Redação Pragmatismo
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Mídia desonesta 29/Aug/2014 às 12:42
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Nove mestres da USP e William Bonner

O dia em que William Bonner traçou o perfil do telespectador do Jornal Nacional para nove pesquisadores da USP: são Homers Simpsons

william bonner homer simpsom
William Bonner já menosprezou a inteligência do seu telespectador: “são Homers Simpsons” (Pragmatismo Político)

Em artigo escrito em 2005, Laurindo Lalo Leal Filho conta um episódio em que professores da USP acompanham a produção do Jornal Nacional. Retomado, a ótica da passagem retratada em detalhes pelo sociólogo e professor de jornalismo da ECA-USP é ainda atual.

Durante uma reunião de pauta, Laurindo revela a escolha superficial de William Bonner para as reportagens que, posteriormente, são transmitidas pelo jornal carro-chefe da Rede Globo. Com ela, o constrangimento é vivido e acompanhado por nove mestres da Universidade.

Como se não bastasse a explícita busca pelo apelo da opinião pública e a dispensa de notícias de impacto social e político, Bonner explicou aos professores e pesquisadores o perfil do telespectador médio do Jornal Nacional: são Homers Simpsons, contou o âncora e editor-chefe.

Por Laurindo Lalo Leal Filho*

Perplexidade no ar. Um grupo de professores da USP está reunido em torno da mesa onde o apresentador de tevê William Bonner realiza a reunião de pauta matutina do Jornal Nacional, na quarta-feira, 23 de novembro.

Alguns custam a acreditar no que vêem e ouvem. A escolha dos principais assuntos a serem transmitidos para milhões de pessoas em todo o Brasil, dali a algumas horas, é feita superficialmente, quase sem discussão.

VEJA TAMBÉM: Postura imperial de William Bonner faz parecer que a Globo não tem mazelas

Os professores estão lá a convite da Rede Globo para conhecer um pouco do funcionamento do Jornal Nacional e algumas das instalações da empresa no Rio de Janeiro. São nove, de diferentes faculdades e foram convidados por terem dado palestras num curso de telejornalismo promovido pela emissora juntamente com a Escola de Comunicações e Artes da USP. Chegaram ao Rio no meio da manhã e do Santos Dumont uma van os levou ao Jardim Botânico.

A conversa com o apresentador, que é também editor-chefe do jornal, começa um pouco antes da reunião de pauta, ainda de pé numa ante-sala bem suprida de doces, salgados, sucos e café. E sua primeira informação viria a se tornar referência para todas as conversas seguintes. Depois de um simpático ‘bom-dia’, Bonner informa sobre uma pesquisa realizada pela Globo que identificou o perfil do telespectador médio do Jornal Nacional. Constatou-se que ele tem muita dificuldade para entender notícias complexas e pouca familiaridade com siglas como BNDES, por exemplo. Na redação, foi apelidado de Homer Simpson. Trata-se do simpático mas obtuso personagem dos Simpsons, uma das séries estadunidenses de maior sucesso na televisão em todo o mundo. Pai da família Simpson, Homer adora ficar no sofá, comendo rosquinhas e bebendo cerveja. É preguiçoso e tem o raciocínio lento.

A explicação inicial seria mais do que necessária. Daí para a frente o nome mais citado pelo editor-chefe do Jornal Nacional é o do senhor Simpson. ‘Essa o Homer não vai entender’, diz Bonner, com convicção, antes de rifar uma reportagem que, segundo ele, o telespectador brasileiro médio não compreenderia.

Mal-estar entre alguns professores. Dada a linha condutora dos trabalhos – atender ao Homer -, passa-se à reunião para discutir a pauta do dia. Na cabeceira, o editor-chefe; nas laterais, alguns jornalistas responsáveis por determinadas editorias e pela produção do jornal; e na tela instalada numa das paredes, imagens das redações de Nova York, Brasília, São Paulo e Belo Horizonte, com os seus representantes. Outras cidades também suprem o JN de notícias (Pequim, Porto Alegre, Roma), mas elas não entram nessa conversa eletrônica. E, num círculo maior, ainda ao redor da mesa, os professores convidados. É a teleconferência diária, acompanhada de perto pelos visitantes.

Todos recebem, por escrito, uma breve descrição dos temas oferecidos pelas ‘praças’ (cidades onde se produzem reportagens para o jornal) que são analisados pelo editor-chefe. Esse resumo é transmitido logo cedo para o Rio e depois, na reunião, cada editor tenta explicar e defender as ofertas, mas eles não vão muito além do que está no papel. Ninguém contraria o chefe.

A primeira reportagem oferecida pela ‘praça’ de Nova York trata da venda de óleo para calefação a baixo custo feita por uma empresa de petróleo da Venezuela para famílias pobres do estado de Massachusetts. O resumo da ‘oferta’ jornalística informa que a empresa venezuelana, ‘que tem 14 mil postos de gasolina nos Estados Unidos, separou 45 milhões de litros de combustível’ para serem ‘vendidos em parcerias com ONGs locais a preços 40% mais baixos do que os praticados no mercado americano’. Uma notícia de impacto social e político.

