André Falcão
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Religião 10/Dec/2014 às 21:46
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Política e fé

Política não é profissão de fé! Quando muito é mera fonte e arcabouço de expectativas. Expectativas não são pra quem quer ter, mas pra quem pode. Expectativas ajudam a viver, mas são terríveis quando frustradas.

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André Falcão*

Tenham dó! Política não é profissão de fé, tampouco fé tem alguma coisa a ver com política ou o que mais da vida mundana. No exercício da minha fé em algo que acredito ser Maior — a que, particularmente, chamo Deus —, peço-Lhe, entre outras coisas (sou nada econômico nesse quesito, diga-se), para me dar compaixão, generosidade, saúde, luz, tolerância, humildade, coragem, força, fé. No exercício da luta política, que já é naturalmente outra coisa, esforço-me por um mundo melhor, com as armas que acredito sejam as possíveis e, dentre essas, as melhores. É simples assim.

Vez por outra sou abordado por gente dizendo-se decepcionada porque “acreditava” no PT, e em Lula, até em Dilma (apesar de muitos a terem considerado um poste; poste de muita luz, diria eu), mas que agora estaria estarrecida com a roubalheira que estaria sendo patrocinada por aquele partido, de que é exemplo mais recente a Lava-Jato e, mais famoso, o Mensalão. É, pois, o momento de pelo menos exercitar a tolerância, a compaixão e a humildade concedidas.

Política não é profissão de fé! Quando muito é mera fonte e arcabouço de expectativas. Expectativas não são pra quem quer ter, mas pra quem pode. Expectativas ajudam a viver, mas são terríveis quando frustradas. E elas não raro o são porque a gente não sabe lidar com elas, já que toda expectativa pode trazer em si mesma dolorosa frustração, mais culpa nossa do que dela.

Leia aqui todos os textos de André Falcão

Porém, até pra tolice há limite. Sabe-se que os desvios de dinheiro público — notadamente aqueles para proveito particular — não são privilégio dos governos do PT ou de seus aliados. E você sabe que por mais que existam padres pedófilos, tarados ou predadores da fortuna do Vaticano; empresários corruptores, sonegadores, escravagistas e exploradores da mão-de-obra; milicos assassinos, covardes, torturadores, ladrões; juízes vendedores de sentença e da própria alma, não se pode confundi-los com a Igreja Católica, com o empresariado inteiro, com nossas Forças Armadas, tampouco com o Poder Judiciário. E ao que se saiba, você continua catolicozinho-da-silva…

Você sabe. Então, se por tolice você se diz decepcionado e desacreditado, receba essas palavras e minha compaixão. Depois analise, leia, investigue, acresça outras leituras às suas já costumeiras (e parcialíssimas) fontes de manipulação. Mas se o que você quer mesmo é arranjar um pretexto pra estar do lado do que de pior existe na política, faça “bom” proveito.

Leia também: Pastora profetiza chegada da igreja na política brasileira

Mas me poupe. Porque nem a fé aguenta esse blá-blá-blá.

*André Falcão é advogado e autor do Blog do André Falcão. Escreve semanalmente para Pragmatismo Político

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Comentários

  1. Eduardo Postado em 11/Dec/2014 às 22:14

    interessante seu texto, mas pelo que me consta o PT esta no poder, e não está sozinho, a 12 anos, e nosso país tem mais de 500, a Petrobras, graças ao PT não foi doada para os lá de cima pelos que estavam antes dele tem 61 anos.... e o PT é que é o único responsável por todas os males do mundo... não demora dizerem que a divisão Palestino Judaica é culpa do PT, o preconceito racial latente nos EUA apesar de ter um presidente negro também é culpa do PT.... vamos aprofundar nas pesquisas.... não façamos como uma certa revistinha de banheiro público e uma certa grande emissora de tv que completa 50 anos.... só enxergam de um lado da história, encobrindo descaradamente o outro lado.... O QUANTO PIOR MELHOR É A GRANDE ESPERANÇA DELES.... só que não terão mais.... Seguindo o que disse no princípio de seu texto, também peço a Deus, para que a VERDADE, sempre venha a tona... e que seja toda a verdade não apenas a de alguns.

    • Thiago Teixeira Postado em 11/Dec/2014 às 22:18

      O problema que eles (coxinhas e mídia golpista) inventam e repercutem o PIOR. Mas o PIOR de hoje nem se compara ao PIOR antes de 2013.

  2. Rodrigo Postado em 12/Dec/2014 às 11:07

    (Outro Rodrigo) Realmente é tolice e fui um desses tolos, crendo em promessas de probidade, de caça aos ratos da corrupção. Acreditei que precisava votar diferente, com esperança, pois ela iria vencer o medo. Uma crença, realmente, tola e infantil - aliás, adolescente -, por se contrapor ao poder-dever diário de cobrança, do eleitor. Crença tola, também, de tantos adultos outros, a exemplo de meus pais, que também votavam pensando que esse voto era diferente, crendo nas promessas. Ao final, pois, não me arrependo mais, pois sei que foi um movimento importante para a contínua formação da democracia brasileira - muitos/alguns viram que não basta a crença em promessas, o exercício da cidadania não se encerrando em frente à urna, mas seguindo por todos os dias dos 4 anos do mandato (crença dissociada de cobrança faz mal a qualquer ser humano, mas não apenas a políticos). E, justamente aqui, vi barreira quase intransponível, ao conversar, na eleição, com quem se rotulava dilmista, aecista ou marineiro (em vez de se verem como cidadãos brasileiros, iguais em direitos e, tão importante quanto, em deveres): dizia eu que cada um votasse em quem quisesse e julgasse melhor, mas que não se furtasse a exercer seu poder-dever de cobrar - singela palavra ("cobrar") que atraiu grande carga de revolta, de ofensa, por parte de alguns, pois a mesma se opõe diametralmente a "justificar", a sustentar uma ilusão. Mas, enfim, no geral eu concordo com o texto e elogio o autor, o cidadão devendo buscar identificar quais são as "laranjas podres", não confundí-las com a instituição em si, não valorar o maniqueísmo, o cinismo, nem mesmo, acrescento, resignar-se. E termino com uma anedota, que bem resume minha fala (citei o PT, mas a ele não resumo minha fala, pois não seria justo e razoável, de modo a estendê-la a todos os demais partidos e instituições, que sempre contam com um ser humano à frente): "criança acredita em Papai Noel e adulto acredita em político".