Redação Pragmatismo
Compartilhar
Desigualdade Social 21/Nov/2014 às 16:39
8
Comentários

"Compartilhar riqueza com o mundo é obrigação moral", diz papa Francisco

Papa Francisco pede mais solidariedade à luta contra a fome. Pontífice criticou ainda a visão capitalista do alimento como mercadoria. "Não temos problema de calorias, mas de produção, abastecimento e organização"

papa francisco pobreza mundo caridade
Segundo o papa Francisco, “o número de pessoas que sofrem de fome e desnutrição segue inaceitavelmente alto“ (Imagem: Pragmatismo Político)

Na Conferência Internacional sobre Nutrição (ICN2) da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o papa Francisco pediu mais solidariedade e ações concretas no combate à fome mundial. Segundo o pontífice, é “obrigação moral compartilhar a riqueza econômica com o mundo“. O discurso, realizado nesta quinta-feira (20/11) em Roma, foi aplaudido de pé pelas autoridades presentes.

Nossas sociedades são caracterizadas por um crescente individualismo e por uma cisão“, disse o argentino aos delegados de mais de 150 países. Isso faz com que os mais fracos sejam privados de uma vida digna, prosseguiu.

Apesar dos avanços, “o número de pessoas que sofrem de fome e desnutrição segue inaceitavelmente alto“, afirmou o pontífice. Ele considera viável a exigência de reduzir a fome mundial pela metade. “Não temos um problema de calorias. Nós temos um problema de produção, abastecimento e organização“, definiu.

Segundo o papa, os desafios hoje são a falta de solidariedade e de uma distribuição justa dos recursos no mundo. Ele também falou numa crescente desconfiança entre países e entre cidadãos. “Qualquer um, a quem falta o pão de cada dia e um trabalho decente, sabe bem disso“, disse. Francisco salientou ainda que os mendigos nas ruas, resguardados de seu direito civil por uma alimentação saudável, pedem dignidade, e não esmolas.

O papa reconheceu que a comunidade internacional deu muito pouca atenção ao tema no passado. Em sua primeira visita a uma agência da ONU, ele também renovou sua crítica ao capitalismo. Segundo ele, o combate à fome e a desnutrição é dificultada pelo mercado, que é gerido pela premissa primária de lucro. Os alimentos foram degradados a uma mercadoria como outra qualquer, que também se transformou em objeto de especulação financeira, reclamou o líder da Igreja Católica.

Francisco citou ainda o papa João Paulo 2º, que, na Cúpula Mundial de Alimentação de 1992, também em Roma, advertiu para um “paradoxo da abundância“. “Há comida suficiente para todos, mas nem todos podem comer“, disse então o pontífice polonês. Há desperdício, consumo excessivo e a utilização de alimentos para outros fins. “Infelizmente, esse ‘paradoxo’ segue sendo atual“, lamentou Francisco.

Medidas contra a fome precisam levar em conta a produção e o acesso aos alimentos, além da mudança climática e do comércio agrícola. “Mas a primeira preocupação precisa ser o próprio ser humano. Todos aqueles que sofrem com a falta de alimentação diária“, pediu o papa.

Além disso, o tema da fome está envolto em corrupção, manipulações e desinformações que precisam ser superadas, disse.

Francisco também chamou a atenção para a preservação ambiental. “Deus perdoa sempre; as pessoas, às vezes; mas a natureza, nunca. Precisamos nos preocupar com o meio ambiente, senão ele reage com destruição.

A conferência em Roma, que tem convidados ilustres como a rainha Letizia da Espanha, o economista americano Jeffrey Sachs e Melinda Gates, esposa do fundador da Microsoft, vai decorrer até esta sexta-feira. No primeiro dia, quarta-feira, os participantes acordaram uma declaração internacional que prevê o acesso seguro e suficiente a alimentos nutritivos para todas as pessoas do mundo. De acordo com dados da ONU, cerca de 805 milhões de pessoas não têm o suficiente para comer.

Obesidade também é sinal de má nutrição

Em conjunto com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a FAO lançou nesta quinta-feira uma campanha contra a obesidade e por uma conscientização de uma nutrição mais saudável e sustentável.

Parte de nosso desequilibrado mundo ainda morre de fome, e a outra parte come até atingir a obesidade“, alertou a diretora-geral da OMS, Margaret Chan.

O sistema alimentar não funciona mais devido à dependência que existe da produção industrial, que é cada vez mais barata e pior para a saúde. É necessário pedir que sejam preparados pratos menos gordurosos, menos doces, menos salgados, mais equilibrados”, disse Chan.

Má nutrição não está, portanto, relacionada apenas à fome. Cerca de 2 bilhões de pessoas sofrem com a falta de nutrientes, como vitamina A, zinco e ferro – enquanto aproximadamente 500 milhões de adultos e 42 milhões de crianças sofrem de obesidade.

DW.DE

Acompanhe Pragmatismo Político no Twitter e no Facebook.

Recomendados para você

Comentários

  1. Itajaci Machado Postado em 23/Nov/2014 às 10:49

    O banco do Vaticano deveria abrir os cofres para acabar com essa pobreza abrindo empresas e indústrias. É imoral não gerar emprego e renda fomentando a especulação do capital.

    • Miriam Fernanda Postado em 23/Nov/2014 às 16:51

      A igreja católica a mais rica durante séculos cobriu impostos e indulgências do povo, fosse pobre ou rico, e nunca fez uma distribuição solidária... É patético querer dizer o que é certo se nunca o praticou. Pois como bem disse, Deus perdoa sempre, então se arrependa do que fizestes "igreja" e conhece a distribuir agora.

  2. Alex Oliveira Postado em 23/Nov/2014 às 14:38

    Seria muito efetivo se os governos oferecessem isenção de impostos para empresas que contribuírem no combate à fome, assim como há isenção para as que ajudam a preservar o meio ambiente.

    • eu daqui Postado em 16/Dec/2014 às 09:41

      Empresas já sonegam o bastante para ainda terem direito a isenção. Empresário se queixar da carga tributária é puro coitadismo. Tanto sonegam como repassam, mas jamais pagam. Quem sustenta o estado brasilerio é o IRPF sobre salarios.

  3. Noelmir Postado em 23/Nov/2014 às 14:41

    Não é obrigação das religiões fazerem o serviço dos políticos, é pra isso que pagamos impostos.

  4. Franklin J. Alencar Postado em 23/Nov/2014 às 20:35

    Certamente que a especulação financeira é imoral. Mas a especulação empresarial do controle dos meios de produção também o é. É preciso permitir a todos o acesso aos meios de produção, para que se assegure a todos a oportunidade de produzir livremente. Quem não tem outra opção além de vender sua força de trabalho aos que monopolizam os meios de produção não é livre.

  5. Fábio Postado em 24/Nov/2014 às 11:12

    Antes de criticar o mundo, o vaticano deveria agir, e depois cobrar iniciativa alheia, é fácil criticar sentado em uma montanha de ouro e brilhantes!

  6. Leonardo Postado em 25/Nov/2014 às 09:26

    A Igreja Católica é a maior instituição de caridade do mundo. Trago um exemplo: na África a Igreja católica arca com mais de 50% da saúde. No Brasil, a mortalidade infantil quase que se estagnou por conta da Pastoral da Saúde, liderada pela Dra. Zilda Arns. A Igreja precisa sim se simplificar, mas dizer que ela não ajuda os miseráveis é falta de conhecimento.