André Falcão
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Literatura 05/Jan/2015 às 18:00
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Clareia

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“Clareia” é um Conto de autoria de André Falcão*

Agora já não via mais nada, senão seu ombro desnudando-se, a pele alva descobrindo-se da fina alça do maiô que escorregara até quase a linha que faz limite com o antebraço. Sentiu o coração pulsar sôfrego e arrítmico, e a caixa torácica mover-se freneticamente em função das pancadas desferidas pelo músculo desesperado. Só conseguiu levar a mão ao peito, como pudesse com isto acalmá-lo, contê-lo. No mais, seus olhos e alma estavam grudados na cena e na tentativa instintiva, muda e telepática de soerguer o fino fio de tecido. Por que ele disfarçadamente não o faz, não a recompõe, conseguiu perguntar-se no meio da confusão emocional em que estava agora imerso. Tinha vontade mesmo de gritar para que o fizesse. Pudesse, avançaria em sua direção e o repeleria de perto de sua amada. Viu quando a mão direita do sujeito desceu de seu ombro esquerdo, lenta e sedutoramente, e passou por cima da alça, descansando durante alguns segundos logo abaixo dela, para em seguida fazer o movimento de volta, deixando-a onde já estava, novamente sem a mínima disposição de recompô-la. Ele não a suspendeu! Poderia tê-lo feito, o desavergonhado… Fez de propósito!, concluía, contendo-se para manter-se passivo e quieto em sua poltrona. Até que finalmente ultrapassado o limite de sua própria capacidade de suportar aquilo. A angústia que vinha sentindo até ali, o ciúme, a dor…, de nada mais lembrava (ou queria lembrar) e o que faziam ali ele e sua amada. O “pas-de-deux” chegara ao fim, mas para ele, mesmo do epílogo se tratasse, beiraria o insuportável. Olhou para a máquina fotográfica, conteve-se para não arremessá-la como fosse ela a merecer o castigo que seu coração mandava fosse impingido a algo ou a alguém, de modo a desarrochá-lo do aperto que sentia, e partiu.

É preciso explicar que não era recente sua dificuldade de lidar com o balé de sua amada, que já o dançava, diga-se, desde antes de se conhecerem. Muito menos que a tempestade se iniciara naquela tarde-noite de ensaio geral cujos momentos derradeiros acabei de narrar. E tampouco o problema fosse o balé em si. O problema era mesmo o “pas-de-deux”. Quando soube que ela iria dançá-lo, aí sim passou-lhe a ser um tormento; para ela, a luta pela mantença de um prazer cujo preço estava se tornando muito caro. Balé passara, então, a ser sinônimo de desavença, crises de ciúme, falta de paz, desgaste do amor. Ao menos não houvesse o “pas-de-deux”…

Na verdade, não suportava a ideia de outro homem a tocá-la, a envolvê-la nos braços enquanto deslizassem sobre um tablado ao som invariavelmente romântico da música escolhida para embalá-los, via de regra sedutora e sensual. Muito menos que isso se passasse durante vários meses, dezenas de semanas, inúmeros dias, incontáveis horas, inimagináveis eternos minutos de ensaio, contabilizava. “Não! Definitivamente, não aguento!”, dizia num misto de revolta e sofrimento à bailarina tão amada e ao mesmo tempo de coração tão apertado, talvez dividido, em mais uma das cada vez mais frequentes discussões que travavam a respeito.

Antes, antes mesmo do final trágico involuntariamente patrocinado pela indisciplinada alça, já houvera percebido que a peça inferior do maiô de sua amada — pois cavada que surpreendentemente o era, e à vista porque imediatamente abaixo do prato da fantasia de sua bailarina — deixava à mostra boa parte de suas pequenas e firmes nádegas adolescentes — certamente mais brancas do que os ombros —, enevoadas, felizmente embora, pela meia, cor da pele, a com elas confundirem-se, virgens à visão mundana que eram.

E aí já sofrera por demais, a quase sentir-se desfalecer para não ver o quadro que até então era a razão de sua aflição, a dor que só um rapazola — que ainda não conseguiu domar os instintos de sua espécie e sexo — pode sentir. Sofreu! Ah, sofreu! Penou enormidade quando olhou para as miseravelmente encobertas nádegas seminuas da amada, agora inaceitável e certamente sujeita aos olhos gulosos da plateia masculina (imaginava, sob o compasso violento do coração inconformado), especialmente dos conhecidos e desconhecidos adolescentes que, como ele, assistiam ao espetáculo.

