Redação Pragmatismo
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Mulheres violadas 11/Jul/2014 às 11:58
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“Vagão rosa” é solução?

O “vagão rosa” e a herança do campo de concentração: a medida de criar um vagão exclusivo às mulheres não resolve nada e ainda mostra que a política de segregação social reside entre nós

vagao-rosa

Na última semana foi aprovado pela Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) o Projeto de Lei 175/2013, de autoria do deputado Jorge Caruso (PMDB), que cria o “vagão rosa” enquanto medida para combater o assédio sexual que mulheres sofrem no Metrô.

Em seu livro “Homo Sacer”, o filósofo italiano Giorgi Agamben, afirmou que o “campo de concentração é o paradigma da modernidade” e ele tem toda razão. Assim como na primeira metade do século XX existiram políticas segregacionistas entre brancos e negros, este tipo de política retorna agora como medida para solucionar problemas como assédio sexual contra as mulheres e discriminação por orientação sexual.

VEJA TAMBÉM: Praticantes de ‘encoxadas’ se espalham e marcam até rolezinhos

A medida em questão já começa problemática pelo nome: “vagão rosa”, o que remete ao equivocado conceito de “sexo frágil” e a questão da cor rosa como algo feminino, logo machista e sexista. Outra pergunta que surge é: como encaixotar 55% dos usuários do metrô, que são mulheres, em alguns poucos vagões? E aí caímos em outra questão: a precariedade do transporte público no estado de São Paulo e também em outras capitais do Brasil, onde “encoxadores” se aproveitam da situação de um transporte coletivo superlotado para assediar mulheres.

O “vagão rosa” também nos remete à criação de espaço específico às LGBT. Ao invés de trabalharmos para transformar a estrutura da sociedade que é masculina sexista, sectarizamos os corpos estranhos, pois, não devemos esquecer do drama que mulheres e homens transexuais vivem para utilizar o banheiro público e aí alguns grupos sociais defendem a criação de banheiro às pessoas transexuais. Ou seja, ao invés de se buscar a coexistência, opta-se pela política do campo de concentração e de gueto.

Assim como o banheiro às pessoas transexuais e o “vagão rosa” não resolvem nada e só pioram o estado das coisas, outro tipo de política que já existe em alguns países é a criação dos “bairros gays”, com viés mercadológico objetiva-se alojar homens e mulheres homossexuais em algumas ruas demarcadas, como num zoológico de espécie raras humanas… Mas, com este espaço urbano demarcado e nomeado cria-se a legitimação da expulsão destes corpos dissidentes quando ousarem perambular pelas “ruas heterossexuais” ou “dos corpos normais”. Isso mesmo vai acontecer quando uma mulher resolver entrar num vagão misto, certamente vão dizer: “olha lá, está querendo ser encoxada… Vai pro seu vagão!”.

Aceitar a criação do “vagão rosa” é aceitar o fim das políticas de transformação social. Ninguém nega o grave problema social que as mulheres enfrentam no transporte público, mas não será segregando-as que o problema será resolvido. O que necessita ser feito é uma ampla gama de políticas de combate ao assédio sexual em nível nacional. Aceitar o “vagão rosa” é também aceitar que homens e mulheres transexuais devem usar banheiros específicos.

Por fim, e se a moda da política do “vagão rosa” pega, não se iludam, ela vai se espalhar para todas as outras identidades. E aí, podemos ver, ardilosamente, ressurgir as políticas do campo de concentração e de gueto. É a falência social. Já que não conseguimos construir uma sociedade baseada na coexistência, vamos sectarizar os diferentes tipos em determinados espaços e oficializar a política do gueto restringindo o ir e vir. Isso, além de caracterizar a derrota da política, é o fim do espaço público enquanto conhecemos.

Marcelo Hailer, Revista Fórum

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Comentários

  1. Adalberto Postado em 11/Jul/2014 às 12:33

    Eu acredito que não tem nada de segregação social, não estão sendo separadas mulheres de homens, ou elas foram proibidas de utilizar os demais vagões? Pra mim funciona no mesmo princípio que as cotas raciais (não exatamente o mesmo, mas similar), claro que não é a solução, ninguém realmente deve acreditar que é a solução , acho que isso é coisa da cabeça do escritor, mas faz com que as mulheres sofram menos assédio no seu dia-a-dia!

    • Carol Ribeiro Postado em 11/Jul/2014 às 18:45

      Sábias palavras... disse tudo.

    • Bruno Postado em 12/Jul/2014 às 15:18

      Adalberto, pelo seu comentário é possível perceber que o senhor não leu o texto inteiro ou teve uma dada dificuldade para assimilar o conteúdo. Por favor, se for o caso, releia o texto com mais atenção e refaça sua réplica com um pouco mais de tenacidade. Grato! (Apenas alguém que leu o texto independente de ter uma opinião formada.)

