Redação Pragmatismo
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Eleições 2014 03/Oct/2014 às 16:23
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Uma questão fundamental que faltou no debate da TV Globo

O essencial ficou obscurecido no debate da Globo por uma discussão absolutamente convencional em torno de promessas de campanha sobre temas triviais

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Presidenciáveis participaram do último debate da eleição, realizado pela Globo, nesta quinta-feira (divulgação)

J. Carlos de Assis, GGN

Como disse o Pequeno Príncipe, “o essencial é invisível para os olhos”! No debate de candidatos presidenciais na quinta-feira, na Globo, o essencial ficou obscurecido por uma discussão absolutamente convencional em torno de promessas de campanha sobre temas triviais como saúde, segurança e educação – importantes, sim, mas secundários na medida em que está em jogo, no contexto mundial atual, nosso destino enquanto sociedade e enquanto nação, nossa segurança de emprego e de renda, nossa própria estabilidade social.

Não quero culpar os candidatos pela incapacidade de abordar questões essenciais como o desafio de nossa inserção internacional em face da crise mundial. Alguns deles, embora equivocados, adiantaram fora do debate suas posições através de assessorias, como no caso de Marina e Aécio, alinhados na proposta de livre comércio com os Estados Unidos e a União Europeia. Dilma tem o testemunho de suas próprias iniciativas, em especial o compromisso de efetivação do Banco BRICS, que vale dez vezes mais que qualquer promessa.

O fato é que o formato do debate não permitia a abordagem de questões de fundo. A presença de três candidatos de nenhuma expressão eleitoral entre os três com chances reais de ir para o segundo turno praticamente assegura a degradação da discussão. Só mesmo esse formato, imaginado pela emissora para garantir o segundo turno, permite que oportunistas como o pastor Everaldo e um desequilibrado como Levy Fidelix usem uma tribuna nacional para acusar a Presidenta de ter defendido o terrorismo na ONU (sem direito de resposta).

Entretanto, em plena campanha para escolher nosso futuro presidente ou presidenta, passamos ao largo de uma questão essencial: que caminho devemos escolher na ordem mundial? Sim, porque estamos estagnados. Não importa que Guido Mantega tenha feito uma política macroeconômica deplorável, que tenhamos exagerado no superávit primário enquanto a economia estava patinando, que tenhamos voltado a aumentar os juros básicos quando não havia risco inflacionário, que tenhamos feito uma política cambial deplorável.

VEJA TAMBÉM: Eleições 2014: O discurso da Superficialidade

Todos esses equívocos macroeconômicos são irrelevantes para o crescimento sustentável da economia diante de um fato básico irrecorrível: esgotamos o ciclo do consumo interno. Vendemos cerca de 300 milhões de celulares, milhões de geladeiras e fogões, milhões de aparelhos de ar condicionado, milhões de carros, milhões de outros produtos de consumo. Entramos numa economia de reposição do consumo até que surja um novo ciclo. Até lá, se não houver uma mudança de paradigma nas bases da economia, teremos de nos contentar com crescimento zero, sustentado apenas pelo agronegócio e a mineração.

Tudo se transforma no sistema capitalista, menos uma característica básica: o ciclo de negócios, os longos períodos de recessão alternados com crescimento que se sucedem nas décadas. Ninguém pode impedir o ciclo, muito especialmente a política monetária. A Europa está demonstrando claramente isso, na medida em que o independente Banco Central Europeu opera com taxas de juros negativos e expande a disponibilidade de crédito sem qualquer resultado no crescimento da economia. A política fiscal pode atenuar ou mitigar o ciclo. Contudo, os conservadores e ortodoxos renegam a política fiscal.

O capitalismo alinha todas as economias pelo consumo. As classes médias brasileiras estão no mesmo nível de consumo de suas congêneres europeias e americanas. O que nos falta é estrutura produtiva debaixo desse consumo. Deixamos buracos produtivos internos e os tapamos com importações. No contexto atual, pagamos nossas importações com exportações de commodities minerais e agrícolas. No limite, vamos pagar nosso déficit em conta corrente, já da ordem de 80 bilhões de dólares, com reservas internacionais e depois crise.

O que os opositores de Dilma – Aécio e Marina – nos propõem como alternativa? Querem que façamos acordos de livre comércio com a União Europeia e os Estados Unidos. Alguns chegam a propor a ruptura do Mercosul para viabilizar esses acordos. A troco de quê? O que podemos esperar da Europa e dos Estados Unidos senão o aumento das exportações deles para nós? E o que podemos vender para eles? Certamente não podemos concorrer em manufaturados com a China no mercado deles. E os primários, podemos vender-lhes?

