Redação Pragmatismo
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Racismo não 15/Sep/2014 às 17:46
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‘Estou no Brasil, mas me sinto na Rússia', diz adolescente negra

A exclusão e a invisibilidade dos negros na mídia e nas revistas e o estímulo ao embranquecimento: "Estou no Brasil, mas me sinto na Rússia"

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Jovens negras reclamam de segregação nas publicações brasileiras (Edição: Pragmatismo Político)

A invisibilidade dos negros na mídia brasileira não é assunto novo, mas as revistas para o público adolescente revelam um quadro cruel de exclusão. Em um país onde 57,8% das meninas de 10 a 19 anos se declaram pretas ou pardas (categorias cuja soma é comumente usada para medir a população negra), as publicações juvenis não as enxergam. Somente as brancas estão nas páginas. Não há diversidade.

É difícil crescer lidando com produtos que não te contemplam. Como explicar para uma pré-adolescente negra, em plena formação de identidade, que ela é bonita, se a revista preferida ignora seu tom de pele? Como enaltecer a beleza afro, se o conteúdo estimula o embranquecimento? Como acreditar que o crespo é normal, se as reportagens só exibem cabelos lisos? Estamos no século 21 e parece que paramos no tempo. Nós queremos existir.

As edições de agosto das três principais revistas para adolescentes do país omitem a população negra. Atrevida, Capricho e Todateen: 294 páginas, apenas cinco fotos de adolescentes pretas ou pardas. Na Capricho, uma imagem estava num anúncio; outra apresentava a nova integrante da equipe de leitoras que colaboram com a revista. Na Todateen, duas fotos estavam no mural de fãs; a terceira, como na concorrente, era da equipe de colaboradoras. E só. A Atrevida não trouxe uma adolescente negra. As cantoras e atrizes pretas ou pardas conseguiram espaço nas publicações pela fama, não pela cor. Foram 114 páginas de padronização e exclusão.

As redações sabem da composição do público. Quatro das cinco imagens foram enviadas por leitoras negras. Elas compram, leem, se interessam, interagem, participam, colaboram. Elas estão presente e são ignoradas. Não havia um editorial de moda com modelos negras, uma seção de penteados para cabelos cacheados e crespos ou uma dica de maquiagem para pele negra. As revistas abordam bullying, sexo, masturbação, compulsões, vícios, sempre com personagens brancas, como se as questões não afetassem ou não interessassem as negras.

O racismo também não foi pauta. Estamos em 2014, as pessoas ainda xingam negros de “macaco” e a juventude negra está sendo massacrada. O Mapa da Violência 2014, da Flacso Brasil, denunciou aumento de 32,4% nos homicídios de negros de 15 a 24 anos entre 2002 e 2012. Para cada jovem branco que morre, 2,7 jovens negros perdem a vida. E ninguém toca no assunto.

As revistas não responderam às tentativas de contato. Se retornassem, conseguiriam justificar? É possível explicar a predominância das brancas nas páginas, quando elas são apenas uma parte das meninas de 10 a 19 anos? Se houvesse lógica nos números, 57,8% das imagens deveriam ser de meninas negras. Não é o que acontece.

Somos aproximadamente 9,7 milhões de cores, de cabelos com personalidade própria, de bocas grandes, de narizes largos, de sorrisos lindos, de leitoras, de público que vai pagar pelas revistas, de lucro. E ainda assim, não estamos lá. A mídia nos vende uma realidade que não existe. Vivemos no Brasil, o país da miscigenação. Ao abrir uma revista, me sinto na Rússia.

É cruel com as crianças que crescem com o sentimento de não pertencer ao universo apresentado nas revistas. É cruel com as adolescentes que se convencem que, ao alisar o cabelo e parar de tomar sol, vão se encaixar no padrão irreal. É cruel com as famílias que precisam trabalhar em dobro para promover a aceitação. Deviam ter as revistas como aliadas, mas elas são, na verdade, um desserviço.

Isabela Reis, BBC Brasil

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Comentários

  1. Rogerio Postado em 15/Sep/2014 às 19:54

    Se sente na Rússia? Tome vodka.

