Redação Pragmatismo
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Mobilidade Urbana 29/Aug/2014 às 12:21
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Paulista é rico e não transpira

Presidente do sindicato dos taxistas reclama da implantação de ciclovias na cidade de São Paulo: “Paulista é um povo rico. O cara não quer ir trabalhar de bicicleta e chegar suado no escritório”

bicicleta para o trabalho

Leonardo Sakamoto

“Paulista é um povo rico. O cara não quer ir trabalhar de bicicleta e chegar suado no escritório.” Natalício Bezerra, presidente do sindicato dos taxistas, reclamando da implantação de ciclovias no município de São Paulo aos repórteres Artur Rodrigues e César Rosati, da Folha de S.Paulo.

Antes de mais nada, motoristas, acostumem-se a compartilhar ruas e avenidas com bicicletas. Isso não é modismo, isso não é coisa de jovem vagabundo, de ongueiro suicida ou de gente que não entende que São Paulo não é Paris. A realidade mudou. E, atenção, pois isso pode chocar: as pessoas têm direitos, mas bicicletas, motos e carros sozinhos, não.

O mundo está mudando, aos poucos, para garantir esses direitos já previstos. Quer vocês gostem ou não. É inexorável. E a discussão não é se bicicletas terão espaço daqui para frente, mas sim se pessoas que pensam como Natalício terão espaço daqui para frente. Pode não ser hoje ou amanhã, mas esse pensamento irá virar peça de museu.

Dito isso, lembrei-me das incontáveis vezes em que me explicaram as razões pelas quais o “povo paulista” era mais que os naturais de outros Estados do Brasil – conversas que, invariavelmente, terminavam criticando “baianos” (gentílico genérico com a qual alguns paulistas tratam quem vive acima do Trópico de Capricórnio por sua suposta “indolência”).

Como já disse aqui antes, para quem não sabe, incutimos o espírito bandeirante em nossa criançada desde cedo para que ela, quando adulta, saiba colocar os outros exatamente em seu lugar. Hoje, fico matutando se determinismo geográfico era disciplina oferecida na escola ou se era ensinado como conteúdo transversal. O fato é que pais de alguns amigos defendiam sandices sob justificativas que fariam corar o doutor Joseph Goebbels. Em grande parte por ignorância, mas alguns por convicção formada na reflexão. Desses, eu tinha medo.

Agora me diga: qual a chance de uma pessoa condicionada, desde cedo, no “paulistanismo”, o nacionalismo paulista, que funciona como uma espécie de seita radical aos seus adeptos, conseguir enxergar para além de uma divisão territorial e se reconhecer como iguais? Pessoas que ouviram a promessa de que seriam os ricos maquinistas da “locomotiva da nação” ao perceberem que São Paulo é apenas mais um?

Dentre os jovens paulistas que desaguaram nas ruas no ano passado, uma parte deles foi preparada, ao longo do tempo, pela família, escola, igreja e mídia para encararem o mundo sem muita reflexão. Não significa, contudo, que sejam conservadores, mas acreditaram em respostas simples e empacotadas feitas para tudo seguir seu curso. Quando questionados, mostram estar perdidos no vazio. E com raiva, porque – ao que tudo indica – o mundo que lhes foi apresentado não é bem aquele que vão ter que viver.

O desafio é, a partir de agora, construir com eles a narrativa de um mundo realmente mais democrático. Em que cidade seja das pessoas e não de automóveis e na qual todos sejam vistos como iguais.

A bandeira do município de São Paulo traz a expressão em latim “Non Ducor Duco”. Não sou conduzido, conduzo. Uma besteira sem tamanho tão grande quanto a frase destacada no início deste texto.

Pobres holandeses e dinamarqueses, gente subdesenvolvida que acha bonito chegar com axilas de pizza para trabalhar. Paulista, não. Paulista é povo rico. Tem belos fins de tarde alaranjados por conta da poluição do ar e épicos congestionamentos. Passa a vida no carro. E não transpira.

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Comentários

  1. Denisbaldo Postado em 29/Aug/2014 às 12:55

    Não existe nada intransponível e imutável. São Paulo não tem mais espaço para acomodar a todos ao mesmo tempo: carros de passeio, táxis, bicicletas, ônibus e transgêneros outros. Portanto, o transporte mais prático e mais vital à cidade sobreviverá. Carros de passeio e táxis que me perdoem, mas seus dias estão contados aqui. Essa conversinha mole dos taxistas de que paulista é isso ou aquilo não tem a mínima relevância. Na hora H o que interessa mesmo é a eficácia do seu meio de transporte, porque tempo é dinheiro, e ninguém quer perdê-lo parado no trânsito.

  2. poliana Postado em 29/Aug/2014 às 13:17

    ai ai..paulistas e paulistanos hein...sem comentários!!!!!rsrs

  3. José Ferreira Postado em 29/Aug/2014 às 13:30

    Para abrir ciclovias em ruas, é necessário que se crie uma faixa a mais para elas, e não tirar faixas para os outros veículos. Eu trabalho no centro de São Paulo e vejo essas faixas vazias em 95% do tempo. Isso o nosso prefeito não entende. Não é a toa que está no "mesmo naipe" do finado Pitta, o Haddad é o "Pitta Libanês"...

    • Eduardo Postado em 29/Aug/2014 às 13:46

      Isso demanda tempo, não dá para esperar que uma ciclovia nova lote em alguns dias ou semanas ou até meses....é uma mudança de habito gradual, temos que pensar à frente! Sem contar que adicionar uma faixa extra eleva o custo e muitas vezes não há espaço físico para tal. Esse pensamento imediatista não pode ter relevância no cenário atual, carro não é mais um transporte eficaz em grandes cidade.Deve-se sim abrir espaço para transportes alternativos e coletivos, mesmo que custe à redução da mobilidade do carro, mesmo porque se olhar ao redor, além de ver 95% das ciclofaixas vazias, também verá 95% dos carros com apenas um passageiro ou apenas 2.... para o espaço que todos os carros ocupam x número de pessoas que o utilizam, também me parece um grande espaço vazio.

