Redação Pragmatismo
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Mídia desonesta 11/Nov/2014 às 11:37
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Revista Veja pratica 'ódiojornalismo', diz pesquisadora

Professora da UFRJ diz que cultura do 'ódiojornalismo' também aparece na retórica de colunistas que formam hoje uma espécie de “tropa de choque” ultraconservadora, como Arnaldo Jabor, Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo

ivana bentes pesquisadora ufrj
Ivana Bentes, pesquisadora da UFRJ (reprodução)

A Pesquisadora Ivana Bentes, que é professora da linha de pesquisa Tecnologias da Comunicação e Estéticas do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz que representantes da mídia adotaram a prática do “ódiojornalismo”.

Ivana Bentes, Instituto Unisinos

A primeira coisa que chama atenção na eleição presidencial de 2014, que deu a vitória apertada à presidente Dilma Rousseff, é a profunda ingerência de uma Mídia-Estado na cultura política, associada com arcaísmos e anacronismos de um pensamento conservador que atravessa os mais diferentes grupos e classes sociais. O resultado das eleições e os discursos de ódio que afloraram não se explicam simplesmente “partindo” o Brasil entre ricos e pobres ou muito menos entre regiões. É hora de entender a porosidade e penetrabilidade desses discursos duais de demonização do outro, minando um amplo campo social, e perceber novos imaginários emergentes.

Chegamos ao clímax de uma campanha eleitoral que reflete uma cultura de criminalização que produz uma ativa rejeição da política, apresentada cotidianamente em narrativas midiáticas que ficcionalizam as notícias e novelizam a política, com reiteradas associações da política e dos políticos com corrupção, ilegalidade, traições, intrigas. Uma memética negativa que afasta e despolitiza os muitos do que realmente está em jogo: interesses econômicos, especulação contra a vida, a privatização das riquezas, o moralismo e conservadorismo em que assujeitam minorias e diferenças.

A fábrica de fatos e a produção da opinião pública

Essa cultura do “ódiojornalismo” e o estilo Veja também aparecem na retórica dos articulistas e colunistas de diferentes jornais e veículos de mídia que formam hoje uma espécie de “tropa de choque” ultraconservadora (Arnaldo Jabor, Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Merval Pereira, Demétrio Magnoli, Ricardo Noblat, Rodrigo Constantino, são muitos), que alimentam uma fábrica de memes de uma ultradireita que se instalou e trabalha para minar projetos, propostas, seja de programas sociais, seja de ampliação dos processos de participação da sociedade nas políticas públicas, seja de processos de democratização da mídia e todo o imaginário dos movimentos sociais.

Essa demonização da política tornada cultura do ódio se expressa por clichês e por uma retórica de anunciação de uma catástrofe iminente a cada semana nas colunas dos jornais e que retroalimentam, com medo, insegurança, ressentimento, uma subjetividade francamente conservadora de leitores e telespectadores.

VEJA TAMBÉM: Os dilemas da revista Veja no pós-eleição

Se lermos os comentários das notícias e colunas nos jornais (repercutidos também nas redes sociais), vamos nos deparar com um altíssimo grau de discursos demonizantes, raivosos e de intolerância, à direita e agora também à esquerda. Trata-se de uma redução do pensamento aos clichês, memes e fascismo, extremamente empobrecedora, mas incrivelmente eficaz.

Essa pedagogia para os microfascismos e a educação para a intolerância podem ser resumidos na retórica que desqualifica e aniquila o outro como sujeito de pensamento e sujeito político, o que fica explícito na fala de alguns colunistas.

Um exemplo muito claro, inclusive no seu cinismo, é este trecho de uma coluna do Arnaldo Jabor de 28/10/2014, pós-eleições. Com uma argumentação pueril e assujeitante que coloca eleitores, nordestinos e nortistas, pobres como “absolutamente ignorantes sobre os reais problemas brasileiros”, em um cenário pós-eleições em que “nosso futuro será pautado pelos burros espertos, manipulando os pobres ignorantes. Nosso futuro está sendo determinado pelos burros da elite intelectual numa fervorosa aliança com os analfabetos”.

