Redação Pragmatismo
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Racismo não 29/Aug/2014 às 18:50
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O racismo nosso de cada dia

O mito da democracia racial no Brasil. Enquanto os efeitos colaterais do racismo institucional aumentam, práticas que transgridem leis e violam direitos humanos parecem não causar indignação

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Casos de racismo se sucedem no Brasil (Foto: Pragmatismo Político)

É falso afirmar que o Brasil não é um país racista. Viver nesta afirmação não se trata somente de “tapar o Sol com a peneira”, mas de continuar permitindo um quadro social que favorece uma população de elite e branca, ou, pelo menos, de pessoas que se identificam com isso.

Não é necessário nem citar dados para concluir que o racismo está estampado em nossa bandeira: basta ver a situação dos negros a revelar que o racismo é institucional e estruturante da nossa sociedade. A partir disso, não podemos usar uma pontualidade como fato principal. Apesar de gravíssima, a atitude da torcedora do Grêmio, que foi flagrada pelas câmeras de tevê chamando o jogador Aranha, goleiro do Santos, de macaco, que deve ser responsabilizada, nada mais é do que um efeito colateral.

Negros são maioria no país e, em disparada, a maior população carcerária. São vítimas de um genocídio perene e banalizado. Vivem em favelas e periferias em condições subumanas. O acesso ao serviço público é ruim. Diariamente, são agredidos pelo Estado de farda e por uma mídia fascista.

VEJA TAMBÉM: The Guardian fala sobre o racismo no Brasil da Copa

Negros e negras sofrem com ataques racistas há gerações. Já passou do momento de acontecer, no mínimo, uma reparação integral. A estigmatização é uma arma muito poderosa, pois fortalece o preconceito, baixa a auto-estima de um povo e minimiza os efeitos de uma diáspora.

O racismo é uma prática institucional exposta nesta pátria amada. A primeira cena que presenciei foi ainda muito cedo, acredito que tinha por volta de 12 anos. Eu, meu irmão e um amigo. Saímos de casa com trajes para uma partida de futebol na quadra de uma escola. Para chegar até lá, tínhamos de ir até a outra ponta da favela. No meio do caminho, nos deparamos com quatro policias que apontavam suas armas em direção a cada beco e viela.

Quando eles nos viram, falaram baixinho para pararmos. Assutados, congelamos. Um policial pediu para meu irmão e eu, que temos o tom de pele mais claro, sairmos e seguraram nosso amigo, que foi agredido física e verbalmente.

Esse tipo de prática seletiva acontece todos os dias dentro das favelas, e o País segue na farsa do “ninguém sabe, ninguém viu”. Mesmo com casos explícitos que tomam o cenário nacional, como Cláudia Ferreira, mulher negra, pobre e moradora do subúrbio do Rio, que depois de baleada, foi arrastada por uma viatura da Policia Militar, num ano de Copa do Mundo, momento em que o País é vitrine e as forças amardas mandam um recado para a população negra e pobre. Cena que remete à captura de um escravo por capitães do mato.

Enquanto os efeitos colaterais do racismos institucional aumentam, práticas que transgridem leis e violam direitos humanos parecem não causar indignação e colocam em questão a atuação da justiça quando se trata de negro e pobre. Racistas não prendem racistas a não ser para salvar o próprio racismo.

Joseh Silva, CartaCapital

Comentários

  1. Jonas Schlesinger Postado em 29/Aug/2014 às 22:37

    Desmilitarização da polícia já! E não se pode generalizar os mais claros ao chamar de racistas. Quanto a população carcerária como havia dito no artigo anterior, se for infrator tem que estar na cadeia. Infelizmente a maioria carcerária é negra, mas são infratores e devem pagar pelos crimes que cometeram. Ser preso por ser bandido, não por ser negro. Flws.

    • eu daqui Postado em 01/Sep/2014 às 08:40

      E ser acusado por ser criminoso, não por ser branco.

  2. Luiz Souza Postado em 29/Aug/2014 às 22:57

    Sugestão, estigmatização, preconceito, violência, doenças, drogas, racismo, remuneração inferior para o mesmo trabalho dos outros, são os pilares dum sistema perverso que alija a maioria negra das oportunidades. Aí vem sem-vergonha falar em "meritocracia". Como disse o guru dos concursos: "Não se deve exigir heroísmo de cada negro deste país." Chega de culto às histórias de superação da Rede Globo! Chega de palhaçada! Queremos dinheiro, poder e tudo o que outras etnias querem.

