Redação Pragmatismo
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Política 12/Nov/2014 às 18:54
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As empregadas domésticas e a escravidão

Em todas as situações desconfortáveis, se ousamos estranhar, recebemos a resposta de que as domésticas são pessoas da família. É o que se pode chamar de uma opressão disfarçada em laços afetivos. A ex-escrava é considerada como um bem amoroso, íntimo, mas que por ser da casa come na cozinha e se deita entre as galinhas do quintal. O que, afinal, é mais limpo que se deitar com os porcos no chiqueiro

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(Imagem: Filme ‘Histórias Cruzadas’)

Urariano Mota, Direto da Redação

Por caminhos tortos, Joaquim Nabuco teve uma das suas iluminações quando escreveu: “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”. Sim, por caminhos tortos, porque depois de uma frase tão magnífica, de gênio do futuro, Joaquim Nabuco sem pausa continuou, num encanto que esconde a crueldade:

Ela (a escravidão) espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor…”.

VEJA TAMBÉM: O dia em que decidi não ser a mucama da sinhazinha

Penso na primeira frase de Nabuco, a da escravidão como característica do Brasil, depois que o Congresso deu um primeiro passo para a superação da herança maldita. Não quero falar aqui sobre as conquistas legais para as empregadas domésticas, da nova lei sobre a qual os jornais tanto falaram como um aviso: “patroas, cuidado, domésticas agora têm direitos”. Falo e penso nas empregadas que vi e tenho visto no Recife e em São Paulo.

No aeroporto de Guarulhos eu vi Danielle Winits, a famosa atriz da Globo, muito envolvida com o seu notebook, concentradíssima, enquanto o filhinho de cabelos louros berrava. Para quê? A sua empregada, vestida em odioso e engomado uniforme, aquele que anuncia “sou de outra classe”, cuidava para que a perdida beleza da atriz não fosse importunada. Tão natural… os fãs de telenovelas não viam nada de mais na mucama no aeroporto, pois faziam gracinhas para o bobinho lindinho.

Em outra ocasião, numa terça-feira de carnaval à noite, vi no Recife uma jovem à minha frente, empenhada em ver a passagem de um maracatu. Tão africano, não é? Junto a ela uma senhora – desta vez sem uniforme, mas carregando no rosto e modos a servidão – abrigava nos braços um bebê. Os tambores, as fantasias, eram de matar qualquer atenção dirigida à criança, que afinal estava bem cuidada, sob uma corda invisível que amarrava a empregada. Então eu, no limite da raiva, oferecei o meu lugar à sua escrava sobrevivente, com a frase: “a senhora, por favor, venha com o seu filho aqui para a frente”. A empregada quis se explicar, coitada, morta de vergonha, enquanto a doce mamãe não entendia o chamamento irônico, pois me olhava como se eu fosse um marciano. Espantada, parecia me dizer: “como o meu filho pode ser dessa aí?”.

O desconhecimento de direitos elementares às empregadas domésticas, como privacidade, respeito, a falta de atenção para ver nelas uma pessoa igual aos patrões, creio que sobreviverá até mesmo à nova lei. É histórico no Brasil, atravessa gerações e atinge até mesmo os mais jovens e pessoas que se declaram à esquerda. É como se estivesse no sangue, como se fosse genético, de um caráter irreprimível. Até antes delas vão a democracia e a igualdade. A partir delas é outra história.

Quantas vezes vemos nos restaurantes jovens casais com suas lindas crias, tendo ao lado as escravas, que nem sequer têm direito a provar da bebida e da comida? Isso nos domingos e feriados, pois esses são os dias das patroazinhas se divertirem. É justo, não é? O feminismo se faz para que mulheres sejam cidadãs, mas a cidadania só alcança os iguais, é claro.

