanos. Do Roberto eu espero alguma nova música como aquelas das antigas. Da Globo, à muito não espero nada!

  2. Josias Dias da Costa Postado em 09/Jan/2015 às 13:15

    Essa novela gira em torno de "entrevistas", de versões, e delas o que se pode emitir nada mais é do que simples opinião cujo reino é o das simples sensações. A verdade está mais além. Até mesmo os antigos gregos contrapunham ao mundo da "doxa" (da opinião) o mundo da episteme (ciência), que o mundo do conhecimento verdadeiro.

  3. Luiz Souza Postado em 09/Jan/2015 às 16:03

    Nelson Motta agora diz que quem ajudou Tim não foi Nice e Elis, mas sim o próprio Roberto. NM traíra e bajulador.

  4. Jeferson Santos Postado em 11/Jan/2015 às 13:40

    É realmente muito lamentável que Roberto Carlos esteja se prestando papéis tão ridículos quanto esse mais recente (de desmentir aquilo que foi documentado por n testemunhas sobre seus tensos encontros com Tim Maia) e o outro não muito antigo (a proibição da sua biografia, escrita por Paulo César de Araújo). Um artista como ele não tem a menor necessidade de protagonizar tantos vexames que o desumanizam a cada dia, pois nos mostram um ser inumano, irreal, sem sentido. Fico de fato mui sentido em saber que o Rei não tem honrado sua coroa como deveria. Nem mesmo o bobo-da-côrte é tão patético e sem graça quanto esse personagem estranho que é capaz de mutilar sua obra e história de forma tão bizarra, excêntrica, infeliz. Personagem que infelizmente tem ampliado a cada dia suas "esquisitices", que mais parecem amostras duma ganância desmedida, desenfreada. Preferindo agir como o pior dos plebeus, ele assume de vez sua condição de lacaio. E lacaio da pior espécie, lacaio da rede globbels. E se ser lacaio é pior que ser um reles súdito, neste caso em especial é ainda pior se deixar levar pela eugenia artística que essa emissora maldita pratica há anos.Um artista que deveria dar as cartas e que no entanto, como podemos ver, já se torna o mais volúvel dos artistas, deixando que o livro de sua história seja redigido por almas tão sebosas quanto a dele próprio. Melhor ter deixado o livro de PCA ser divulgado, pois ali trata-se de um fã verdadeiro e não de um borra-botas chapa-brana, como Nelson Motta tem-se mostrado ultimamente. Mais de 5 décadas de sucesso absoluto (sendo que os últimos 20 anos foram de viver do passado, seja com regravações de outros artistas, seja com pequenas mudanças de repertórios em RCs ), milhões de discos vendidos no Brasil e na América Latina, milhões de fãs por todo o continente, tudo isso sendo jogado fora por conta de uma excessiva "preocupação" com sua própria imagem. Não me lembro de nenhum outro exemplo de narcisismo tão iracundo e senil quanto esse. Em que pese as péssimas companhias e assessoramentos, mas Roberto poderia (e deveria) dizer não a tudo isso. Se não o faz, é porque a zona de conforto continua bem confortável. Resta saber até quando.