Redação Pragmatismo
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Capitalismo 27/Nov/2014 às 17:58
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Frei Betto: Superar o capitalismo por etapas

Por um século a lógica da esquerda latino-americana jamais se deparou com a ideia de superar o capitalismo por etapas. Este desafio não pode depender apenas dos governos. Ele se estende aos movimentos sociais e aos partidos progressistas

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(Foto: Marcos-Agência O Globo)

Frei Betto*

Como os governos democráticos populares da América Latina tratam os segmentos da população beneficiados pelas políticas sociais?

É inegável que o nível de exclusão e miséria causado pelo neoliberalismo exige medidas urgentes que não fogem ao mero assistencialismo. Porém, tal assistencialismo se restringe ao acesso a benefícios pessoais (bônus financeiro, escola, atendimento médico, crédito facilitado, desoneração de produtos básicos etc.), sem que haja complementação com processos pedagógicos de formação e organização políticas.

Criam-se, assim, redutos eleitorais, sem adesão a um projeto político alternativo ao capitalismo. Dão-se benefícios sem suscitar esperança. Promove-se o acesso ao consumo, sem propiciar o surgimento de novos protagonistas sociais e políticos. E o que é mais grave: sem perceber que, no bojo do atual sistema consumista, cujas mercadorias recicláveis estão impregnadas de fetiche que valorizam o consumidor e não o cidadão, o capitalismo pós neoliberal introduz “valores” – como a competitividade e a mercantilização de todos os aspectos da vida e da natureza –, reforçando o individualismo e o conservadorismo.

Nossos governos progressistas, em suas múltiplas contradições, criticam o capitalismo financeiro e, ao mesmo tempo, promovem a bancarização dos segmentos mais pobres, através de cartões de acesso ao benefício monetário, a pensões e salários, e da facilidade de crédito, apesar da dificuldade de se arcar com os juros e a quitação das dívidas.

O perigo é fortalecer, no imaginário social, a ideia de que o capitalismo é perene (“A história acabou”, proclamou Francis Fukuyama), e que sem ele não pode haver processo verdadeiramente democrático e civilizatório. O que significa demonizar e excluir, ainda que pela força, todos que não aceitam essa “obviedade”, então considerados terroristas, inimigos da democracia, subversivos ou fundamentalistas.

Essa lógica é reforçada quando, em campanhas eleitorais, os candidatos de esquerda acenam, enfaticamente, com a confiança do mercado, a atração de investimentos estrangeiros, a garantia de que os empresários e banqueiros terão maiores ganhos etc.

Por um século a lógica da esquerda latino-americana jamais se deparou com a ideia de superar o capitalismo por etapas. Este é um dado novo, que exige muita análise para se implementar políticas que impeçam que os atuais processos democráticos populares sejam revertidos pelo grande capital e por seus representantes políticos de direita.

Este desafio não pode depender apenas dos governos. Ele se estende aos movimentos sociais e aos partidos progressistas que, o quanto antes, precisam atuar como “intelectuais orgânicos”, socializando o debate sobre avanços e contradições, dificuldades e propostas, de modo a alargar sempre mais o imaginário centrado na libertação do povo e na conquista de um modelo de sociedade pós-capitalista, verdadeiramente emancipatório.

*Frei Betto é escritor e religioso dominicano brasileiro.

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Comentários

  1. Peterson Silva Postado em 27/Nov/2014 às 18:03

    "Essa lógica é reforçada quando, em campanhas eleitorais, os candidatos de esquerda acenam, enfaticamente, com a confiança do mercado, a atração de investimentos estrangeiros, a garantia de que os empresários e banqueiros terão maiores ganhos etc." Frei Betto, que plural é esse? Quais candidatoS de esquerda fizeram esses acenos, senão unicamente Dilma / PT? O que é que PSTU, PSOL e PCB, candidatos nanicos ou não, tem a ver com isso? Se for levar às últimas consequências tais acenos fazem do PT um partido muito menos de esquerda do que parece, na verdade... Estranha análise. Quanto ao resto do texto, boa análise.

