Redação Pragmatismo
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Polícia Militar 29/Dec/2014 às 18:33
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PM assassina jovem que tinha um sonho: ser policial

Jovem que queria ser policial é assassinado por um PM. Ruzivel de Oliveira, 19 anos, foi morto com dois tiros (boca e peito) disparados por um policial militar, tão jovem quanto ele

André Caramante, Ponte

O sonho de se tornar policial fez com que Ruzivel Alencar de Oliveira, 19 anos, ganhasse o apelido pouco usual de “Policinha” nas ruas do Eldorado e Vila Paulina, bairros da periferia de Diadema (ABC paulista). Mas o projeto de vida do rapaz acabou na noite de sexta-feira (26/12).

Logo após ter deixado o trabalho de entregador de pizza para ir à casa da namorada, Oliveira foi morto com dois tiros (boca e peito) disparados por um policial militar, tão jovem quanto ele e que afirmou à Polícia Civil ter atirado “porque pensou que a vítima sacaria uma arma”.

Os destinos de Oliveira e de Getulio Alves da Silva, 25 anos, soldado do 24º Batalhão da Polícia Militar de SP, se cruzaram na esquina das ruas Cangati com Camarupim, no bairro Eldorado. O entregador de pizza seguia em sua motocicleta e o PM havia acabado de atender um caso de “perturbação da ordem pública” – um grupo de jovens ouvia som alto em um carro.

Os dois tiros contra Oliveira foram disparados quando o soldado Getulio Silva ia embora do Eldorado, já que o dono do carro que tinha os potentes alto-falantes ligados naquela noite havia seguido a orientação de baixar o volume do equipamento.

Revoltados com a morte de Oliveira, moradores da região onde o rapaz vivia com sua família apedrejaram dois carros da PM que foram ao bairro dar apoio ao soldado Getulio Silva e ao seu companheiro de patrulhamento, o cabo Benedito Neves Soares, 47 anos.

Após o enterro de Oliveira na manhã deste domingo (28), os moradores voltaram a protestar e os serviços de algumas linhas de ônibus que atendem a região foram interrompidos.

Parecia ser

Na versão do soldado da PM apresentada à Polícia Civil, bastante contestada pelos moradores da área onde Oliveira foi morto, o entregador de pizza, mesmo pilotando sua motocicleta, “levou a mão à cintura fazendo aparecer o que seria uma arma de fogo”.

“Ademais, notou o miliciano estadual [soldado Getulio Silva] que o piloto [Oliveira] fez menção de munir-se com tal objeto [a suposta arma], tendo o policial militar a natural reação de sacar sua pistola e efetuar dois disparos contra o motociclista”, escreveu no registro do caso a delegada Valéria Andreza do Nascimento, do 1º Distrito Policial de Diadema.

Ainda segundo o soldado Getúlio Silva, mesmo baleado no peito e na boca, Oliveira conseguiu pilotar sua motocicleta para tentar escapar. Depois de atirar no jovem, o policial entrou no carro da PM onde seu companheiro o esperava e ambos localizaram o entregador de pizza caído na rua Camarupim.

Os dois PMs disseram que, até aquele momento, não tinham certeza se os tiros dados pelo soldado haviam ou não acertado Oliveira, confirmação que só tiveram depois dos socorristas do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) levarem o entregador de pizza para o Hospital Municipal de Diadema, onde ele chegou morto.

Apesar de afirmarem não terem conseguido ver se Oliveira estava ou não baleado, já que disseram não ter visto sangue no corpo do jovem e também porque ele estava caído de bruços, os dois PMs disseram à Polícia Civil que o revistaram no chão e encontraram com ele um revólver calibre 38 -a arma consta como roubada de uma empresa de segurança, em 2010, na Cidade Ademar, bairro da zona sul de São Paulo.

Sem perícia

A delegada Valéria Nascimento não ouviu o depoimento de nenhum morador do bairro onde Oliveira foi morto e não determinou que fosse realizada perícia no local da morte. “Não foi requisitada perícia para o local devido às condições hostis, sendo que não houve possibilidade de preservação do ambiente [onde Oliveira foi morto]”, escreveu a policial civil.

