Redação Pragmatismo
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Palestina 11/Aug/2014 às 17:28
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A história do Hamas e do Islã Político

O que é o Islã político? Quando surgiu? Por quê? É igual em todos os países? Qual é o projeto do Hamas? Confira oito perguntas que ajudam a entender a história do Hamas e do Islã Político

militantes hamas
Militantes do Hamas (Foto: AP_

Santiago Mayor, Notas | Tradução: Anna Beatriz Anjos

1. Quando surge o Islã político?

Em 1928 é fundada a Irmandade Muçulmana no Egito que, com o passar dos anos, foi se expandindo para vários países do mundo árabe. Esta foi a primeira organização moderna a adotar o Islã como base de seu projeto político.

Apesar de sua criação precoce e desenvolvimento teórico ao longo do século XX, durante décadas foi ignorada pelos governos nacionalistas ou pró-ocidentais que dominavam a região. Por conta das perseguições, seu trabalho foi eminentemente social.

A irrupção massiva e expansão do islamismo se deu, então, a partir de 1979, com a chegada da Revolução Iraniana ao governo do país.

2. Quais são seus fundamentos?

O islã político parte da premissa de que os postulados do Islã são aplicáveis a um programa político e integral para a sociedade. Daí resulta a sharia, ou Direito Islâmico.

É necessário esclarecer que não existe uma única forma de interpretar o Corão (livro sagrado dos muçulmanos) e os preceitos do Islã. Isso se reflete, por sua vez, nas distintas organizações que promovem o islamismo.

A sharia não é a mesma no Sudão (onde se pratica a mutilação genital feminina), na Nigéria (onde é permitido apedrejar até a morte uma mulher adúltera) ou no Irã, onde as mulheres podem dirigir e ir para a universidade.

O cientista político francês François Burgat, especialista em Oriente Médio, toca em um ponto básico, mas que carece de explicação: “São as personalidades islâmicas que fazem o islamismo, e não o contrário”. Além disso, afirma que “segundo a natureza do terreno social que atravessa, das forças políticas que dela se apropriam, e das reações dos governos, a corrente islâmica se expressa com multiplicidade de registros e através de modos muito distintos. Nenhum deles pode ser uma chave de leitura única e atemporal”.

Por isso, é incorreto dizer que o Hamas, na Palestina, é o mesmo que o Boko Haram, na Nigéria, ou então a Irmandade Muçulmana, no Egito.

3. Que setores sociais representa o Islã político?

Com a revolução iraniana de 1979 e o primeiro governo islâmico da história, irrompem na política setores sociais que haviam sido relegados àquele rincão do mundo.

O estudioso francês Gilles Keppel aborda essa questão ao defender que “o movimento islâmico é dúbio. Nele, encontramos a juventude urbana pobre, oriunda da explosão demográfica do terceiro mundo, do êxodo rural massivo e que, pela primeira vez na história, tem acesso à alfabetização.” Keppel explica que também o integram “a burguesia e as classes médias piedosas que foram marginalizadas no momento da descolonização, levada a cabo pelos militares e por dinastias fundadas por meio do poder”.

VEJA TAMBÉM: O que Eric Hobsbawm pensava de Gaza?

Isso quer dizer que o islamismo tem um apoio popular significativo, especialmente em sua versão mais radical, e também nacional. Mas não significa necessariamente que incorpore um projeto político ligado às reivindicações populares progressistas ou de esquerda.

4. Por que o islamismo se dividiu em duas correntes majoritárias?

Toda revolução gera uma reação, e o caso do Irã não foi a exceção. A chegada ao poder do Aiatolá Khomeini em 1979 determinou o auge do Islã político e também a sua radicalização, em contraposição aos esforços reformistas da histórica Irmandade Muçulmana.

É assim que aparecem e ganham força, na década de 1980, grupos armados islâmicos, como o Hezbollah, no Líbano, e o Hamas, na Palestina.

Em resposta, a dinastia da Arábia Saudita emerge como foco de contenção à radicalidade desses novos movimentos. O islamismo conservador passou, assim, a ser financiado por um dos países mais ricos do mundo e seus aliados estratégicos.

Para sufocar a tentativa de estender a revolução iraniana ao resto do Oriente Médio, a Arábia Saudita impulsionou sua própria “cruzada”: a guerra do Afeganistão. Milhares de mujahidines foram enviados como combatentes internacionalistas a deter o avanço do comunismo soviético por meio da dinastia de Riad. Dessa situação nasceu a ligação do saudita Osama Bin Laden ao Taliban, que então governava o Afeganistão.

