Redação Pragmatismo
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Política 04/Nov/2014 às 21:21
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Dores do parto de uma nova sociedade

Passada a eleição, é hora de o governo governar e também é chegada a vez de a oposição fazer oposição. O sucesso do sistema político depende de governo e oposição. Neste momento, torcer pelo Brasil é desejar que os dois lados, o vencedor e o derrotado de 2014, cumpram seus respectivos papéis, realizem o que deles se espera

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Alberto Carlos Almeida*, Valor Econômico

Aprendi com Alexis de Tocqueville e Roberto DaMatta que uma sociedade democrática é aquela em que os homens são parecidos em sua maneira de agir, de pensar e em suas ambições, em que não há grande diferença entre ricos e pobres, e o acesso aos bens e a possibilidade de tê-los é mais ou menos a mesma para todos. Segundo Tocqueville, um dos sinais do caráter democrático da sociedade americana era que, lá, todos se tratavam pelo pronome “you”, e não se usavam os pronomes de tratamento gentleman, Mister ou Sir. Os EUA sempre foram o oposto do Reino Unido, onde até hoje a formalidade marca as relações pessoais. Quanto mais igualitária uma sociedade é, segundo Tocqueville, menor os sinais de diferenciação entre os homens.

Roberto DaMatta, mostrei isso em meu livro “A Cabeça do Brasileiro”, é o Tocqueville brasileiro. Sua obra irretocável e paradigmática tem vários ensinamentos para os interpretes do Brasil. Uma das mais importantes é o caráter hierárquico de nossa sociedade. No Brasil, todos querem saber o sobrenome de novos conhecidos, sua origem social (é bem verdade que esse comportamento já foi mais disseminado). Nos EUA, ninguém pergunta de qual família você é. Isso não importa, pois a origem social de todas as pessoas é muito semelhante.

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DaMatta consagrou o caráter hierárquico de nossa sociedade ao revelar e interpretar o uso da expressão “você sabe com quem está falando?” Para muitos, é a chamada carteirada. É, porém, mais que isso. A expressão é utilizada em uma situação de grande desnível social, quando alguém importante, influente ou que conhece uma pessoa no governo, interage com outra pessoa sem tais credenciais e deseja evitar cumprir uma regra geral e universal. A expressão “você sabe com quem está falando?” só faz sentido e tem aceitação em sociedades muito desiguais, nas quais a ética igualitária seja fraca. A expressão oposta, utilizada nos EUA, uma sociedade genuinamente igualitária, é “quem você pensa que é?”. O Brasil é o país do que “você sabe com quem está falando” e os EUA, o país do “quem você pensa que é?”. O primeiro é muito desigual, o segundo é muito igualitário.

O Brasil, porém, está em transição. Os anos passam e o país se torna cada vez mais americanizado, no sentido social da expressão. Sim, quando se define sociedade democrática, à maneira de Tocqueville e Roberto DaMatta, não se está falando de democracia política, mas de democracia na sociedade, de aburguesamento geral dos indivíduos. Com o passar do tempo e à medida que melhoram de vida, todos se tornam pequenos proprietários, de suas residências, de seus automóveis, passam a preferir previsibilidade e contínua expansão de sua capacidade de consumo.

É isso que está ocorrendo hoje no Brasil e que incomoda enormemente um segmento que não se sente representado pelo PT na Presidência da República. Afinal, para esse segmento, em breve serão 16 anos consecutivos sem que o comando máximo da nação seja exercido por uma pessoa que o represente. É doloroso. O resultado concreto disso é mais doloroso ainda.

Trata-se de demandas inconfessáveis, mas há aqueles que lamentam, por exemplo, o aumento do poder de barganha das empregadas domésticas. É inconfessável querer que as empregadas não aumentem seu poder de barganha. Ano a ano, pouco a pouco, fica distante a época em que elas ou não tinham nenhum direito, ou eles existiam, mas não eram cumpridos. Isso incomoda, e muito, eleitores que não gostam nem um pouco do PT.

