Franz Galvão
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Racismo não 22/Oct/2014 às 19:57
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Falar sobre Ebola, uma doença social

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Franz Galvão Piragibe*, Pragmatismo Político

Ebola deve ser uma das doenças mais perigosas dos últimos tempos, mais que a H1N1. Uma epidemia sem precedentes que já se alastrou no Brasil, agravando os sintomas de uma doença cotidiana que muitas vezes passa desapercebido. Embora muitos não tenha notado, já podemos estar contagiados por esse vírus, e ao menor descuido, apresentar sintomas que se propagam em nosso meio, e mata em sua versão mais simplória, mais do que todas as guerras já vista. O RACISMO é realmente uma das doenças mais perigosa no mundo. E sim, se agrava com o Ebola.

Circulam hoje na internet várias manifestações de ódio, que refletem de forma velada nas instituições. Com relação no Brasil de SUSPEITA do vírus, presenciamos comentários do tipo; “estou com medo de ficar perto de negros!” ,“não tenho medo do Ebola parece que só pega em negro”, “não que eu seja racista, mas eu acho que esse NEGRO que esta com ebola, lá no Rio de Janeiro, deveria ser sacrificado. Vale ressaltar que quando a atitude é para benefício da maioria, não é considerada uma atitude antiética”, e por fim o que causou mais espanto ao meu ver “(…) os lixos da humanidade, ficam tudo neste continente, onde só sabem pegarem doenças, porque são animais imundos e sujos, sem Higiene, nem Saúde, muito menos estudos, negros negrosos, nem quero que esses lixos, tragam doenças aos brancos, Raça imunda.”. Outras mil manifestações de ódio continuam pipocando, e as pessoas mediante o histérico terror do ebola, não se dão conta, ou manifestam bem conscientes, de como esse discurso recai na sociedade.

O que já temos como manifestações institucionais? Cancelamento de projetos sociais, acadêmicos e políticos, não só nos países Serra Leoa, Guiné-Conacri, Nigéria e Libéria, que foram os mais afetados, mas para todo o continente Africano, tratando novamente o espaço/lugar, como um só país. Obviamente, como a verdadeira doença aqui é o Racismo, nada se fala de fazer uma quarentena nos países com casos de Ebola como EUA, porque nesses casos se permite pensar até em isolar do roteiro da cidade.

Porém terão aqueles que vão se afirmar “é normal, não tem nada a ver com racismo”. Não recordo esse repúdio étnico quando o surto era Espanhol (pneumônica) quando era a Gripe Russa. A gripe de New Jersey ou a gripe Mexicana que foi a de 2009 (H1N1). Tampouco vejo alguma reflexão seria das doenças dos colonizadores que matou aos montes os colonizados e temos registro por toda história. As doenças contraída diariamente por uma exacerbada exploração laboral em vários campos, as doenças sociais e psicológicas do mundo urbano que infestam o mudo todo. Essas doenças não matam? Por que elas não vieram dos negros, porque elas não vieram dos índios elas são menos perigosas? Eu penso que sim, se somarmos todas essas doenças citadas acima, nenhuma matou mais do que o Racismo.

Não seria louco de descartar a possibilidade d’essa epidemia da ebola chegar no Brasil, e o que nós deixa frágeis, é realmente nosso racismo. O que vamos fazer? Bares de negros e de brancos? Os pais não vão deixar os filhos ter nenhum relacionamento inter-racial? Seremos separados nas escolas e faculdades até que as chances de epidemia passe? O que faremos? E quando um branco morrer aqui? (porque já morreram vários pelo mundo) vão por a culpa no negro? Grupos vão sair matando negros, e deixando uma plaquinha “cuidado contagiado com Ebola!” e todos irão acreditar, como foi no caso dos justiceiros?

