Redação Pragmatismo
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Europa 23/Aug/2014 às 15:06
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Noruegueses preparam um sistema político a partir do zero

É possível construir um sistema democrático a partir do zero? Em arquipélago acima do Círculo Ártico, noruegueses estão provando que sim

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Aimée Lind Adamiak conhece as regras do arquipélago de Svalbard muito bem. Ela viveu por seis anos em Longyearbyen, capital e principal assentamento das ilhas, com 2.500 pessoas e controlado administrativamente pela Noruega. Ela sabe que, assim que sai da capital, deve levar um rifle Mauser carregado. “Em Svalbard, há mais ursos polares do que humanos, nós precisamos, portanto, estar prontos para nos defendermos, caso necessário”, diz ela.

Lind Adamiak, professora de ciência política e história na escola local e mãe solteira de três filhos, também participa em vários comitês locais do governo. Ao visitar a ilha, recentemente, ela me disse: “Estamos prestes a introduzir uma política democrática similar à do continente”.

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Um governador norueguês administra toda Svalbard. “Temos uma grande vantagem aqui”, disse Lind Adamiak. “Poderíamos juntos começar do zero aqui, mas todos nós temos alguma experiência vinda de um outro lugar. Isto gera um grande equilíbrio.”

Svalbard é um arquipélago internacional constituído por dezenas de ilhas a meio caminho entre a Noruega e o Polo Norte. Em 1920, a Liga das Nações aprovou o Tratado de Svalbard, que garantia à Noruega soberania sobre as várias ilhas, com uma área total de 61 mil quilômetros quadrados. O tratado permitiu que todos os signatários tivessem os mesmos direitos de acesso ao território, que se encontra bem acima do Círculo Ártico.

Desde então, vários países, incluindo a Suécia, a Polônia e a União Soviética (e, mais recentemente, a Federação Russa), estabelecessem assentamentos em Svalbard por razões econômicas e estratégicas. Mas apenas a Noruega foi capaz de desenvolver seus assentamentos para a extração de carvão em vilarejos e cidades modernas e desenvolvidas, com Longyearbyen servindo como capital da ilha central, Advent Fjord, cerca de três horas de voo de Oslo.

Garantia de acesso

Desde que o aeroporto principal de Longyearbyen foi aberto, em 1975, a população da cidade mais setentrional do mundo mudou dramaticamente. ”Antes disso, apenas mineradores e suas famílias viviam aqui”, lembra-se Lind Adamiak. ”Hoje, temos todo tipo de gente por aqui”.

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Longyearbyen, capital do arquipélago: o mundo lá fora nunca está tão distante para pessoas jovens, saudáveis e empreendedoras (Foto: Juan Vidal Diaz)

Na verdade, Svalbard é um dos poucos territórios no mundo todo onde basicamente qualquer pessoa é bem-vinda para se estabelecer. As garantias do Tratado de Svalbard, de acesso livre, sobrepõem-se a qualquer limitação imposta pela legislação de outros países, sejam os estatutos noruegueses ou as leis da União Europeia.

Há ainda dois antigos assentamentos soviéticos em Svalbard, Barentsburg e Pyramiden, que são governados por administradores russos locais. Barentsburg, um povoado de cerca de 500 mineradores e suas famílias, vindos da Ucrânia e da Rússia, ainda está habitado. Pyramiden, por outro lado, foi completamente abandonado em 1998. Dois anos mais tarde, um trágico acidente aéreo na cadeia montanhosa de Operafjellet matou 130 pessoas da comunidade russa local.

A decisão de abandonar o povoado foi feita muito rapidamente, e tudo foi deixado para trás. Graças ao clima gélido do Ártico, um forte agente de conservação, toda a infraestrutura deste antigo povoado-modelo soviético permanece intacta. As casas, solidamente construídas, provavelmente permanecerão ali por mais 500 anos. Os visitantes encontram uma cidade fantasma plenamente equipada, literalmente no fim do mundo. Apenas alguns poucos guardas russos ainda vivem ali, a fim de receber visitantes diurnos de Longyearbyen, distante a 4 horas de barco, mais 50 quilômetros por terra.

Longyearbyen oferece uma experiência bastante diferente. A cidade abriga a universidade mais setentrional do planeta, o Centro Universitário, em Svalbard, instituições culturais como a Galeria Svalbard e o Silo Global de Sementes de Svalbard (que contém “cópias extras” de sementes mantidas em bancos genéticos do mundo todo). Estas instituições atraem pesquisadores, estudantes e suas famílias do mundo todo. Várias linhas aéreas conectam Svalbard com destinos em toda a Europa e levam dezenas de milhares de turistas para a cidade todos os anos. Mais recentemente, o fato de que o arquipélago se transformou em uma zona livre de impostos, com álcool barato, ajudou a transformar a congelante Longyearbyen em um inusitado local para festas.

Primeiras eleições

Ao longo da maior parte do último século, Longyearbyen foi dirigida pelos CEOs da Store Norske, a empresa estatal norueguesa de mineração. Em 2002, as pessoas de Longyearbyen participaram das primeiras eleições livres da ilha. Desde então, a comunidade tem trabalhado passo a passo no sentido de desenvolver uma política que se assemelhe à de um típico município norueguês.