Numa coluna anterior, de 14/10/2014, podemos ver como funciona essa pedagogia calcada na construção de memes e clichês, a obsessão anacrônica por Cuba e agora pelo “bolivarianismo” e o caráter ameaçador que se dá a qualquer política pública contemporânea e modernizante que tenha como horizonte a participação social:

“— Qual é o projeto do PT? — Fundar uma espécie de bolivarianismo tropical e obrigar o povo a obedecer ao Estado dominado por eles. — Que é bolivarianismo? — É um tipo de governo na Venezuela que controla tudo, que controla até o papel higiênico e carimba o braço dos fregueses nos supermercados para que eles só comprem uma vez e não voltem, porque há muito pouca mercadoria.”

Trata-se de metáforas primárias, mas capazes de se difundir velozmente em um “semiocapitalismo” para usar a expressão do ativista e pensador italiano Franco Beraldi, inspirada em Félix Guattari, que tem como base signos, imagens, enunciados que giram velozmente, viralizam, comovem. Essa é a base tanto do ativismo, da publicidade social, quanto do pensamento conservador. A questão é como desconstruir esses clichês e trabalhar para que essas mudanças em curso se massifiquem a ponto de se tornarem um novo comum.

De certa forma foi o que vimos em relação aos programas sociais. Não será possível desmontá-los e desqualificá-los como se imaginava, pois o acesso aos programas tem dois vieses: a entrada da chamada classe C ao mundo do consumo, como consumidores simplesmente, mas ao mesmo tempo uma politização do cotidiano, com a percepção de si como sujeito de direitos e com uma interface com o Estado que não se reduz ao negativo, carência e insuficiência de serviços.

A próxima desconstrução massiva da mídia se dará em torno das noções de “participação popular”, “liberdade de expressão” e “controle social”, buscando construir uma valoração negativa e associá-las a um projeto autoritário de “menos democracia” e de restrição de direitos, quando se trata justamente de redistribuir poder simbólico e capital midiático pelos muitos. Uma operação que está em curso e que busca articular: políticas de regulação da mídia com “censura” de conteúdos.

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Comentários

  1. KARINA BB Postado em 11/Nov/2014 às 14:05

    A DIREITA SE APOIA EM CLICHÊS,CLICHÉS,CLICHÉS,QUE NEM MESMO OS IDIOTAS Q OS VOMITAM SABEM O SIGNIFICADO,VEJO ISSO O TEMPO TODO NO MEIO EM Q VIVO

    • Fatima Postado em 11/Nov/2014 às 18:39

      Não estás só, Karina,no meio que vivo também!

  2. Celio Bernstein Postado em 11/Nov/2014 às 14:38

    Os direitosos notaram que estavam virando motivo de piada quando papagaiavam comunismo e Cuba (e às vezes URSS) de forma aleatória. Finalmente "inovaram", substituindo estas palavras por Venezuela e bolivarianismo, mostrando que a direita tem um vasto vocabulário para construir seus argumentos (SQN). Mas só de observar seus argumentos por aí (principalmente pela internet), percebe-se que alguns dos direitosos não sabem o que é comunismo, bolivarianismo, socialismo, anarquismo e talvez, nem mesmo conhecem a própria direita que eles defendem.

    • Ricardo Postado em 11/Nov/2014 às 19:03

      Impagável foi ver a vergonha internacional por que passaram ao defender a ameaça comunista vislumbrada em uma palavra em vermelho no logo da Copa do Mundo (detalhe: ridicularizados por jornalistas norteamericanos). Será que esse pessoal não tem noção do ridículo?!

    • DENISE Postado em 11/Nov/2014 às 20:08

      na época da ditadura esse tipo de comportamento foi muito utilizado pelos generais era o COMUNISMO QUE DEVERIA SER EVITADO!AFF

  3. Raphael Postado em 11/Nov/2014 às 16:04

    Essa é a crise do jornalismo enganjado, os colunistas citados por Bentes, são antes de tudo, um baluarte da representação politica voltada a afagar a alta classe. Procuram alienar as classes média alta e baixa, ancoradas na manutenção do status quo, num vislumbre de aceitação ao meio. O importante é o dinheiro, o lucro acima de tudo e uma classe menos favorecida docil, frente aos mandos e desmandos das oligarquias midiáticas. Essa mesma que manipula pesquisas, condena e se apresenta como a alegoria da intelligentisia brasileira.