    • Erinilton Postado em 02/Dec/2014 às 11:35

      Ele fala no plural, talvez, para incluir Lula, Dilma e outros quadros do PT. E também partidos como PSB e PT . Além dos outros governos de esquerda da América Latina

  2. Weslei Prado Postado em 28/Nov/2014 às 11:21

    Veja...

  3. poliana Postado em 28/Nov/2014 às 11:53

    Bela fonte de informação a sua. Nela eu confio cegamente. Parabéns por nos trazer tamanha revelação deste brilhante meio de comunicação.

    • ademar Postado em 30/Nov/2014 às 15:26

      Poliana, o fato de não confiar ou não concordar com a linha editorial da Veja, é perfeitamente aceitável, porém é preciso atenuar um pouco as paixões e a ideologia, para que a razão e e senso crítico seja preservado, não estou fazendo defesa ou apologia da revista, também não preso muito estima, mas não pode simplesmente ignorar ou acreditar que tudo que é publicado é mentira ou conspiração, o link que o Almanakut postou refere-se as investigações do PF que envolvem dois irmão do Ministro, a Veja não inventou o fato, assim como muitas informações e publicações de Veja ao longo de muitos anos, que quando publicadas receberam criticas de denuncismo, e depois foram confirmadas, outras muitas também ficaram nas denuncias sem comprovação. Lembramos que foi a revista Veja a primeira a publicar e investigar as denuncias sobre o ex-presidente Collor, a entrevista do irmão de Collor à Veja foi um marco no processo que acabou no impeachment de Collor. Acredito que por mais que não tenha apreço, que tenha desconfiança, que não concorde com a linha editorial e a ideologia da Revista, ignora-la por completo, e principalmente acreditar que tudo que é publicado é falso, não contribui muito para a análise, senso crítico e para se ter base de comparação com outras fontes de informação. Qual meio de comunicação, é isento, sem tendências, publica somente fatos verdadeiros, não tem interesses ocultos, e preserva a independência? Eu estou procurando.....

  4. rafa Postado em 28/Nov/2014 às 23:33

    mas é a esquerda q CONSEGUE o q é AGORA & AQI possívl. os "nanicos" sao importantíssimos p permitir a luladilma, "INFILTRADOS" q sao, corroendo "por dentro" o qt é POSSÍVL aqiagora corroer (ou ha clima p revoluçao COM POVO?)... os "nanicos" sao importantíssimos p permitir a luladilma FAZEREM o mais à esqrda q consigam, o mais q vai dando, ainda q o povo continue em boa medida ingenuamente telespectador credulo, dado a filmecos hollywoodianos, e beatificado. psol parece achar q CONSEGUE revoluçao PRA AMANHÃ. conseg???

  5. André Anlub Postado em 02/Dec/2014 às 10:19

    Nem tudo que a Veja publica é mentira, mas tudo que é publicado e escondido é de interesse partidário; então torna-se um meio de informação só de um lado, que favorece um só pensamento. Na verdade, o que pagou mais! A PF (atenção: Federal) só está investigando tudo que vem à tona porque tem livre arbítrio do Governo, coisa que não tinha em outras épocas. Odeio catequização, todos votam em quem quiser, perdeu chore, ganhou comemore. Minha vida nada mudaria em governo algum, continua muito boa (à quem interessar) e continuarei ajudando aos que mais precisam, sendo no governo que for.

    • ademar Postado em 04/Dec/2014 às 08:15

      André, o tal "livre arbítrio" que você se refere, na verdade é a independência da PF, garantida por Lei, e não porque o Governo é honesto e "permite" as investigações, nem mesmo o Ministro da Justiça que é o Executivo de maior poder sobre a entidade tem poderes para barrar ou permitir as operações da PF. Então é uma grande falácia o Governo hoje ainda querer receber créditos por "permitir" que se investigue.

  6. Suzana Maria de Camargo R Postado em 02/Dec/2014 às 11:40

    Frei Betto, e o Decrescimento? Este movimento que vem ganhando força na Europa e que traz alguma luz quando apresenta o movimento partindo das comunidades. Maurizio Palumbo tem muito o que dizer e vem fazendo movimentação ainda que tímida na Itália. O que dizer do Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno (Serge Latouche) editado no Brasil? Acredito que este movimento fortalece de alguma maneira o que foi dito no seu artigo.