Já que a maior parte das pessoas fica em Svalbard apenas por um período de tempo limitado e há poucos serviços para os idosos, Longyearbyen e Svalbard permanecem lugares reservados para pessoas jovens, saudáveis e empreendedoras. Mas o mundo lá fora nunca está tão distante, como descobri após ouvir uma história de Aimée Lind Adamiak sobre uma de suas vizinhas.

No verão de 2011, Christin Kristoffersen quase perdeu seus dois filhos nos ataques levados a cabo pelo terrorista norueguês Anders Behring Breivik, que matou 77 pessoas em Oslo e Utöya. Os filhos de Christin estavam participando do acampamento juvenil de verão do Partido Trabalhista Norueguês. Ambos foram feridos, mas sobreviveram. Dois meses após os ataques, que são rememorados pela instalação de um monumento local, Christin foi eleita a primeira prefeita mulher de Longyearbyen.

“No que diz respeito à forma como vivemos juntos e tomamos nossas decisões, queremos ser o mais próximo possível de uma sociedade normal, como no continente”, disse Lind Amiak, “mas no que diz respeito à nossa situação bastante única, aqui no fim do mundo, queremos manter este lugar magnífico da forma como é hoje, para nossos filhos”.

Bruno Kaufmann | Zócalo Public Square | Longyearbyen. Tradução Henrique Mendes, Revista Samuel. Texto originalmente publicado em Zócalo Public Square, publicação on-line que busca estimular o sentimento de cidadania e comunidade

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Comentários

  1. Jonas Schlesinger Postado em 22/Aug/2014 às 19:20

    Cara eu tenho orgulho desse país. Noruega é exemplo de civilização, leis mais justas aos cidadãos e a população mais bonita do mundo. Oslo é a capital mais bela do mundo num país com o melhor IDH do mundo. Tenho muito orgulho de ter ascendência e sangue norueguês. E sim tem como começar tudo do zero sabe por quê? Porque pelo menos lá a democracia plena funciona e a corrupção é quase nula. Exemplo pra África que não chega nem perto dos país Nórdicos ou Escandinavos. Exemplo pra América Latina que não é só corrupção, exemplo pros EUA que não precisa ser imperialista pra ser desenvolvido e exemplo pra própria Europa, pois mesmo não fazendo parte da UE sua economia é estável e por isso, consequentemente, não está sob embargo da Rússia.

    • Felipe Peters Berchielli Postado em 27/Aug/2014 às 14:15

      Seu sobrenome parace alemão mas enfim. A Escandinavia é um exemplo para o mundo,um local quase inóspito porém não são as leis que fazem daquela região exemplar,mas a cultura do povo,vai ver que por ser um local inóspito eles sabem que dependem um dos outros e para sobreviver e viver com dignidade precisam juntar forças e não sacanearem uns aos outros.

  2. jogma Postado em 23/Aug/2014 às 21:28

    Olá Jonas Schlesinger,Tive uma experiência com 2 noruegueses em minha casa pelo Couchsurfing. E posso lhe dizer que de todas as nacionalidades que hospedo em minha casa com muito prazer, eles foram sensacionais. Extremamente educados, corteses, organizados e muito amáveis. Creio mesmo que se possa começar do zero, pois lá tem-se uma educação exemplar, cidadãos de bem, e muito éticos. Como em todo Brasil, existem os camelôdromos, perguntei a eles se eles queriam voltar com alguma coisa. Disseram que se entrarem com alguma coisa que não fosse original, seriam multados, o bem apreendido, e fora a vergonha que passariam. Ficamos todos admirados. Com certeza no próximo ano iremos conhecer este país, que parece ser maravilhoso e com pessoas boas também!Creio que educação é tudo, e como consequência estrutura, povo correto.

    • Jonas Schlesinger Postado em 23/Aug/2014 às 23:34

      jogma lá as leis funcionam. Mas da seguinte maneira: o governo faz para o povo e o povo faz para o governo. Eu tenho muito orgulho quando pesquiso e descubro coisas sensacionais não só de lá, mas dos países europeu (principalmente os nórdicos) tipo na Noruega (vi isso aqui no PP) a corrupção é a mais baixa do mundo porque lá tem um departamento somente para casos de corrupção. É como uma CIA, mas que investiga os políticos. Sendo assim eles são quase incorruptos até pelo fato das contas pessoais deles estarem disponiveis pra população e pra mídia ver. Lá é tão limpo que se der cem dólares já é um suborno, lá não pode nem aceitar cafezinho como agrado. E tem muito mais.

      • Jonas Schlesinger Postado em 23/Aug/2014 às 23:48

        Nuss ainda bem que eles não deram problema kkk é claro que são educados, organizados. E não é pq são loiros não (apesar de eu achar as crianças de lá as mais lindas justamente por ser loiras e branquinhas kk), é pq as coisas funcionam. Como já disse o governo oferece vida digna para os habitantes. Tenho muito orgulho de ter ascendência norueguesa (tataravó paterna) e vergonha de não falar norueguês. Mas cresci ouvindo histórias dos nórdicos é uma maravilha. Aposto que vai se admirar com a Aurora boreal se caso tiver a chance de vê-la.