    • eu daqui Postado em 16/Sep/2014 às 08:49

      kkkkkkkkkkkkkkkkkkk eu é que não tenho essa sorte se me sentir na Rússia kkkkkkkk

  2. Rogerio Postado em 15/Sep/2014 às 19:57

    Realmente quase não se vê negras em capas de revistas. Mas também quase não se vê japonesas, judias, índias. Então a mídia é anti-semita, nipofóbica, indiofóbica. Também não vejo japas, judeu ou índio chorando por esse fato.

    • Felipe Postado em 16/Sep/2014 às 00:34

      como vc e inteligente fera...obio que nao, burro pra caralho!

      • Stella Postado em 16/Sep/2014 às 08:19

        Que raciocínio raso...

      • eu daqui Postado em 16/Sep/2014 às 08:52

        Eu também amo ser burra e não me sentir insultada por tão pouco: não ver meu tipo em capa de revistas. Duvido que os "inteligentes" sejam mais felizes sem essa tranquilidade.

    • bruno Postado em 16/Sep/2014 às 15:28

      o único problema nessa linha de raciocínio (rasa e de pouco amplitude) é que a maioria da população brasileira não é japonesa, judia nem india, e sim negra. ou você vai querer afirmar que não existe preconceito com negros e índios também ?

    • edcarlos Postado em 01/Oct/2014 às 05:49

      Mas japonesas, judias e Índia são 50% da população?

  3. Jonas Schlesinger Postado em 15/Sep/2014 às 20:48

    Uma pergunta: existe negro racista com outro negro? Porque já vi negro xingar outro só porque era mais escuro que ele. Ele xingou de "nego fedido". Tem tbm aqueles outros torcedores do Grêmio que são negros que o chamaram de macaco. E aí é possível eles serem presos como racistas? Pergunto isso porque o branco se contém ao máximo pra não ser racista, mas o negro não. Tem negro que acha que só pq é negro tem mais liberdade de ser racista com sua própria raça. Acho que me entenderam. E aí, é possível ou não?

    • José Ferreira Postado em 16/Sep/2014 às 15:25

      Fora os negros que chamam os "pardos" (que são mestiços de pele morena, pois somente onças, ursos e papéis são pardos) de "cor de me.rda".

      • eu daqui Postado em 17/Sep/2014 às 08:30

        Por que cor de merda? Minhas fezes não são exatamente pardas.Quem chama assim os pardos deve estar anemico.............

  4. Larissa Postado em 15/Sep/2014 às 22:34

    É realmente muito triste, venho para um veículo de mídia tão bom quanto o pragmatismo, aí os únicos 3 comentários são de 2 babacas diferentes, um resolveu deixar claro sua babaquice comentando 2 vezes, não entendo pq esse tipo de reacionário não procura veículos reacionários que existem aos montes na internet, mas eles vem aqui todo o dia e eu nem sei pq, talvez seja falta de atenção...

    • eu daqui Postado em 17/Sep/2014 às 08:31

      MAIS BABACA É QUEM NÃO SABE LIDAR COM A DIVERGENCIA E PREGA PELA SUA ELIMINAÇÃO E/OU CENSURA.

      • Guilherme Postado em 17/Sep/2014 às 09:14

        Seguindo teu raciocínio trivial e teus argumentos você tá sendo um completo babaca também. Afinal, você chama de babaca e retardado todos que se contrapõem aos seus comentários inúteis que não acrescentam em nada, mas sim soam como preconceito mascarado com piadinhas. Quer discordar do ponto de vista da moça da notícia, mas quem discorda do que você disse está sendo odioso e censurador? Teu senso de democracia tá meio fodido, amigão.

  5. Antono carlos Postado em 16/Sep/2014 às 05:44

    Saindo totalmente da questão racial, essas revistas me parecem em festival de futilidades de modismo. Não acresce nada. então quem se sente excluído do mundo destas revistas devia prestar mais atenção na realidade da vida. Ser bonito e estar na moda é legal quando também se é inteligente, altruísta, politizado; apesar que pessoas com esses atributos não se preocupam muito com beleza e moda.

