Redação Pragmatismo
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Eleições 2014 03/Sep/2014 às 15:06
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As eleições na internet, o mito da imparcialidade e a dificuldade de interpretar

Eleições: Metade da internet não quer entender o que lê e acredita que a vida é um grande “cada um por si e Deus por todos”. Já a outra metade...

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Tomar partido não significa apoiar partido. Mas pedir para alguns leitores entenderem isso é tarefa ingrata e hercúlea (Imagem: Pragmatismo Político)

Leonardo Sakamoto

É fácil escrever o que o senso comum deglute com facilidade e que está guardado nos instintos mais animais que não abandonamos nem com milhares de anos de convivência.

Coisas do tipo: “Mata a vadia, mata!”

Difícil mesmo é redigir algo com a certeza absoluta de que apenas uma minoria vai ler até o final, embutindo uma provocação que gere uma reflexão ao final.

Em um assunto considerado polêmico, boa parte das pessoas passa o olho de forma transversal em um texto, capta algumas palavras como “direitos humanos”/ “traficantes”/ “Estado” / “maioridade penal” / “aborto” / “evangélico” / “casamento gay” / “Palmeiras” e sem nenhuma intenção de expor ideias ou debater, pinça um capítulo de sua Cartilha Pessoal de Asneiras e posta como comentário.

É a vitória da limitada experiência individual sobre a necessidade coletiva, da emoção do momento sobre a racionalização necessária para que não nos devoremos a cada instante.

Não existe observador independente e imparcial. Isso até pode e deve ser almejado, mas não será obtido. Quem te falar o contrário, está mentindo.

VEJA TAMBÉM: A culpa por você ser pobre e sem educação é totalmente sua

Você vai influenciar uma realidade e ser influenciado por ela. E vai tomar partido, consciente ou inconscientemente. Se for honesto e/ou corajoso, deixará isso claro ao leitor.

Pois mais vale a transparência de dizer quem você é e o que pensa do que a arrogância de se afirmar acima de qualquer suspeita.

Sei que há colegas de profissão que discordam, que dizem que é necessário garantir a pretensa imparcialidade. É necessário, sim, ouvir todos os lados com honestidade para entender e explicar o assunto, mas a sua tradução já sofrerá influência de quem você é e onde você está – socialmente, profissionalmente, politicamente, culturalmente.

Zerar essa influência só seria possível se nos despíssemos de toda a humanidade. Há quem tente ferozmente e ache bonito. Sinceramente, o resultado fica muito ruim.

Tomar posição se reflete na escolha da pauta que você vai fazer, sob a ótica de quem.

Concordo com Robert Fisk, o lendário correspondente para o Oriente Médio do jornal inglês Independent, que diz que em situações de confronto, de limite, deve-se tomar opção pelos mais fracos, ou seja, os empobrecidos e marginalizados, no que se refere à realidade política, econômica, social, cultural e ambiental.

Tomar partido não significa distorcer os fatos, pelo contrário, é trazer o que historicamente é jogado para baixo do tapete, agindo conscientemente no sentido de contrabalançar, junto à opinião pública, o peso dos lados envolvidos na questão.

Distorcer é má fé, preguiça ou incompetência – coisa que muito jornalista que se diz imparcial faz aos montes, aplaudido por quem manda. Aqui ou lá fora.

Toda a informação é grávida. E informação, ela mesma, é canal de alienação, sim. Depende como é selecionada, empacotada e entregue. Mesmo sob o rótulo de “produto 100% imparcial”.

Mais importante: tomar partido não significa apoiar partido. Mas pedir para alguns leitores entenderem isso é tarefa ingrata e hercúlea em meio às matrizes de interpretação da realidade do tipo “vovó viu a uva” que seguem por aí.

Tem muito jornalista à venda. Mas sabe o que assusta muitos leitores (principalmente os comentaristas de blog na internet)? É que existam aqueles que não estão. Neste mundo louco é difícil explicar que ainda há alguns nortes que valem a pena ser seguidos. Não grandes discursos de Verdade, pois isso não existe. Mas noções éticas básicas que, construídas e compartilhadas, melhoram a nossa existência.

Para quem acredita que a vida não é um grande “cada um por si e Deus por todos”, esse chega-pra-lá no cinismo é quase que condição mínima necessária para levantar da cama de manhã.

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Comentários

  1. Rocken Postado em 03/Sep/2014 às 17:18

    a solução para tudo é a extinção do senso comum e da alienação(ou virar judeu) enquanto isso no BR os pastores e padres vão tomando o poder... so pra citar um absurdo, um professor meu PHD com 30 anos estava falando que desistiu do PT e se arrependeu de votar neles, não entendi nada a principio mas tudo ficou explicado quando ele postou vídeo de um padre falando mal do PT somente porque talvez existia a possibilidade remota de aprovar o aborto, e viva a freira banqueira

  2. ademar Postado em 03/Sep/2014 às 17:26

    Muito bom Sakamoto, a imparcialidade é um mito, mas não é um "defeito" , pior é tentar vestir o manto da imparcialidade, isso sim é desonestidade e cinismo. Veja o exemplo nesta sua publicação aqui no Pragmatismo, o site fez uma ilustração para matéria, nas imagens aparecem menções a Globo, famosos jornais nacionais e estrangeiros, sites, redes sociais, mas não há uma referência a sites de esquerda, jornais com ideológicos diferentes, o próprio Pragmatismo poderia estar representado ali, como vemos, imparcialidade é uma utopia. O leitor precisa ter bom senso, auto crítica, usufruir das mais variadas fontes de informação, cultura e conhecimento para tentar preservar o discernimento, ou ao menos sofrer menos impactos.

  3. flw-dilm-vai-tarde Postado em 03/Sep/2014 às 17:53

    Deixa essa imagem associada ao próprio texto, que trata justamente da (im)parcialidade midiática... É equivalente a sentar no próprio rabo enquanto aponta o outro macaco. Pra quem conhece a velha lição da vovó.

  4. poliana Postado em 04/Sep/2014 às 08:27

    Perfeito sakamoto! Seu texto combina muito bem com alguma pessoas q frequentam o pp. Parabéns por mais um texto maravilhoso!

  5. Pedro Costa Postado em 04/Sep/2014 às 09:36

    Ótimo texto, muito bem vindo logo pela manhã!

  6. Elson Postado em 04/Sep/2014 às 11:17

    Alguém aí faz um exercício de como seria um debate patrocinado pelos blogs sujos ou blogs amigos ou blogs governistas (estes aos quais o Lula dá generosas entrevistas) com os presidenciáveis, ou mesmo uma entrevista?

  7. Alexandre Postado em 04/Sep/2014 às 12:33

    raciocinar cansa, mais fácil repetir frases feitas.

  8. Ricardo Postado em 04/Sep/2014 às 10:43

    Concordo. E tomar uma posição do "meio", com argumentos dos dois lados, não é necessariamente "cinismo"... Acho meio ridícula esta afirmação, como se as coisas fossem automaticamente incompatíveis entre si. Acho que quem defende ferozmente uma posição fica até mais cego do que os que são "cínicos"...