Redação Pragmatismo
Compartilhar
América Latina 15/Aug/2014 às 12:13
20
Comentários

Por que os conservadores têm ódio do Mercosul?

O Mercosul incomoda nossos conservadores. Sempre incomodou. Na época de sua criação, não faltaram críticas e ironias sobre a união “de rotos com esfarrapados”. Querem um Mercosul apenas comercial, que beneficie as grandes empresas, não um Mercosul para todos

mercosul dilma mujica maduro brasil

Marcelo Zero*, Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais

Como de hábito, a recente reunião de cúpula do Mercosul foi recebida com certa indiferença e até hostilidade por nossa mídia tradicional. Não por falta de resultados relevantes e positivos.

No que tange à questão da Palestina, um conflito geopolítico que leva instabilidade não apenas ao Oriente Médio, mas a todo o mundo, o Mercosul apoiou as posições da nossa “diplomacia anã”, pedindo a imediata suspensão do bloqueio que afeta a população de Gaza e uma “investigação de todas as violações do direito internacional humanitário”.

VEJA TAMBÉM: Mercosul condena oficialmente massacre de Israel em Gaza

Tomou-se também decisão de fazer ingressar o mais rapidamente possível a Bolívia como membro pleno do Mercosul. Haverá, é claro, resistências míopes a tal ingresso no Congresso brasileiro, como houve no caso da Venezuela, no qual a oposição brasileira encarou a participação plena daquele país no Mercosul como mera concessão política a Hugo Chávez. Pensamento estratégico não é o forte de alguns parlamentares.

Mais importante ainda foi a “declaração especial”, que manifesta “absoluto rechaço” aos chamados Fundos Abutres e expressa “solidariedade e apoio à República Argentina na busca de uma solução que não comprometa seu desenvolvimento e o bem estar de seu povo”. O Mercosul entende que essa querela jurídica, a submeter um país soberano às decisões monocráticas de um juiz de primeira instância do estado de Nova Iorque, ameaça todo o sistema financeiro internacional e inviabiliza reestruturações de dívidas de outros países. O Brasil demandará, no G-20, a adoção de uma regulação específica sobre dívidas soberanas, que não podem ficar submetidas ao arbítrio instável e mutável de juízes específicos. Certamente, não é uma atitude típica de um “anão diplomático”.

Assim sendo, o tratamento gélido da nossa mídia à Cúpula do Mercosul não pode ser explicado por supostos resultados inexpressivos. Não, não é isso. Trata-se de algo mais profundo e preocupante.

O Mercosul incomoda nossos conservadores. Sempre incomodou. Na época de sua criação, não faltaram críticas e ironias sobre a união “de rotos com esfarrapados”. Não faltaram também advertências sobre a irrelevância de um bloco que estava fadado a ser absorvido pela integração “verdadeiramente relevante”, isto é, a integração à “globalização” e às economias de “real importância e dinamismo”, como a dos EUA e a da União Europeia.

Desde esse ponto de vista conservador, a única coisa que faz sentido no Mercosul é a sua área de livre comércio. Já a união aduaneira, base do mercado comum e da construção de uma “cidadania do bloco”, seria um obstáculo à integração plena dos Estados Partes ao mercado internacional. Querem um Mercosul apenas comercial, que beneficie grandes empresas. Não um Mercosul para todos.

Por isso, na década de 1990, o ministro da Economia argentino Domingo Cavallo veio ao Brasil dizer que a tarifa externa comum (TEC), fundamento da união aduaneira e do mercado comum, era uma “tontería”. Posteriormente, em 2010, o então candidato José Serra (PSDB) manifestou todo o seu desprezo pela “integração cucaracha” e pediu o fim da TEC, pois ela, conforme sua esclarecida visão, impedia participação maior do Brasil nos “fluxos internacionais de comércio”. Agora, o candidato Aécio Neves (PSDB) renova essa tradição mercocética, pró-Alca, e pede, com notável simplicidade e candura, o fim do Mercosul ou o fim de sua união aduaneira, o que vem a ser, na verdade, a mesma coisa.

