Mailson Ramos
Colunista
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Eleições 2014 30/Sep/2014 às 13:03
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Eleições 2014: o discurso da superficialidade

A superficialidade impera na campanha eleitoral de 2014 com o não aprofundamento proposital dos temas de interesse da sociedade. O vazio do discurso conduz os eleitores a uma batalha fictícia entre os candidatos

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No último domingo, os presidenciáveis participaram do debate da TV Record (Divulgação, Fotos Públicas)

Mailson Ramos*

A campanha eleitoral, através do discurso dos candidatos, adquiriu uma característica superficial ou de não aprofundamento proposital dos temas de interesse para a sociedade. Esta prática tem recebido a adesão de todos os partidos, candidatos, gestores de campanha e até mesmo tem encantado a mídia. Em contrapartida, o postulante que deseja aprofundar suas discussões sobre as atuais demandas corre o risco de ser taxado de pedante ou mesmo não atrair a atenção das pessoas.

O vazio do discurso conduz os eleitores a uma batalha fictícia entre os candidatos. A intenção é clara: o embate é tão persuasivo que as discussões sobre os assuntos (saúde, segurança, educação) são marginalizados à importância da guerra entre os partidos ou candidatos. A necessidade de disputa cria uma cortina de fumaça onde os candidatos não são obrigados a apresentar ideias, mas duelar com os olhos voltados ao passado.

Não aprofundar as discussões eleitorais consiste, sobretudo, em desacreditar da capacidade analítica do brasileiro. É achar que se perde tempo quando na verdade o que interessa para o público é a baixaria, o embate, a disputa sem regras. É prometer que é possível acabar com a violência nas ruas das grandes cidades aumentando o número de policiais e não de políticas públicas para crianças e jovens carentes, combate efetivo ao tráfico de drogas. Aliás, as drogas e o tráfico são poucas vezes citados nos discursos dos candidatos ao congresso e até mesmo pelos candidatos ao poder executivo.

Nota-se que os assuntos de maior urgência são esquecidos na campanha e citados, por
escrito, nos documentos de programa de governo. Entre acusações que invadem a propaganda do começo ao fim os candidatos não querem outra coisa senão disputar.

Na televisão é muito mais evidente o comportamento dos candidatos. Superficiais e efêmeros eles economizam tempo (que é raro) e palavras; nos debates, em vez de transmitirem suas propostas, suas ideias, os candidatos são levados ao confronto frontal para agradar o público: o anseio ali se dá por conta das perguntas capciosas, menos desconcertantes do que as réplicas e as tréplicas.

Quando os jornais analisam o vencedor do debate, não escolhem o melhor expositor de ideias, mas o que cedeu aos apelos da disputa. O conteúdo das sabatinas e das entrevistas livres realizadas especialmente pelos grandes jornais do país é colocado à margem das noticias polêmicas do dia. Não ganha espaço. Quando ganha, é pela citação de uma frase ou uma expressão mais incisiva.

Enquanto o eleitor se desgasta defendendo o seu candidato dos ataques adversários; enquanto o outro entra no jogo da disputa desinteressado das necessidades sociais históricas do Brasil, aquilo que realmente interessa permanece no campo das superfluidades.

A prática, nestas eleições, tem alcançado altos níveis de adesão. E raros são os candidatos que se atrevem a debater seus projetos, esmiuçar seus programas de governo, interpelar os outros candidatos em busca da compreensão ou contestação dos programas alheios. Tudo parece ser tão surreal e ao mesmo tempo manipulado que as expectativas por uma eleição clara, racional e discursiva barram na costumeira realidade da política nacional. É nada mais que um desabafo que procura esclarecer as reais atribuições de um período eleitoral.

Não conceder ao eleitor a chance de discutir projetos, de debater as propostas dos candidatos e permitir a ele a ideia de apreciação da disputa vazia é estarrecedor. Não é para outra atribuição que se criou o período eleitoral.

