Redação Pragmatismo
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Palestina 11/Aug/2014 às 23:02
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O corajoso texto de uma judia brasileira sobre Israel e Gaza

O belíssimo texto de uma socióloga e judia brasileira que assume a crítica aos crimes historicamente cometidos pelo Estado de Israel contra o povo da Palestina

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Texto publicado em 6 de Agosto. Elena Judensnaider Knijnik, Brasilpost

“Sou judia e Israel não me representa”

Hoje, dia 6 de agosto, um pequeno grupo de judeus foi em frente ao consulado israelense em São Paulo e manifestou seu desgosto com relação às políticas israelenses por meio de cartazes e palavras de ordem.

Àquelas pessoas que pensavam não existirem judeus brasileiros contrários às ações etnocráticas e opressoras perpetradas pelo estado de Israel, este grupo respondeu com firmeza: existimos.

Gritamos em alto e bom som que não aceitamos que Israel promova segregação e massacre em nosso nome – não só o massacre das últimas semanas, cuja comunidade internacional acompanhou com mais atenção, mas o massacre diário sofrido pela sociedade palestina.

Quando o primeiro judeu veio discutir com o grupo (“Vocês não têm vergonha?”), nos lembramos da responsabilidade que temos em lembrar ao mundo de que a vergonha deve vir de quem legitima a opressão. Soubemos que estávamos no caminho certo.

O ato de hoje foi pontual mas, ainda que não represente um grupo grande, homogêneo e consolidado, indica algo muito significativo: vozes de judeus que publicamente criticam Israel.

LEIA MAIS: Texto de antropólogo judeu viraliza na internet

Somos judeus que nunca encontraram o espaço ideal para nos manifestar dentro ou fora da comunidade judaica: dentro, mesmo os mais progressistas resistem em admitir a responsabilidade de Israel no massacre em curso; fora, os discursos não raro desembocam em antissemitismo.

Foi necessário que cada um de nós passasse por processos similares de amadurecimento político e pessoal para que nos sentíssemos compelidos a enfrentar os riscos de sermos vistos como “traidores”, “self-hating jews” ou “apoiadores de terroristas” para expressar nossa indignação.

Desconstrução

Faz parte do amadurecimento perceber com mais clareza a influência que fatores como família, escola e amigos tiveram na nossa formação.

Não há como fugir da pressão que os familiares e os pares exercem sobre nós. Qualquer característica considerada um desvio da normatividade esperada – sexualidade, posição política ou até preferência futebolística – é rapidamente hostilizada.

Até aí, nenhuma novidade.

Dentro da comunidade judaica não é diferente. Mesmo as pessoas judias mais distantes dela já se depararam com o esforço das lideranças judaicas em reproduzir o sionismo seja nas escolas, nos movimentos juvenis, nos clubes, nas sinagogas ou em outros ambientes de socialização.

As fotografias de infância de muitos de nós têm no fundo uma bandeira de Israel – às vezes ao lado de uma bandeira brasileira, mas nem sempre. Aprendemos a brincar de soldados de uma forma menos ingênua do que institucionalizada.

Aprendemos que a trágica história de perseguição contada pelos nossos avós não é um relato só do passado mas também um alerta.

Aprendemos nas aulas de história judaica que o nosso povo não tinha para onde ir e, ao encontrar uma terra deserta e desenvolver tecnologia para trabalhá-la, atraiu a inveja dos vizinhos árabes. Aprendemos que o judaísmo – ou seria o sionismo? – é parte integral da nossa identidade.

Aprendemos a ter medo. Aprendemos a nos orgulhar das conquistas israelenses como se fossem nossas.

Aprendemos que o único lugar seguro no mundo para nós, judeus potencialmente alvos de perseguição, é Israel (ainda que lá seja provavelmente um dos lugares mais perigosos para se estar).

Aprendemos que usufruir daquela terra é direito divino nosso. Aprendemos a considerar os palestinos como inferiores, terroristas e, no limite, selvagens.

Pois bem. Chega uma hora em que, sem grande esforço, as coisas deixam de se encaixar tão perfeitamente.

A situação dos refugiados não bate com o mito sionista da “terra sem povo para povo sem terra”. Os documentos israelenses abertos a público na década de 1980 contam uma história diferente.

A concessão de cidadania israelense a quem nunca esteve lá chama atenção se comparada ao status de refugiado de quem sempre esteve.

A população pobre, desamparada e cercada nos territórios palestinos não parece representar um agente ativo tão significativo nessa dita guerra.

As viagens patrocinadas pela comunidade à Israel não mostram o que há do outro lado do muro. O excesso de propaganda sionista (“hasbará”) começa a incomodar.

Aqueles parentes que defendem, na política brasileira, a direita mais caricata também defendem Israel. Pior: os que defendem a esquerda tradicional brasileira também defendem Israel.

Não é fácil desconstruir algo que diz respeito a quem você é, principalmente quando há tanta pressão para que você continue se identificando com uma relação que, por mais afetiva que pareça, é política: a relação dos judeus do mundo com Israel.

