Redação Pragmatismo
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Ditadura Militar 08/Dec/2014 às 19:39
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Médici guardou provas de tortura na própria casa

Ditador Emílio Garrastazu Médici, que presidiu o Brasil no auge do regime militar, guardou em casa provas de tortura. Durante décadas a cúpula do governo militar negou a prática de tortura contra presos políticos na ditadura

O general Médici (Arquivo/Ag.Estado)
O general Médici (Arquivo/Ag.Estado)

Durante décadas a cúpula do governo militar negou a prática de tortura contra presos políticos na ditadura. Não importavam as denúncias das famílias, as marcas ou sequelas das vítimas. Quase 30 anos após o fim do regime, surgem agora as primeiras provas documentais de que no auge da repressão política — 1970 — o próprio general e então presidente da República Emílio Garrastazu Médici sabia em detalhes sobre a violência dos quartéis e suas consequências físicas e psicológicas.

Médici guardou até a morte, em meio a 32 caixas de manuscritos, um caderno de capa de couro preta com o nome do ex-presidente timbrado em letras douradas na frente. Dentro, a revelação: três prontuários médicos de presas políticas atendidas no Hospital Central do Exército (HCE). São elas: Dalva Bonet,Francisca Abigail Paranhos, além dos documentos de Vera Sílvia Magalhães — conhecida por sua participação no sequestro do embaixador americano Charles Elbrick.

O arquivo pessoal de Médici, doado pela família há 10 anos, integra o acervo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e foi disponibilizado para pesquisa da Comissão da Verdade do Rio, que localizou os prontuários. “Quanto mais temos acesso aos documentos, confirmamos que a cadeia de comando das torturas e desaparecimentos começava no Palácio do Planalto”, afirma Wadih Damous, presidente da CEV-Rio. Cópias dos documentos serão entregues às famílias em audiência pública na próxima terça-feira.

O prontuário de Vera Sílvia detalha cada medicamento utilizado por ela durante os dois períodos de internação registrados. Presa em 6 de março de 1970, ela chegou pela primeira vez ao HCE transferida do Hospital Souza Aguiar no dia seguinte devido a um “traumatismo craniano encefálico por projétil de arma de fogo”. Tratada na unidade, ela foi liberada dias depois para interrogatório no DOI-Codi.

Em 18 de maio foi internada novamente, e a descrição do quadro dá a medida do sofrimento de Vera. “Paciente acentuadamente desnutrida, subfebril. O exame neurológico acusa sensível diminuição da força muscular nos membros inferiores…há acentuada hipertrofia muscular nos membros inferiores”, registra o prontuário. O diagnóstico, porém, foi de que ela estava com uma paralisia nas pernas devido a razões psicológicas.

O médico legista Levi Inima, que auxilia a pesquisa da CEV-Rio, disse que a avaliação é “falsa”. “As alterações em termos de hipotrofia muscular demonstram a tortura em pau de arara. Ela estava bastante desnutrida, o que mostra os maus-tratos”, explicou. Vera deixou o Brasil em junho de 1970, trocada pelo embaixador alemão. Ela retornou após a anistia e morreu devido a um câncer em 2007.

Choque elétrico provocou crises convulsivas

Ao saber que seu prontuário médico fazia parte do arquivo pessoal do presidente Médici, a tradutora Maria Dalva Bonet, 68 anos, olha para alto e respira fundo. “Vou precisar de um tempo para poder falar sobre isso. É inacreditável”, desabafa Dalva.

Militante do Partido Comunista Revolucionário Brasileiro (PCBR), ela diz que foi presa no fim de janeiro de 1970 junto com a amiga inseparável, Abigail. “Foram 72 horas de pancadaria. Eu estava com a pele toda descascada do choque e me jogaram no chão de cimento. Foi quando eu comecei a ter hemorragia. Os presos pressionaram e eles me levaram para o HCE”, conta Dalva.

Ela diz que ficou cinco meses sem andar devido à tortura no pau de arara. Além disso, os choques desenvolveram um quadro de epilepsia. Por isso, como o próprio prontuário encontrado registra, foram realizados exames neurológicos. “Eles queriam dizer que as convulsões que eu passei a ter eram preexistentes. Mas eu nunca tive nada”, diz ela. Dalva disse que sofreu com crises convulsivas durante 10 anos.

Segundo o diagnóstico feito no HCE, a paralisia de suas pernas também seria emocional — como a de Vera.“Não apresenta vontade de locomover-se; procura queixar-se de tudo e de todos; é impertinente e astuciosa. Costuma ser acometida por pesadelos”, descreve o documento.