Em todas as situações desconfortáveis, se ousamos estranhar, ou agir com pelo menos um olhar atravessado para essa infâmia, recebemos a resposta de que as domésticas são pessoas da família. Parentes fora do sangue, apenas separadas por deveres, notamos. É o que se pode chamar de uma opressão disfarçada em laços afetivos. A ex-escrava é considerada como um bem amoroso, íntimo, mas que por ser da casa come na cozinha e se deita entre as galinhas do quintal. O que, afinal, é mais limpo que se deitar com os porcos no chiqueiro.

Não estranhem, porque não exagero. Não faz muito tempo no Recife era assim. E por que estranhar esse tratamento? Olhem os grandes e largos e luxuosos apartamentos do Rio e de São Paulo, abram os olhos para os minúsculos quartinhos de empregadas, entrem nos seus banheiros, que Millôr dizia serem a prova de que no Brasil empregadas não têm sexo no WC.

VEJA TAMBÉM: A nova ‘era dos criados’ nos EUA

Não posso concluir sem observar que os pobres copiam os ricos, e que o tratamento dado às domésticas se estende em democracia para todas as classes sociais. Menos para as empregadas, é claro. “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”, dizia Nabuco.

Ter mais um presidente para chamar de seu. Ou melhor, para fazer dele um criado.

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Comentários

  1. j. elias Postado em 13/Nov/2014 às 09:55

    Estranho é que no Brasil foi a ditadura que modernizou o direito do trabalhador rural e a democracia enrolou a empregada doméstica até bem pouco, continuando a ser enrolada de tabela pelo congresso nacional.

    • Remir Postado em 14/Nov/2014 às 12:42

      Eu como filho de trabalhador rural, nao sei onde o sr essa modernização do trabalho rural na ditadura. Isso pode ser piada

  2. Alexandre Postado em 13/Nov/2014 às 16:45

    Excelente texto, mas acho que a questão vai um pouco além. Apesar de ser uma característica marcante no brasil, a necessidade de ter um escravo pessoal é uma característica humana vista em todas as sociedades, umas mais, outras menos. O que torna mais comum aqui é a facilidade de ter um empregado pela baixa qualificação e desvalorização da mão de obra. Nos estados unidos por exemplo os negros foram escravos, mas as domésticas hoje são as mexicanas... Na Europa é menos comum de vermos empregados domésticos por ser uma sociedade menos desigual, mas nas famílias ricas ainda vemos a figura do mordomo.

  3. Marcus Martins Postado em 14/Nov/2014 às 11:28

    Até agora, apenas um comentário! O silêncio, mesmo aqui, dos leitores mostra o quanto a promessa de ressignificação da imagem das empregadas domésticas precisa e deve ser trabalhada e ampliada. Elas (junto com as creches) são nesse momento histórico, onde terceirizamos quase tudo, as responsáveis pela educação de muitas crianças.

    • Terra Postado em 14/Nov/2014 às 12:00

      Marcus, o silencio e respeitoso porque e a masi pura das verdades que esse artigo que ilustra tao bem a nossa triste sociedade. ( sociedade=povo)

  4. marc Postado em 14/Nov/2014 às 11:57

    Sou a favor da idenização a empregadas por esta exploração vergonhosa, que o estado ou as famílias paguem com o dinheiro tb

  5. Elizabeth Aquino Marques Postado em 14/Nov/2014 às 12:03

    Agora vocês estão querendo jogar as empregadas domésticas contra os patrões... Outra coisa nem todas as empregadas são negras e também não são idiotas nem burras para serem manipuladas por patrões inescrupulosos ...

    • Kenia Dias Postado em 14/Nov/2014 às 12:35

      Não tem ngm sendo "jogado" contra ninguem, Elizabeth. Interpretação de texto mandou lembranças. Aonde está escrito tbm sobre a cor das empregadas? Acho que isso é um preconceito velado seu. Talvez nem tenha ligo o texto, só olhou pra imagem e mais nada...