O confronto é inevitável e absolutamente saudável, segundo a concepção ideológica de cada partido, afinal, existe um senso de concorrência pelo cargo a ser ocupado. Mas há diversas formas de se pensar como devem ser confrontadas as candidaturas.

Superficialmente ou com a profundidade dos debates e das ideias? O eleitor deve responder com o instinto democrático elevado aos seus saberes políticos, sua compreensão ideológica e, sobretudo, sua capacidade de mergulhar no ínfimo dos fatos.

*Mailson Ramos é escritor, profissional de Relações Públicas e autor do blog Opinião e Contexto. É o mais novo colunista de Pragmatismo Político e escreverá semanalmente. Contato: [email protected]

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Comentários

  1. Fernando Yanmar Narciso Postado em 30/Sep/2014 às 13:19

    foi oq eu sempre disse, essa é a eleição mais pasteurizada da história recente, parece q os candidatos não trazem sangue nas veias nem carne no pescoço. um bando de eva bytes com uma ou outra exceção

  2. Rafael Postado em 30/Sep/2014 às 13:34

    Piores candidatos da História deste País! O PSDB escolheu mal e o PT só vai ganhar por causa da maquiagem da sua propaganda! Segundo as propagandas do PT, o Brasil é o país que mais cresce no mundo! Não existe problemas econômicos e a tendência é melhorar! Basta votar 13 que tudo vai tá uma maravilha! O resto é resto!

    • Vanderlei Postado em 30/Sep/2014 às 15:19

      Não é o que mais cresce porque tem a China, mas é uns dos que mais cresce. Mas .... da propaganda o que não condiz com a realidade?

      • Terceira Onda Postado em 01/Oct/2014 às 11:02

        Isso que eu acho mais incrível, beleza... que parte da propaganda você não concorda? e aí a gente conversa sobre, mas o cara diz assim... "Aquela propaganda é irreal", qual delas? a parte que não tem São Paulo? hauhauhauhauhau eu moro em São Paulo e sei qual o problema de São Paulo, é que São Paulo não cresce... e ninguém conta pra eles que a culpa é do Governo do Estado e não do Governo Federal ^^ sai de SP e vamos ver os ânimos do eleitor, São Paulo só tem Analfabeto Político ¬¬", eles entram nessa de que o PT quer um Comunismo e a direita é a salvação ^^ acreditam na "Censura" da democratização da Mídia, e que o Bolsa Família é Bolsa Esmola, acreditam que o Mais Médicos é algo bilateral entre Cuba e Brasil e que os Médicos Cubanos são escravos, resumindo... o Povo de São Paulo acredita em toda boçalidade que escuta :P só tem boçal, Sou Comunista... tenho minha visão "Própria" em relação ao comunismo, São Paulo é ignorante da Extrema Esquerda até a Extrema Direita ^^

  3. Roberto Postado em 30/Sep/2014 às 13:48

    Me desculpe, mas não concordo, pois não tem como aprofundar discussão em cenário onde a Dilma é atacada por todos os outros candidatos, sendo que não lhe dão nem direito de resposta. E o pior, é o exíguo tempo de 90 ou 30 segundos para aprofundar propostas. E ainda dão espaço para nanicos insignificantes que tentam de todas as formas aparecer para se tornarem conhecidos... Fala sério ... Isso é piada!!

