Redação Pragmatismo
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Mulheres violadas 15/Dec/2014 às 20:00
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A árdua tarefa de ser mãe no Século 21

Um diálogo com um menino da sexta série trouxe à baila o lado da maternidade que ainda não estamos preparadas para discutir. Está na hora de começar a falar sobre nossa luta para que nossos filhos entendam o que estamos enfrentando, nossos maridos entendam por que estamos cansadas o tempo todo e, como mulheres, possamos ter mais empatia umas pelas outras e comecemos a nos concentrar em soluções que tragam alívio a nossas vidas

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Traci Bild*, Huffington Post. Tradução: Brasil Post

Ao entrar em uma sala de aula da sexta série para dar uma palestra de cunho social, percebi um lindo menino de cabelo louro tão claro que era quase branco. Ele tinha olhos azuis brilhantes e a pele imaculada. Olhando para ele, pensei no meu próprio filho e em como ele havia crescido depressa – num dia era um bebê e no outro estava praticamente adulto (pelo menos é o que parece).

Eu estava programada para falar para seis classes sobre editoração de livros, e esta era minha última palestra do dia. Acreditem, eu estava bem aquecida! Comecei mostrando dois livros de negócios que já havia publicado, e depois meu atual projeto e obra da vida inteira, Get Your Girl Back [Recupere a sua menina].

Um dos garotos levantou a mão e disse: “sobre o que é esse livro, ‘Recupere a sua menina’?”

Puxa vida… como eu poderia explicar isso em termos que crianças da sexta série compreendessem? Comecei delicadamente, tateando com as palavras…

“Você sabe quando sua mãe o deixa no ponto de ônibus ou na escola e então vai para o trabalho?”

A maioria das crianças balançou a cabeça e disse “sim…”

“Ela pode trabalhar das 9 às 17h ou até 18h, depois volta para casa, certo? Mas então ela começa a trabalhar de novo. Faz o jantar, limpa a cozinha, talvez lave um monte de roupas e o ajude com a lição de casa.”

Fiquei surpresa – as crianças estavam na beirada das cadeiras, atentas a cada palavra minha.
Então continuei: “Sem querer, sua mãe pode ficar meio chata, talvez gritar com você, sem intenção – porque ela está realmente cansada e, mesmo sem perceber, perde a paciência.”

As crianças balançavam as cabeças e algumas diziam “sim” em voz alta.

“Bem, meu livro é para ajudar sua mãe, porque ela não quer ser assim. Ela não quer ficar cansada, ela quer brincar e conversar com você. Acredite ou não, ela quer se divertir e fazer as coisas que fazia quando era menina, na sua idade, antes que a vida a obrigasse a crescer. O problema é que sua mãe não tem certeza de como fazer isso, na verdade, porque ela tem tanta coisa para fazer em um dia que tudo o que ela realmente quer é dormir!”

Eu continuei muito suavemente e expliquei que já tinha sido essa mãe, mas tinha encontrado uma maneira de sair da opressão diária. Minha paixão, meu livro, pretendia ajudar suas mães a fazer a mesma coisa.

Como tenho dois filhos, fiquei arrasada ao ver como esses garotos estavam interessados. Todos os olhares estavam fixos em mim – os meninos, as meninas e até a professora escutavam atentamente cada palavra que eu dizia. Era como se eles compreendessem exatamente o que eu estava falando (na verdade, eu pensava que esse assunto não interessaria aos garotos).

Eu tenho uma pergunta…

Então o menino louro que vi quando entrei levantou a mão para fazer uma pergunta. “Eu não tenho uma pergunta, mas sabe as mães de que você estava falando, as que trabalham o dia inteiro?”

“Sim”, respondi.

“Bem, minha mãe é assim. Ela trabalha das 9 até as 18h e então volta para casa e pega seu laptop e trabalha por mais algumas horas… ela é como essa mãe de que você falou.”

Não foi exatamente o que ele disse, mas o modo como disse que partiu meu coração. Havia tristeza. Ele tinha acabado de perceber pelo que sua mãe estava passando. Eu pude ver um despertar em sua expressão… não apenas como “mãe dele”, mas como mulher. Pela primeira vez em sua vida, ele estava do lado de fora olhando para dentro e viu sua mãe de modo diferente.

Mãe e filho tentando encontrar um caminho no mundo, com esperanças, sonhos e o desejo de criar uma boa vida.

Fiquei arrepiada.

Olhei para o menino diretamente nos olhos e disse: sSua mãe o ama mais que a própria vida”.
Ele parecia tão triste e arrasado… tive de me esforçar para não chorar. Continuei: “Sua mãe provavelmente sofre tamanha pressão, que nem percebe que não está dedicando tempo a você. Ela quer brincar e rir com você, simplesmente não sabe como fazer isso”.

Na minha mente, eu estava revendo os milhares de conversas que tive com mães trabalhadoras nos últimos 20 anos, enquanto dava consultoria a empresas, como palestrante e coach profissional. Suas barreiras raramente eram relacionadas ao trabalho, e sim pessoais, e quando não eram resolvidas se refletiam na queda do desempenho no trabalho.

