André Falcão
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Desigualdade Social 05/Nov/2014 às 16:57
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Onde ela está?

senhora nordestina pedinte rua
Imagem: Erika Vettorazzo

André Falcão*

Só na política, há tantos temas que poderiam ser abordados aqui, hoje. Vou ficar num que me tocou enormemente. Desalentador. A impressão que se tem é de que as pessoas cegaram: preconceito e ódio despertando-lhes os piores sentimentos e atitudes. A historinha a seguir é, desgraçadamente, baseada em relato real.

Dona Josefa é doente. Diz-se doente, e vou acreditar, afinal está com uma receita, onde prescrito um remédio de que precisaria fazer uso. Também se me apresenta como alguém pobre. Tem o estereótipo do pobre nordestino que, nas grandes cidades, ainda não encontrou sua cidadania. D. Josefa está a vagar pelas ruas, tentando obtê-lo.

VEJA TAMBÉM: Médico se recusa a palestrar em Pernambuco: “Terra de merda!”

“Moço, pode me ajudar a comprar esse remédio?”, perguntou. A essa pergunta, igual a tantas outras que já ouvimos nessa nossa pátria ainda tão injusta, normalmente ouve-se algo parecido com “não, não tenho agora”, ou “quanto custa?”, ou “vamos ali na farmácia que compro pra senhora”, e por aí vai…

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Nessa historinha macabra, o moço respondeu ironicamente, empurrando-lhe três perguntas orelha’dentro: “A senhora sabia que poderia obter remédios gratuitos na farmácia do Lula e da Dilma?” “Não ouviu na propaganda eleitoral deles?” “O Brasil é ótimo, hoje, e tem remédio pra toda a população!” “Vá procurar saber no SUS!”, disse, já meio alterado.

“Já fui… Lá só tinha pra dor de barriga. Precisando muito, moço…”

“Minha senhora, a senhora votou nessas eleições?”, perguntou, já incomodado com a situação e, ainda mais, com a tentativa frustrada de d. Josefa junto ao SUS — afinal, o SUS não era o bom?, o sistema de saúde do Brasil não estava ótimo, segundo aquela mulher que quer transformar o país numa ditadura do PT?, pensava.

“Sim. Votei na Dirma”, disse inocentemente, mas meio arrependida (de ter pedido o remédio), meio sem entender (a raiva que o moço já deixava aparentar em sua feição).

A escolha política de d. Josefa, aliada ao “erre” no lugar do “ele” de Dilma — que pronunciou como a atestar ao moço as suas já consolidadas crenças, de que se tratava de um voto desqualificado, de uma ignorante pobre e analfabeta — fê-lo espumar todo o seu ódio contido. “Educadamente”, disse-lhe: “então a senhora vá pedir a ela.” E partiu, meio deliciando-se, meio sentindo-se vingado com sua atitude. Depois reproduzida por ele a seus amigos — como quem de alma lavada—, foi aplaudido, parabenizado, ovacionado. Bravo!

Eu, na verdade, só queria, imediatamente, saber de uma coisa: onde d. Josefa está?…

*André Falcão é advogado e autor do Blog do André Falcão. Escreve semanalmente para Pragmatismo Político

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Comentários

  1. Natália MS Postado em 05/Nov/2014 às 17:17

    Li uma situação desse tipo no Facebook, e o indivíduo foi também aplaudido...affff..Para alguns não basta ser pobre, tem que ser miserável....

    • Elizabeth Aquino Marques Postado em 06/Nov/2014 às 20:16

      Acho tudo isso um absurdo , pessoas contra pessoas ou melhor povo brasileiro contra povo brasileiro, porque votaram nesse ou naquele candidato...Essa pessoa (idiota) não acho outro termo que destratou essa senhora e aquele médico que não foi a palestra, como os depredadores da Revista Veja, como A Professora da USP Marilena Shaui que disse odiar a classe média, como aquele professor que é contra negros e pobres estudarem (um absurdo) a bancada do PSOL representada pelo Sr. Jean Willys que quer ensinar as crianças a serem gays, devia ensinar na escola as crianças respeitarem uma a outra...Aqueles Gays introduzindo no ânus imagens de santo, na passagem do Papa no Brasil e transando na rua... e mais um monte de absurdos...Agora deveria ser o momento de união , combatermos a corrupção e não fazermos vistas grossas para ela...Só assim o povo vai ter mais dignidade, todo o povo do Brasil seja qual for sua condição...Não é a hora indicada para se hostilizar um ao outro pois é isso que o governo quer pois um povo dividido é mais fácil de se liderar...Devemos respeitar a todos independente de sua condição física, sexual, financeira, religiosa, se é estrangeiro, se é negro , branco ou índio ...Todos são povo e todos tem que ser igualmente respeitados como cidadãos ...Pois todos são iguais perante a lei...

