Redação Pragmatismo
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Saúde 15/Aug/2014 às 10:26
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O oncologista que trata o filho com Canabidiol

“Sei que posso ser condenado por três crimes, mas não vou parar”. Pai de um menino de 6 anos, médico oncologista conta como era a vida da criança antes do canabidiol e como está agora

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“Sei que é crime, mas não há lei ou autoridade que vai me impedir de dar CBD ao meu filho”

Depoimento do Oncologista Leandro Ramires, Revista Crescer

O Benício não foi planejado, mas, desde o começo, lutei para ficar ao lado dele. Tenho a guarda, sou pai e mãe. Ele nasceu bem e se desenvolveu normalmente até o quinto mês, quando teve a primeira crise convulsiva, que durou 40 minutos. Levei ao hospital, ele foi examinado e ficou em observação por 12 horas. A princípio, parecia apenas uma reação à vacina tríplice que havia tomado. Só que, dois meses depois, aconteceu de novo. Meu filho entrou em status epileticus (crise convulsiva que não para sozinha) e teve sua primeira internação no CTI. Aí começou a luta.

VEJA TAMBÉM: Entenda por que Maconha é remédio

Desde então, ele passou a ter até nove crises por dia. De madrugada, acordava gritando, com febre. Tenho um diário com tudo o que passamos. Em 2010, aconteceu a segunda internação, por causa de um ataque que comprometeu a respiração. A crise durou tanto tempo que Benício entrou em coma. Após 12 dias em coma profundo, o médico disse que faria um eletroencefalograma para saber se meu filho ainda tinha atividade cerebral. Caso não tivesse, seria considerado morto. Eu cheguei a preparar o documento para doar os órgãos dele e minha família chamou um padre, que deu a extrema unção. Foi um dos momentos mais difíceis da minha vida. Mas o Benício acordou momentos antes de fazer o exame. Minha família acha que teve um dedo de Deus. Eu, como médico, estou acostumado com essas coisas.

Em novembro de 2011, veio o diagnóstico de síndrome de Dravet, uma das doenças que determinam o quadro de epilepsia de difícil controle, e que é causada por uma mutação genética. Estima-se que ela afete uma pessoa em cada 20 mil. O prognóstico da doença é péssimo – não existem adultos vivos com essa síndrome. Quando a crise epilética começa, o corpo inteiro treme e a contração muscular é tão intensa que provoca dor e chega a impedir a respiração. Por causa das convulsões constantes, Benício não conseguia frequentar a escola. Por isso, durante o dia, enquanto eu trabalhava, ele ficava na casa da minha mãe, com uma cuidadora que contratei. Muitas vezes, saí no meio do trabalho para socorrer o meu filho em crise. Ele virou figurinha conhecida nos hospitais de Belo Horizonte (MG). Eu corria com ele para o hospital pelo menos três vezes por semana. O Benício foi internado 48 vezes em seis anos de vida.

Todas essas convulsões deixaram sequelas. O meu filho não fala e o desenvolvimento psicomotor foi extremamente prejudicado. Para ele, cada segundo de vida tem um grande valor. A demora para receber atendimento durante a crise é prejudicial. Tanto nos hospitais públicos como nos privados, o socorro neurológico é muito precário. Então, eu mesmo passei a fazer o atendimento quando ele entrava em crise. Fui muito questionado, mas só fazia quando necessário, em situações de emergência. Tenho todo o equipamento, carrego praticamente um CTI no porta-malas do carro.

Os médicos receitaram diversos medicamentos fortes para a doença de Benício. Mas, mesmo tomando 13 comprimidos por dia, as crises diárias continuavam. Foi então que eu soube que os pais de Anny estavam usando o canabidiol para medicar a filha. Entrei em contato e eles me passaram o caminho das pedras, a estratégia para trazer ao Brasil. Um amigo de infância que trabalha como operador de turismo nos EUA se dispôs a ajudar. É ele que me manda pelo correio. Nós nos comunicamos por e-mail com o código Charlie-Bravo-Delta, típico da linguagem de agências de turismo, para nos referirmos ao CBD sem sermos explícitos. O produto é fabricado na Califórnia e vem em seringa plástica, na forma de pasta.

Eu me baseei em pesquisas americanas para determinar a dosagem, e funcionou muito bem. Com 76 dias de uso, o meu filho está ótimo. Ele começou a entender a função dos objetos e está interagindo melhor com as pessoas. Agora, dorme a noite toda e o bruxismo diminuiu. Ele tenta se comunicar com voz, começou a se vestir com mais independência, atende quando o chamamos e compreende quando tem que esperar. Outro dia, até riu do próprio pum – isso era impensável! Em poucos dias, ele mostrou um desenvolvimento que nunca teve em toda a vida. E, o melhor de tudo, é que as crises, que eram diárias, diminuíram muito: em 76 dias, foram apenas seis, bem leves.