No Rio de Janeiro dos anos 1980, bastava que um adolescente fosse aluno de escolas como Santo Inácio, Santo Agostinho, São Bento ou Andrews para ter totais condições de passar para o curso de graduação de medicina da UFRJ. Era um clubinho. Quem era amigo e conhecido nessas escolas continuaria amigo e conhecido nas salas de aula da Ilha do Fundão. Isso acabou, não há mais um mísero sinal dessa época. Os alunos do curso de medicina mais procurado do Rio de Janeiro são oriundos de todos os lugares do Brasil e das mais diferentes escolas. O mesmo ocorreu no curso de medicina da USP e na capacidade que os principais colégios de São Paulo tinham de enviar alunos para lá. Ou seja, a sociedade brasileira se democratizou fortemente nos últimos anos. E isso foi feito criando-se vencedores e perdedores. Perderam os que faziam parte do clubinho, ganharam os que estavam fora dele.

As dores do parto de uma sociedade democrática e igualitária, à semelhança dos EUA, tem sua melhor expressão na radicalização de alguns setores de classe média alta contra o PT. Pedidos de impeachment, gritos de “fora Dilma” no dia da eleição, ataques dirigidos aos nordestinos e seu comportamento eleitoral, brigas de familiares em grupos de whatsapp, pessoas que rompem amizades no Facebook são sintomas do mesmo fenômeno. A pirâmide está deixando de ser pirâmide e os que ocupam sua parte superior resistem, gritam, reclamam, manifestam-se. Ótimo, isso é parte da democracia.

As dores deste parto foram maiores agora por causa do baixo crescimento econômico. No fim dos dois governos Lula, o processo eleitoral foi menos radicalizado porque o crescimento do último ano anestesiou a todos, inclusive os que tinham todas as razões para gritar. Cá entre nós, a metáfora médica é perfeita: com a anestesia do crescimento econômico, parte de uma sociedade igualitária ficou mais tolerável.

Em 2104 isso não aconteceu. Quando se trata de sociedades e da história, algumas mudanças levam décadas. Assim, o parto continua, só que este ano foi sem anestesia e, por isso, quase foi interrompido.

Não há política econômica neutra. Ela sempre implica em ganhadores e perdedores. Há os que ganham mais e os que ganham menos. Em algumas situações, há os que perdem. A grande ganhadora da política econômica do PT é a base da pirâmide social, os mais pobres. Em particular, aqueles que moram no Nordeste. Foram eles que repetiram seu voto. A proporção de votos dados a Dilma no segundo turno de 2014 foi apenas um pouco maior do que no segundo turno de 2010. O eleitor do agreste ou do sertão nordestino, pobre, é tão racional quanto o eleitor de classe média alta que habita a Mesopotâmia paulistana, isto é, que, como eu, mora na estreita faixa de terra delimitada pelos rios Pinheiros e Tietê. A diferença entre é que os primeiros foram claramente beneficiados pelas políticas adotadas pelo PT e os últimos foram os grandes prejudicados, tal como é possível observar nas turmas de medicina da USP.

O Brasil segue em frente. Isso é a democracia. Eleições existem para manter ou mudar o governo. Desde 2002, a maioria do eleitorado vem escolhendo um determinado conjunto de políticas. Nada é eterno. É impossível dizer quantas eleições mais o PT vencerá. É impossível afirmar que o partido de Lula e Dilma perderá a próxima. Tudo depende, como sempre, do desempenho da economia e, sejamos repetitivos, da avaliação do governo no ano da eleição.

O fato é que nosso sistema funciona, e bem. Tão bem que as dores do parto vêm sendo ouvidas por todos. Tão bem que essas dores podem se revelar com toda sua crueza para uns, e com sua justiça para outros. Depende sempre do ponto de vista.

Passada a eleição, é hora de o governo governar e também é chegada a vez de a oposição fazer oposição. O sucesso do sistema político depende de governo e oposição. Neste momento, torcer pelo Brasil é desejar que os dois lados, o vencedor e o derrotado de 2014, cumpram seus respectivos papéis, realizem o que deles se espera.

*Alberto Carlos Almeida, sociólogo, é diretor do Instituto Análise e autor de “A Cabeça do Brasileiro”

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Comentários

  1. aleluia Postado em 04/Nov/2014 às 22:08

    Só uma correção: EUA não é igualitário. Tem a renda quase tão mal distribuída como a nossa. A diferença é que são muito mais ricos de forma que o pobre de lá é o classe média daqui

    • Guilherme Viana Postado em 05/Nov/2014 às 08:16

      Acho que o texto cita igualitário no sentido social, na forma de tratamento, não necessariamente na renda.