5. Como e por que surge o Hamas?

Neste contexto convulsionado do Oriente Médio, com o Islã político no auge durante a década de 80, surge o Hamas (“Despertar”, em árabe). Embora suas origens estejam ligadas à Irmandade Muçulmana egípcia, devido ao trabalho social que realizava principalmente na Faixa de Gaza, a nova organização expressou e expressa uma das versões do islamismo radical, como consequência da influência da Revolução Iraniana.

hamas gaza eleitores simpatizantes
Simpatizantes e eleitores do Hamas lotam praça na cidade de Gaza (Foto: AFP/2014)

A primeira Intifada (“levantar a cabeça”), que começou em 1987 e durou até os Acordos de Oslo de 1993, foi o contexto no qual emergiu este novo movimento político-militar. Durante estes anos, as populações palestinas de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental se rebelaram contra a ocupação israelense.

6. O Hamas foi impulsionado por Israel?

Poucas mentiras sobre o conflito palestino-israelense foram tão difundidas e aceitas, inclusive em ambientes ocidentais progressistas.

Como citado anteriormente, o Hamas surgiu de organização do trabalho social realizado nas mesquitas palestinas, muito similar ao promovido pela Irmandade Muçulmana no Egito. Durante décadas, Israel permitiu a proliferação do trabalho religioso islâmico por considerá-lo inofensivo e por representar um freio à posição laica, democrática e de libertação nacional da OLP (Organização para a Libertação da Palestina). Aqui nasce o erro e a distorção histórica.

Foi esta construção subterrânea que permitiu ao Hamas desenvolver uma hegemonia muito forte entre a população (fundamentalmente de Gaza). A Revolução Iraniana e a politização massiva do Islã no Oriente Médio catapultaram o trabalho social ao plano político.

7. Quais as diferenças entre o Hamas e a OLP?

Primeiramente, o Hamas é uma organização cujo objetivo é construir um Estado islâmico na região histórica da Palestina, enquanto a Organização para a Libertação da Palestina é laica, e portanto luta por um Estado palestino democrático e similar ao estilo ocidental.

Outro ponto de divergência na década de 90 foi o reconhecimento do Estado de Israel como tal. Após anos de luta, a OLP optou por negociar, e dessa forma se alcançou os Acordos de Oslo, que deram origem à Autoridade Nacional Palestina (ANP), governo do proto-Estado que nunca se constituiu devido às violações por parte de Israel.

O Hamas, por sua vez, nasceu e postula, em sua carta orgânica, a destruição do Estado de Israel. Por isso, rejeitou, no começo, os Acordos de Oslo e a ANP. Esta postura inicial, entretanto, se converteu com o tempo em posições mais realistas.

8. Qual é a política atual do Hamas?

No início, o Hamas adotou um linha de ação radical, que incluía a realização de atentados suicidas entre 1994 e 2004 (desde então não voltou a realizá-los, embora a propaganda israelense os cite sistematicamente). A radicalização, somada à posição mais diplomática da OLP, permitiu ao grupo crescer e se consolidar como uma alternativa diferente ao povo palestino.

No entanto, sua política tem variado. Em 2001, Ahmed Yassin, dirigente máximo da organização, assassinado em 2004 por Israel, afirmou: “Não lutamos contra povos de outras religiões ou judeus pelo fato de serem judeus. Lutamos contra os que ocuparam nossas terras, tomaram nossas propriedades, transformaram em refugiados nossas famílias e massacraram nossos filhos e mulheres”.

Em 2006, o Hamas concorreu pela primeira vez às eleições legislativas para a ANP. Em um dos pleitos mais democráticos da região, saiu vencedor. Mas Israel e Estados Unidos tentaram dividir e deslegitimar o triunfo do grupo islâmico. Com certo consentimento do Fatah (a organização preponderante a OLP), o governo palestino se fragmentou em dois: Hamas em Gaza e OLP na Cisjordânia.

Esta divisão favoreceu e favorece a política israelense de negar a criação de um Estado palestino autônomo e soberano. Porém, no início deste ano, Hamas e OLP haviam firmado acordo para reunificar o governo palestino mediante uma administração de transição, até que se realizassem novas eleições. A decisão palestina provocou a ira do governo de Israel, que poucos meses depois, principiou a ofensiva que perdura até agora.

