Luana Tolentino
Colaborador(a)
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Racismo não 04/Nov/2014 às 21:20
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Tamires: a menina que queria ser negra

crianca negra branca
(Imagem: Manuela e Flor, Meninas do Josué)

Luana Tolentino*

Para quem acredita em destino, o meu se mostrou cedo demais. Aos dez anos alfabetizei a pequena Bárbara, que na época tinha cinco. É bem verdade que tentei fugir, trapacear o que a vida havia reservado para mim. Até prestar o vestibular, jamais admiti que me tornaria professora. Por outro lado, nunca consegui pensar em qualquer outra profissão. O resultado não poderia ter sido outro: há cinco anos dou aulas de História para turmas do ensino fundamental e médio.

Acho que tenho mais habilidade com os maiores. Lidar com os conflitos típicos de alunos e alunas na faixa etária entre 11 e 13 anos, demanda muita energia. Em 2012, depois de ministrar aulas somente para estudantes do ensino médio, assumi algumas turmas da 6ª série, já no último bimestre. Durante esse período, levei para sala de aula um projeto sobre Gênero e Raça, fruto do meu desejo “pela criação de um mundo de conhecimentos recíprocos”, além de uma tentativa de implementar a lei 10.639, que desde 2003, tornou obrigatório o ensino das Histórias e Culturas africanas e afro-brasileiras em sala de aula.

Nesses dois meses, trabalhei principalmente a questão da construção da identidade racial dos garotos e garotas, a partir de suas vivências, de algumas representações da população negra na mídia, na literatura e na música. Embora o tempo para a realização das atividades tenha sido curto, posso dizer que o trabalho trouxe bons frutos.

O entusiasmo das turmas era evidente. O envolvimento, a participação e o compromisso também.  Foi um período de descobertas e aprendizados, tanto para eles, quanto para mim. Dessa experiência, guardo as melhores lembranças. Porém, nada me marcou tanto quanto um diálogo entre as alunas Tamires e Esther. A primeira, que tem a pele branca, afirmou: “Eu queria ser negra só para ser afro-brasileira igual a minha professora!”. Esther, que é negra, com altivez, respondeu: “Ainda bem que eu já sou”!

Costumo dizer que o riso seguido do choro é a maior expressão de emoção que uma pessoa pode ter. E foi exatamente isso que eu senti. Achei graça da sinceridade e da pureza presentes nas palavras da Tamires. Por outro lado, não conseguia conter a lágrimas ao pensar na resposta afirmativa da Esther, carregada de orgulho pelo seu pertencimento racial. Ao mesmo tempo, chorava ao lembrar de meu tempo de escola, dos meus amigos negros, e de todas as vezes que alguns professores tentaram desqualificar a minha pessoa e o meu trabalho, acusando-o de desnecessário, e sem qualquer tipo de fundamento.

Aos doze anos, idade das duas alunas, a última coisa que eu queria na vida era ser negra. Não tenho o menor problema em dizer isso. O percurso que percorri para afirmar a minha negritude, com o mesmo ensejo que a Esther, foi marcado por muito sofrimento. E antes que alguém me importune, dizendo que “nós negros temos preconceitos de nós mesmos”, explico: histórica e cotidianamente, somos expostos a todo tipo de humilhações. O desprezo e a vergonha que sentimos dos nossos corpos enquanto negros são frutos da violência racista a que somos submetidos desde a tenra idade.

A escola, enquanto componente de uma sociedade racista como a brasileira, sobremaneira (re)produz e legitima as práticas discriminatórias, tornando a trajetória de alunos e alunas negras um tanto traumática. No espaço escolar, o preconceito racial se manifesta de diferentes modos: pelo silenciamento ou ocultação acerca das assimetrias existentes nas relações raciais; ao negar à população negra a condição de sujeitos históricos, vivos e participativos na formação do Brasil; e sendo conivente e omissa com atitudes que desqualificam e menosprezam os estudantes afrodescendentes. Dificilmente, uma criança negra durante seu percurso escolar, nunca foi chamada de “macaca”, “beiçuda”, “negra do cabelo duro”, e tantas outras formas de xingamento, o que contribui preponderantemente para que haja um sentimento de negação de sua identidade.

Sartre, no belíssimo ensaio Orfeu Negro, afirma que, “ministrando-o ao negro, o professor, ministra-lhe, ademais, centenas de hábitos de linguagem que consagram a prioridade do branco sobre o preto. O preto aprenderá a dizer “branco como a neve” para significar a inocência, a falar da negrura de um olhar, de uma alma de um crime”. Tamires e Esther, naquele momento, sem saber, representaram o movimento inverso. Um movimento de ressignificação e valorização das diferenças. Mais do que isso. Suas palavras soaram como um lenitivo. Trouxeram a esperança e a certeza de podemos contribuir para a desconstrução de preconceitos e estereótipos que discriminam e  inferiorizam o grupo social negro.

Leia mais textos de Luana Tolentino aqui

O vinte de novembro, dia da Consciência Negra, se aproxima. Talvez, inconscientemente, tenha me lembrado dessa história para sentir-me encorajada a continuar lutando pela superação das desigualdades raciais, e para construção de um país onde “Tamires” (re)conheçam a beleza (em todos os sentidos) do povo negro. E mais, que outras “Esther”, sejam ensinadas a sentir orgulho de ser afro-brasileiras.