      • Paulo Paganini Postado em 05/Nov/2014 às 23:55

        Mas Guilherme, mesmo no sentido social os EUA são desiguais. Basta observar o tratamento que "novos imigrantes" recebem. Inclusive isso está muito presente na discussão entre democratas e republicanos no quesito de regularização de clandestinos, vista por um lado como algo socialmente necessário e por outro lado como uma afronta à sociedade norte-americana.

    • Paulo Postado em 05/Nov/2014 às 13:08

      Isso mesmo Guilherme, não tem nada haver com a renda a citação referida

  2. GustavAB Postado em 04/Nov/2014 às 23:32

    "Não há política econômica neutra. Ela sempre implica em ganhadores e perdedores. " Então quer dizer que economia é um "jogo de soma zero"?Essa é uma das maiores falácias que eu já vi na minha vida.

    • Vítor Postado em 05/Nov/2014 às 10:47

      Não sou grande especialista na área, mas há polititicos sinceros e com experiência que falam: ou você beneficia o povão ou o mercado financeiro Cabe a alguém que saiba responder aqui

      • Fulano Postado em 05/Nov/2014 às 18:18

        Qualquer mudança econômica acarreta em prejuízos e benefícios, portanto o autor está correto ao afirmar que não existe política econômica neutra. Uma novo produto de um concorrente pode fazer uma empresa e seus empregados irem à falência, o aumento dos gastos sociais podem levar ao aumento de impostos por parte de uma parcela da população, o crescimento do PIB de um país pode gerar má distribuição de renda, etc, etc.

    • Bernardo Postado em 05/Nov/2014 às 15:25

      Você leu a frase seguinte? "Há os que ganham mais e os que ganham menos. Em algumas situações, há os que perdem". Não, isso não tem nada a ver com jogo de soma zero.

  3. Aline Chan Postado em 05/Nov/2014 às 00:19

    É mais o fato da classe média ter uma dimensão muito maior nos EUA do que aqui no país que o abastamento dos norte americanos em relação à nós.

  4. Rafael Postado em 05/Nov/2014 às 03:04

    Na verdade, a última vez que eu vi um índice desse tipo a desigualdade de renda dos EUA estava bem maior que a do BR.

    • eu daqui Postado em 05/Nov/2014 às 11:13

      Desigualdade menor ainda do que a desta m só memso Botswana, né? kkkkkkkkkkkkkkk

  5. Gabriel Gabo Postado em 05/Nov/2014 às 08:34

    Será que nossos amigos reaças emigrantes sabem que em Miami-FL se vota Obama? kkkkkkk até no paraíso do capitalismo e consumismo, a maioria é centro-esquerda. Melhor cancelarem a viagem, por que lá todo mundo é comuna e com planos de virar Cuba kkkkkkkkk

    • Ricardo Postado em 05/Nov/2014 às 19:59

      Tá certo, mas os Democratas estão bem mais à direita que o PT, pelo que ouvi de um norteamericano eleitor do Obama... Mas, sim, se entender como partidos progressistas (em contraposição aos conservadores, sobretudo ao Tea Party e aos nossos udenistas), acho que a comparação é pertinente...

  6. soda cáustica Postado em 05/Nov/2014 às 09:32

    A mentira da divisão do Brasil desnudada... Pra quem precisa de um desenho...

  7. eu daqui Postado em 05/Nov/2014 às 11:54

    Ao contrário: quanto mais democrático mais diferença, mais diversidade e mais respeito às duas. E menos desigualdade.

  8. Leici Postado em 05/Nov/2014 às 12:21

    Muito interessante essa reflexão. De fato, a classe média alta não quer perder privilégios exclusivos: pobre nos aeroportos, nas universidades, isso preocupa e enraivece essa parcela da população.