Bom, essa visão mercocética, tão cara a nossos políticos e ideólogos conservadores, se baseia em argumentos bastante “tontos”, para usar uma apropriada adjetivação “cavalliana”.

Em primeiro lugar, o Mercosul, em sua atual formatação institucional e jurídica, tem um dinamismo extraordinário.

Em 2002, exportávamos somente 4,1 bilhões de dólares para o Mercosul. Em 2011, incluindo a Venezuela no bloco, as nossas exportações saltaram para 32,4 bilhões de dólares. Isso significa um fantástico crescimento de 690%, quase oito vezes mais. Saliente-se que, no mesmo período, o crescimento das exportações mundiais, conforme os dados da Organização Mundial do Comércio, foi de “apenas” 180%. Ou seja, o crescimento das exportações intrabloco foi, no período mencionado, muito superior ao crescimento das exportações mundiais.

Esse notável dinamismo fica mais evidente quando o comparamos ao crescimento de nossas exportações para as economias supostamente mais promissoras, na visão conservadora. No período mencionado, as exportações brasileiras para os EUA aumentaram somente 68%; para a União Europeia, 240%; e, para o Japão, 340%. Por conseguinte, nenhuma economia desenvolvida tradicional chegou perto do dinamismo comercial exibido pelo Mercosul.

Ademais, esse dinamismo do Mercosul tem, para o Brasil, uma vantagem qualitativa e estratégica. É que as exportações brasileiras para o bloco são, em mais de 90%, de produtos industrializados, de alto valor agregado. Em contraste, no que tange às nossas exportações para a União Europeia, a China e os EUA, os percentuais de manufaturados são de 36%, 5% e 50%, respectivamente. Portanto, o Mercosul compensa, em parte, a nossa balança comercial negativa da indústria. Esse fato torna de difícil entendimento a oposição ao Mercosul por parte de políticos de estados industrializados, como Minas e São Paulo.

Outra grande vantagem da nossa relação econômica com o bloco diz respeito ao seu extraordinário superávit. Com efeito, entre 2003 (inclusive) e 2013, acumulamos com esse bloco “irrelevante” quase 72 bilhões de dólares de superávit. Desnecessário dizer que isso foi de vital importância para a superação da nossa histórica vulnerabilidade externa. Se o Brasil atravessa, sem grandes sobressaltos, a pior crise econômica mundial desde 1929, isso se deve, em parte considerável, ao Mercosul.

Quanto ao argumento de que o Mercosul, com sua união aduaneira, impede uma maior participação do Brasil nos “fluxos internacionais de comércio”, basta dar uma simples aferida na comparação do crescimento das nossas exportações, vis a vis o aumento das exportações mundiais. Entre 2003 e 2013, as primeiras cresceram cerca de 300%, ao passo que as segundas limitaram seu aumento a 180%.

E o Brasil viu crescer dessa forma seus fluxos comerciais porque fez, com sua nova política externa, a aposta estratégica correta: deu maior ênfase, em suas relações internacionais, à integração regional e à cooperação Sul-Sul. Com efeito, neste século, as economias emergentes e as dos países em desenvolvimento, em especial a da China, cresceram a um ritmo bem superior ao das economias desenvolvidas tradicionais, e, com isso, geraram maiores oportunidades para o Brasil. O nosso país aproveitou bem e de forma pragmática essas mudanças na geoeconomia mundial.

Persistem, entretanto, as históricas críticas ao Mercosul. Nos dias de hoje, há, porém, agravantes. O primeiro tange ao fato de que as exportações mundiais pararam de crescer a partir do segundo trimestre de 2011, o que vem afetando nosso desempenho exportador. O segundo relaciona-se ao fato de que parte da nossa indústria, sua parte mais internacionalizada, quer celebrar rapidamente acordos de livre comércio com a União Europeia e os EUA, de forma a participar mais das “cadeias produtivas globais”, outra denominação para a antiga “globalização”.