Faltou-lhe ar, finalmente — e aí chegamos lá ao início dessa história, no que para ele se traduziu o clímax mesmo da tragédia —, ao perceber a fina alça de suas vestes libertando-se e indo repousar bem longe do ombro que a amparava, como a libidinosamente permitir que seu viçoso seio juvenil, tal qual flor que desabrocha, pudesse libertar-se das tênues amarras que o continham e mantinham sob virginal segredo, e viesse, ele também — talvez ambos, fosse-lhe a sorte bruxa cruel e desalmada —, às luzes que a acompanhava enquanto deslizava solene, elegante e graciosamente sobre o cúmplice palco que a tudo permitia. Não bastasse o que já lhe dilacerava a alma, aquela música a penetrar em seus ouvidos, em sua pele, seus ossos, disputando em si mesmo espaço físico e espiritual com a dor que o ciúme lhe provocava… Clareia… A luz do dia a contemplar teu corpo, Sedento, louco de prazer e desejos ardentes

Foi-se! Sem mais conseguir suportar a dor que se lhe assemelhava a lança cruel que estivesse a traspassar seu peito e castigar sua alma, largou a máquina fotográfica trazida (olha, só) para registrar os melhores momentos da dona de seu coração, e saiu do teatro sem olhar para trás, mas torcendo, não vou mentir, houvesse sido por ela visto.

É que de um lado havia o ciúme e a dor por este provocada; de outro a insuportável ideia de perdê-la. Vejam só o dilema de nosso apaixonado herói!… Quer dizer: ia-se, mas queria ficar; desejava não mais vê-la, nunca mais, mas não aguentava imaginar a vida sem ela.

Assim, nada mais fazia do que imolar-se com esses sentimentos que teimavam em perturbá-lo, como só os apaixonados enciumados sabem fazê-lo. Sofria quando sabia, e fazia questão de lembrar, houve as aulas, os ensaios que naturalmente antecediam (e antecederam) aquele dia de ensaio geral, e sofria quando então imaginava os dois a dançarem, repetidas vezes, entre erros e acertos, o que somente era dor menos lancinante à míngua do testemunho; o seu. Pouco importava que o parceiro da dança não apresentasse comportamento minimamente másculo; era do sexo masculino, a tocá-la com o romantismo que a música teimava em imprimir, o que bastava.

Você já deve ter percebido que nosso amigo ama. Ama e sofre, como esta história já é prenhe de afirmar a você, leitora e leitor. Não! Não o julgue, partindo sofregamente em defesa da pobre bailarina — que nada mais fazia, reconhece-se, do que o seu ofício, ainda que gratuito, sua arte, sua técnica. Não o faça antes, ao menos, de pelo menos sopesar o tamanho do amor que lhe devotava nosso sofrido amigo. E sem olvidar que a exposição do corpo seminu da mulher-menina que amava, os carinhos que a dança e a música impeliam — talvez obrigassem —, fossem nela realizados por seu par; tudo isto lhe era difícil compreender e aceitar. Era um jovem homem, com sentimentos e emoções masculinas ainda selvagens, tais quais aquelas.

Encontrou-o sentado sobre pequena e baixa muralha situada próxima à casa de espetáculo, de onde se via toda a cidade, mas não vou escamotear: diante de si só as cenas que acabei de tentar narrar-lhes com a maior precisão e detalhes possíveis.

— Oi… Onde você estava? Procurei tanto… Quando acabou o ensaio não o vi mais… Gostou? — perguntou-lhe, desconfiada e em parte realmente interessada em sua opinião e aonde ele havia estado; noutra, tentando imprimir um sorriso que pudesse disfarçar a percepção evidente, para si própria em primeiro lugar, que algo não estava bem com seu amado e, principalmente(!), que ela era a causa.

Não sabia se ficava feliz ou com mais raiva por sua voz já tão perto, e por sabê-la ali com ele, tendo vindo atrás dele, havendo procurado por ele tão logo acabou a cena. Sabia que fora praticamente de imediato, calculou, porque pouco mais de cinco minutos haviam passado desde então. Naqueles poucos segundos em que ouviu sua voz pôde perceber a respiração dela ainda ofegante, seu cheiro doce de suor misturado com o da fantasia (maldita fantasia!), sua saudade… Mas sua vinda não se mostrara suficiente para extirpar a dor, a vontade de não estar vivendo aquilo, de nada daquilo ter acontecido. Sentia raiva dela, sim. Muita raiva, mesmo. E não sabia nitidamente — porque ainda extremamente envolvido com a ira provocada pelo ciúme —, mas certamente, senão feliz — muito longe disso, escritor! —, estava mais confortado pela demonstração de importância que percebera dela para com ele e, principalmente, com o amor que reciprocamente sabia sentiam.