      • José Ferreira Postado em 29/Aug/2014 às 13:49

        Poderiam produzir carros mais baratos com dois lugares. E não construir ciclovias onde não fosse possível aumentar uma faixa para isso. A maioria das pessoas moram muito longe do centro e não podem ir de bicicleta para o trabalho.

      • Luiz Souza Postado em 29/Aug/2014 às 14:45

        A Prefeitura já oferece incentivos fiscais para quem fundar empresas na periferia. Isso, somado ao combate do banditismo empresarial do transporte público resolveria a questão. Luiza Erundina solucionara o problema, mas fora traída pelo jeitinho empresarial brasileiro e municipalização malogrou. Não tenho procuração para defender o corrupto PT, mas os fatos estiveram aí para serem citados. Os ruins também, como, por exemplo, a ajuda constante do Governo Federal às montadoras multinacionais enviarem lucros para seus países de origem. Nós subsidiamos os carros ineficientes e luxuosos do patrão do Norte. Uma vergonha.

    • Luiz Souza Postado em 29/Aug/2014 às 14:38

      Se o senhor não tiver medo de seres humanos e dos dejetos que muitos deles são obrigados a despejar a céu aberto, dê um pulo na cracolândia, ali entre a Glete e a Duque para ver o trabalho de Haddad. Eu não votaria mais nele, mas mudei de ideia ao ver ex-viciados e ainda viciados com moradia e alguma dignidade e sendo tratados com um pouco de respeito pelos trabalhadores da região. Pagar aos decrépitos hotéis para servirem de moradia para os moradores em situação de risco é, digamos, revolucionário. Conversei com uma moça que declarara-se "usuária de drogas". Exultante, disse-me finalmente ter lugar para morar, direito a salão de beleza e médico, condições de cuidar do filho pequeno e, quem diria, poupar parte de uma das famigeradas bolsas do PT. Poupar! Aprendendo a pescar, como diriam os pensadores de direita. Eu imagino como os macarthistas de boteco cuidariam de tão delicada questão: na tranca. Para quem não anda nas ruas, é fácil comparar Pitta e Haddad. Por falar de moradia, notei que os moradores do Projeto Cingapura estão fazendo "das tripas coração" para guardar seus carros. Doutor Paulo Biônico não contou com o Fator Lula. Acho que ele nunca imaginava que favelado teria carro um dia. Se dependesse dele e de sua turminha de 1964...

      • José Ferreira Postado em 30/Aug/2014 às 23:48

        Esses drogados deveriam ir para as clínicas de reabilitação. Usar nossos impostos para pagar hotel para craqueiro sem contrapartida séria (como parar de usar drogas) é jogar dinheiro no lixo.

  4. mauricio augusto martins Postado em 29/Aug/2014 às 13:49

    Para termos a Sampa que todos querem e Precisam, terá que se recuperar muito tempo parado de desmonte da Arquitetura Urbanística em prol do "Shopis Centis" que acredito ser a Morte asfixiante de toda e qualquer Cidade, espaços Públicos abandonados pelo próprio Público, por não ter uma Educação necessária de convívio em Sociedade, da responsabilidade de deixar o local que se encontra do jeito que estava, sem acrescentar um papelzinho de Lixo, ou pichações execráveis e sem nexo, a última pichação aceitável de Sampa e que com ela encerrou-se este papo e deu lugar ao Grafite, foi a "Abaixo a Ditadura" e fim, faltava-nos espaço para falar e dar o recado, este espaço está sendo suprido pela Internet, espaços Urbanos iniciados no Governo Erundina, passando pela Marta, que melhorou ainda mais e agora por Haddad, terrivelmente boicotado pelo pig e a (in)Justiça de SP, continua seu Trabalho a espera de uma melhor oportunidade de expansão aos Bairros e aos mais afastados a integração de uma Enorme Metrópole, estes coisos que tiram o sustento no Transito de Sampa, porém insistem em ser somente "elles" a prioridade, é reduto e resquício de uma velha e obscura "política" herdada como herança mal dita dos tempos idos do Jânio Quadros, onde "investiam" na Fofoca, Factóides e Preconceitos, elementos execráveis e destruidores da Convivência, enfatizando assim o "semióforo", conseguiram implantar um "vírus" no Pensamento Paulistano, onde não conseguem ler e entender Chauí por exemplo, e por outro lado a Satanizam, afastando ainda mais o Caminho da Construção da Dialética e Compartilhamento, resultando na falta de Criatividade ou sofríveis "invenções", a verdade é que temos que conviver com todos estes coxinhas por ora, e muitos continuarão assim até a próxima encarnação, porém podemos abster de seus conceitos e preceitos, e tocar o Barco por cima destes, até que naturalmente apareça o "click" do discernimento, mais espaços Populares, mais Escolas e menos, muito menos igrejas, assim é a Sampa que merecemos, Esquina da Cultura Brasileira e da Solidariedade...maumau

  5. Daniel Postado em 29/Aug/2014 às 20:05

    Me lembrou o argumento de motoristas descontentes com a criação do Código de Trânsito Brasileiro, lá em 1997. Motoristas revoltados com a obrigatoriedade do uso de cintos de segurança, pois o item "amassa a camisa". Pelo jeito a coisa não melhorou muito.

    • Guilherme Postado em 31/Aug/2014 às 09:57

      Bem lembrado... O cúmulo de ser obrigado a respeitar semáforo...