A verdade, que já é bem difícil ser negro e andar na rua com a policia que temos, cada dia é uma vitória. É difícil ser negro e coexistir sem ser subalterno nos espaços culturalmente da alta elite, como faculdades, bairros nobres, dentro de carros importados ou em empregos que não tenhamos que carregar tijolo ou limpar banheiros. Como se já não bastasse, isso tudo agora, vamos correr um serio risco de morrer por espirrar em um ônibus, ou qualquer outro lugar fechado.

Não vou comentar as varias hipóteses desse vírus ter sido produzido em laboratórios e solto em países Africanos como teste como os já conhecidos costumes das indústrias farmacêuticas, afim de criar doenças e curas para ficarem mais ricos. Existem fóruns mais competentes em tratar o assunto que espero ler mais em breve. Porém se pensarmos nessa hipótese, e você que esta lendo esse texto tiver com suspeita de Ebola, sugiro que vá em Brasília e abrace todos os políticos, beije os presidentes, deputados e senadores. E se isso não tiver ao seu alcance abrace um grande capitalista do seu Estado ou celebridades Americanas ou Europeias. Com essa estratégia a cura pode aparecer rapidinho.”

*Franz Galvão Piragibe é Militante de movimento negro em BH, Pesquisador de Ações Afirmativas, Educador Social, Professor de português e colaborador em Pragmatismo Político

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Comentários

  1. Yurhi Azevedo Postado em 22/Oct/2014 às 21:33

    Também achei a reportagem super apelativa e sem conexão clara entre os 2 assuntos. OBVIAMENTE tofos sabem que o Ebola originou-se la na África -infelizmente, trágico- mas nada que impeça de contagiar "brancos". Todos somos igualmente propensos ao contágio, infelizmente.

    • gabriela Postado em 13/Nov/2014 às 22:32

      essa reportagem serviu, dentre outras coisas, para revelar alguns pensamentos um tanto quanto "questionaveis": vc acha realmente infeliz que todos sejam propensos ao contágio??? vc preferiria que fosse diferente? não sei se sinto, mas vou te dizer: os virus não são racistas.

  2. Rodrigo Postado em 23/Oct/2014 às 18:12

    Sou de Cascavel/PR, onde houve o caso de suspeita de ebola no BR. Após a suspeita de ebola, a discriminação aumentou severamente. Antes os imigrantes negros eram considerados, em sua maioria, haitianos (já que foram os primeiros a chegar), agora todos passaram a ser taxados, pejorativamente, de africanos. Inúmeros haitianos instalados na cidade relatam que passaram a ser ofendidos, chegando ao ponto das pessoas evitarem sentar-se perto deles, mudando de lugares em restaurantes. Dizeres como "Voltem para África", "Não tragam suas doenças para cá", "Morra no seu país sem contaminar a gente" não são raros. Em uma cidade com baixa concentração de negros (a maioria dos quais são pardos), qualquer negro com um tom de pele mais escuro é facilmente identificado como imigrante e está sim mais sujeito ao racismo e a xenofobia (com a baixa confiança econômica, é acentuada pela falácia de que "os imigrantes vêm para cá roubar nossos empregos"). Portanto, apesar de parecer exagerada, existe sim relação entre o ebola (uma doença endêmica do continente africano) com o racismo. Segue o link de uma notícia em um jornal local (dê um CTRL+F por preconceito). http://cgn.uol.com.br/noticia/109406/ebola-e-descartado-mas-nove-africanos-serao-monitorados

  3. Alien Postado em 23/Oct/2014 às 23:53

    Realmente é de se revoltar ouvir esse tipo de comentário, responsabilizando os negros pela doença, ou aproveitando-se da situação para destilar seu racismo. Não concordo com o outro ali que falou que os comentários foram forçados: é só dar uma pesquisada que a gente vê que sim, tanto estão usando o Ebola para mostrar racismo como usam a votação do PT no nordeste pra mostrar a sua xenofobia. Se tivesse parado aí, eu concordaria com o texto. Agora, é racismo o cancelamento de projetos e viagens aos países mais afetados? Como assim? Na época do H1N1 ninguém desistiu de ir pro México? São medidas de segurança pra evitar a proliferação da doença. No mais, a previsão de um "apartheid" caso a Ebola chegue no Brasil chega a ser cômica. Existem duas linhas de pensamento que atrapalham o debate sobre o racismo no Brasil: a que diz que não existe racismo no Brasil e é tudo exagero, e essa do texto, que considera racismo se uma pessoa diz que prefere chocolate branco.