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Comentários

  1. J.C Souza Schlesinger Postado em 11/Aug/2014 às 18:47

    A notícia começou bem e terminou parcial. Claro que quando uma fera está mansa naquele momento não quer dizer que alguém vá botar a mão achando que ela não morderá. É o que Israel está fazendo ao se omitir essa reunificação do Hamas com o Fatah. E claro que este se torna o preferido de Israel e EUA porque implantaria um estado laico (porta de entrada para o desenvolvimento de um país) e dificilmente adotaria uma política extremista que mais uma vez vemos que, no famigerado continente africano, as coisas são bem influentes. Portanto é de se respeitar que o estado palestino seja criado, porém quebrando as pernas do Hamas ao coibir sua política terrorista de acabar com Israel. Terrorismo deve ser evitado em ambas as partes, não só em uma. O terrorismo é uma praga que mata por prazer e esses lugares do Oriente Médio ainda sofrem muito com isso principalmente naquela terrinha que se chama Norte da África (exceto o Egito) que também sofre mesmo estando em continentes separados. Outra coisa, por falar em Egito queria um artigo falando da trégua e da possível trégua duradoura que o mundo espera, por favor.

    • Antimatéria Postado em 11/Aug/2014 às 19:21

      https://www.youtube.com/watch?v=vQb5chFPad8 ---- (... "A invenção da terra de Israel" ou "quem são os verdadeiros descendentes dos hebreus?"... Com a palavra um historiador israelense polêmico que defende que os judeus modernos não descendem dos hebreus, mas de povos bárbaros que se converteram ao judaísmo na antiguidade assim como os romanos se converteram ao cristianismo... No caso a cultura católica marginalizou esses grupos religiosos e a perseguição sofrida levou a criarem essa mítica de Israel como refúgio... Assistam!)

      • Antimatéria Postado em 11/Aug/2014 às 20:40

        “malditos demônios, queria tirar a pele de vcs vivos, e depois jogar acido, seus podres imundos!!!”... Sabe quem disse isso? Uma brasileira... Sabe contra quem ela disse isso?... Contra chineses que ela viu matarem cachorros a pauladas... Agora imagina se ao invés de ver israelenses matar cachorro ela visse matar os pais dela pra tomar a casa dela; o que acha que essa brasileira e outros iriam querer fazer dos israelenses??? O hamas ia parecer anjinhos perto da gente.

      • J.C Souza Schlesinger Postado em 11/Aug/2014 às 20:53

        É mas Israel não é pessoa, nem um grupo de pessoas. É um governo mandado por um fulano e com as legislações aprovadas por beltranos. Queimar a bandeira, sequestrar civis ou até matar um cachorro do lado inimigo não vai ajudar muito né. Tem que haver negociação, acordo mútuo com tá acontecendo nestes dias pra cá no Egito e o PP sequer fez um artigo sobre o cessar fogo. Sensacionalismo é só mostrar as lamúrias de uma guerra. Certo que foi exorbitante os mortos em Gaza, mas tá na hora de um artigo que fale sobre esse cessar fogo. Agora ou nunca pra chegar um acordo de paz na região. E aí PP vai colocar uma reportagem assim?

  2. J.C Souza Schlesinger Postado em 11/Aug/2014 às 20:24

    Vish Israel é tão terrorista que deixa as redes de televisão do mundo entrarem em suas terras para fazer reportagens. É muito diferente de um país chamado Somália que tinha forte pressão com o jornalista que foi pra lá. Realmente um pedaço de chão pra se viver "bão".

    • Antimatéria Postado em 11/Aug/2014 às 20:53

      E você já reparou como o repórteres autorizados falam. Ele fala assim... “As tropas reagiram a quebra do cessar fogo e contra atacaram”; “um soldado foi “sequestrado”; “os israelenses possuem grande tecnologia, mas as vezes erram o alvo e vitimas civis são afetadas”. “Os terroristas usam táticas de escudos humanos”... Viu, reportagem super honesta (para trouxas).

    • josué Postado em 12/Aug/2014 às 02:12

      cara, na real, israel matou muitos jornalistas nesses recentes ataques, além de civís, homens mulheres e crianças, muitas crianças, bombardeou abrigos da ONU cheios de refugiados, como isso pode não ser terrorismo?

  3. Carlos Postado em 12/Aug/2014 às 01:18

    Existem vídeos e fotos que provam isso, basta pesquisar.