Saullo Diniz
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Política 29/Oct/2014 às 10:16
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O que não entendemos de Futebol e Política

O problema é que nos falta um pouquinho de profundidade ao analisarmos questões tão complexas como política e futebol

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Saullo Diniz*

Há tempos tenho uma convicção: todo brasileiro é um ótimo churrasqueiro, um excelente técnico de futebol e um doutor em ciência política. Obviamente, como toda generalização, é um pensamento extremamente insensato e superficial, mas é o que de fato parece. São raras as pessoas no meio em que cresci que se consideravam ruins em alguns desses quesitos. É extremamente normal classificarmos, mesmo os treinadores mais experientes e vitoriosos, como burros simplesmente por alguns resultados ruins. Assim como é bem comum a classificação de toda política como ineficaz ou, para os mais “sabidos”, populista e clientelista.

O problema é que nos falta um pouquinho de profundidade ao analisarmos questões tão complexas como política e futebol, por exemplo (aqui já não falo mais do churrasco). Tomo a liberdade de escolher como meu primeiro personagem aqui o Fred, atacante do Fluminense. O jogador de carreira reconhecida como um jogador de área tem uma carreira no mínimo muito boa. Passando por clubes como Cruzeiro, Lyon (FRA) e Fluminense, tendo sido por mais de uma vez campeão nacional, adquirindo dezenas de convocações para a seleção brasileira chegando a disputar duas Copas do Mundo, sendo campeão e artilheiro de uma Copa das Confederações e etc. Números e premiações não faltam para a avaliação de tal jogador.

Porém, sua imagem agora está muito marcada pelo seu desempenho na última Copa. Esperava-se muito de nosso camisa 9 ainda mais por estar numa seleção repleta de craques, mas não foi isso que aconteceu. A história todos nós sabemos e não preciso dissertar aqui, o que quero usar como exemplo é a moral que (pouco) ficou. O jogador foi crucificado pela sua atuação quando ninguém – com exceção de nosso camisa 10 – jogou. O coletivo de nossa seleção falhou, logo, os individuais também. O que não aprendemos nessa competição foi que o problema não foi o Fred não ter feito gols, mas o esquema de jogo não ter lhe proporcionado muitas chances. A mais valiosa lição que devíamos ter aprendido com a Alemanha foi o seu estilo conjuntural de jogo contrapondo à nossa mentalidade individual, ela teve seus destaques, mas o coletivo funcionou e muito. A lição que deveria ficar era que o problema não foi individual, não foi do Fred ou de qualquer outro jogador, o erro estava na estrutura, o Brasil perdeu na estrutura do time.

Essa convicção individual nós também levamos – erradamente – para o ramo da política. Toda eleição nos convencemos de que um será melhor que o outro sem questionar a estrutura que está por trás. O que não entendemos é que aqueles nomes famosos por concorrerem a cargos públicos não podem fazer nenhuma mudança significativa se a estrutura for a mesma. Não estou dizendo que os candidatos são todos iguais, mas as diferenças se tornam ainda menores quando os financiadores de campanhas e a estrutura política são praticamente os mesmos. Nesse modelo político em que vivemos, independente do candidato eleito, as mudanças serão bem pontuais, pois todo o resto é o mesmo de todas as outras que já se passaram.

Enfatizo que não estou dizendo que o governo atual é ruim e que os outros são melhores, não estou mencionando nenhum dos candidatos, mas é que eles pouco podem fazer de diferente se todo o alicerce político é aquele que estamos cansados de criticar – com razão. A grande questão é que estamos depositando esperanças em indivíduos e nos esquecendo da conjuntura que está por trás. Não adianta termos um excelente atacante, se o time não joga, o máximo que conseguiremos é uma campanha mediana e nesse sentido a política não é diferente. Não podemos ter mudanças significativamente melhores se não reformarmos nossa estrutura. É essa a lição que devemos de aprender, é isso que não entendemos de futebol e política.

*Saullo Diniz, graduando em Geografia pela UFRJ e colaborador em Pragmatismo Político

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Comentários

  1. Felipe Peters Berchielli Postado em 29/Oct/2014 às 13:38

    Sobre futebol brasileiro,a maioria dos técnicos são supervalorizados e "burros" sim,posso falar do meu time o São Paulo,Muricy Ramalho(que é tido por muitos como melhor treinador do Brasil) faz cada cagada que da vontade de enfiar a cara debaixo da terra,com escalações e formações erradas,muitas vezes preterindo jogador de posição para inventar e vira e mexe volta para o fracassado 4-3-3 com três atacantes que nada fazem enquanto o meio fica desguarnecido,sobre o Fred concordo,ele foi queimado em um esquema ridiculo que não o favorecia. Sim,no futebol ha muito senso comum,principalmente repetido a exaustão pela imprensa,considero o canal ESPN Brasil o melhor no assunto,são muito mais criticos e sensatos ao futebol,mas não são perfeitos. E como no futebol na politica muitos sabemos como ela funciona mas essa cai mais no senso comum do que o futebol,bem mais e bem...para politica não recomendo canal nenhuma da midia tradicional,recomendo os canais independetes,até mesmo de direita,e filtrar informação,mas tanto para futebol como politica sempre mantendo em mente que não sabemos de tudo e ha sempre que aprender mais.

    • KARINA BB Postado em 29/Oct/2014 às 14:41

      MAIS BURRO QIE DUNGA,QUE RESSUSCITOU ROBINHO E KAKA !!!!!!!,SENDO QUE ESSE ESTIGMA DE QUE PRECISA MESCLAR JUVENTUDE com experiencia é furada !!!!?? Os novinhos ja vem pronto,nao se intimidam com seleçoes europeias,eles ja jogam la,experiencia nao falta

  2. Luiz Patrizzi Postado em 29/Oct/2014 às 22:28

    Esse Saullo Diniz escreve muito bem e é um gato.

  3. Larah Castro Postado em 30/Oct/2014 às 00:06

    Ótimo texto, parabéns ao escritor! :P

  4. Rocken Postado em 30/Oct/2014 às 02:09

    realmente a comparação é valida, no futebol e na politica de alto nível só existem pessoas altamente profissionais em um universo muito competitivo, qualquer erro é fatal, o FHC por exemplo inventou de querer ter cargo executivo e fez lambanças irreparáveis, pagou tendo uma aprovação de menos 30% no fim do mandato

  5. Sergio Postado em 30/Oct/2014 às 14:39

    A pergunta é : " Como se muda a estrutura se não pela mudança das pessoas que a integram ?"