Parentes e amigos de Oliveira recolheram duas cápsulas de munição .40 e um projétil no local onde o soldado Getúlio Silva atirou contra o entregador de pizza. Os três objetos estão até agora com os familiares do jovem.

A irmã de Oliveira, Ágata Janine Alencar, 22 anos, disse que a camiseta que o entregador de pizza vestia quando foi ferido pelo soldado Getúlio Silva desapareceu.

“É óbvio que tentaram forjar algo para culpar meu irmão pela própria morte. Ele jamais andou armado e essa arma foi plantada nele. A camiseta poderia mostrar como os tiros foram disparados, por exemplo. Ele nunca teve nenhum problema com a polícia”, disse Ágata.

Em um vídeo feito por moradores do bairro Eldorado no qual Oliveira aparece caído e sangrando, enviado à reportagem, é possível ver que ele estava com a roupa descrita por sua irmã.

Na gravação, os moradores mostram também mostram um carro da PM se afastando do local onde o entregador de pizza está caído. Enquanto pede para que os PMs sejam filmados, um morador os chama de “vermes”.

No boletim de ocorrência do caso, a delegada Valéria Nascimento registrou apenas as versões dos policiais militares Getulio Silva (responsável pelos dois tiros contra o entregador de pizza), do companheiro dele, o cabo Benedito Soares, e dos soldados Rodrigo Silva Santos, 24 anos, Adriano Maurício Ferreira, 35, que foram dar apoio aos dois primeiros quando alguns moradores do Eldorado atacavam os carros da PM que chegavam ao local.

Outro lado

Procurados por meio de suas assessorias de imprensa para se manifestar sobre a morte de Oliveira, o secretário da Segurança Pública da gestão de Geraldo Alckmin (PSDB), Fernando Grella Vieira, e o comandante-geral da PM, Benedito Roberto Meira, ambos prestes a deixarem seus postos no governo de São Paulo, não retornaram aos pedidos de entrevistas.

A reportagem também solicitou entrevistas com o soldado Getulio Silva e com o cabo Benedito Soares, envolvidos diretamente na morte de Oliveira, e com a delegada Valéria Nascimento, responsável pela não realização de perícia no local onde o entregador de pizza foi baleado e por não ter ouvido nenhum morador como testemunha da ação dos PMs. Os pedidos não foram atendidos pela assessoria de imprensa da Secretaria da Segurança Pública.

Assista vídeo feito por amigos de Ruzivel Alencar de Oliveira:

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Comentários

  1. poliana Postado em 29/Dec/2014 às 21:17

    Hummm..assim q li o título da matéria me veio em mente q a vitima era pobre e da periferia..pq será hein?? Q lindo! Mais uma pro belo histórico da policia militar desse país! Q orgulho dessa corporação!

    • poliana Postado em 31/Dec/2014 às 21:28

      Putz digo eu, naro. Faça-me um favor viu...os msmos casos se repetem diariamente, e pra vc ta tudo ok...ok entaum. Feliz ano novo querido!

  2. SILVIO MIGUEL GOMES Postado em 30/Dec/2014 às 09:34

    O interessante é a conduta da Autoridade Policial. Fazendo de tudo para proteger PM. No meio essa conduta é chamada de "matar no peito": ajuda que se dá para os amigos. Só que a PM odeia a Polícia Civil e querem o seu extermínio.

    • Edson Lau Postado em 31/Dec/2014 às 17:11

      como é que a polícia civil vai fazer levantamento onde a população aproveita o embalo do ocorrido e hostiliza o serviço dela? Vai correr riscos ao pedir testemunhas, vai colocar a vida em risco dos colegas, ao tentar fazer o levantamento do que aconteceu?

  3. Jonas Schlesinger Postado em 30/Dec/2014 às 13:41

    Realmente é muito estranho. Não duvido nada que plantaram essa arma nesse pobre coitado só para dizer que ele estava armado. Mas é assim mesmo, policial pé de chinelo não sabe trabalhar com o cérebro; esse deve ter nascido na favela, perto da bocada e tem uma mãe barraqueira. Daí esse tipinho pé rapado acha que é alguma autoridade só pq vestia uma farda de guardinha aí mete ficha com qualquer suspeito. Aí quando atinge os 50 anos ainda fica como soldado ou no máximo cabo. Ele atirou pq o rapaz deve morar na periferia, pq quem mora em periferia se estranha com quem mora em periferia. Pode parecer absurdo, mas enquanto não houver a desmilitarização da polícia vai acontecer isso todos os dias.