  4. Onda Vermelha Postado em 30/Sep/2014 às 19:08

    No geral discordo do tom pessimista do articulista! No particular concordo com um ponto ou outro. Quem se deu ao trabalho de assistir aos Programas da Dilma e do PT foi “brindado” não só com uma espécie de "prestação de contas" muito bem produzida destes últimos quatros anos de governo, mas também com propostas desde o primeiro até o último programa. Falo com a autoridade de quem assistiu a absolutamente todos eles. A Dilma propôs estender o Banda Larga Para Todos ao território nacional, com prazos e condições razoáveis, chegando ao “luxo” de indicar qual a velocidade final que se deseja atingir, 25 Mbits! E os demais? O que propuseram? Nada! Pelo menos que eu saiba! Aliás, pelo o que se sabe a Marina foi ao mesmo fórum debater o tema e passou vergonha. Não detalhou o que faria e passou desconhecimento sobre o assunto. Além disso, Dilma buscou ser propositiva em todos os debates! E questionou seus adversários naquilo em que eles apresentavam como maior contradição em cada momento da campanha. Por exemplo, a Marina foi questionada no último debate da Record sobre o seu voto na CPMF, e não ficou bem fita. Ela mentiu e isso acabou repercutindo por todos os portais de notícias! A essa altura muitos eleitores ainda indecisos devem estar se perguntando que “nova política” é essa que mente como qualquer outro político tradicional. Anteriormente, em outro debate, a Dilma a questionou sobre o pré-sal e abriu o primeiro flanco que expôs sua fragilidade e desconhecimento do tema. Reconheço, que o formato dos debates com um número excessivo de participantes e tempo mínimo para resposta, não ajuda ao salutar debate de ideias, mas é também verdade que o nível dos principais oponentes da Dilma, Aécio ou Marina Silva, não é dos melhores, vamos combinar. Que dirá dos nanicos! São sofríveis! Nenhum deles se expõe ao debate e se opõe aos principais programas governamentais (BF, MCMV, Enem, Sisu, Pronatec, Ciências Sem Fronteiras, Mais Médicos, etc.). A tal ponto de que quase todos foram obrigados a vir a público deixar explícito que irão mantê-los, se eleitos. Ou quando os citam para criticar em algum aspecto o fazem com informações que, não raro, falseiam a verdade buscando reforçar o “senso comum” da percepção de certos segmentos sociais mais conservadores. Tão pouco foram capazes de propor algum programa social “novo” que tenha se mostrado factível de forma a ser empregado em larga escala e tragam algum impacto midiático para si mesmos. Entretanto, acredito que a campanha da Dilma cresceu, justamente, quando optou por “politizar” o debate de temas “quentes” como a necessidade de uma Reforma Política com um plebiscito popular ou a criminalização da homofobia. A politização une a militância e os simpatizantes porque passam a defender aquilo em que acreditam. Além disso, todos acabam por se utilizar dos mesmos argumentos e de uma só linguagem coerente que coloca os oponentes numa posição desconfortável porque tira deles a primazia do debate. Em política isso é fundamental, ou seja, conduzir as pautas. E não ser pautado. As propostas de combate à corrupção, por exemplo, vão ao centro da questão do que é já proposto por todos os maiores especialistas no tema, ou seja, propõe “fortalecer as instituições” com uma legislação mais robusta que não dê brechas à impunidade. E assim agindo não deixa qualquer margem aos adversários para caracterizarem o governo como “paralisado” ou “conivente” com a mesma, embora estejamos diante de um “escândalo” que, em outras ocasiões, jogaria o governo “nas cordas”. Acho, inclusive, que essa eleição é mais propositiva do que a de 2010 que ficou tristemente marcada pela “não discussão” do “aborto” e sua (in)adequação, mas somente se um ou outro postulante era contra ou a favor. A Maria Silva pelo menos trouxe para o debate, a contragosto, é verdade, o Pré-sal e o direitos civis dos LGBT’s, tanto que logo voltou atrás quando ficou na defensiva em ambos os casos. Trouxe também a independência do BC que ainda mantém, apesar de não conseguir deixar claro em que isso beneficiaria o cidadão, e de não vencer a desconfiança de que essa proposta, no fundo, interessa mais ao Sistema Financeiro do que a sociedade como um todo. A Dilma "sobra" no pleito deste ano não só porque é mais “preparada” e transmite segurança de ter absoluto controle de todos os números e projetos do governo em sua mente. Ela parece cultivar esse hábito desde os tempos em que era Ministra da Casa Civil, por onde passaram e passam todos esses projetos. Mas também porque ela é, sabidamente, meticulosa e detalhista ao extremo centralizando sobre si na Presidência da República tarefas que outros não se davam ao trabalho de fazer como esmiuçar a legislação que ela sanciona. E isso, frequentemente, a atrapalha porque ela acaba por ser muita prolixa quando o tempo e momento exigiria ser sucinta e ágil nas respostas. Para demonstrar o que falo basta comparar, em regra, o “fraco” e “confuso” desempenho dela em alguns debates e as “sabatinas” promovidas pelos maiores portais da internet(G1-Globo),Ig, Uol-Folha, Estadão) onde ela saiu-se muitíssimo bem, sem consultar qualquer documento, mesmo quando inquirida pelos mais duros jornalistas da mídia brasileira que fazem oposição ao governo, justamente, por não estar tão premida pelo tempo e pela pressão de apresentar respostas curtas. Finalmente, como exemplo da impecável produção de seus programas, vejam o último exibido agora à pouco em http://www.youtube.com/watch?v=E1IBKyotrIY