*Luana Tolentino é Professora, Historiada, ativista dos Movimentos Negro e Feminista e colaborou para Pragmatismo Político

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Comentários

  1. alexandre Postado em 04/Nov/2014 às 15:22

    Lindo texto. O conhecimento é o principal meio de se superar a intolerância.

  2. Sabrina Postado em 04/Nov/2014 às 16:26

    Linda história.

  3. Heitor Postado em 04/Nov/2014 às 17:16

    Belo texto.Belo Relato.Bela história.

  4. Sheila Postado em 04/Nov/2014 às 23:23

    Parabéns Luana! Belo texto e bela trajetória de vida. Conhecer a história da Tamires e da Esther me dá ânimo para acreditar num país melhor.

  5. Marcello Souza Postado em 05/Nov/2014 às 09:44

    Não posso ler os textos de vocês no trabalho quando acordo mais emotivo. Quase acabei chorando aqui. Belo texto, parabéns.

  6. Veronica Postado em 05/Nov/2014 às 10:41

    Que história linda! É FUNDAMENTAL explicar, desenhar, repetir que o racismo existe HOJE, que lutar contra o racismo é urgente, que ações afirmativas não são apenas compensação histórica, mas diária. Para combater o mito do racismo contra brancos e o de que negros podem ser racistas contra si mesmos, vou espalhar esta frase "O desprezo e a vergonha que sentimos dos nossos corpos enquanto negros são frutos da violência racista a que somos submetidos desde a tenra idade." Sou branca, mãe de negras, e o racismo me atingiu como um banho de lama...

  7. raphael correia Postado em 05/Nov/2014 às 12:12

    Sou negro e professor igual a autora do texto; já vivi situações semelhantes em sala de aula e realmente e comovente quando se passa por isso, também entendo muito bem a luta dela como aluna e agora como professora para firmar um identidade negra respeitável no ambiente escolar; no entanto sem querer ser chato,mas já sendo,penso que a autora do texto está vendendo a inocência das crianças com este artigo, elas não pensam nas diferenças entre negros e brancos elas viram apenas bons exemplos que a autora/professora passou e se projetaram neles, para mim esse é o verdadeiro trabalho de um bom professor abrir o mundo para as pessoas; ao divulgar estamos vendendo um comportamento distorcendo a bonita historia, temos de lutar para que Tamíres e Esther ao crescer continue não vendo diferença entre negros e brancos....Nossa divulgação será feita daqui alguns anos quando a sociedade ver o outro apenas como um ser humano

    • Luiz Souza Postado em 10/Nov/2014 às 05:26

      Você toca num ponto central ao dizer "identidade negra respeitável". Imagino vossa luta, pois o que o opressor sugere é outra identidade, bem mais nefasta.

  8. Luiz Fernando Postado em 05/Nov/2014 às 13:04

    Nao se quer ser afrodescendente , o que se busca , é poder ser o que é sem ser diferenciado por isso , e sim pertencer a um todo !

  9. Gabriella Postado em 05/Nov/2014 às 13:25

    Parabéns, belíssimo relato.

  10. Luh Souza Postado em 06/Nov/2014 às 02:08

    Ainda bem que eu também já sou. Amei ler tudo isso! <3

  11. Maria Lucia da Silva Postado em 06/Nov/2014 às 06:37

    Carlos é isso mesmo: cada um é cada um, mas, podemos ser mais do que isso. Somos fruto das historias de nossa trajetória e dos encontros surgidos neste caminho, mas trazemos conosco a herança de nossos ancestrais. O que me chama a atencao é que você inicia seu texto dizendo querer ser mais escuro, portanto, identificado com Tamires; mas, parece nao saber quem é: sou branco ou sou preto, diferente de Esther, que sabe quem é para, em seguida, desqualificar uma historia linda, de duas criancas que sabem quem são, dizendo: não haver sentido querer fazer parte de uma minoria. Uma minoria que representa 53,1% da população. A mim, seu texto me inspira a pensar em alguem em conflito com sua identidade e seu lugar de pertencimento. Parece que a história mexeu com você.

  12. João Cintra Postado em 06/Nov/2014 às 10:43

    Lindo texto, lindo relato. É muito difícil se afirmar como igual sendo diferente. E é tão lúcido falar em assumir a sua negritude, porque, sim, é muito ainda desqualificado.

  13. ROSILDA DIAS DA SILVA Postado em 06/Nov/2014 às 11:59

    As crianças Tamires e Esther deram uma grande lição mesmo com a inocência de criança que são, valorizaram o que o ser humano deveria valorizar em seu semelhante, não é a cor que nós deferência, o que vai nos tornar diferentes é eu não saber enxergar no meu semelhante o quanto ele é igual a mim...por dentro e por fora.

  14. Jacqueline Postado em 22/Feb/2016 às 14:07

    Se uma garota branca afirmasse, com orgulho, que tem prazer em ser branca, o discurso seria outro rsrsrs