O editor-chefe do Jornal Nacional apenas pergunta se os jornalistas têm a posição do governo dos Estados Unidos antes de, rapidamente, dizer que considera a notícia imprópria para o jornal. E segue em frente.

Na seqüência, entre uma imitação do presidente Lula e da fala de um argentino, passa a defender com grande empolgação uma matéria oferecida pela ‘praça’ de Belo Horizonte. Em Contagem, um juiz estava determinando a soltura de presos por falta de condições carcerárias. A argumentação do editor-chefe é sobre o perigo de criminosos voltarem às ruas. ‘Esse juiz é um louco’, chega a dizer, indignado. Nenhuma palavra sobre os motivos que levaram o magistrado a tomar essa medida e, muito menos, sobre a situação dos presídios no Brasil. A defesa da matéria é em cima do medo, sentimento que se espalha pelo País e rende preciosos pontos de audiência.

Sobre a greve dos peritos do INSS, que completava um mês – matéria oferecida por São Paulo -, o comentário gira em torno dos prejuízos causados ao órgão. ‘Quantos segurados já poderiam ter voltado ao trabalho e, sem perícia, continuam onerando o INSS’, ouve-se. E sobre os grevistas? Nada.

De Brasília é oferecida uma reportagem sobre ‘a importância do superávit fiscal para reduzir a dívida pública’. Um dos visitantes, o professor Gilson Schwartz, observou como a argumentação da proponente obedecia aos cânones econômicos ortodoxos e ressaltou a falta de visões alternativas no noticiário global.

Encerrada a reunião segue-se um tour pelas áreas técnica e jornalística, com a inevitável parada em torno da bancada onde o editor-chefe senta-se diariamente ao lado da esposa para falar ao Brasil. A visita inclui a passagem diante da tela do computador em que os índices de audiência chegam em tempo real. Líder eterna, a Globo pela manhã é assediada pelo Chaves mexicano, transmitido pelo SBT. Pelo menos é o que dizem os números do Ibope.

E no almoço, antes da sobremesa, chega o espelho do Jornal Nacional daquela noite (no jargão, espelho é a previsão das reportagens a serem transmitidas, relacionadas pela ordem de entrada e com a respectiva duração). Nenhuma grande novidade. A matéria dos presos libertados pelo juiz de Contagem abriria o jornal. E o óleo barato do Chávez venezuelano foi para o limbo.

Diante de saborosas tortas e antes de seguirem para o Projac – o centro de produções de novelas, seriados e programas de auditório da Globo em Jacarepaguá – os professores continuam ouvindo inúmeras referências ao Homer. A mesa é comprida e em torno dela notam-se alguns olhares constrangidos.

*Sociólogo e jornalista, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP.
GGN

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Comentários

  1. KARINA BB Postado em 29/Aug/2014 às 13:15

    Na vdde o bonner tem razao ,pessoas esclarecidas nao se informam pelos telejornais da globo ,isso é fato,a empregada do meu irmao tem tv paga mas ela diz q so assiste a globo,ué ela é hommer simpsom fazer o q !!!!!!

  2. Maurício Ruiz Postado em 29/Aug/2014 às 14:48

    para um churrasqueiro mais ou menos (como sua própria esposa disse), ele até que fez uma comparação inteligente : a maioria da população brasileira é o Homer Simpson.Ainda bem que não existe só a Globo como meio de acesso a informação

  3. Saulo Postado em 29/Aug/2014 às 14:58

    Compartilho da mesma opinião do Bonner.

  4. Luiz Souza Postado em 29/Aug/2014 às 15:06

    Mas aposto que será noticiada a compra de óleo cru que a Venezuela comprou da Argélia... Se quisermos saber sobre África, Cuba e Venezuela... Bem, somos condenados a não saber nada sobre essas plagas, como, por exemplo, o holocausto congolês promovido pelos EUA e Europa. O número de mortos foi igual ao de judeus na II GM, sem contarmos os soldados mirins. Que se f* a África, diria Homer Simpson.

  5. Danila Postado em 29/Aug/2014 às 17:09

    Concordo plenamente com o Naro. Devemos nos informar por várias fontes, inclusive as tendenciosas ou pobres de conteúdo. Isso exercita nosso senso crítico.

  6. Rodrigo Postado em 29/Aug/2014 às 20:10

    A karina discorda, todas as manchetes que passam no pig são mentirosas, melhor ler apenas o que blogueiros petistas vivem postando. Eles são os donos da verdade? E se tiver videos e audios comprovando? Só gritar é tudo pig! As provas irão sumir

    • KARINA BB Postado em 29/Aug/2014 às 20:33

      O garotooooo Rodrigo vc nao leu meu coment !!!!! Eu disse q concordo com o Bonner ,pois quem assiste o JN realmente é um homer sinpsom,eu ñ faço isso q vc disse ,kklkkkkkkkk apenas nao gosto d manipulacao,mas vc deve ser do tipo q votaria no oportunista 171 do luc huck neh,se a globo e a veja mandarem vc vota,tu deve ser do tipo tambem q se emocuiona quando esse nojento usa sem o menor escrupulo os deficientes e os miseraveis pra fazer a galera chorar e aumentar a audiencia dele ,se vc acha q isso e correto qnd o 171 se candidatar (e ele disse q vai) vote nele OK,fica d boa tah amigo