  6. L.Blackman Postado em 14/Nov/2014 às 12:09

    Como um inglês morando no Brasil a 5 anos, umas das minhas maiores surpresas foi de quantas pessoas tinham em sua casa uma empregada doméstica. Uma das vezes que mais me surpreendi foi quando ao fazer exercicios de manhã em um bairro nobre de Brasília, fiquei chocado com a quantidade de pessoas chegando para "trabalhar", 99% das pessoas eram negras. Continuo com muitas dificuldades de entender como isso acontece até hoje, mas uma coisa é certa - A forma de pensamneto do brasileiro não mudou desde 1888, agora uma nova forma de escravidão.

  7. Marcio Postado em 14/Nov/2014 às 12:25

    Primeiramente devo salientar e congratular a qualidade do texto, que ficou muito bem escrito e, por mais incisivo que pareça, foi incrivelmente razoável e verdadeiro. Fora isso, Nabuco foi perfeito em sua histórica afirmação. A escravidão permanece e vai perdurar por um longo período, entre ricos e pobres, devido a cultura escravista e discriminatória, forjada outrora, que impregnou-se no ideário da nação. Infelizmente. Por outro lado, a PEC das Domésticas vem na contramão dessa herança maldita, mesmo contrariando as elites dos centros urbanos e, mesmo que não admitido, às grandes mídias, que tratam um evento histórico com tamanha indiferença.

  8. Clara Postado em 14/Nov/2014 às 12:43

    Existem feministas que lutam para que a desigualdade de gênero seja combatida para todas as classes sociais. Temos que perceber que parte do processo para erradicar a escravidão, é permitir à todas as mulher o amplo acesso ao mercado de trabalho, com igualdade de direitos e salários, ajudas às famílias para o cuidado com as crianças e com disponibilização de creches em horário adequado ao mercado de trabalho... O trabalho é árduo e não é uma simples mudança cultural.

  9. Waldir Vanderlei de Arauj Postado em 14/Nov/2014 às 12:56

    os direitos trabalhistas da empregadas domésticas sempre existiram no Brasil, porém grande parte dos tomadores de serviços (patrões sem escrúpulos) não concediam tais direitos. De repente querem incrementar estes direitos, mas eu me pergunto, se não respeitavam antes vão respeitar agora? Seguramente não, quem tem a índole de sempre querer levar vantagem em tudo e julgar-se superior ao seu semelhante vai continuar dando um "jeitinho" de levar as coisas com a barriga, cabe sim as empregadas exigirem seus direitos e nunca, mas nunca mesmo se submeter a maus tratos e o descaso que lhe é imposto.

    • Paola Postado em 15/Nov/2014 às 17:02

      Waldir, vale dar uma ohada na CLT e na CF/88. A CLT, em 1943 (se bem me lembro), instituiu direitos trabalhistas para todos os trabalhadores urbanos, e empregados domésticos faziam sim parte dos sujeitos da lei. Porém, estes eram ali tratados como uma categoria "especial", quer dizer, tinham um tratamento diferenciado. 45 anos depois, na constituição, o tratamento diferenciado permanece. O art. 7º traz uma longa lista (exemplificativa) de direitos de trabalhadores, rurais e urbanos. São 34 incisos. Aí vinha o parágrafo único do mesmo artigo e diz serem assegurados aos trabalhadores domésticos os direitos previstos nos incisos tais e tais: precisamente 9 incisos. Perceba: até o ano passado, trabalhadores em geral tinham na constituição 34 direitos garantidos, mas empregados domésticos possuíam apenas 9 direitos. Após a EC 72/2013, os incisos citados duplicaram (18), e foram acrescidos de mais 7, a depender de certas condições. Ou seja: não é que os patrões não concediam seus direitos. É que eles realmente não os possuíam. E agora, mesmo com toda essa ampliação, permanecem sendo cidadãos de segunda categoria, pois continuam não sendo iguais aos demais trabalhadores. Para que exista igualdade, não basta criar uma PEC para ampliar direitos. Deve-se criar uma PEC para eliminar de vez o parágrafo único, de modo que empregados domésticos sejam tão iguais aos demais trabalhadores que sejam englobados na expressão (trabalhadores rurais e urbanos), sem tratamento à parte. Mas aí o povo vai à loucura.