O médico legista Levi Inima também chamou a atenção para a quantidade de tranquilizantes, ansiolíticos e sedativos como Mandrix e Kiatrium ministrados. “ É uma associação de vários medicamentos. Isso tudo faz parte de um cenário médico exatamente para suprimir a questão da tortura”, explica Inima.

‘Não deseja recuperar-se’

A advogada Francisca Abigail Paranhos também teve a sua passagem pelo Hospital Central do Exército guardada por Médici. No relatório que segue com o prontuário ela é descrita como “indiciada em inquérito policial-militar pelos crimes praticados como membro do PCBR, alegou paralisação dos membros inferiores”.

Além disso, o diagnóstico diz que Abigail, como era conhecida, não ajudava na melhora de seu quadro de saúde. “Os exames revelaram que Abigail é portadora de depressão neurótica, que não deseja recuperar-se não colaborando para o sucesso do tratamento que lhe é ministrado”, finaliza o relatório.

Dalva diz que elas deixaram a prisão cerca de um ano e meio depois. Abigail morreu de câncer em 1994.

Juliana Dal Piva, O Dia

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Comentários

  1. carlos Postado em 08/Dec/2014 às 20:12

    Isto e para os eleitores da veja,folha sp,globo, rbs,estadao e outros conservadores que apoiaram o regime militar, a covardia deste sistema autoritario e os coxinhas e a toga preta querem a volta.

  2. Selton Postado em 08/Dec/2014 às 22:44

    Não se pode negar a História e nem a esconder. A pessoa que assim o faz acaba ludibriada quando os fatos vêm a tona.

  3. enganado Postado em 08/Dec/2014 às 23:51

    Engraçado! Tem certeza da originalidade do arquivo? Não é copia xerox? Tenho quase certeza que os originais estão muito bem guardados na CIA=NSA=FBI, afinal os patrões do exército queriam ter a convicção que as ordens estavam sendo cumpridas a risca. Ah bem!

  4. assalariado. Postado em 09/Dec/2014 às 09:49

    A direita mundial com raízes no G7 -(os colonozadores capitalistas do planeta)-, nunca passou de meia dúzia de burgueses que, quando perdem as eleições para alguma força, digamos, popular, logo entra em crise convulsiva do golpismo, custe o que custar, é questão de tempo. Mas, vamos dar um golpe civil/ militar, nem que para isso a FFAA tenha que assassinar os próprios irmãos e irmãs, como em 1964, em defesa dos interesses colonizadores imperialistas. "Longe" das estruturas de poder, os capitalistas, se sentem "roubados", no sentido de que o Estado nada mais é que uma cria, um apêndice politico economico e militar repressivo, dos donos do capital e sua ideologia de dominação, para nos manter nos manter explorados eternamente. Afinal de contas, as fardas estão ai para manter a ordem, ... a ordem capitalista. O que não deixa de ser verdadeiro, pelo fato de, vivermos numa sociedade dividida em luta de classes. Isto é, (capital x trabalho). Aqui, neste ponto, é o ponto de partida de toda luta comtra as injustiças do capital. Porem, camuflada pelos plim, plim da vida. Óbvio!! Essa é a razão central das convulsões golpistas da burguesia capitalista, que é, fazer prevalecer seus lucros (mais valia) sobre os assalariados. O Estado e suas instituições, por sua vez, viram um putero, um puxadinho de aluguel para fazerem seus bacanais de (-MAIS VALIA)-. Tudo isso recheado com discurso de que sua falsa "meritocracia" , que lhes "da o direito", sobre os demais sobreviventes. Vivemos sob a ditadura do capital, agora, globalizado -(e qualquer movimento social, tome tiros, porradas e bombas)- esta parte da "democracia" representativa, quem exerce são as santíssimas instituições de Estado, braços armados e braços jurídicos, para assim, escamotear os tapas de pelica do capital, que é exercido pelo " Estado de Direito". As elites do capital, se escondem dentro do Estado e nos enganam, dizendo no alto faltante da mídia midiotizadora das multidões, que o Estado representa a todos nós. Porém, esse nós, claro, restritamente ligado aos conformes e limites de uma sociedade baseada numa "democracia" burguesa. Todos os golpes de Estado no Brasil e na latinoamerica, sempre foram uma soma. Isto é, o porta voz do golpe é a midia esgoto, que se enc arrega de fazer a cabeças das multidões. Corrupção, corrupção, corrupção, ... Num 2º momento faz convencer, nos bastifdores, os traíras da FFAA + CIA/ EUA , geralmemte, a palavra de ordem é acabar com a corrupção que no final da linha, são as próprias elites e os entreguistas da FFAA. A história recente, já nos mostrou isso. Não passsarão, não passarão, ...