      • Galvão Postado em 07/Nov/2014 às 16:37

        Gostei do comentário. Agora você vai na página do Psdb, e publica o mesmo texto. Eles estão precisando desses conselhos.

  2. Maurício Postado em 05/Nov/2014 às 17:54

    Imagine a cena Me dá um remédio para trogroditas? Não tem minha senhora, aqui nesta farmácia só temos remédio para dores de barriga. kkkkk gente, é só ler direito, como alguém pode acreditar nesta afirmação chula e barata

  3. Denisbaldo Postado em 05/Nov/2014 às 19:35

    Depois eles nao entedem o porque da existencia de 2 Brasis: 1 daqueles que acreditam que o problema dos outros eh problema de todos nohs, e o outro Brasil o qual segue o ditado "Ema, ema, ema cada um com o seus pobrema".

  4. ademar Postado em 06/Nov/2014 às 08:47

    "A historinha a seguir é, desgraçadamente, baseada em relato real." Essa frase pode dar vários sentidos de interpretação, o que seria "baseada" ? O que é real , o que é ficção na história? Será que o autor do texto não pode revelar "a fonte", ou é daquelas histórias que "ouviu falar" , mas é verdadeira. Se é real ou ficção não sabemos, mas o relato tentando criar o esteriótipo de preconceito de que : "Quem não votou na Dilma é preconceituoso, e quem votou não é". Bem medíocre a tentativa.

    • Otacília Andrea Postado em 07/Nov/2014 às 00:37

      Não podemos afirmar "quem não votou na Dilma é preconceituoso, e quem votou não é". Afinal, toda generalização é perigosa, mas a historinha é emblemática do ódio que anda grassando por causa das últimas eleições. Há ódio grassando, entende?

  5. André Anlub Postado em 06/Nov/2014 às 15:34

    A pergunta é simples: Há doze anos tinha de graça o tal remédio e os tantos outros nas farmácias?

    • Cansada Postado em 06/Nov/2014 às 17:24

      Sim, tinha, por que esse projeto é antigo. E é do ministério da saúde. E envolveu muitoas pessoas de partidos diferentes.

    • Norton Postado em 08/Nov/2014 às 07:06

      Não.Não tinha! Sou hipertenso há 15 anos e somente nos últimos 4 anos tive acesso gratuito à todos 05 medicamentos que tomo regularmente/diariamente. No inicio, 2000 até 2003 eu gastava R$300,00 mensalmente nos tempos FHC. Com o Lula essa conta caiu pra R$50,00/mensal. E com a Dilma, não esqueço que uma de suas primeiras medidas, foi disponibilizar acesso gratuito e universal aos medicamentos pra controle da hipertensão e diabetes, inclusive a partir de farmácias (populares) privadas, hj em raras situações, não encontro o remédio na farmácia do posto, porém, quando isso ocorre, vou em uma das farmácias populares e retiro o remédio sem custo algum pra mim.

  6. Roseana Gioppo Postado em 06/Nov/2014 às 15:42

    "Eu, na verdade, só queria, imediatamente, saber de uma coisa: onde d. Josefa está?…" Na sua consciência, ora!

  7. Bell Postado em 06/Nov/2014 às 15:52

    Ouvi esse relato, em tom irônico e de desdém da situação humana posta ali, dito de boca cheia e peito estufado, seguido de congratulações: "Hoje uma criança me pediu esmola. Perguntei se seus pais trabalhavam e ela respondeu que não. Falei pra ela sobre o Bolsa Família, sobre o Pronatec e disse que mamãe Dilma resolveria o problema de sua família. Foi lindo!". Só pude pensar, além da pobreza de espírito de relator, no quanto essa informação quando expressa de forma de fato explicativa, e acompanhada de orientação dos meios pra se alcançar esses recursos existentes e disponíveis, bem como fornecida a condição mínima para que se busque tais ofertas, poderia ser útil para aquela família (e tantas outras) como meio transformador de suas condições.

    • Otacília Andrea Postado em 07/Nov/2014 às 00:46

      Concordo, Bell. A pergunta que não cala é: "mas voto no Aécio daria o remédio, tiraria a fome da criança pedinte?" Quem tem os meios da explicação poderia, ao menos, direcionar, então, às pessoas em situação de risco social a procurarem um CRAS (Centro de Assistência Social). Mas nem isso. Não me lembro de quem é a frase, mas dizia que 'muitas pessoas não dariam nada ao outro, ainda que elas não perdessem nada com a doação." Tristes tempos de pobres indivíduos e personalidades...