SAIBA MAIS: Menina tratada com maconha caminha pela 1ª vez

No segundo semestre deste ano, ele poderá ir para a escola. Ainda que não aprenda como os outros, o Benício vai conviver com as crianças, será incluído. Ao manter o CBD na lista de proscritos, a Anvisa deu um tiro no pé, não ouviu os pais que passam por esse sofrimento. Os resultados do uso do canabidiol são tão bons que estimulam a desobediência civil. Eu vou desobedecer. Não existe autoridade no Brasil que me impeça de dar CBD ao meu filho. Sei que importando o produto posso ser condenado por três crimes: tráfico internacional de drogas, articulação por tráfico e por dar a substância para o meu filho. Não tenho dúvida dos benefícios do CBD. Se for impedido de fazer isso, eu imigro para o Uruguai.

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Comentários

  1. André Postado em 15/Aug/2014 às 11:02

    Só o futuro dirá o quanto a medicina perdeu em virtude dos anos de hipocrisia com que nossa sociedade trata a maconha e seus derivados.

  2. Carlos machado Postado em 15/Aug/2014 às 11:28

    O orgulho de uma sociedade que não quer admitir que perdeu uma guerra que não deveria nem ter começado prejudica o desenvolvimento de ações que podem melhorar a vida de muitas pessoas.

  3. Daisy Postado em 15/Aug/2014 às 12:08

    Eh este o produto? http://www.amazon.com/s/?ie=UTF8&keywords=cbd+cannabidiol&tag=hydsma-20&index=hpc&hvadid=35482558620&hvpos=1t1&hvexid=&hvnetw=g&hvrand=5043611615259267199&hvpone=&hvptwo=&hvqmt=b&hvdev=m&ref=pd_sl_3ujb9qpubz_b

  4. Flavio Zimmermann Postado em 15/Aug/2014 às 13:11

    lembrou o óleo de lorenzo. parabéns pai!

  5. Luiz Postado em 15/Aug/2014 às 14:00

    Se paramos pra pensar na quantidade de vidas que ja foram perdidas, da quantidade de jovens e adultos que perderam a vida por conta da guerra as drogas, o prejuizo para a sociedade como um todo e a perda em termos cientificos e médicos com a possibilidade de controlar, estudar, reduzir danos e propor tratamentos com todos esses anos de proibicionismo e guerra armada às drogas veremos que essa é a inquisiçao do nosso século...

  6. Luiz Postado em 15/Aug/2014 às 14:06

    Todo mundo fala que a inquisiçao assassinava pessoas que enfrentavam os dogmas da igreja, mesmo apòs os avanços da ciencia que derrubavam o que os religiosos diziam, mas nao percebem que hoje assassinamos uma grande quantidade de pessoas porque eles reagem a um dogma, uma regra infeliz de proibiçao de certas drogas por questoes racistas e de moral, atendendo a toda uma populaçao que tem demanda pelo produto deles. Mesmo apòs os numeros mostrarem o fracasso desse dogma, dessa regra...

  7. Johnathan Postado em 15/Aug/2014 às 16:08

    A maconha tem propriedades medicinais? Sim, é claro, assim como diversas ervas. Mas o que muitos esquecem de mencionar é que, como um composto medicamentoso, assim como qualquer outro, deve ser ministrado em doses controladas e por tempo determinado. O que muitos esquecem de mencionar é que nenhum remédio é receitado na forma de "fumo", pois as sequelas são muitos maiores do que os benefícios. O que muitos ignoram é o impacto que a liberação do cigarro de maconha cria no Estado, criando uma nova população de fumantes, viciados e com problemas de saúde. O que muitos não vêem é que liberar a maconha não acaba com o tráfico, já que a mesma é apenas um dos "produtos" (e nem mesmo é o principal) do traficante. O que muitos ignoram é que para cada pessoa que "fuma só um baseadinho de leve", há tantas outras que não se controlam e usam a maconha como porta de entrada para outros vícios. Ignoram que a "erva natural", uma vez legalizada, vai ser produzida por alguma indústria multinacional, industrializada e vestida de produto capitalista. Deixam de citar que, caso o governo estabeleça um limite de plantas "em casa", esse limite irá certamente ser desobedecido, criando uma espécie de comércio ilegal em pequena escala, onde menores terão acesso facilitado por ter um "brother mais velho que planta em casa".Ignoram que o Brasil deve ser analisado em seu contexto e nas suas particularidades, e que uma comparação com Holanda e Uruguai muitas vezes é completamente incabível e equivocada. E o que muitos ignoram é que, por traz de um simples baseado, escondem-se relações sociais, econômicas e políticas muito mais profundas e complexas, que atingem diretamente todo o status quo do Brasil enquanto sociedade e Estado, relações essas que, na minha humilde opinião, grande parte da galerinha do 4:20 não estão lá muito preocupados em saber.