  4. Elizabeth Aquino Marques Postado em 11/Nov/2014 às 17:11

    Todos que falam a verdade nesse pais são condenados ...Parabéns a Veja ...

    • Chato Vermelho Postado em 11/Nov/2014 às 17:34

      "verdade": distorções coxinhas de ordem esquizofrênica

    • Silva Postado em 11/Nov/2014 às 17:51

      Essa moça é a definição perfeita da pesquisadora, uma que lê a Veja praticando "ódio jornalismo", e compartilham o ódio na internet. Sabe de nada inocente!

  5. enganado Postado em 11/Nov/2014 às 19:19

    Cara Pesquisadora Ivana Bentes, " ... “tropa de choque” ultraconservadora (Arnaldo Jabor, Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Merval Pereira, Demétrio Magnoli, Ricardo Noblat, Rodrigo Constantino ... )" . Acrescentando TODOS, SEM EXCEÇÂO, os jagunços da gRobo/abril/folha/estadão, ex: Miriam Leitoa, Camarotti, ... etc. Não acredito em ultraconservadores, e sim preocupados com os salários que recebem, note que Todos são AMERICANÓFILOS, TODOS, levam grana por fora e em DÓLAR. Essa gente está cagando um caminhão para Pobres/BRASIL/desvalidos/... só querem saber do seu bolso! Pior! São defendidos por MILITARES, "DESMINTAM ME"! Não tem um deles que fale em socorro das classes de baixa renda, falam sim só em GRANA: vender a PETROBRAS, abrir (por o Brasil de joelhos e/ou de quatro) o mercado para ALCA-NAFTA, acabar com o bco. do BRASIL, Caixa Econômica, BNDES, extinguir o MERCOSUL, UNASUL. ALADI (ex-ALAC) nem pensar! Sem EUA/Canadá, não dá GRANA! Esvaziar os BRICS (lógico! acabar com a hegemonia do DÓLAR), foi um dos pecados mortais da DILMA/PT, onde já se viu A Latina com soberania? NUNCA! NEVER! JAMAIS! E a banca Anglo Sionista que sustenta a “Tropa de Choque”, com ficará? P da vida se isto não acontecer! Veja o caso do Papel Higiênico na Venezuela. Impossível não ter uma fábrica de papel lá até hoje; claro, os EUA pintaram e bordaram com os venezuelanos até o dia em que um coronel-paraquedista do exército resolveu acabar com a farra dos EUA. Um país em que a receita do petróleo chegava a 85% da renda nacional e que empregava 2% da população, e importavam até alface do BRASIL. Chega né, Miriam Leitoa! Ou seja a Venezuela não tem infraestrutura de nada, foi o que fizeram os EUA lá dentro até o basta do Cel. Chávez (imagina se tivéssemos um coronel NACIONALISTA como esse?)! Concluindo, só fizeram roubar Petróleo, e é o que a DIREITA QUER FAZER COM O BRASIL. Repito, estão cagando e andando pro BRASIL querem mesmo é GRANA! Não passam de um bando de fdp REMUNERADOS. Só para reconfirmar com quem lidamos: Imprensa-Empresa-Press_tituta-Anglo Sionista com sede nos EUA, monitorada por iSSrael/CIA/NSA/MOSSAD.

  6. Laura Mari Postado em 11/Nov/2014 às 19:31

    Enganado assino em baixo, esses bando de FDP nao ta nem ai se o pobre brasileiro tem medico ou ta morrendo. E um bando de vendido que so olha pro proprio umbigo, so escreve para outro bando de dementes que acha que a esquerda inventou a corrupcao no mundo. Sao muito mais ignorantes daqueles intitulados ignorantes por eles porque nao conseguem enxergar alem de seu proprio mundinho regado a champanhe.