  5. ricardo Postado em 01/Oct/2014 às 14:14

    Excelente texto.... Acho que impera uma espécie de amadorismo na política... Não bem isso: Falta é administração mesmo. Todo mundo tem um jeito de defender o que foi feito ou que vai fazer, mas se enrola na hora de como vai fazer isto, porque não sabem o que realmente eles vão governar. Poder por poder... E quem deveria saber o que fazer, já que está no poder e tem acesso a TODA informação para administração, maquia também o que foi feito e o que será feito. Pessolamente não acho a Dilma ruim, mas acho que ela negligenciou, não sei bem se por imconpetência ou foi pega de surpresa mesmo, a área econômica. Há um discurso todo em se manter os benefícios, o que com certeza concordo, mas como se não tem dinheiro? Dar um golpe e obrigar todos a se ajudarem?? Utópico... E cuidar da economia serve para agora e, principalmente, para o futuro...

  6. mauricio augusto martins Postado em 01/Oct/2014 às 14:17

    Enquanto existir o pig, que desde 1964 faz campanha Contra o Brasil, a tendência é esta mesmo, as Eleições serem "cartoriais" sem espaço mais à Esquerda, pois LULA esculhambou de uma vez por todas a direitona-furiosa, e os Partidos ditos de "esquerda" entraram no "Canto da Sereia" e ajudaram a fazer uma Eleição "na" e "para" a Petrobras, isto é muito pouco para Discutir o Brasil, mas para a turminha da "petrobrax" tornou-se capital, a obsessão de tentar Matar o "câncer" assassinando o Paciente, colocando em risco mais uma vez como em todos os outros Golpes, a Autodeterminação de nosso POVO, mas enquanto isto: sobre as drogas, no último desgoverno dos tucanalhas a Verba para "combate" e profilaxia ao Uso de drogas eram de R$ 60 mil(sessenta mil reais) no valor da época, Anuais, e se "pregava" somente na propaganda e nada mais, hoje temos a Cidade Terapêutica em SBC, com dotação própria e uma Política Pública para efetivo combate à "Dependência", como nunca se tinha feito no País, estão ainda formando "expertize" para se chegar a um melhor Tratamento, mas isto não sai no pig, nem os esforços do Prefeito Haddad na Cracolândia, temos que procurar, e muito na Internet, e em todas as "campanhas" tucanalhas não tendo NADA a ofertar ao POVO, mas sim aos seus financiadores e mantenedores, aplicam sem parcimônia e pudor O Preconceito, e as Campanhas Passam... mas os coxinhas ficam, enraizando ainda mais "costumes" abolidos desde o Século REtrazado e como REtardados(no sentido atemporal) vão se pegando em fofocas, factóides e "fascistóides", que por incrível que pareça ajudam a "apurrinhar" o andar Normal da carruagem, temos sim que elevar a novos patamares o Debate Eleitoral, já que as Políticas Públicas estão ai e funcionando em conformidade ao momento preciso, basta passar para o Incauto Eleitor, até para que forme sua própria Opinião, a partir das Verdades...maumau