  9. Deisi Postado em 05/Nov/2014 às 13:33

    Ficam cada vez mais raivosos e inconformados a classe media que nesse ultimo doze anos vem perdendo seus subordinados. Para trocar fraldas de seus filhos, catar o cocô de seu bichinho de estimação, lavar a calcinha da moça folgada, lavar seus banheiros e limpar suas casas. Com as conquistas das trabalhadoras e trabalhadores domésticos, estão sendo obrigados a fazerem tarefas tão desgastantes e nada valorizadas. Mas o pior mesmo é dividir espaço em aeroportos, sentar ao lado do filho de um pedreiro na universidade de engenharia, ter um pobre querendo e cursando medicina, ver pessoas que subiram de classe e podem frequentar restaurantes chiques, cruzar com pessoas no shopping com sacolas de compras. Mais raivosos ficam em ver pessoas com tênis de marca que só playboy poderia ter e o celular da fruta na mão de um pobre que hoje pode. Realmente é muito pra cabeça da elite fascista, só resta clamar e gritar por uma intervenção militar, sendo essa à unica maneira de recuperar coisas que antes do Lula e Dilma era privilegio de uma pequena parte da população. Hoje é visível à redução da desigualdade no país, só não vê quem é coxinha inconformado.

    • daniel Postado em 06/Nov/2014 às 04:05

      Moro no exterior ha 15 anos e concordo plenamente com vc. Vou ao Brasil a cada 2 anos e a diferenca positiva do governo PT e indiscutivel.

    • Alan Postado em 06/Nov/2014 às 09:34

      Total razão, eh isso mesmo, muito avanço, muitas conquistas, tem que caminhar pra frente, ditadura, militar, tirar presidente, não cabe mais. Temos que pensar pra frente, evoluir, melhorar, aprimorar. Porem nao justifica a Roubalheira instituída no nosso pais, nao podemos aceitar isso, de ninguem!! Essa classe politica tem que entender que isso também não cabe mais. Eu acho que era momento de tirar o PT do poder, pra repensarem, e quem sabe voltar com Lula e nova atitude, quem sabe!!??

  10. GringoBrasileiro Postado em 05/Nov/2014 às 15:01

    Falando pelos norte-americanos, tem alguma coisa faltando nessa análise: a questão da raça. Faz tempo desde que li Tocqueville, mas tanto quanto me lembro, ele deu seu passeio nos EUA em plena década 1830 quando escravatura era a norma pelos negros, mas seu apoio pelo colonialismo e crença na inferiorade da cultura não europeia o deixou meio cego a respeito da forma da desigulade que, ao longo dos anos, se mostrou (e continua se mostrando) o eixo mais explosivo de conflito social no meu país. Diria que tanto "Sabe com que está falando, neguinho?" quanto "Quem você pensa que é, neguinho?" forma ditos mais de uma vez antes de um policial machucar ou matar um negro. Os dois sentimentos são pra dar um corte no outro que "se acha demais", mas poderíam servir muito bem a reforçar a desigualdade ao invés de combatê-la. É precisamente esse resentimento racial que anima boa parte do chamado Tea Party e extrema-direita aqui na sua oposição fanática ao Obama. "Como é que eu trabalho duro e continuo pobre mas um (escolha sua insulto racial preferido) como o Obama veio parar na Casa Branca?" E isso é só o tip of the iceberg. Os EUA não são tão igualitários assim.

  11. Onda Vermelha Postado em 06/Nov/2014 às 02:39

    Que delícia ler um post inteligente, instigante e que faça uma parcela de nossos cidadãos refletirem sobre o quanto são mesquinhos com os seus semelhantes. Tenho orgulho de minha geração, que diferente das anteriores, conseguiu consagrar legitimamente nas urnas, pela quarta vez consecutiva, um projeto de país mais generoso para todos os brasileiros. Viva Lula, Dilma e o PT! E, é claro, parabéns a todos aquele anônimos ou não que tornaram tudo isso possível! Estamos fazendo história! E os livros hão de fazer justiça a toda a nossa luta no futuro!

  12. Pedro Guilherme Postado em 11/Nov/2014 às 00:04

    No Brasil, em termos de tratamento ainda estamos muito longe de qualquer igualdade. Pelo contrário, aqui marcar a desigualdade é que é importante, mesmo naqueles que não deveriam fazê-lo como por exemplo nos parlamentos onde os que supostamente deveriam representar o povo trantam-se protocolarmente por vossa excelência. Não bastaria chamar de deputado, vereador? Já nem falo de tratar de você. Mas de vossa excelência para sr. já seria um avanço. E que dizer dos juízes, chamados de meritíssimos? Deus a gente chama de Deus ou no máximo de senhor Deus. Já imaginou como sería ridículo tratar de Vossa Excelência ou Meritíssimo? Já imaginou: "Deus, vossa excelência precisa me ajudar" ou " Meritíssimo Deus, eu preciso muito de Vossa Excelência". Não é ridículo?