  6. Kali Postado em 16/Sep/2014 às 08:40

    Caro Jonas Schlesinger, é sim possível ser negro e ser racista. Eu não sou nenhuma autoridade no assunto, mas tentarei te explicar com minhas humildes palavras: O racismo no Brasil advém de uma construção histórica que teve início lá no fim da escravidão, quando um negro poderia ser preso por estar "vadiando" (leia-se estar parado) na rua depois de anoitecer. Tudo ligado à pele escura era descredibilizado pela elite: Suas práticas - a capoeira (que chegou a ser proibida), a música (por muitos anos o samba, que nasceu na favela, foi visto como algo pecaminoso e demoníaco); Suas características físicas eram consideradas feias: o nariz mais largo, o cabelo crespo (dito ruim), o odor é considerado mais forte (como se branco não fedesse), até mesmo suas habilidades no trabalho eram/são constantemente massacradas e descredibilizadas (isso aí tá uma porcaria, tá igual "serviço de preto"!). Atitudes como essas que descrevi foram incansavelmente repetidas e passadas através das gerações, e pioraram consideravelmente depois da chegada da TV no Brasil, que com sua programação quase exclusiva de pessoas de pele clara, ajudou (e muito) a perpetuar a "inferioridade" dos negros. Agora voltemos à sua pergunta: "existe negro racista com outro negro?" E eu te respondo com outra pergunta: Enquanto essa construção histórica da suposta inferioridade das pessoas de pele negra ocorreu, aonde você acha que os negros estavam? Na África? Em Marte? Não, esses negros estavam no Brasil! E eles passaram exatamente por esse mesmo processo que as pessoas de pele clara passaram. Eles (a população negra), assim como os brancos "aprenderam" ao longo das décadas essa inferiorização de sua cor. O racismo é algo criado por uns e aprendido por outros e essa aprendizagem independe da sua cor. Então Jonas, consegue agora enchergar a dificuldade de uma adolescente negra em se sentir bonita, quando ela não consegue encontrar nenhuma referência de beleza relacionada a sua cor de pele?

    • eu daqui Postado em 16/Sep/2014 às 08:55

      O racismo data do fim da escravidão? Tem certeza? Eu tenho pra mim uma forte desconfiança acompanhada de nítidos indícios de que racismo data dos primordios da especie.

      • kali Postado em 16/Sep/2014 às 09:20

        Eu me referia ao princípio da construção histórica do racismo NO BRASIL. É claro que bem antes da abolição já existia a discriminação racial, afinal a própria escravidão em nosso país foi fruto de tal discriminação.

      • eu daqui Postado em 16/Sep/2014 às 12:33

        Vc tá certo. A escravidão somente piorou um racismo já antigo sim, é claro.

  7. Pereira Postado em 16/Sep/2014 às 10:12

    Ué ???? mas a Rússia não é uma bela aliada do PT no Brasil ? Agora por que esse xingamento ao camarada Putin ? Ele é "bonzinho" não mata ninguém na Ucrânia como Israel "mata" na faixa de gaza.

  8. Pereira Postado em 16/Sep/2014 às 10:15

    Escravidão ? Muito antes do primeiro português pisar na África, Muçulmanos africanos invadiram e escravizram povos europeus, eles eram brancos.

    • eu daqui Postado em 16/Sep/2014 às 12:34

      Muito antes mesmo disso havia escravidão e racismo.

  9. André Postado em 16/Sep/2014 às 11:11

    VTNC "As cantoras e atrizes pretas ou pardas conseguiram espaço nas publicações pela fama, não pela cor." O queimporta é a cor não o conteúdo??? [email protected]@ de informação! Quantas eram as cantoras ou atrizes "pretas" ([email protected]@, a atriz é preta???? Ou essa é a cor de sua pele, ou alguém é uma cor????) Estou no mundo dos sonhos????? vtnc! Infelizmente não consegui ler o que veio depois... se há a evidência de que isso é uma "provocação" ou uma sátira, uma piada, peço desculpas. Já que as publicações aqui no PP tem sido dignas de trolls ultimamente (como foi no caso da "mulher perfeita") PP tá perdendo meu respeito!

  10. Natália Postado em 16/Sep/2014 às 14:44

    Meu Deus,esse Pereira dever ter 10 anos ou idade equivalente

    • eu daqui Postado em 17/Sep/2014 às 08:33

      E ainda mais retardado do que ele são os que proferem ódio contra ele por causa de simples divergencias inerentes a democracia..........

      • Guilherme Postado em 17/Sep/2014 às 09:30

        Quem tá proferindo ódio aqui é você contra todos que não acham graça no preconceito mascarado com piadinhas inúteis que você e alguns poucos estão fazendo nos comentários. Você pode discordar da notícia, mas quem discorda de você é hostilizado. Não use democracia como argumento se você não compreende nada sobre o assunto.