  7. Rodrigo Postado em 30/Aug/2014 às 08:35

    Karina você automaticamente acha que toda pessoa que assiste o noticiário da globo são manipulados e ignorantes, veja como você classifica a empregada do seu irmão, agora responde de onde surgiu essa estória de pig? Essa história que nada da globo presta? Surgiu da sua cabeça ou leu em algum lugar? Quem é a manipulada aqui que só está repetindo o que leu? A globo tem seus interesses, a veja e psdbista, PP, Carta Capital são petistas, agora se você acredita nesse site que são puro ufanismo, que acredita que o governo transformou o Brasil em uma maravilha então é o manipulado aqui, faça um teste, procure aqui no pp uma única reportagem criticando ou apontando alguma irregularidade do governo? Não adianta dizer que o pig faz isso, porque você não acredita de nada que venha de lá. Então quem vai fiscalizar o governo para ti? O pp?

    • KARINA BB Postado em 30/Aug/2014 às 11:55

      Rodrigo,sinceramente é inegavel,a emptegada do meu mano e otima pessoa,mas é sim d um baixo nivel social e cultural e outra coisa vc pis um monte d palavras na minha boca calma po!!!!!!!!! Eu nao penso desse jeito,apenas sempte digo aqui ,gostaria d ser informada e nao manipulada ,procuro ver todas as vertentes d um assunto e dai tiro minhas conclusoes ,vc q quer q tdos pensem como vc,aqui no PP nos temis opinioes divergentes e vivemos em paz,Acho sim q 99,99% da programacao da globosta nao presta pra nada OK,nao sou d nenhum partido,so que qnd vejo q a globosta esta contra eu fico a favor,porque a globosta é pura manipulacao,ahh vota no huck seu idolo e na angelica pra ministra da futilidade e falsidade,hipocrisia,vai assistir caldeirao e faustao OK

  8. Rodrigo Postado em 30/Aug/2014 às 17:20

    Karina você em um comentário confirmou justamente tudo que eu disse que você pensava, acha que nada da globo presta, e você não tira sua opinião , sua opinião é construída, veja globo não presta, sou contra tudo que a globo defende. Isso não é opinião minha cara, é tudo que a esquerda prega e papagaios repetem por ai.

  9. Roberto Pedroso Postado em 31/Aug/2014 às 09:10

    Voltando ao ponto o fato é que o senhor Bonner vai contra todo e qualquer manual do bom jornalismo,quando opta por estabelecer como pauta do telejornal mais assistido do País noticias de interesse do publico e não de interesse publico e ao decidir por não explicar os fatos/noticias julgando que a audiência pouco qualificada não as entenderia ele assume o papel quase que criminoso de compactuar com a ignorância e sabemos muito bem que esta sua decisão é deliberada e obedece a um fim inescrupuloso muito maior.Mas o que esperar de um mero telegênico exímio leitor de teleprompter?Aconselho à aqueles que se interessam em saber de fato o que e´e com se faz jornalismo: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/

  10. Danila Postado em 01/Sep/2014 às 10:19

    Que o Bonner não é modelo de bom jornalista, já está bem claro. O que me intriga é: porque depois de tantos anos resolvem trazer a tona esse assunto?? Só porque ele foi "indelicado" com a Dilma??

  11. rafael Postado em 15/Oct/2014 às 13:15

    Qual é o problema do Bonner falar a verdade? São Homer Simpson mesmo!

  12. KARINA BB Postado em 29/Aug/2014 às 13:50

    Entao naro vc nao entendeu meu coment,eu quis dizer q o bonner ta certo ,pois quem se imforma pelos teljornais da globo é um perfeito idiota mesmo um hommer,so mesmo um completo idiota se guia pelo q diz a globo tendeu!!! Ele quis dizer q manipula mesmo ,logico q ele ta errado,mas esses hommer simpsons tambem nao ajudam ne,na vdde eu concordei com vc kkkkjkkj sem sentir kkk

  13. Clovis Postado em 29/Aug/2014 às 17:04

    Bonner Simpson?!

  14. Peterson Silva Postado em 29/Aug/2014 às 19:14

    Sim, mas a Globo é uma concessão pública. Ela tem um certo DEVER com a promoção do interesse público, e o interesse público é que o público não PERMANEÇA dessa forma. É um desserviço escolher as notícias dessa forma. Deve-se escolher o que é relevante de um modo a levar a informação, tornando fácil o que é difícil de entender para ampliar horizontes - isso é educação. Pode-se dizer que eles não fazem educação, fazem jornalismo, etc - mas, volto a dizer, nesse sentido vamos admitir que estamos dando a eles o poder do canal público para que eles façam dinheiro sem nada em troca. Existe uma responsabilidade aí que não está sendo cumprida.

  15. Gazy Andraus Postado em 23/Feb/2015 às 12:21

    Correto!

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