Sim, nesse ponto me cabe não deixar dúvidas: ela não o amava menos. Na verdade, era completamente apaixonada por ele. Em suma: ele aparentava mais, aqui, porque estava a sofrer por ela (e por eles), e a história foca o drama tomado sob esse foco. Ela aparentava menos, porque naquela tragédia o seu papel, involuntário — e talvez injusto, vá lá —, era de algoz; o dele, de vítima.

— O que houve, amor? Porque não me responde? Sequer me olha… Fala alguma coisa…

Só o silêncio como resposta. O olhar para frente, sentado sobre o muro, as mãos ao lado do corpo, amparando-se na pedra fria, os pés cruzados pendentes sobre o ar. Percebia, de soslaio, seu olhar preocupado. A vontade dela era de abraçá-lo, beijá-lo, reconfortar-se em seu ombro e aguardar. Mas tinha medo de ser rejeitada fizesse algum gesto de carinho.

Após longa espera: — Vai ficar assim, mudo, como se nem notasse minha presença?

— Como você quer que eu esteja? Como posso estar feliz se minha namorada, a garota que amo, acaba de viver um clima de amor e sedução, e o sujeito, não bastasse, é um aproveitador? — respondeu, enfim, com o exagero próprio dos tomados pelo ciúme.

— Aproveitador? Como assim?

— Não percebeu que ele nem se dignou a recompor a alça de sua roupa que caíra?

— É… Percebi… Mas acho que ele nem percebeu, amor… Devia estar tão envolvido pela dança… Não por mim, garanto.

Novo silêncio.

— Precisava ser a roupa mais devassada?

— Tem razão… A costureira da escola errou… E tinha que fazê-lo justo com a minha! Arre! — explicou, quase revoltada com essa, digamos, falta de sorte.

Sabia que em poucos minutos seus pais estariam a chamá-los para se irem a casa. Tentava resolver antes, para não se separarem com esse clima ruim. Amava-o tanto, pensava. Entendia-o, mas também se sabia não fazendo nada indigno. Compreendia, porém, a dor do ciúme que sentia, ainda que contra si e contra sua segunda paixão — se é, caros leitores, que posso traduzir assim, hierarquicamente, seus sentimentos, idênticos por serem ambos paixão, mas tão diversos quanto ao quê e a quem lhes eram devotados, que, força desta distinção inevitável, tornavam-se também distintos.

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Passados alguns instantes — a si pareciam intermináveis —, pousou sua delicada mão (estava fria) sobre a dele, que não a tirou. Instantes depois, pensou ter ouvido a voz de seus pais ao longe, chamando-a. Ouvira, mesmo, ao percebê-la mais perto. Lamentou-se, pra si mesma.

Levantaram-se. Tratou de segurar a mão dele, que por força do gesto de se levantarem havia se soltado da sua. A mão dela estava agora aquecida — e não tenho a menor dúvida, caros leitor e leitora, a quentura se devia à paixão que ali se via transmitida, de um para o outro ser, num ir e vir frenético, inversamente proporcional aos passos lentos que lhes imprimia o movimento indesejado de voltarem à realidade — que não era a deles —, paixão que aquece o coração, e principalmente, ali, acalentava a mais fina dor.

Explicações dadas aos pais — desculpas, na verdade, pois sem qualquer apego ao que de fato havia acontecido —, que, por sua vez, pareciam entender que houvera ali uma pequena tempestade, a despeito da noite quente do nordeste brasileiro naquele verão de meados dos anos 1980, entraram no carro, ela sem desgrudar da mão dele, ele sem esforçar-se para dela rebelar-se.

À exceção de um comentário ou outro de uma mãe orgulhosa do papel desempenhado por sua doce bailarina, tão jovem ainda, respondidos com heroico esforço de parecer atenciosa e alegre, e de um olhar de um pai com contida curiosidade e ponta de preocupação pelo espelho retrovisor, seguiram viagem. Ao fim, percebia-se até se tendo distraído pelo caminho, certamente pelo calor que vinha daquela mão que o compreendia e ao seu amor doído.

Chegaram primeiro ao seu destino. Despedidas realizadas, preparava-se para deixar o carro quando sentiu o aperto mais forte em sua mão, o abraço delicado em seu rosto, e aquela voz a dizer-lhe, num sussurro, com os lábios bem próximos ao seu ouvido: Vai dar tudo certo. Amo-te.

Obrigada. Ele desceu.

*André Falcão é advogado e autor do Blog do André Falcão. Escreve semanalmente para Pragmatismo Político

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