  4. Davi T. Postado em 30/Dec/2014 às 15:59

    Cadê a bancada da bala e os seus defensores agora para irem lá ajudar a família do jovem!? O precisa ser entendido são duas coisas: primeiro que o governo estadual é cumplice desse assassinato, porquê aterrorizar a periferia é política publica nesse país. E segundo que ninguém se comove nem se sensibiliza. No EUA a polícia matou jovens da periferia e a sociedade foi as ruas em massa, a polícia ficou com medo, o Estado ficou com medo, a sociedade exerceu a democracia e mostrou quem é que manda. No Brasil isso não acontece, a sociedade ampara a polícia e os políticos corruptos e fica contra a juventudade pobre que é assassinada todos os dias.

    • Cesinha Ribeiro Postado em 01/Jan/2015 às 02:04

      Infelizmente a gente não tem polícia, ainda temos jagunço...

  5. Andre CdE Postado em 31/Dec/2014 às 10:11

    Vcs falam como se o problema fosse a militarização da polícia. Lá em NY, a polícia não eh militar e vcs viram o q aconteceu recentemente??

  6. Simeão Postado em 31/Dec/2014 às 10:18

    Davi, então vai morar nos EUA seu merda, tu não sabe o que escolher entre tua vida e a incerteza da outra. Nessa hora existe uma escolha e tenho que você optaria pela certeza da sua.

    • Cesinha Ribeiro Postado em 01/Jan/2015 às 02:07

      O que aconteceu é despreparo e garantia de impunidade!!! Característica da nossa cultura, não só da polícia...

  7. José Postado em 31/Dec/2014 às 17:10

    Para isso não precisa robôs, precisa da reforma do judiciário e nova Constituição que obrigue leis claras e não interpretativas. Outras atitudes são de extrtema importância para democratização da inJustiça: 1) fim do tribunal do júri (julgamentos serão por um colegiado de 5 juízes formados e não por pessoas encontradas na rua e que não entendem nada de direito), 2) o fim da prisão arbitrária para "manutenção da ordem pública", 3) o fim do direito de investigar do MP e criação de uma polícia forense, 4) indenizações por erros judiciais saindo do bolso dos juízes (quando comprovada a má fé ou incompetência destes), 5) obrigatoriedade de 40 horas semanais para juízes e 30 dias de férias, 6) demissão imediata em caso de abuso de autoridade, má fé e incompetência. A violência policial é gerada pela incapacidade dos governos estaduais de treinar militarmente a polícia militar (que é militar só no nome) e o MP, que deveria fiscalizar tudo isso, fecha os olhos e só age quando convém.

    • Cesinha Ribeiro Postado em 01/Jan/2015 às 02:01

      José, 1) Direito tbm é bom senso, e bom senso não é uma característica exclusiva das pessoas formadas em direito! Que se tenha como critério de escolha dos jurados o nível escolar capaz de entender o que se fale! 3) Graças a uma investigação do MP mais de 10 parlamentares do meu estado estão respondendo a procedimento criminal!!! Se fosse pela polícia nunca se mexeria uma palha contra tais "elementos"!!! Enquanto se pede a desmilitarização da polícia, vc pede mais militarização... Daqui a pouco pede a decretação de estado de sítio e supressão de direitos constitucionais...

  8. Carlos Postado em 31/Dec/2014 às 21:42

    Quero vê daqui quem escreve teria coragem de ser policial no Brasil, policial está acostumado com criticas boa parde da humanidade não da valor nem para a própria família quanto mais para a polícia mas a hipocrisia é grande, quem critica geralmente são os primeiros a chamarem.

    • Cesinha Ribeiro Postado em 01/Jan/2015 às 02:09

      Eu sou policial e não tenho o menor orgulho da minha corporação. Infelizmente tem que chamar a porcaria que tem, afinal são pagos para tanto!! Mas que o povo merecia coisa melhor, merecia!

      • Carlos Postado em 03/Jan/2015 às 17:36

        O povo merecia coisa melhor? Uma minoria do povo certamente merecia.