  10. Austregézilo Silva Postado em 14/Nov/2014 às 12:56

    A Elizabeth (se lê elizabess) escravocrata se indignou com a verdade!...

  11. Rodrigo Postado em 14/Nov/2014 às 13:01

    Texto generalista e que desqualifica a profissão de empregada doméstica. É como se todo os patrões fossem escrotos que só exploram as empregadas. Dar um emprego e dignidade a uma pessoa que está precisando, ajudar a pessoa a crescer, ajudar a família da pessoa, ajudar a pessoa a se estabelecer e procurar ter seu emprego e seu dinheiro não conta? O texto faz tudo parecer uma grande novela mexicana. Trata o negócio como um sub-emprego, exste empregada e babá que ganham até 4 mil reais por mês, pergunta se ela acha ruim? As pessoas gostam de trabalhar, trabalho escravo seria se a pessoa fosse forçada a fazer, se a pessoa se acha explorada ou que ganha pouco então pede demissão ué.

    • Fábio Postado em 14/Nov/2014 às 17:42

      o único jeito de alguém ter dignidade então é frequentando o ambiente da alta classe então? mesmo que tendo sempre estampado que ela é de outra classe social e está lá pra servir alguém? você acha que por ser pobre e morar em bairros aonde você nem sequer passa com o seu importadinho porque tem medo não é digno? já te entendi... acho que você tá precisando estudar um pouco de história, saber que as empregadas domésticas se originaram nas mucamas, que por sua vez eram escravas que trabalhavam na casa ao invés de na plantação, cuidando dos filhos das senhoras, cozinhando, servindo, limpando... outra coisa que você deveria fazer é dar uma olhada em dados, procurar por estatísticas que mostram que a grande maioria das empregas domésticas ganha um salário que não pagaria nem a mesada do seu filho (ou a sua, não sei a sua idade). se existem empregadas e babás que ganham 4 mil reais por mês elas são exceções, com certeza representam menos de 1% das profissionais do ramo no país. dignidade é ser tratado como uma pessoa, não como um bem. é receber um salário que banque ao menos comida e uma moradia descente, é ter o seu trabalho reconhecido como tal, ter direitos trabalhistas iguais aos de todos os outros profissionais. você acha que é fácil limpar a casa toda, fazer a comida, cuidar de criança, lavar roupa e etc duas vezes? sim, porque por mais que você não ache, empregadas domésticas não vivem para os patrões, elas têm casa, muitas têm filhos pra cuidar e não podem se dar ao luxo de pagar alguém pra ajudá-las, obviamente. não vou nem comentar sua última frase sobre "pedir demissão", porque acho que nem você acredita nela, não é mesmo? afinal de contas, é só ela sair desse emprego e ir para um destes que pagam 4 mil reais por mês que você diz que existem por aí...

  12. Rodrigo Postado em 15/Nov/2014 às 00:16

    Claro que não, frequentando ambiente de classe alta? Estou falando de alguém que quer trabalhar e não encontra emprego nenhum, pois não teve estudo de qualidade ou faltaram oportunidades na vida, aí a pessoa consegue um emprego de doméstica ou babá pra poder ganhar dinheiro, só isso. Nem todas as famílias contratam uma doméstica e pagam mal e exploram, e humilham. Claro que isso existe, só estou falando que o texto generaliza. Como se toda forma de trabalho nesses moldes fosse escravocrata.

  13. Rodrigo Postado em 15/Nov/2014 às 00:19

    Estou falando que EXISTEM PESSOAS QUE RECONHECEM e pagam bem e valorizam o trabalhador doméstico. Do jeito que vcs falam aí parecem que vocês que têm preconceito com a profissão. Como se fosse uma coisa sem dignidade, é um trabalho.