Ora, a celebração desses acordos sem as cautelas necessárias e com a ruptura da união aduaneira seria um grave tiro no pé. Além da gritante assimetria entre os países, tais tratados contêm também outra ameaça: cláusulas relativas à propriedade intelectual, compras governamentais, regime de investimentos e a abertura dos serviços, as quais poderiam comprometer a capacidade do Brasil de implantar políticas de desenvolvimento.

O exemplo do México, país que celebrou mais de 30 acordos de livre comércio, inclusive com os EUA e Canadá (Nafta) e a União Europeia, é ilustrativo. Além do óbvio aumento da dependência mexicana em relação aos EUA, o livre-cambismo quimérico conduziu também a um crescimento econômico bem mais baixo que o do Brasil e a um aumento da pobreza. Nos primeiros 10 anos deste século, o PIB per capita (PPP) do México cresceu apenas 12%, ao passo que o do Brasil cresceu 28%. Hoje em dia, aquele país tem 51% da sua população abaixo da linha da pobreza, enquanto que o Brasil conseguiu reduzir essa porcentagem para 15,9%.

Quem fez a melhor aposta?

De nada adianta querer “participar mais das cadeias produtivas globais” se o fizermos, como faz o México, na condição essencial de supridores de insumos básicos. De nada adianta “subir no trem da História” se o vagão for de segunda classe.

Portanto, a solução para o Mercosul não é menos Mercosul, como querem alguns mercocéticos, mas sim mais Mercosul, com união aduaneira, livre circulação de trabalhadores, instituições supranacionais, o enfrentamento das assimetrias internas e a instituição de uma cidadania comum.

Precisamos, sobretudo, de um Mercosul para todos.

*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais

Recomendados para você

Comentários

  1. Matheus Brito Postado em 15/Aug/2014 às 12:38

    Os conservadores têm medo de tudo. Qualquer coisa os assusta!

  2. J.C Souza Schlesinger Postado em 15/Aug/2014 às 16:57

    Aí concordo que o Mercosul é importante. Transforma o brasil em protagonista em vez de coadjuvante.

  3. Denisbaldo Postado em 15/Aug/2014 às 22:42

    Existem aqueles que o criticam por interesses próprios e aqueles que o criticam por ignorância própria.

  4. Carlos Postado em 15/Aug/2014 às 22:48

    Porque é uma piada, a união dos falidos.

    • Denisbaldo Postado em 16/Aug/2014 às 17:38

      Você deve ser um expert em comércio internacional, acredito. Afinal, uma opinião cheia de argumentos como esta, é realmente uma joia!

      • Carlos Postado em 16/Aug/2014 às 20:41

        Quem diz isso são os especialistas.

      • Denisbaldo Postado em 16/Aug/2014 às 23:10

        Dizem o quê??? Especialistas não usam esses termos pobres, ignorantes. Você não disse nada. Quais especialistas??? Me venha com números, estatísticas. Pare de falar nada. Fale algo. Todos sabem que o Mercosul é um sucesso e foi criado pela direita para seu conhecimento. Papo de coxinha. Vai pra página do Roger opinar.

      • Luiz Postado em 24/Aug/2014 às 11:44

        Se são falidos, porque o ódio!?!? ;-) kkkk Ou seria pelo fato de que a "união dos falidos" poderia impor um nova ordem para as relações internacionais? Talvez como o banco do BRICS...

    • Antonio Palhares Postado em 18/Aug/2014 às 17:33

      Especialista de que cara pálida? Se depender dos "especialistas" da veja, estadão , folha e Miriam Leitão, voce não abre nem um carrinho de pipoca.O mercosul esta dando certo, o BRICS esta dando certo. Estamos provando que há vida inteligente fora dos Estados Unidos e seus saqudosa tecupinchas europeus, com seus FMI e seus BIRD da vida.

