Redação Pragmatismo
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História 19/Aug/2014 às 15:16
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O piquenique que ajudou a derrubar o muro de Berlim, 25 anos atrás

Conheça seis fatos sobre o piquenique que, 25 anos atrás, ajudou a derrubar o Muro de Berlim e foi responsável pela fuga de mais de 600 alemães orientais

queda muro de berlim

Rafael Targino, Opera Mundi

Muito se diz que a queda do Muro de Berlim é o principal fato que levou ao fim do bloco comunista do leste da Europa. Porém, poucos lembram que, em 19 de agosto de 1989, um piquenique entre Áustria e Hungria – com cerveja, vinho e goulash – foi o que abriu o caminho para o final do “Muro da Vergonha”.

Conheça seis fatos sobre o “Piquenique Pan-Europeu”, primeira fuga em massa (patrocinada, de certa forma, por húngaros e austríacos) de alemães orientais para fora da Cortina de Ferro:

1. Sem dinheiro, Hungria resolveu abrir a fronteira

A Hungria entrou o ano de 1989 com um governo reformista recém-empossado e disposto a testar os limites do então líder soviético, Mikhail Gorbachev: até que ponto a nova doutrina não intervencionista da União Soviética chegaria?

Em junho de 1989, os húngaros decidiram cortar as grades da fronteira que os separavam da Áustria, literalmente abrindo um buraco na Cortina de Ferro. Munidos de alicates, os então ministros de Relações Exteriores Gyula Horn (Hungria) e Alois Mock (Áustria) cortaram, simbolicamente, o aço da barreira.

queda muro de berlim
Horn (esq.) e Mock cortam pedaços da barreira de aço que dividia Áustria e Hungria

Mas, mais do que propriamente um “teste” para Gorbachev, o corte do alambrado aconteceu por motivos mais “pragmáticos”: trocar e manter a grade era muito caro. Assim, os 246 km de aço foram sendo, aos poucos, desmontados (e, inclusive, distribuídos a quem se interessasse).

2. Havia a impressão de que “algo ia acontecer”

Se para os alemães orientais uma viagem de férias para a Alemanha Ocidental era um sonho distante e até perigoso ( o pedido de autorização levantava suspeitas da Stasi, a polícia secreta do leste), ir para outros países do bloco comunista não era tão complicado. A Hungria, por isso, era um dos principais destinos no verão.

Em 1989, porém, muitos alemães orientais simplesmente não voltaram para casa. Cientes da abertura da fronteira, eles foram ficando, mesmo com os vistos vencidos. Com a divulgação (feita pelo próprio governo húngaro, com panfletos em alemão e magiar) do piquenique, e sabendo que seria possível atravessar a fronteira a pé, muitos viram a oportunidade de fugir para o outro lado da Cortina de Ferro.

Não há um cálculo oficial, mas o governo estimava em “dezenas de milhares” o número de pessoas na Hungria “esperando” que “algo” acontecesse. Muitos deles entraram na embaixada da Alemanha Ocidental em Budapeste pedindo refúgio.

3. Ida para a Áustria, sem volta

A ideia do piquenique era encampada pelo dirigente comunista húngaro Imre Poszgay e pelo presidente da União Pan-Europeia, Otto von Habsburg (herdeiro da dinastia dos Habsburgos). A ideia dos dois era “celebrar” o fim da fronteira de aço e, eventualmente, deixar que, quem quisesse, pudesse “conhecer melhor” (sem a necessidade de voltar, claro) o lado austríaco. E, por sua vez, a Alemanha Ocidental tinha total conhecimento dos planos.

O piquenique estava marcado para as 15h, exatamente no portão que marcava a fronteira entre os dois países.

Por pouco, no entanto, o plano não dá errado: três minutos antes, a multidão de alemães orientais que estava no local forçou a entrada e conseguiu passar. Os guardas do local, orientados a reagir bovinamente diante do fato, deixaram as pessoas passarem. De acordo com o Movimento Pan-Europeu, 661 alemães foram para a Áustria nas três horas em que os portões ficaram abertos.

Nos dias seguintes, porém, quem tentou atravessar entrou em confronto com os guardas de fronteira, o que provocou a morte de um alemão. A passagem entre os dois países só foi liberada novamente em setembro de 1989, permitindo a fuga de mais 50 mil pessoas.

4. Trabants de um lado, câmeras do outro

Do lado austríaco da fronteira, havia um batalhão de repórteres e fotógrafos cobrindo o piquenique, bastante cientes do potencial de uma fuga em massa. O repórter do até hoje principal telejornal da Alemanha, o Tagesschau, era um dos que estava na Áustria esperando as pessoas chegarem, como mostra o vídeo abaixo (em alemão).


Tagesschau 19.08.89 P1/2 – MyVideo Österreich

Uma das cenas que marcou o piquenique foi a fila de Trabants estacionados na rodovia que terminava na fronteira. O Trabant, carinhosamente apelidado de “Trabi” pelos alemães orientais, era o único modelo disponível para compra no lado leste da Alemanha. Conhecido pela total falta de confiabilidade e por um motor de dois tempos que não permitia velocidades muito elevadas, ele foi usado por famílias inteiras na ida para a Hungria. Quando a fronteira se abriu, os carros foram abandonados na rodovia e viraram um símbolo do evento.