Olhei ao redor da sala… ainda não podia acreditar no modo como aquele menino estava se expondo na frente de toda a classe. Mas a verdade era que éramos apenas ele e eu conversando sobre a mãe dele. Ele não se importava com o que os outros pensassem ou pudessem dizer, ele estava processando o que era a vida da mãe dele, não em relação a si mesmo e suas necessidades, mas à vida e às necessidades dela, o que ela suporta, e vendo-a sob uma luz diferente.

De maneira surpreendente, as outras crianças continuavam me ouvindo, e no centro dessa conversa tão inesperada elas entenderam: a mãe delas deveria ter tudo resolvido, quer trabalhasse fora de casa quer não, mas na verdade não tinha.

Fui para a escola ensinar às crianças sobre editoração e saí tendo aprendido que as crianças são muito mais intuitivas do que pensamos – e que precisamos falar com elas sobre as realidades de ser uma trabalhadora no século 21. A verdade é que a maioria de nossas avós não trabalhava fora de casa, mas hoje 40% das mulheres são as provedoras da família. Nesse período de tempo, ninguém deu às mães um manual de instruções sobre como lidar com tudo isso, e por mais que nos esforcemos para esconder ainda não estamos fazendo um trabalho muito bom. Apesar de termos “mais”, as mulheres são menos felizes hoje do que em qualquer outro momento da história.

Em vez de agir como se tivéssemos resolvido tudo, está na hora de começar a falar sobre nossa luta para que nossos filhos entendam o que estamos enfrentando, nossos maridos entendam por que estamos cansadas o tempo todo e, como mulheres, possamos ter mais empatia umas pelas outras e comecemos a nos concentrar em soluções que tragam alívio a nossas vidas.

Também aprendi que não estou apenas lutando pelas mulheres, mas pelos filhos também, e por mais que lutemos, devo pressionar e continuar defendendo as mulheres que não podem ou não conseguem defender a si mesmas. Nunca esquecerei o olhar daquele menino nem o som de sua voz… tão desesperado para compreender por que sua mãe passa tão pouco tempo com ele. Eu nunca esquecerei as crianças penduradas de cada palavra minha porque para muitas delas eu também estava falando sobre suas mães.

Podemos falar sobre isto?

Não importa o quanto este blog o afete, se ele o deixa irritado comigo por falar a verdade ou atinge um nervo porque você pode entender a situação, o que eu mais quero é iniciar a conversa. Ninguém quer ser “aquela mãe” que trabalha o tempo todo, passa pouco tempo com os filhos, grita com eles quando eles tentam falar porque ela está verificando e-mails, distraída em seus pensamentos sem sequer perceber o que está fazendo — e isolando-se das pessoas que ela mais ama. Mas muitas de nós estamos fazendo exatamente isso!

Se quisermos ver a mudança, temos de começar a falar a verdade sem medo de ser julgadas.

Devemos nos ajudar umas às outras, falando em vez de julgar; mostrando nossas vulnerabilidade em vez de agir como se tudo estivesse perfeito em nossas vidas. Eu já fui “aquela mãe”, mas me orgulho de dizer que hoje não sou. Começarei a conversa oferecendo seis pequenos passos que dei que levaram a outros e afinal transformaram minha vida.

1. Respire. É sério, faça uma respiração profunda para dentro e para fora, para dentro e para fora e desacelere por um momento. Você precisa respirar!

2. Faça listas. Como mulher, você provavelmente foi educada para acreditar que poderia conseguir “tudo”, e esteve se matando para tentar consegui-lo. Sabe o que é esse tudo? Como você vai saber quando o tiver? Você está perdendo o que é mais importante no esforço para conquistar tudo?”

3. Priorize sua vida. Seja honesta sobre o que é mais importante para você. Está respeitando essas prioridades? Se não, provavelmente está em desequilíbrio, infeliz e não realizada. Escreva suas três maiores prioridades e considere que adaptações você pode fazer para colocá-las em ordem.

4. Assuma o comando. Considere mudar seu foco de ter “tudo” para o “seu tudo”. Provavelmente não é preciso muito para deixá-la feliz. Estou falando sobre a verdadeira felicidade, no fundo da sua alma. Então, o que ela faz por você? Construa seu tudo em torno das prioridades mais importantes. Faça uma lista resumida do que você quer na vida, o que você chama de “seu tudo”, e em vez de tentar ter o que todo mundo tem, persiga o que é mais importante para você.

5. Faça mudanças. Se você não gosta da sua vida, modifique-a. Pequenas alterações podem criar enormes efeitos na sua felicidade. Que duas ou três pequenas mudanças você pode fazer esta semana?

Para a mãe do menino

Enquanto eu me emocionei com aquele menino na classe, também tive simpatia por sua mãe. Ser uma mãe trabalhadora não é fácil. Para ela e outras mães que se sentem arrasadas, eu diria: respire fundo, tudo vai dar certo. Conforme o ano termina, faça listas de prioridades na sua vida, assuma o comando e faça pequenas mudanças que a levarão para um lugar melhor ao entrar em 2015. Se você já chegou lá, apoie e anime as mães que ainda não entenderam. Vamos falar sobre isto hoje para que nossas filhas não continuem falando a respeito amanhã. Juntas podemos fazer a mudança que queremos ver.

*Traci Bild é mãe, escritora, palestrante e empreendedora

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Comentários

  1. Jonas Schlesinger Postado em 17/Dec/2014 às 16:24

    Yeyyyy, fico feliz por eu ter uma mãe tão independente quanto o meu pai.