  4. eu daqui Postado em 24/Oct/2014 às 12:21

    Do que se admirar num país em que alguém quer botar outro na cadeia por racismo simplesmente por ter "olhado feio"? Tem gente que tem a autoestima que merece.

  5. eu daqui Postado em 24/Oct/2014 às 12:23

    Boa, cara. Apoiado. E pode apostar que o PT vai ter menos votos no próximo domingo por causa desses exageros que usam os complexos e ressentimentos alheios como arma política.

    • gabriela Postado em 13/Nov/2014 às 22:22

      de boa, cara. Pare de resumir o mundo ao PT. Há muito mais coisas entre o texto e o comentário do que pode supor a tua vil ptofobia

  6. zion Postado em 13/Nov/2014 às 03:10

    Tem gente que faz força pra não enxergar como funciona a industria farmaceutica. E o pior é negar que o ebola reforçou o racismo, tipo eua esta cheio de casos, mas ninguem evita contato com os americanos... já com os africanos não podem nem atravessar a fronteira. A dica é ótima : abracem os políticos e os capitalistas que a cura vem, a final ninguem ligava qdo so africanso estavam morrendo, mas se os ricos e chefes de estado morrerem, os investimentos para a indutria farmaceutica criar uma cura ( que ja ta criada) aparecem rapidinho

  7. Claudiane Almeida Postado em 13/Nov/2014 às 07:25

    Gostei do seu texto Franz. Um pouco apelativo pode até ser. Mas, me fez refletir muito. Continuo com a mesma certeza, algo poderia já ter sido feito antes nos países da África para ajudar essa população. No entanto, só ocorreu realmente ajuda depois q viram q o ebola e um risco para o mundo. Lamentável também pessoas dizendo que você esta procurando racismo, eu até queria acreditar nisso. Procurar racismo, como se o racismo fosse algo raro kkkkk. Mas, na sociedade onde vivemos, em diversos espaços, o negro e visto como portador de uma doença contagiosa. Que negro q nunca foi descriminado nesse pais? Foi colocado como uma pessoa inferior? Tem q ficar ouvindo piadinhas sobre sua cor. Sem contar q e obrigado a ouvir sobre meritocracia. Seu texto e polêmico, pois fala de uma doença que pode afetar todo mundo. Mas ele Tbm fala de uma doença que já afeta várias pessoas e elas não percebem.

  8. Moka Postado em 13/Nov/2014 às 12:20

    Texto ótimo do Franz! Como citado no conteúdo, diversas pandemias não tiveram o impacto entre grupos étnicos como o ebola teve. Ebola é uma realidade distante desse país e só houve suspeita de caso, ao contrário do H1N1, que, inclusive, matou pessoas em solo brasileiro e nem por isso, condenavam quem quer que fosse por sua origem ou cor de pele. O seu medo, caro Rodrigo, é que perca o "direito social" de discriminar alguém pela cor da pele. Racismo é crime, mas ainda só no papel, infelizmente. Negras e negros morrem dessa doença há tempos, mas foi necessário que ela contaminasse UM BRANCO pra que houvesse uma comoção internacional para controle de uma doença que tem exterminado africanas e africanos por décadas a fio.

  9. Rodrigo Horta de Sousa Postado em 13/Nov/2014 às 14:35

    Parabéns pelo texto e pela proposta de reflexão... muito bom texto Franz

  10. Isa Paula Postado em 13/Nov/2014 às 17:45

    Eu acho que o pessoal que criticou nao entendeu que o que o autor citou foram fatos. Os comentarios racistas ocorreram sim, na verdade nem foram mascarados. Aquele que escolhe nao ver isso esta no minimo a venda em relaçao a realidade. Quando a pessoa nao sofre atos racistas pelo menos todo dia realmente, ela nao se dignifica a conscientizar quanto os fatos.