    • Guilhermo Postado em 30/Aug/2014 às 00:24

      Luiz, apenas pense isso. Pedro e João são muito pobres e vivem à margem da sociedade em uma favela. Pedro é branco enquanto João é negro. Por causa das cotas, por exemplo, apenas João seria beneficiado pelo sistema, enquanto Pedro continuaria na miséria. Então nesse caso, para "subir na vida" apenas Pedro precisaria do mérito enquanto João não? O racismo é injusto sim mas um governo que se baseia em cor e não em classe social para beneficiar o povo também está sendo injusto.

      • Luiz Souza Postado em 30/Aug/2014 às 01:50

        Guilhermo, no sistema atual Pedro e João continuariam na miséria para que o Maurício, morador de duplex, habitué da Disney, com curso de línguas, babá, professor particular, bem nutrido, saudável e que pode pagar por um ensino de qualidade seja beneficiado pelo sistema. Maurício é filho do deputado Bernardo, neto do médico Pedro e bisneto de João, um senhor de engenho cujo pai, Sebastião, fora sesmeiro. Logo, Maurício nascera beneficiado pelo sistema e assim continuaria, por vir de uma linhagem secular detentora de privilégios. Segundo a opinião de muitos, Maurício teria o falacioso mérito; Pedro e João, não. Pelo sistema atual, os dois favelados estariam condenados ao subemprego e ao crime, principalmente João, concorda? Com cotas, ao menos um escaparia. Se mandássemos Maurício catar coquinho em Harvard, poderíamos salvar os dois. A questão é: vamos permitir a perpetuação das grandes injustiças para evitar pequenas injustiças? Não faremos reforma agrária porque um ou outro membro do MST supostamente vendeu sua terra e voltou ao movimento? As cotas seriam inválidas porque brancos de olhos azuis estão burlando o esquema? Ouço muito essas coisas e não vejo sentido algum nelas.

      • Thiago Lopes Postado em 30/Aug/2014 às 14:15

        Guilhermo, se Pedro e Luiz, ambos pobres, fizerem uma entrevista de emprego, sendo João negro, quem vc acha que vai ser chamado, tendo em vista o Brasil tal como é?

      • Aquiles Postado em 30/Aug/2014 às 16:00

        Guilhermo ambos seriam beneficiados pelo sistema de cotas atual.

      • poliana Postado em 31/Aug/2014 às 17:10

        perfeito thiago lopes!

  3. Thiago Teixeira Postado em 30/Aug/2014 às 10:34

    O racismo só vai diminuir se nós NEGROS valorizarmos a nossa raça e abraçarmos a causa. Políticos, Juristas, Chefes de polícia e redação das grandes mídias são brancos. As leis desse país foram escritas por brancos, então esqueça que haverá melhora do outro lado. Fotos como essas da menininha negra esfregando a bunda no branquinho e com sorrisinho de que tá gosto é muito simbólico. Enquanto o negro continuar a aceitando que o branco são seres superiores, esqueça.

    • eu daqui Postado em 01/Sep/2014 às 08:43

      Finalmente alguém que também acha que afoto do casal interracial em nada favorece o combate ao racismo. Embora seja eu plemente a favor da livre escolha, principalmente na questão amor/sexo, mas ainda assim, no lugar da moça negra, eu certamente estaria me fotografando com um namorado da mesma cor.

      • Fabiano Postado em 01/Sep/2014 às 19:52

        Por que vocês dois "eu daqui" e "Thiago Teixeira" não trocam esses discursos fajutos pela palavra segregação ? É muito mais simples do que ficar com esse show todo. Falem de uma vez: sou a favor da segregação racial nos relacionamentos, pois isso sim combate o racismo. Por favor né, é cada uma.....

      • Thiago Teixeira Postado em 01/Sep/2014 às 20:23

        A segregação já existe por parte da raça ariana. Há negros que decidem andar com brancos, ouvir músicas de brancos, frequentar locais de brancos para se sentirem brancos e arrumar um parceiro branco. Só um detalhe, sou negro e nunca fiquei com uma negra, todas as minhas namoradas eram brancas, não porque eu escolhi a cor, foi química mesmo, pois as negras que conheci tinha nojo de homens da mesma raça. Agora, se você não acredita que existem negros (as) racista ... paciência.

    • Fabiano Postado em 01/Sep/2014 às 22:36

      Existe sim negros racistas, isso não há dúvida. Porém, isso não significa que uma segregação seria o meio para diminuir o racismo. Isso não tem coerência nenhuma. Imagina se instala-se esse pensamento de negros só ficarem com negros e brancos com brancos. Apartheid ? Nossa, realmente, não se misturar para preservar a pureza de raças. Isso é um discurso ultrapassado e muito utilizado por racistas, alias. Você namorar com brancas, tornou você menos politizado quanto a consciência de ser negro ? Creio que não. Partindo desse pressuposto, não há lógica nesse pensamento, pois independente se um negro vai namorar ou não com um branco, a bagagem que esse indivíduo traz e a sua consciência é quem dirá como ela irá se portar. Enfim, ridículo esse discursinho segregador, e com um fundo racista enorme que nada difere dos discursos dos brancos racistas que tanto julgamos.