  5. Eduardo Benatti Postado em 16/Aug/2014 às 14:42

    Porque é o clubinho dos perdedores. Esquerdistas preferem ver o Brasil como o líder entre os perdedores. Conservadores preferem ver o Brasil como um coadjuvante entre os vencedores.

    • Denisbaldo Postado em 16/Aug/2014 às 17:39

      Para de falar merda! O Mercosul foi fundado pelo Collor e pelo Menen, dois direitista convictos. Sua opinião é daqueles ignorantes derrotistas.

    • eu daqui Postado em 18/Aug/2014 às 10:07

      Masi perdedor é algo como UK que ontem foi dono dos eua e hoje é o jagunço.

  6. Júlia Postado em 16/Aug/2014 às 16:47

    É o velho vira-latismo. Eles são contra o Brasil também, porque não seriam contra o Mercosul?

  7. Marcel Postado em 16/Aug/2014 às 22:02

    Na verdade não funciona. Venezuela no Mercosul? Argentina e suas presepadas. Só defende quem acha bonitinho, de prático não tem nada. É tão livre o comércio que os argentinos sacaneiam e nada ocorre.E moro na fronteira com Argentina e Paraguai, os argentinos faliram sua economia.

    • Denisbaldo Postado em 16/Aug/2014 às 23:15

      Como vocês conseguem falar tanta merda com uma propriedade incomum!!! Vão estudar estes acordos e outros que acontecem no mundo todo antes de darem opiniôes sem sentido. Parem coxinhas derrotistas, o Mercosul é um sucesso e foi criado pela sua direita. Exato, pelos conservadores da América Latina. Só falta vocês falarem que a China é super legal e agora é capitalista.

    • Denisbaldo Postado em 17/Aug/2014 às 15:21

      O Mercosul foi criado em 1991, pelo Collor e pelo Menen, dois liberais conservadores da direita. Já ouviu falar deles???

    • Eduardo Benatti Postado em 18/Aug/2014 às 02:44

      É um sarro. Agora a pouco a Argentina deu uma cutucada no Brasil falando que a crise deles é por causa das más vendas de automóveis no Brasil. Incrível como esses esquerdistas conseguem quebrar QUALQUER país. Os Castro fizeram Cuba parar no tempo, os bolivarianos conseguiram quebrar um país BOIANDO EM PETRÓLEO, os Kirschner já chegaram na fase de censurar tão pesadamente que a nossa ditadura fica parecendo coisa de criança, e por aí vai...

    • Valter Augusto Postado em 25/Aug/2014 às 12:34

      Proto o quê??Vc está exagerando:não temos mais ditadores na A.L.Tínhamos!Vc poderia apresentar fatos-e citar as fontes,por favor-que apoiem suas afirmações?Não há "comércio real" no Mercosul?Por que?Seria ótimo que "especialistas" como vc passassem pelo menos a imitar os verdadeiros especialistas.Se não,pare de falar bobagens.

  8. Marcos Vinicius Postado em 18/Aug/2014 às 13:00

    E ainda tem gente idiota criticando o porto de Mariel em Cuba que nada mais é produto de EMPRÉSTIMO do Brasil para os cubanos. Não foi de mão beijada. Existe a contrapartida de lá ser estratégico para nossos produtos. Muito fácil irem na onde de certos jornalistas metidos a sabedores de vários assuntos.

  9. Valter Augusto Postado em 25/Aug/2014 às 12:29

    Esta é uma afirmação categórica.Uma metáfora besta que não explica coisa alguma."Rabo de baleia","saco de pancadas"?Por que?O que vc está refutando?Baseado em que?Se vc expusesse fatos e fontes nem precisaria usar desses cichês.