  2. Thiago Teixeira Postado em 11/Jul/2014 às 12:39

    Para quem acha que Vagão Rosa é segregação, aberração e blá blá blá, façam o seguinte, peguem o Trem da CPTM na estação da Luz até Francisco Morato em horário de pico e observem como os safados e sem vergonha tratam as moças. Além de viajarem sentados (eles atropelam as mulheres e ganham na força física a poltrona vazia), os marmanjos de pé se aproveitam da situação para praticarem safadeza com as mulheres, estas, sem reação não tem como reagir. Resumindo, só estas mulheres que são molestadas diariamente podem opinar ou criticar a medida, o resto, fica no seu conforto no carro de ar condicionado e cale a boca.

    • Roger Max Postado em 11/Jul/2014 às 13:57

      Thiago, tu leu o texto? Existem esses tipos como você falou acima, mas então vamos colocar as vítimas em uma jaula (ou vagão rosa se preferir) e deixar os criminosos soltos? A solução não é segregar e sim educar.

      • rafael Postado em 11/Jul/2014 às 17:53

        Roger, tem gente que tem preguiça de tira a própria cabeça da própria bunda! Mas deixa, coloca as mulheres num vagão e dane-se! Os governos atuais só querem saber de separar as pessoas! Antes era por cor agora por sexo! Logo mais separam criança dos adultos e estatizar toda esta porcaria!

      • Gabriel Postado em 12/Jul/2014 às 15:52

        Honestamente, quanto tempo tu acha que demora pra educar uma população fortemente machista e que aprende esses comportamentos em casa? Acho que qualquer medida que dê opção de defesa para as classes oprimidas uma boa medida. Não se trata de uma jaula, é só uma opção 'livre de homens' para as mulheres que sofrem com esses abusos. Quanto aos banheiros, acho muito polêmico, mas um 'terceiro sexo' (como são chamados os trans) receber um banheiro só para eles não me deixa abismado. Acho hipocrisia achar natural banheiros separados para homens e mulheres e um absurdo quando alguém se veste como um sexo e nasceu com outro. O ideal, sem dúvida, era que todos fossem educados e que pudessem dividir os banheiros, mas sabemos que homens e mulheres não podem dividir um espaço tão íntimo hoje, pois colocaria, infelizmente, as mulheres em risco. Se for notado que algum grupo sofre riscos reais na atual divisão de banheiros, que se crie um espaço seguro para eles.

    • Carol Ribeiro Postado em 11/Jul/2014 às 18:46

      Disse tudo... Há uma situação agora pra ser resolvida.

    • Milena Postado em 12/Jul/2014 às 13:55

      Thiago, eu pego a linha que vc citou todos os dias e realmente tem todos esses problemas, mas não acho que essa seja a solução. Se eu sofresse qualquer tipo de abuso não ia querer ser separada dos demais passageiros para me sentir ''protegida" e sim que a pessoa que praticou o ato fosse punida. E acho que esse vagão realmente tenta segregar a mulher e como foi dito no texto 55% das pessoas que utilizam o transporte são mulheres e embora as mulheres não sejam impedidas de utilizar os demais vagões, na mente perturbada de pessoas que praticam esse tipo de ato provavelmente irão pensar que as mulheres que utilizam os demais vagões não se importam de serem assediadas, porque afinal de contas ela poderia ter escolhido o vagão rosa.

    • Isadora Postado em 12/Jul/2014 às 17:32

      Thiago, mas então a solução é colocar 55% dos usuarios em um vagão e o resto do trem para os outros 45%? Sou mulher, já peguei essa linha várias vezes e não quero ser enfiada em vagao superlotado (mais do que já é) pq se entrar no vagão misto e for assediada vão me culpar....

    • Karen Postado em 12/Jul/2014 às 22:47

      Desculpa Thiago eu faço uso dos trens da CPTM, além de onibus, e esporadicamente a linha vermelha. Como uma usuária do transporte público me sinto no direito de dizer que se me destratam não sou eu que deve ter o espaço restrito à um vagão e sim aqueles que abusam da situação de superlotação. O vagão rosa não me protege, ele me prende a um único espaço, e caso esteja muito cheio e eu atrasada eu vou pegar o vagão comum, e sabe o que pode acontecer? Eu posso ser encoxada e dizerem que eu esperava por isso pois peguei o comum. EU não aceito tirarem a minha liberdade por conta falta de educação de outros.

  3. André. Postado em 11/Jul/2014 às 12:40

    NÂO!!!! Além de criar um "patamar" segregacionista, vai haver muito imbecil se acreditando (e tendo argumento intimo - estúpido, mas argumento) para atacar qualquer mulher que não esteja no seu próprio vagão! E o que fazer com uma mãe com filho adolescente??? A solução está na educação.

  4. Exukvera Postado em 11/Jul/2014 às 13:10

    Se os vagões não fossem tão lotados para que os donos do metrô lucrassem um pouquinho mais, ficaria mais difícil para um "encoxador" ou "apalpador" ficar tão à vontade, dispensando a necessidade de vagões exclusivos. Isso é "tapar o sol com a peneira", técnica muito usada para resolver problemas no BR.

  5. Felipe P Postado em 11/Jul/2014 às 15:41

    Vejo os vagões da mesma forma que vejo as cotas. Infelizmente, hoje, ainda, é necessário.