    • André Postado em 15/Aug/2014 às 16:33

      "O que muitos ignoram..." "o que muitos não vem...." Vem com uma opinião toda prepotente e quer acabar o texto com "na minha humilde opinião". Só a expressão "galerinha do 4:20" já demonstra a forma com que você trata a questão. Ou seja, de forma ideológica, extremamente conservadora e preconceituosa. É incapaz de enxergar que esta questão não deve ser tratada como uma oposição entre bem e mal. Queria saber sobre a sua atuação nos movimentos contra a venda de álcool, pois todos os argumentos que tu arrola podiam ser feitos para este. Por traz de "um simples baseado escondem-se relações sociais.....", isso é dizer o óbvio, por trás de uma coca cola, de um big mac, de um tênis nike, de qualquer produto existem estas relações. Me diga, você usa essa "consciência" quando utiliza estes produtos? Óbvio que não, e sabe pq? Por que é um coxinha que acha que só pq você não usa maconha acha que os outros não devem usar.

      • Johnathan Postado em 15/Aug/2014 às 20:55

        Meu caro André, me desculpe, mas você faz parte de uma categoria que permeia a internet: a que não consegue dialogar uma opinião sem ofender o autor da mesma. Se não tivesse perdido tempo pensando em como me criticar pessoalmente e prestado mais atenção nos meus argumentos, veria que o que eu falei é justamente isso: a legalização da maconha não deve ser resumida em sim e não, bem e mal, mas estudada, analisada antes de qualquer decisão ser feita. Sou de pleno acordo com o uso da mesma na medicina, de forma controlada e que traga apenas benefícios aos usuários. Infelizmente no Brasil não se há uma discussão séria, pois o que mais se vê é um monte de ofensas jogadas aleatoriamente (como você fez ao me chamar de coxinha). Para sua informação, sou professor, graduado e pós graduado em História. Estudo academicamente e vivo a sociedade dia a dia, seja nas ruas, ou na sala de aula. Sou de esquerda. Eu não optei por não fumar maconha por ser "coxinha" ou conservador, aliás, quem comete o preconceito aqui é justamente você, me colocando rótulos sem nem mesmo me conhecer, apenas pelo fato que dei a minha sim, humilde e pessoal opinião, onde ainda tive a esperança de ser debatido de forma coerente e principalmente, adulta. Você me pergunta do meu engajamento em movimentos contra o álcool. Devolvo-lhe a pergunta: e você? No que é engajado? Se alguém fuma maconha perde o direito de ser contra alcoolismo, não comer nada industrializado. Me perdoe, mas seu argumento sim, ao meu ver soou como ideológico e demagogo. E falar o óbvio, que existem essas relações em tudo, qual o problema? Quantas vezes essas relações tão "óbvias" não são ignoradas? Por mim, cada um faz o que quer da vida, fuma, bebe ou qualquer outra coisa. Aprenda a respeitar não só a opinião alheia, mas também o outro, não ofenda quem não conhece. Aprenda que discussão não é ofensa. E a expressão da "galerinha 4:20", faço referência também a alguns dos meus queridos alunos, que graças a diversos debates em sala, vêm estudando e criando argumentações e embasamentos sólidos para a defesa da legalização. E me orgulho deles. Porque hoje o Brasil se diz"politizado", mas o que sempre vejo é um monte de estereótipos e xingamentos, onde o argumento se perde no simples "quem tem razão sou eu". Eu me dei a liberdade de dar minha opinião, baseada em análises e estudos diários. Então vamos continuar o debate, mas abaixe suas armas e ofensas, pois isso, pelo menos ao meu ver, não é uma guerra.

      • Johnathan Postado em 15/Aug/2014 às 21:05

        Ah, e esqueci de mencionar nos comentários anteriores: Parabéns à iniciativa do oncologista!