  7. Weslei Postado em 11/Nov/2014 às 22:18

    É impressionante ver como as pessoas do Brasil são autoritárias, querem calar o outro a todo custo. A moça que escreveu esse artigo acha ruim a Veja e os articulistas que não gostam do PT. Ora, se não gosta não veja, é simples. As pessoas podem falar o que quiser, sejam conservadores ou progressistas, desde que não viole a constituição e os direitos humanos. Simples assim. A mídia é um veículo empresarial que vive do dinheiro, e não são conservadores ou progressistas, pois o que os move é o dinheiro. Querer "regular a mídia" é um autoritarismo de roupagem nova, pois limita sobre o que os jornalistas podem dizer ou não. É o mesmo que alguém entrar na sua casa e dizer que você só pode comer macarrão e nada mais que isso. Você têm pessoas autoritárias que são conservadoras, mas não se vê ninguém falando do MST que é um movimento autoritário de esquerda. Também não se fala mal de Cuba. Portanto esse país é dominado por pessoas autoritárias, que querem resolver as coisas calando os outros, e isso vale pra todos.

  8. Rogério Cabral Postado em 11/Nov/2014 às 23:32

    Quem não é conservador, pode querer que sejam divulgados os fatos e punidos os culpados? Há verdade no que foi dito? Sobre o escândalo propriamente dito, QUE É O QUE IMPORTA NESTE MOMENTO, o que os "estudiosos" têm a dizer? Conservadoramente ou progressistamente falando, lugar de ladrão é na cadeia e não no Congresso! Que sejam apuradas o mais rapidamente possível todas as acusações e punidos os culpados EXEMPLARMENTE, independente do partido ou do cargo que ocupe ou tenha ocupado.

  9. IRENE DE O G FERREIRA Postado em 12/Nov/2014 às 09:55

    Perfeita a análise!!São verdadeiros,"principes" que apresentam um discurso ,questionamento,visão dos fatos,de um "pedestal" como se fossem uma realeza ,acima do bem e do mal,ares de delegados,fiscais,juizes,pois recebem os fatos,analizam ,julgam e dão seus vereditos.Não os vejo ,nem os ouço mais,que é o que posso fazer...que percam no bolso.Que bom que vc traduziu essa fala autoritária tão desagradável que eu,por alguma razão, detestava sem saber bem por que...

  10. guerme leite Postado em 12/Nov/2014 às 10:30

    Me sinto representada pela pesquisadora Ivana Bentes. Gostaria que houvesse um meio desses posudos jornalistas serem banidos de nossa mídia. Como é bom ser contemplado com análise como essa da Bentes!

  11. Gustavo Postado em 12/Nov/2014 às 10:43

    Deixa eu ver se entendi...demonizar banqueiro e empresário, "azelites branca de olhos azuis de são paulo", dizer insistentemente que um só governa para rico e outro para o pobre e povo etc... tudo isso ta OK??? Mas a mídia (ou grande mídia golpista como gosta de dizer) divulgar as ingerências de um Governo irresponsável e debilitado que está desvalorizando as Estatais, criando rombos, e descontrole das contas públicas e etc..ai não pode?? Ai é mídia que espalha ódio e etc???....ta serto!!!

    • Celio Bernstein Postado em 12/Nov/2014 às 14:42

      Coitados dos banqueiros, empresários e das "azelites branca de olhos azuis de são paulo"... Estão sendo oprimidos!!!! Fiquei tão emocionado que quase chorei!!!

  12. AQUINO Postado em 12/Nov/2014 às 15:46

    ESSA MÍDIA EMPREGADA PELA VEJA E OUROS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE VERIAM SER EXPURGADO DO NOSSO COTIDIANO DE VIDA, SÓ MOSTRAM NOTÍCIAS RUINS SOBRE O NOSSO BRASIL, PERGUNTO A ESSES MEIOS DE COMUNICAÇÕES ; ONDE ESTÃO AS COISAS BOAS DO NOSSO BRASIL QUE VOCÊS NÃO MOSTRAM?