    • José Ferreira Postado em 11/Jul/2014 às 16:26

      Os vagões são que nem as cotas: uma solução imediatista que pune aquele que não deve ser punido (brancos que nunca escravizaram ninguém e mulheres, respectivamente). Segregação não é a solução.

    • Rafael Postado em 11/Jul/2014 às 17:55

      Então separa tudo nesta porcaria! Separa esta porcaria de país em 5 e vamos ver o que acontece!

  6. Aken Postado em 11/Jul/2014 às 16:07

    É solução momentânea; para um país imediatista como o nosso, normal. Mas de toda forma, concordo com o Felipe, sou contra a idéia mas a julgo necessária, pelo menos no momento. Mas é claro, não se deve esquecer de políticas parelas a esta.. Mas por aqui, remendam o problema achando que vai surgir a solução, até o dia que a bomba explode... aí já é tarde!

  7. Thiago Teixeira Postado em 11/Jul/2014 às 18:02

    Solução? Ninguém aqui deu solução, só criticas. Nesta tarde as mulheres certamente foram encoxadas, e ai? Vai educar esses safados depois de velhos? É fácil falar atrás de um teclado, pegar o carro com ar condicionado e ir confortavelmente para casa, ou no caso de nós homens, não conseguimos imaginar o medo e constrangimentos que estas pessoas passam.

  8. poliana Postado em 11/Jul/2014 às 20:02

    pode n ser a solução, mas pra proteger a minha integridade física, eu apóio essa "segregação"...qq medida pra proteger a mulher da constante humilhação a q ela é submetida por ser usuária do transporte público, principalmente do metrô, nas grandes capitais do país, é valida! tantos absurdos já foram noticiados a respeito, q essa iniciativa da assembléia leg de sp é o mínimo q se pode fazer para nos proteger. q seja o 1º passo pra acabar com essa violência constante q sofremos no nosso dia a dia.

  9. Alan Postado em 11/Jul/2014 às 22:10

    Prefiro que elas fiquem protegidas com o vagão rosa. Criar políticas de combate ao assédio sexual em nível nacional vai ser perda de tempo e dinheiro, pois a educação moral tem que vim desde o berço e isso envolve outros fatores (mídia em geral). Isso não se resolve com uma simples campanha, tem que ter o apoio uma lei pesada e sem brechas para punir.

    • beto Postado em 12/Jul/2014 às 23:50

      Cara, discordo, criar políticas de combate ao assédio é nossa unica arma eficaz! Criar vagões rosas não ajudam, como disse o Adalberto, como esses vagões não são a solução, mas fazem a mulher ter um dia-a-dia mais decente! Temos que ter uma educação diária!

  10. Ana Carla Postado em 12/Jul/2014 às 13:54

    Eu uso o vagão destinado a mulheres no metrô de Brasília e aprovei a ideia porque me sinto segura. Não acho que seja uma forma de segregar, até pq é uma opção que a mulher tem para se proteger de atos de desequilibrados sexuais. Eu apoio.

  11. tatiana Postado em 12/Jul/2014 às 15:07

    quer dizer, enquanto tentamos -duvido que consigamos- mudar a sociedade machista, as mulheres tem q ser apalpadas, sarradas, ter bundas e calcinhas fotografadas, encoxadas e sabe-se lá mais o que, p n haver segregação rs , p n sermos politicamente incorretos e não escreverem mais um texto babaca como esse. E mais, acho q se alguem q viveu num campo de concentração ler esse texto , se sentirá muito ofendido... afinal, no trem rosa, ninguem vai p câmara de gás!

  12. Rodolfo Postado em 21/Jul/2014 às 18:21

    Convenhamos, comparar vagão rosa com jaula e campo de concentração, FORÇOU DEMAIS a barra em meu chapa? Pergunte às mulheres do vagão se elas se sentem confortáveis lá dentro, aposto que se sentiriam numa jaula e num lugar assustador muito mais nos vagões mistos! E digo mais aposto que vai ser um vagão limpinho, cheiroso e elas vão ser educadas umas com as outras... Enquanto isso os homens avacalhando o vagão normal, porque homem é relaxado mesmo, não adianta. Vai ser tipo banheiro, o dos homens fede a mijo e o das mulheres é arrumadinho. Bela iniciativa e aposto que as usuárias aprovam e estão contentes. Agora isso aqui não tem cabimento: "a questão da cor rosa como algo feminino, logo machista e sexista". Que bárbara conclusão! E qual é o problema do "rosa"? Quer trocar? pega o verde.... que diferença faz a porra da cor?! Tem um significado implícito? o rosa foi escolhido pelos homens para atribuir às mulheres? foi uma imposição machista? kkkk Porque nós homens não reclamamos do azul? que diferença faz qual cor é a de quem? kkkkkk

  13. Geraldo Postado em 21/Jul/2014 às 18:30

    Absurda esta idéia. Parece que está na moda tratar TODOS os homens como bandidos. Os safados, tarados, etc são ínfima minoria. É só cumprir a lei que já existe e puní-los exemplarmente, mas a demagogia dos políticos é incomensurável e a idiotice dos eleitores também.