Muitos de nós tiveram problemas familiares sérios a partir da menor demonstração de desalinhamento com as verdades professadas.

Amigos de muitos anos se ofenderam e interromperam a amizade. Algumas relações profissionais foram seriamente abaladas.

Sem falar nas ameaças – das mais sutis às mais diretas. As pessoas que, por entenderem o judaísmo como equivalente ao sionismo e este como equivalente ao apoio incondicional às políticas israelenses se sentem pessoalmente atacadas com críticas políticas.

VEJA TAMBÉM: A filósofa judia que se tornou inimiga número 1 de Israel

É preciso ser ao mesmo tempo compreensivo e intolerante com o que elas pensam e ajudar no processo de questionamento por que passam.

É preciso dizer não à opressão.

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Comentários

  1. Antimatéria Postado em 11/Aug/2014 às 23:28

    https://www.youtube.com/watch?v=vQb5chFPad8 . . . Um vídeo indispensável de ser visto.

  2. Cesar Postado em 11/Aug/2014 às 23:36

    Texto muito bom.

  3. JOSE SOBRAL Postado em 12/Aug/2014 às 00:27

    ' Saudações aos que tem coragem!

  4. Ilson Roberto Postado em 12/Aug/2014 às 00:38

    Elena. Compreendo muito bem sua linha de pensamento. Tenho uma amiga judia e sei com é difícil ser judeu em qualquer parte do mundo, inclusive no Brasil, país que ainda se debate com inúmeras questões de ordens sociais e raciais. Como disse, tive uma amiga de trabalho (Fany), só pelo fato de saberem ser ela judia, isso a tornavam malquista no ambiente de trabalho. Os que a julgavam, não se davam nem o trabalho de tentar conhecê-la, saber da sua índole, conhecê-la intimamente, a primeira coisa que faziam era julgá-la. Nossos julgamento não calcados em ideias próprias, são baseados em pressuposto de terceiros, idéias pré-concebidas, na maioria das vezes, nem sempre verdadeiras. Confundir sionismo com judaísmo, de duas uma: ou é de uma enorme ignorância, ou má fé.

    • eu daqui Postado em 12/Aug/2014 às 09:29

      "Difícil ser judeu em qualquer parte do mundo". Conversa: puro vitimismo. Mais vitimismo coitadista pra justificar nazissionismo, naziisraelismo e outros nazivitimismos. É mais difícil ser mulher e gay em qualquer parte do mundo e nem por isso jamais se justificaria qualquer bombardeio a homens e heteros.

    • Ligia Postado em 13/Aug/2014 às 10:39

      Cara, me desculpe, mas eu acho UM SACO essa conversa de "como é difícil ser judeu em qualquer parte do mundo". Eu acho a coisa mais ridícula do mundo. Vocês sofreram? Sim. Foram perseguidos? Sim. Bem vindos ao clube!! Já ouviu falar no genocídio indígena? Na escravidão negra? "Pobre judeu, branco e sem-terra". Me poupe!

  5. will Postado em 12/Aug/2014 às 09:31

    Porque todo discurso pró-palestinos deixa de lado os foguetes lançados diariamente contra Israel? Porque não se condena os dois lados do conflito? Porque o Brasil condena Israel e se cala para China, Russia e Cuba? Até quando vamos viver entre manipuladores dos fatos?

    • Dandara Vida Postado em 12/Aug/2014 às 10:08

      Pq china Rússia e Cuba não se apropriaram da terra de ninguém, aí vcs perguntam, O que vc faria se seu vizinho jogasse mísseis todos os dias no seu quintal? No que eu pergunto, O que vc faria se fosse obrigado a dar metade da sua terra ao seu vizinho que De repente quisesse tomar toda a sua terra, destruído sua casa e transformado seus filhos e esposa em refugiados? até quando os judeus israelenses se esconderao atrás do holocausto para perpetrar atos de limpeza étnica contra seu vizinho por se sentir no direito de ter uma terra que nunca os pertenceu?

      • Aldo Postado em 12/Aug/2014 às 14:27

        É muita ignorância para uma pessoa só. Todos os comentários dessa matéria são tendenciosos. Não vi ninguém fazer uma citação bíblica a respeito da vontade do Deus da Bíblia, criador do universo, com relação a Israel. Interessante que todo mundo fica no "que sente". Interessante que ninguém está lúcido o suficiente para entender e enxergar que Israel sempre habitou na "palestina", desde as conquistas pelos personagens bíblicos como Daví por exemplo. É impressionante que essas pessoas não são honestas o suficiente para mergulhar em uma pesquisa bíblica e arquiológica para saber a verdade sobre os fatos. Vai lá, se tiver coragem, na bíblia e depois comentem sobre a existência de Israel. Saiba o porque Israel voltou para a sua terra.