  4. Guilhermo Postado em 30/Aug/2014 às 14:21

    Luiz Sousa, concordo sim com você. Maurício, sem dúvida nenhuma, seria o que teria mais chances na vida. Só que eu penso que tanto João quanto Pedro, independente da raça, deveriam ter a chance de igual competição pois ambos são pobres e sofrem preconceito por isso. Talvez eu esteja errado, Luiz, mas penso que o maior preconceito no Brasil não está relacionado à cor da pele e sim à condição social. Até mais

    • bruno Postado em 01/Sep/2014 às 14:15

      a unica coisa que voces esta deixando passar desapercebido é que sendo os dois estudantes de escolas públicas, ambos seriam beneficiados pelo sistemas de cotas do brasil.

  5. Jonas Schlesinger Postado em 30/Aug/2014 às 18:29

    É estranho quando vc chega para os cantos e as pessoas ficam olhando para vc. Eu me incomoda quando isso acontece comigo. Contudo o OLHAR das pessoas vem acompanhado com um sorriso escancarado de orelha a orelha. Quando vou a uma loja ou quando vou ao supermercado os sorrisos se cruzam. É bom toda essa bajulação? É, eu não tenho culpa de ter uma boa aparência por andar bem vestido. Só espero que essa bajulação toda tbm sirva para o negro e morador de periferia.

    • Fabiano Postado em 30/Aug/2014 às 20:41

      Foi sincera a última frase? Se for, sinto-lhe informar, mas não, jamais será assim para um negro, quem dirá negro morador de periferia.

      • Jonas Schlesinger Postado em 30/Aug/2014 às 21:32

        Fabiano o que vc disse foi racismo puro.

      • eu daqui Postado em 01/Sep/2014 às 08:46

        Eu atendo o público por profissão e não bajulo NINGUÉM. E isso inclui meus superiores hierárquicos. Sou paga para atender dentro dos limites legais e não para fingir que gosto deste ou daquele.

      • Luiz Souza Postado em 02/Sep/2014 às 22:53

        Se amor branco resolvesse, o problema do racismo estaria eliminado. As brancas oferecem-no aos pretos o tempo todo. Não é amor, mas, o respeito à individualidade alheia, o respeito às leis e à vida que acabará com o racismo.

  6. Fabiano Postado em 30/Aug/2014 às 22:03

    Caro Jonas, desculpe se para ti é forte saber que negros de periferia não são bem tratados em lojas e em qualquer ambiente, alias. Que bom seria se fosse diferente, mas a realidade é que não é assim.

  7. Jonas Schlesinger Postado em 31/Aug/2014 às 01:40

    Percebo que os homens afro recebem mais preconceitos raciais do que a mulher. Afinal um policial não é bruto com uma mulher como viria a ser com um homem. Mas tbm o preconceito com o habitante da periferia é culpa dos governos não importa quem seja o governante da cidade A ou B. Fazendo com que uma cidade se divida em duas. Eu por exemplo nunca fui à periferia e não pretendo ir tão cedo. Mesmo tendo muitos cidadãos por lá, os criminosos imperam e sujam essa parte da cidade. Sem uma política pra erradicar a criminalidade e para aumentar o desenvolvimento... continuaremos com esse preconceito contra os periféricos.

    • Fabiano Postado em 31/Aug/2014 às 16:49

      Talvez, se há uma concentração importante de criminosos oriundos da periferia, isso se deve sobretudo por causa da desigualdade que impera em nossa sociedade. Certamente, a desigualdade é fator determinantes nesses casos. Porém, não é justificável a discriminação de negros e pessoas humildes, em função desse fato. Isso tem um nome, e se chama preconceito. Um negro que sofre discriminação, poderia dizer que todos os brancos são racistas - visto que majoritariamente as agressões são oriundas de brancos - mas isso não é algo que ocorre, e se fosse verdade, estaria sendo uma generalização burra tal qual a generalização de que todo negro pobre vai roubar alguém. Isso sim, chama-se racismo puro, caro Jonas.

  8. Jonas Schlesinger Postado em 31/Aug/2014 às 01:46

    Falei merda. Só pra corrigir: * continuará com esse preconceito contra os periféricos... (foi mal)