Será possível esperar da Europa, em plena recessão ou depressão, que possa adquirir nossos produtos primários na forma de uma alavanca do crescimento para nós? Será que é possível esperar isso dos Estados Unidos e do Japão, ambos igualmente estagnados? Só a absoluta ignorância da situação internacional, ou um tremendo oportunismo em busca de negócios pessoais tópicos, pode justificar esse tipo de opção. O fato é que todos os países industrializados avançados atingiram o auge do ciclo de crescimento – o último deles, o ciclo da indústria de informação -, e eles próprios não têm para onde saltar para um novo ciclo.

Nós, sim, temos uma oportunidade: como deixamos vários buracos para trás em nossos ciclos de desenvolvimento, podemos tentar preenchê-los. É necessário para isso uma grande estratégia que redirecione nosso eixo de desenvolvimento. Um desses buracos é a infraestrutura de transportes a partir de investimentos públicos a fundo perdido: a demanda é automática. Outro, ainda mais importante, é a complementação do ciclo da indústria básica, isto é, a indústria de metais, a partir de nossa ampla base de recursos naturais. Existe para isso uma demanda certa, a Ásia. Mas disso falarei oportunamente.

J. Carlos de Assis – Economista, doutor pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPB.

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Comentários

  1. KARINA BB Postado em 03/Oct/2014 às 16:31

    Gostaria muito de entender a importancia do BRICS ,mas os candidatos nao tocaram no assunto,deve ser pra nao ajudar a enaltecer a Dilma Rousseff,,,,,isto fez falta nos debates

    • Sarah Postado em 03/Oct/2014 às 17:14

      Bem, eu estudei bastante BRICS então vou tentar te ajudar. Em resumo a maior importância dos BRICS é a contestação que o grupo faz das lideranças nas principais organizações internacionais. A principal bandeira do BRICS é a redistribuição do poder em instituições como Banco Mundial e FMI (pra ter uma ideia, até hoje todos os presidentes do BM foram americanos e todos do FMI foram europeus); eles dizem que a atual distribuição de poder nessas organizações não reflete a atual distribuição de poder na política mundial (a reforma do Conselho de Segurança da ONU segue este mesmo raciocínio). Eles defendem que os países do BRICS são importantes demais hoje em dia para ficarem de fora dos processos de tomada de decisão nessas instituições. A criação do Banco de Desenvolvimento do BRICS é uma forma de criar um meio alternativo ao Banco Mundial; já que EUA e UE parecem pouco abertas a reformas nas instituições de Bretton Woods, os países do BRICS decidiram formar suas próprias instituições. Espero ter ajudado.

    • Pablo Postado em 04/Oct/2014 às 14:48

      Nunca que estes candidatos iriam debater algo que só favorece a Dilma! A Luciana Genro tem repulsa à bancos, creio. O Eduardo Jorge também parece meio "anti-banco". Destaquei estes dois por acreditar que são politicamente honestos creio que seus motivos foram verdadeiros. Os outros não falaram em função do jogo mesmo!

  2. Natália Postado em 03/Oct/2014 às 16:41

    Desde o primeiro debate que espero por esse assunto KARINA, o Levy Fidelix no debate da record chegou a perguntar para o Pastor, mas nada de útil foi dito...

  3. Sandra Postado em 03/Oct/2014 às 16:57

    Não mencionaram nem o BRICS nem o Porto de Cuba, tão criticado pelos mal informados. Será porque nem Marina nem Aécio questionaram isso durante a campanha? Nem uma perguntinha sequer? Estranho né, já que foi tão "prejudicial" para o país.

  4. Olga Postado em 03/Oct/2014 às 17:38

    O nível do debate foi muito pobre, os temas já conhecidos e as perguntas as mesmas. Todo feito para a Sra presidenta não abordar temas que poderiam realçar seu governo e suas ações. Todos sabemos que ainda quedam muitas coisas por fazer. O unico que fizeram foi tentar diminuir o valor do já feito neste e o anteriores governos do PT, dando como feito que a ideia foi copiada ou melhorada, como o disse Aécio. Marina coitada ficou como não sabendo a diferença entre autonomia e independência, e não falou nada interessante, só atacou. O candidato Levi não tem altura, caráter nem formação como para ser candidato a Presidência..Um debate na reta final não poderia ter convocado todos os candidatos e sim os com mais eleitorado. Este debate tal qual foi apresentado deveria ter sido o primeiro debate na campanha.