      • Antimatéria Postado em 12/Aug/2014 às 16:19

        Aldo, me diz... Se a bíblia dizer que o todo poderoso dá ao judeu o direito de te matar se der na telha dele, você ainda vai continuar acreditando em bíblia e o escambau? Claro, enquanto eles estiverem matando os palestinos porque você vai duvidar das “verdades” da bíblia? Não é sua pele, não é mesmo?.... E pra seu governo, quem disse que os judeus vindo da Europa são descendentes dos Hebreus, quem prova isso? Fato mesmo é que os palestinos são certamente descendestes dos hebreus. O resto é conversa de ignorante, se é que me entende.

  6. J.A.Souza Postado em 13/Aug/2014 às 13:22

    Para começar, é bom relembrar que nem todos os alemães sob o governo de Hitler eram nazistas, havia muitos dissidentes, e assim também, conforme ilustra este bom texto, nem todos( e acredito até que grande parte dos) os israelitas são neonazistas( que é a única classificação possível para os responsáveis pelo que vem acontecendo em Gaza e nos territórios ocupados). Isto posto, é triste relembrar um dos comentários de Einstein quando lhe foi oferecida a presidência do então recem criado estado de Israel: " Não aceito, pois acho que é um erro os judeus se reorganizarem em um estado nacional, sem a simultânea criação de um estado Palestino. Isto pode acabar fazendo com que os israelitas mais fanáticos acabem fazendo aos palestinos o mesmo que os nazistas alemães fizeram ao povo judeiu" (Isto me foi relatado por pessoas que conviveram com Einstein, e estavam presentes quando ele fez estas declarações). Infelizmente,parece que Einstein estava certo! Agora, quanto aos acontecimentos atuais: A Bíblia é um livro que relata uma saga, ou seja, os acontecimentos mais antigos de que se tem notícia, a saga do povo judeu. Como toda saga, seus primórdios apresentam uma mistura de fatos e mitos, lendas e regras de convívio e até de higiene( nos tempos (muito) antigos, o rabino era o sacerdote, o advogado, o psicólogo, o médico, o conselheiro matrimonial, etc... das comunidades judaicas). Por isto, nenhuma saga pode ser interpretada ao pé da letra, como infelizmente muitos fazem hoje em dia, por ignorância, ou por esperteza, para se aproveitar da ignorância dos outros, e faturar um bom dinheiro, e também poder material( antes que pensem que sou agnóstico, esclareço que sou adepto do Cristianismo(que não é uma religião) e também católico, mas, digo tranquilamente: NENHUMA religião tem as mãos limpas neste particular, nem a minha!). Portanto, é preciso ser muito ignorante, ou, em outras palavras ter aquilo que em psicologia Junguiana se chama de cérebro arcaico, para acreditar que exista algo como um "povo de Deus". Aliás, em todas as sagas, inclusive de povos indígenas, aparece este mito recorrente, de que aquele povo é o escolhido pela divindade. Não é a toa que a maioria dos nomes que os indígenas dão a sua tribo significam, na sua liíngua, "seres humanos" ou "entes humanos"(Vale a pena tentar ver o excelente filme, baseado em fatos reais, "Pequeno grande homem", com Dustin Hoffman, sobre a história de um menino branco criado entre os índios Shoshones( e Shoshone significa o que? ente humano!)). Agora, talvez possamos usar o Antigo Testamente para esclarecer um pouco a origem do ódio aos hebreus que parece estar enraizado entre alguns povos da região . Pois ali estão relatados vários massacres de povos "pagãos", e portanto, segundo a ótica de alguns hebreus daquela época, "inferiores", efetuados, segundo o mesmo texto, por ordem de Deus( Deus?!!!!). Não se apagam os efeitos de barbaridades, feitas a milhares de anos atrás, e passadas de geração em geração, através da tradiçao oral e escrita, da noite para o dia. Isto requer muita negociação política racional e equilibrada, um longo trabalho de conscientização de todos os povos envolvidos, aproveitando toda a ajuda proveniente das (muitas) pessoas de boa vontade existentes em todas as populações em questão e também( isto vai ser extremamente difícil....) combater todos os interesses dos abutres( e neste caso, nenhum país tem as mãos limpas também) que enriquecem com o sofrimento e a miséria humana causados por este e por outros conflitos que grassam pelo planeta. Embora grande parte dos governos tenham, na realidade, interesse em manter o povo ignorante( pois assim é muito mais fácil manipula-lo), esta ignorância e o fanatismo religioso de qualquer origem só fazem piorar a situação na Palestina e em outras regiões conflagradas. De novo citando Einstein, só um organismo internacional forte( uma ONU que não seja dominada pelos interesses de grandes potências, talvez?) com poder transnacional reconhecido por todos, pode conduzir uma arbitragem que resulte na melhore solução possível para ambos os lados. No caso do atual conflito, isto passa, sem sombra de dúvida, pela criação de um estado Palestino, e por uma negociação séria sobre a retirada dos colonos israelitas dos territórios palestinos ocupados. J.A. Souza Decano Instituto de Física Universidade Federal Fluminense