A partir do minuto 9’35: pessoas abandonam Trabants no meio da rodovia:

5. Polônia e o Muro de Berlim

No mesmo dia 19 de agosto, outro fato prenunciava que o bloco comunista começaria a se desmontar: na Polônia, o reformista Tadeusz Mazowiecki havia sido nomeado primeiro-ministro pelo presidente Wojciech Jaruzelski e se tornava o primeiro não comunista a assumir o cargo desde 1947.

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Kohl (de casaco preto, ao microfone) na reabertura do Portão de Brandemburgo, em Berlim, em dezembro de 1989 (wiki commons)

O então chanceler alemão ocidental, Helmut Kohl, às voltas com as repercussões do piquenique, anunciou que iria à Polônia se encontrar com o novo governo local. A viagem foi, então, marcada para novembro.

Kohl, no entanto, acabou atropelado pelos fatos: no dia 9 de novembro, quando o chanceler participava de um banquete em Varsóvia junto com Mazowiecki, chega a notícia de que a Alemanha Oriental havia decidido liberar a passagem para o lado ocidental, efetivamente acabando com o Muro de Berlim. Percebendo que estava “dançando na festa errada”, Kohl voltou imediatamente para Berlim Ocidental.

Em discurso já na Alemanha, o chanceler afirmou: “A Hungria foi o lugar onde a primeira pedra do Muro de Berlim foi retirada”.

6. Turismo dentário

A pequena cidade húngara de Sopron, de pouco mais de 50 mil habitantes, é a mais próxima da fronteira com a Áustria e ficou célebre por conta do piquenique.

Apesar da história, o principal atrativo turístico de Sopron não é nenhum monumento celebrando o fim da fronteira, mas, sim, os dentistas da cidade. Por causa do preço, o município é constantemente visitado por gente da Europa inteira atrás de tratamentos de canal e implantes dentários.

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Comentários

  1. André Postado em 19/Aug/2014 às 17:37

    Se o regime socialista é tão bom, pq tinha gente fugindo?

    • O esquerdista Postado em 19/Aug/2014 às 22:04

      se o regime capitalista é tão bom, pq existem pessoas com fome, sede e tendo de vender seu proprio corpo para n decair nesta situação? longe de mim achar o comunismo bom(acho que n estamos preparados para tal ideologia) mas o capitalismo n é de longe perfeito, ele é bom em varios aspectos, mas precisa melhorar em outros

      • Jonas Schlesinger Postado em 20/Aug/2014 às 13:53

        O Esquerdista, menos. Quantos países adotam hoje o capitalismo e quantos o socialismo? Sabe como ficou Berlim depois da queda do muro? Muitos bairros que ficaram na parte oriental ficou pobre. Socialismo empobrece o Estado, não se iluda.

      • Felipe Peters Berchielli Postado em 20/Aug/2014 às 16:05

        Jonas pelo que sei existe um punhado de paises ainda que são socialistas,voce cita a Alemanha eu cito a Etiopia,voce cita os EUA eu cito o Haiti,voce cita um rico eu cito 10 pobres,longe disto ser defesa ao comuniso mas o modelo de hoje nações enriquecem ao custo do empobrecimento de outras,acha que os EUA chegou ao patamar que está sem destruir economias?Invadir países?Abocanhar riquezas alheias? Sistema perfeito não existe mas a negação em mudar e procurar aperfeiçoamente vai levar a humanidade a falencia,por isso a esquerda é importante,a esquerda propõe mudanças e se voce acha que esquerda = comunismo então sofre da mesma doença dos vejistas.

      • Jonas Schlesinger Postado em 20/Aug/2014 às 17:21

        Felipe em nenhum momento usei os EUA como referência. Não vou discutir sobre o imperialismo.americano neste post. Só digo que o lado oriental da Alemanha ficou muito pobre e atrasado. E não precisa ser um país imperialista pra ficar desenvolvido. Olha o exemplo dos países nórdicos, Noruega por exemplo. O melhor IDH do mundo e não precisa dominar o mundo. Se você defende o comunismo é problema seu, mas não leva o país ao desenvolvimento.

      • Jonas Schlesinger Postado em 20/Aug/2014 às 17:27

        E estou falando de desenvolvimento. Se vc quer falar sobre riqueza e pobreza vai falar sozinho. Ponha na sua cabeça a China vai se tornar a maior economia, mas ainda está longe de ser desenvolvida.

  2. Jonas Schlesinger Postado em 19/Aug/2014 às 20:58

    Valeu PP por nos contar um pouco da história da Alemanha. Eu vou pesquisar mais sobre isso, interessante. Só que hoje lá é um dos melhores lugares para se fazer turismo. Falo isso por experiência própria quando fui pra Alemanha. Só não gostei muito de Munique não sei porque o hotel onde eu e meus pais ficamos fazia muito barulho kkk talvez por causa que era perto de uma avenida. Gostei mais de ver a catedral mais famosa de lá e tem um castelo que, me fugiu o nome, é um espetáculo tiramos fotos e tudo. Mas enfim sobre o artigo hoje pra mim Berlim não é um lugar que seja um paraíso, como Oslo, mas foi.foda quando fui lá ver esse muro. Ainda tem lugares que ele está intacto. Uma história da Alemanha pra ficar na história kkkk Ps: agora fala da Noruega pô apesar de eu gostar de Portugal tbm e Madeira.