  11. Gabriela Postado em 13/Nov/2014 às 22:20

    mais respeito e menos desprezo, por favor. fomentar discussão e não impor a opinião é a melhor forma de construir o pensamento. e com isso já respondo o que"esse senhor" está fazendo para ajudar: ele está fomentando pensamento. fazendo com que pessoas como eu e vc estejamos aqui, perdendo nosso tempo para escrever um comentário. existem outras formas de por a "mão na massa" que não a dos médicos, infermeiros e voluntários (que, como todos, merecem todo o nosso respeito).... agora, uma coisa, te digo o motivo pelo qual a maioria dos médicos que está atuando nos paises afetados pelo virus no continente é branca: a maioria dos médicos É branca! isso te surpreende? questionar isso tb é transformar algo polemico em recismo? No mais, acho que vc fantasiou um pouco sobre o que escreveu. ele não transformou algo polêmico em racismo, o que ele fez foi mostrar as várias esferas de racismo que estão por detras desse "algo polêmico". abraço

  12. Ana Gabriela Postado em 14/Nov/2014 às 02:12

    O autor do texto chama a atenção para o racismo dos comentários no caso Ebola, de modo que ele não transformou "algo polêmico em racismo", ele polemizou o racismo é diferente. Querer deslegitimar a argumentação do texto pedindo referência das frases racistas citadas, como se fosse um artigo científico, e contraditoriamente dizer que o racismo é de uma minoria, pois supostamente a maioria dos médicos que socorrem as vítimas na África são brancos - quando é notório que a ajuda médica majoritária vem de Cuba -, sem falar que toma as partes pelo todo ao falar de "vítimas na África" ao invés de citar os países em que ocorrem o surto é demonstrar o quanto a ideologia racista produz cínicos, arrogantes e estúpidos.

  13. Ana Gabriela Postado em 14/Nov/2014 às 02:23

    Os comentários acima demostram o quanto o racismo é cínico, arrogante e estúpido venha de quem vier. O texto de opinião, Falar sobre ebola, uma doença social, faz ironia socrática, desde o título, a ideologia racista que feito pandemia violenta todos os dias milhares de pessoas no Brasil. O autor ao levantar alguns dos cruéis comentários racistas, que circularam pela internet quando da suspeita de ebola no Brasil, questionando porque nos casos de outras pandemias como o H1N1, ou mesmo na ocorrência do Ebola em países não-africanos não se tem comentários de manifestação de racismo como: “(…) os lixos da humanidade, ficam tudo neste continente, onde só sabem pegarem doenças, porque são animais imundos e sujos, sem Higiene, nem Saúde, muito menos estudos, negros negrosos, nem quero que esses lixos, tragam doenças aos brancos, Raça imunda.”; demostrou que o racismo tem destino certo: pessoas não-brancas e países de maioria negra. Entretanto, a clara intenção do autor não foi chamar a atenção ao racismo geográfico, nem a suas implicações sociais e políticas, mas sim as formas de violências do racismo à brasileira que mata mais que qualquer pandemia. Haja vista a recente campanha da Anistia Internacional ao Genocídio dos Jovens Negros no Brasil, cuja cifra é de 23100 homicídios contra jovens negros por ano. As tentativas de desqualificação do texto só demostram a ignorância arrogante de seus autores quanto ao gênero do texto comentado e ao fim da argumentação irônica que visa revelar justamente a ignorância dos interlocutores ao assunto. Revela também o cinismo do racismo que se nega ao supor igualdade de tratamento entre brancos e negros, e surpreendentemente a estupidez de acusar a denuncia de racismo de "complexo e ressentimento alheios".