    • Arion Postado em 09/Dec/2014 às 11:59

      Perfeita colocação!

    • Eva Postado em 09/Dec/2014 às 14:13

      Muito bom!

    • assalariado. Postado em 09/Dec/2014 às 18:24

      Luis, não alcancei o seu raciocínio. Tem como explicar seu comentário em outras palavras? Desde já, agradeço.

  5. Caio Postado em 09/Dec/2014 às 09:54

    ah esse povo que mata o outro só por pensar diferente, que amor que a politica faz com o homem

    • assalariado. Postado em 09/Dec/2014 às 10:51

      Caio, a coisa é bem maior do que "pensar diferente". Vivemos numa sociedade de luta de classes. Isto é, dividida entre exploradores x explorados. A classe dominante jamais deixará os dominados se libertarem da sua tirania para acumulação de riquezas as custas do suor coletivo. Riquezas estas, produzidas pelos assalariados e a sociedade constituida, porém, expropriada e voltada para os prazeres familiares de meia duzia de parasitas capitalistas, não percebes? Saudações Socialistas.

      • Ernani Postado em 09/Dec/2014 às 16:23

        assalariado, aposto que quem portasse um livro comunista, nem que seja por pura curiosidade sobre a ideologia, seria torturado e morto. Então o "pensar diferente" muitas vezes matava sim.

  6. balaencontrada Postado em 09/Dec/2014 às 09:58

    "Presidiu" é a palavra que convem, na época o Brasil parecia um presidio mesmo.

  7. Thales Postado em 09/Dec/2014 às 11:49

    Só otário pra acreditar que uma autoridade dessa não sabia, do mesmo jeito que acontece no petrolão, trensalão e esses tantos esquemas que estão vindo à tona.

  8. victor Postado em 09/Dec/2014 às 12:10

    Tô esperando ansioso o relatóriodda Comissão da Verdade. Quero esse bandidos an cadeia!

    • enganado Postado em 09/Dec/2014 às 23:52

      Caro Victor Desde qdo a Direita do BRASIL vai ser punida por algum crime praticado contra Brasileiros? Ainda mais das forças armadas. Acorde! NUNCA! O BRASIL tem dono, e moram no hemisfério norte e atendem pelo nome de EUA/iSSrael. Aliás jamais permitiram que a PM do USArmy, postado na América Latina sob o nome de exército brasileiro, fossem punidos, pois cumpriam muito bem as ordens emanada por Washington, naquela época.

    • Silva Postado em 11/Dec/2014 às 20:34

      Ria mesmo hiena, já que com à derrota nas urnas, chorou tanto, que só agora conseguiu engolir o choro. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK. Bobão!

  9. sasouza Postado em 09/Dec/2014 às 12:36

    E ainda tem gente pedindo a volta dos militares ao poder.... Ouvir do deputado Jair Bonssonaro que nunca existiu Ditadura no Brasil, é chamar a nossa historia de conversa mole pra boi dormir!!!

    • Celio Bernstein Postado em 10/Dec/2014 às 01:52

      Pois é. Agora pergunte aos que desejam a volta dos militares no poder se querem testar o pau de arara...

  10. enganado Postado em 09/Dec/2014 às 23:43

    Acrescente no seu comentário que o PSDB nunca roubou NADA! Se roubou é invencionice do PT.

  11. Roberto Pedroso Postado em 21/Dec/2014 às 11:18

    O que me deixa mais desalentado e perplexo é a quantidade de jovens que não passaram nem sequer por duas eleições ao executivo e bradam pela volta de um regime que eles nem sequer tem ideia do que foi,jovens mal formados intelectualmente e mal informados,triste constatação essa sobre parte de nossa juventude,ademais recomendaria a leitura do livro : “Infância roubada”, recém-lançado pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo.- principalmente para os bolsonaristas de plantão.Aqueles que defendem a volta do regime de exceção padecem de um grave problema de falta de conhecimento histórico sobre o próprio País ou agem guiados pela égide da má fé.

  12. Beatriz Postado em 30/Dec/2014 às 15:02

    parabéns pelo poder de síntese, assalariado.