      • André Postado em 16/Aug/2014 às 11:45

        Veja bem, só depois de destilar sua "opinião humilde" você decidiu parabenizar a atitude do pai. Se você é graduado e pós graduado grande merda, eu também sou e não acho que isso seja sinal de inteligência. Como historiador, deveria observar que suas opiniões estão recheadas de senso comum, mais do que isto, as teses que defendes são as mesmas que sustentam o proibicionismo há décadas. O que fiz aqui foi rebater seus comentários evidenciando a carga de preconceito que eles carregam. Se não gosta de ter sua opinião contestada, não deveria publicar aqui. Em nenhum momento você ponderou questões negativas e positivas em seu comentário. O que fez foi apenas apontar argumentos de um dos lados, e a maioria deles feita com base em achismos, como a ideia de que a legalização só traria prejuízos. Isso é futurologia e, como historiador, deverias saber que o futuro não pode ser previsto. O que um historiador, ou qualquer cientista social minimamente informado deveria saber é que o proibicionismo atual deu errado, mata inocentes, e cria uma situação de guerra constante, sobretudo nos locais mais pobres.

      • André Postado em 16/Aug/2014 às 11:57

        "Para sua informação, sou professor, graduado e pós graduado em História." Sabe o que esse tipo de colocação me lembra? O famoso "sabe com quem você está falando?". Me desculpe, mas isso é atitude de coxinha. Agora, você se intitular de esquerda definitivamente não me surpreende, haja vista o atual estado da dita esquerda no Brasil. Lamentável, pra dizer o mínimo.

      • André Postado em 16/Aug/2014 às 12:28

        "Ignoram que a "erva natural", uma vez legalizada, vai ser produzida por alguma indústria multinacional, industrializada e vestida de produto capitalista." Outro argumento falacioso baseado em achismos. Basta que o estado regulamente as formas de produção e venda que isso não acontece. Como um acadêmico que és, peço que envie a referência de onde tiraste esta conclusão...

      • Johnathan Postado em 16/Aug/2014 às 13:32

        Ok André! Parabéns! Não vou alimentar sua briguinha! O que eu falar aqui você distorce para defender o seu ponto de vista e me ofender! Boa sorte com sua postura ofensiva e violenta!

      • André Postado em 16/Aug/2014 às 15:02

        Não vai nem me passar as referências?

      • Ernani Postado em 21/Aug/2014 às 16:38

        Mandou bem, André.

  8. Marco Aurélio Postado em 15/Aug/2014 às 19:14

    Faço minhas as palavras do André, e acrescento: Jonathan, você não sabe nada.Não adianta, quando o assunto é maconha, sempre há moralistas de plantão dispostos a argumentar sem conhecimento de causa. Jonathan, você sabe o que são whisky, vodka? São as drogas mais poderosas deste planeta, livremente acessíveis a crianças e adolescentes em muitos lares pelo mundo afora. Me poupe...

  9. Johnathan Postado em 15/Aug/2014 às 21:14

    Marco Aurelio, você deve saber de tudo né? Onde mesmo você leu que defendo bebidas alcoólicas? Onde mesmo você viu moralismo? Sou contra o uso indiscriminado da maconha. Indiscriminado, Entende essa palavra? E o post não é sobre maconha? Porque eu tenho que necessáriamente estender o assunto para outros males? Isso se chama foco, meu caro. Se formos discutir cada mazela que aflige nossa sociedade, ficaríamos meses aqui. Sério, eu desisto. No Brasil, pelo menos na internet, é crime ter opinião formada. Fiquem você, o André e tantos outros aí nos seus tronos de sabedoria, com as suas visões parciais e distorcidas onde o único objetivo de vocês é cometer o mesmo moralismo e preconceitos dos quais me acusam. Pois de tanto moralismo,quem rotula e discrimina é você, pelo simples fato de termos opiniões divergentes.

  10. Janis Joplin Postado em 18/Aug/2014 às 23:21

    Gostei de ler a argumentação dos dois. É bom ler argumentos - ainda que um pouco bizarros de ambas as partes - serem colocados sobre o assunto. Sabem por quê? Porque estudei a minha vida inteira e hoje com 53 anos de idade estou pensando em fumar maconha pra curar minha loucura. Afinal, contribuo muito com a indústria farmacêutica e penso em virar maconheira, mendiga e usuária de drogas pesadas, como heroína e LSD. Adoooooooroooo ler essas discussões, pois, me tornei tão idiota que só consigo tomar decisões por meio de leituras assim. Niezstche, Foucault, Habbermas, Deleuze...não servem pra nada... vocês dois aí me divertiram e me deram a direção certa.... bjus lindossssss