    • Luiza Postado em 07/Nov/2014 às 01:07

      Não acreditei no seu relato. Uma criança não fala assim. Nem sabe o que Pronatec.Você sim é um preconceituoso, odiento .

      • bell Postado em 07/Nov/2014 às 13:16

        sugiro reler, querida

  8. mauricio augusto martins Postado em 06/Nov/2014 às 16:39

    D. Josefa está em todos os lugares de São Paulo, sempre "invisível" aos soberbos e sempre esquecida do capitalismo, não podemos nunca em basear a Paz no silêncio dos Oprimidos...maumau

    • Otacilia Andrea Postado em 07/Nov/2014 às 00:39

      Perfeito!

  9. Sabrina Postado em 06/Nov/2014 às 16:42

    Esse é o novo discurso do eleitores ressentidos, pra falar o mínimo, de aecio never. Inclusive estão colocando como foto do perfil, agora, gente, tá ridículo esse papel acho de parte do eleitores do psdb, já tentaram de um tudo porque não aceitam a derrota, de apelar pra intervenção milica até apelação emocional barata com generalizações. Pode ter certeza que serão 4 anos do mandato, de mimimi, de paranoias, de ridicularidades por parte destes senhores que não conpreendem democracia nem nada. Ad infinitum, precisam de terapia em grupo pra aceitar um fato e sair do mundo imaginário do Bobao, da Veja e sua turma.

    • Lecy Postado em 06/Nov/2014 às 20:06

      Todos precisam, a mentira reina e nao se pode acreditar no que foi descrito aqui. E, cada um enxerga do jeito que quer. Na verdade, a critica é real - falta mesmo o medicamento e o atendimento e, a pobreza, PRINCIPALMENTE DE ESPIRITO E DE VALORES, reina neste Brasil. Triste

  10. Denise Pacheco Postado em 06/Nov/2014 às 16:53

    É a cegueira da ignorância...

  11. Claudio Postado em 06/Nov/2014 às 19:46

    Só queria saber onde está a D. Josefa, pra dar o remédio pra ela. Agora, o imbecil, ...conheci um monte depois dessa eleição.

  12. Elizabeth Aquino Marques Postado em 06/Nov/2014 às 20:20

    Isso é verdade quem depende do SUS e de seus remédios , morre... Porque nunca tem .E esses planos particulares de saúde também são péssimos em qualidade e atendimento ...

  13. Simone Postado em 06/Nov/2014 às 22:15

    Triste... só isso... :/

  14. Wadramys Postado em 07/Nov/2014 às 01:26

    É o desequilíbrio da consciência, lamento, não só por D. Jonefa, mas pela inconsciência do cidadão em não reconhecer o próximo como parte dele.

  15. Raimundo Postado em 07/Nov/2014 às 02:29

    Geralmente quando me vejo envolvido em situações assim eu não perco muito tempo com divagações. Levo a pessoa a uma farmácia e peço ao farmacêutico uma confirmação da receita. Aí levo a mão ao bolso e compro o remédio. É pra isso que serve cartão de crédito: para pagar depois. Ajudo porque posso. E isso me faz sentir muito bem.

  16. Neto Postado em 07/Nov/2014 às 02:32

    Sinto pena dos que disseminam a soberba e o ódio. Acho mesmo que pessoas assim deveriam nem existir. Para o bem do planeta e da humanidade.

    • Edna Postado em 07/Nov/2014 às 17:34

      Eu não sinto pena, Neto. Sinto medo. Por Porque essas pessoas estão por aí, não um "por aí" longe e abstrato. Estão bem perto da gente, no mesmo trabalho, faculdade, casa. E ver gente com essa índole egoísta, vingativa (se vingam do quê?) e odiosa é perigoso, muito perigoso. Conheço de perto gente assim. E tenho medo de passar por um problema sério em que eu tenha que depender dessas pessoas. Porque não vão me ajudar. Elas já não se ajudam, não se apoiam, não se respeitam. É só a opinião delas, o interesse delas, a vontade delas é que está em jogo. Os outros não interessam.

  17. Galvão Postado em 07/Nov/2014 às 16:42

    O problema é que para implementar todos programas, e serviços, o governo federal tem que fazer convênios com as prefeituras. E com raras exceções, as prefeituras são a base de toda corrupção, que grassa pelo país.