      • Jonas Schlesinger Postado em 23/Aug/2014 às 23:52

        Couchsurfing eu já devo ter ouvido falar, mas vagamente. Não sabia o que era, mas agora que tu falou deve ter sido muito divulgado depois da copa quando a gringalhada veio. Aliás eu acho que é o mesmo sistema que um amigo surfista meu usa pra hospedar uns estrangeiros que vão surfar aqui na praia. Só que loiro palmitado e sol vira um camarão na certa kkk digo isso por experiência própria. Mas eu olhei agora no Google e vi o site, maneiro. Deve ter uma paciencia do caramba pra hospedar esse povo.

    • Vinicius Postado em 25/Aug/2014 às 13:15

      Trabalho em um projeto de pesquisa com alguns noruegueses envolvidos, acabei conhecendo ou convivendo com uma meia dúzia, todos eles muito gente boa, humildes, simpáticos e bem humorados. Conheci pessoas de várias outras nacionalidades também, de países desenvolvidos e em desenvolvimento, mas nenhum chega aos pés dos noruegueses...

  3. Pivao Veio Postado em 23/Aug/2014 às 22:53

    Bicho eu ja fui em Oslo e ela não tá nem entre as 10 capitais mais bonitas da Europa, quiçá do mundo

  4. Jonas Schlesinger Postado em 24/Aug/2014 às 00:14

    E só pra finalizar sou fã de A-ha, nem vou dizer da onde é...

    • nice_the Postado em 24/Aug/2014 às 12:05

      Sempre tive uma imensa admiração pelos países nórdicos. Eu soy Fã do A-ha desde criança! Muito bonito e verdadeiro seu depoimento, seu amor por sua " terra natal". Um dia conhecerei esses lindos países!

  5. Jonas Schlesinger Postado em 24/Aug/2014 às 01:52

    *Só pra finalizar e pegar o beco daqui eu quero dizer que o país que tem esse sistema anticorrupção é a Suecia, mas como Noruega foi colonia então deve ser a mesma coisa. Mas só pelo fato da Noreg reabilitar 80% dos presos, me deixa satisfeito. E cuidado dizem que Oslo a estadia e hospedagem são bem salgadas. Flw, fui.

  6. Leonardo Postado em 25/Aug/2014 às 11:11

    Só queria dizer que concordo com todos os elogios feitos aos escandinavos e as estruturas políticas e legais deles. Mas comparar as nações é algo que deve ser feito com cautela, pois não podemos esquecer do processo de formação das nações latinas. É um caminho muito mais árido a se percorrer por aqui! Mas devemos, é claro, cultuar e buscar os bons exemplos!

  7. Thiago M. Postado em 25/Aug/2014 às 13:26

    Todo mundo endeusa e lambe as bolas das nações escandinavas. O que ninguém lembra é do fato de COMO essas nações chegaram a tal patamar: explorando, colonizando, escravizando e destruindo etnias e nações melhores. O aprofundamento norueguês se deu pela superficialização e sucateamento dos países africanos, por exemplo. São tão cretinos quanto os U$A. Abre o olho, cambada! Como já dizia o velho Nietzsche: A característica mais exaltada de uma nação é o que ela tem de mais detestável.

    • Thiago M. Postado em 25/Aug/2014 às 13:27

      *e destruindo etnias e nações MENORES, errata.*

    • Thiago M. Postado em 25/Aug/2014 às 13:30

      E isso eliminando o fato maior: esses países são ricos por causa do paraíso fiscal que funciona lá. Dinheiro de corrupção, máfia, crime organizado, contrabando, tráfico de armas e drogas, tráfico de mulheres, fraudes, dinheiro público roubado e toda sorte de escrotidão monetária.

      • Felipe Peters Berchielli Postado em 27/Aug/2014 às 14:16

        Acho que tu confunde a Suécia com a Suiça. A Suiça é paraíso fiscal,a Suécia não.

    • David Postado em 25/Aug/2014 às 14:19

      Nos países escandinavos, tudo é tão bom e tão mil maravilhas que chega a ser chato.

    • Felipe Peters Berchielli Postado em 27/Aug/2014 às 14:18

      Até o Brasil ja foi imperialista,diversas nações no passado cometeram equivocos,mas que imperialismo os escandinavos praticam hoje?

  8. Jonas Schlesinger Postado em 25/Aug/2014 às 15:21

    Corrupção? De que planeta esse país é? Noruega, Suecia não é. Só se for aqui no Brasil que é tão comum quanto comprar o pãozinho francês na padaria. Tráfico? Leste Europeu. Resumindo, a Noruega não é imperialista como os EUA, não precisou intervir em outros países e foi COLONIA da Suécia. Se o Brasil e toda a américa latina e africa que também foram colonias e não conseguiram se desenvolver eu sinto muito. Mas falar que as mazelas da Africa é culpa da Noruega é passar atestado de burro.