Redação Pragmatismo
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Literatura 23/Jul/2014 às 23:59
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Rubem Alves: Linguagem politicamente correta

rubem alves
Rubem Alves

Por Rubem Alves*

Aprendi que as palavras não são inocentes,
elas são armas que os poderosos usam
para ferir e dominar os fracos

ERA O ANO de 1971. Eu fora convidado a fazer uma conferência no Union Theological Seminary de Nova York. Na minha fala, usei a palavra “homem” com o sentido universal de “todos os seres humanos”, incluindo não só os homens, que a palavra nomeava claramente, como também as mulheres, que a palavra deixava na sombra. Era assim que se falava no Brasil.

Depois da conferência, fui jantar no apartamento do presidente. Sua esposa, delicada, mas firmemente, deu-me a devida reprimenda.

“Não é politicamente correto usar a palavra “homem” para significar também as mulheres. Como também não é correto usar o pronome “ele” para se referir a Deus. Deus tem genitais de homem? Esse jeito de falar não foi inventado pelas mulheres. Foi inventado pelos homens, numa sociedade em que eles tinham a força e a última palavra. É sempre assim: quem tem força tem a última palavra…”

O que aprendi com aquela mulher naquele jantar é que as palavras não são inocentes. Elas são armas que os poderosos usam para ferir e dominar os fracos.

Os brancos norte-americanos inventaram a palavra “niger” para humilhar os negros. E trataram de educar suas crianças. Criaram uma brincadeira que tinha um versinho que ia assim: “Eeny, meeny, miny, moe, catch a niger by the toe”… Quer dizer “Agarre um crioulo pelo dedão do pé” (aqui no Brasil, quando se quer diminuir um negro, usa-se a palavra “crioulo”).

Foi para denunciar esse uso ofensivo da palavra que os negros cunharam o slogan “black is beautiful” (“o negro é bonito”). A essa linguagem de protesto, purificada de sua função de discriminação, deu-se o nome de linguagem politicamente correta (“PC language”).

A regra fundamental da linguagem politicamente correta é a seguinte: nunca use uma palavra que humilhe, discrimine ou zombe de alguém. Encontre uma forma alternativa de dizer a mesma coisa.

Não se deve dizer “Ele é aleijado”, “Ele é cego”, “Ele é deficiente” etc. O ponto crucial é o verbo “ser”. O verbo ser torna a deficiência de uma pessoa parte da sua própria essência. Ela é a sua deficiência. A “PC language”, ao contrário, separa a pessoa da sua deficiência. Em vez de “João é cego”, “João é portador de uma deficiência visual.” Essa regra se aplica a mim também.

Por exemplo: “Rubem Alves é velho”. Inaceitável. Porque chamar alguém de velho é ofendê-lo -muito embora eu não saiba quem foi que decretou que velhice é ofensa. (O título do livro do Hemingway deveria ser mudado para “O idoso e o mar”?)

As salas de espera dos aeroportos são lugares onde se pratica a linguagem politicamente correta o tempo todo. Aí, então, na hora em que se convocam os “portadores de necessidades especiais” para embarcar -sendo as necessidades especiais cadeiras de roda, bengalas, crianças de colo-, convocam-se também os velhos, eu inclusive.

Mas, sem saber que palavra ou expressão usar para se referir aos velhos sem ofendê-los, houve alguém que concluiu que o caminho mais certo seria chamar os velhos pelo seu contrário. Assim, em vez de convocar velhos ou idosos pelos alto-falantes, a voz convoca os cidadãos da “melhor idade”.

A linguagem politicamente correta pode se transformar em ridículo. Chamar velhice de “melhor idade” só pode ser gozação. É claro que a “melhor idade” é a juventude.

Quero, então, fazer uma sugestão que agradará aos velhos. A voz chama para embarcar os “cidadãos da “idade é terna’”. Não é bonito ligar a velhice à ternura?

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*Educador, teólogo e escritor brasileiro, Rubem Alves faleceu no último dia 19 de julho. Texto originalmente publicado em 16/03/2010

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Comentários

  1. Rodrigo Postado em 24/Jul/2014 às 09:16

    Hahaha pior merda que já li, sou negro, porque deveria se sentir ofendido por me chamarem de negro? Ser negro não é vergonha para mim, Se eu falo "ele" relacionado a Deus é porque o português determinada, me deixe escrever uma redação ou trabalho da faculdade e use "Ela". O politicamente correto é a forma maior de segregação que existe, cego, surdo, mudo, são termos que não rebaixa ninguém, apenas nos olhos de pessoas como esse senhor que acha que é defensor de alguma coisa. PS: Imagine, eu uso óculos ( de fato), sem eles minha vista não contribui, então um amigo no lugar de comentar nossa você está cego! deveria falar, nossa, você está um deficiente visual?

    • Lucas Postado em 24/Jul/2014 às 09:47

      Acredito que ele deixou bem claro no texto que o "ponto crucial é o verbo 'ser'", não o "negro", "cego", "velho" etc. Quando Rubem Alves diz que "...as palavras não são inocentes" ele sabe que elas carregam um universo de significados, são o suporte material da ideologia [dominante] - o exemplo do "niger", usar o pronome Ele para se referir a Deus. Você está totalmente correto em não se ofender por ser chamado de negro (não é à toa que ele cita no texto o "black is beautiful" como forma de denúncia do "niger"). Mas não é sobre isso que ele está falando. É sobre o poder de uma palavra sobrepujar, de antemão, o sujeito.

    • Sabrina Postado em 24/Jul/2014 às 10:54

      Bem se vê que nunca leu Rubem Alves pela incapacidade de interpretação do texto. A palestra foi em Nova York, portanto, em inglês não em português. A questão foi abordada de forma lírica, poética, buscando reflexão e não definição. E não, Rubem Alves não acha que é defensor de nada. Ele simplesmente foi - infelizmente não teremos mais a honra de sua companhia nessa terra onde ignorantes de literatura e educação se metem a tecer comentários sobre o que não entendem - teólogo, psicanalista, filósofo, educador, poeta e defensor da teologia da libertação, uma das correntes religiosas mais coerentes em meio a tanta barbaridade que espalham sobre Deus por aí. Recomendo se informar antes de falar tanta besteira.

  2. poliana Postado em 24/Jul/2014 às 09:18

    gente, eu sou uma grande fã do rubem alves. eu li o livro dele, "conversa sobre política" aos 14 anos, e foi aí, pela primeira vez q me interessei por ela...o texto q ele fala sobre o pq de ser a favor a legalização das drogas, por exemplo, me fez ver essa questão com outros olhos. graças a ele, despertou em mim meu lado político, meu lado mais crítico...mas enfim..n podia deixar de falar isso. sou uma grande fã do rubem alves!

  3. poliana Postado em 24/Jul/2014 às 09:19

    "conversas sobre política"*

  4. eu daqui Postado em 24/Jul/2014 às 09:22

    Algumas palavras realmente são armas. Mas nem todas como pretende os nazicorretistas.

  5. Rogerio Postado em 24/Jul/2014 às 11:19

    A maioria pensa 10x antes de falar mal de negros, gays, judeus, etc... O que mostra que o combate ao racismo funciona. Isso é ótimo. Mas para falar mal e ofender ex gays e muçulmanos ninguém parece ter um freio moral em suas consciências. Portanto, parece ter muito caminho pela frente.

  6. Alessandro Postado em 26/Jul/2014 às 05:33

    Ele não morreu, isso é ofensivo, ele meramente entrou em uma situação de desprovimento de vida. hahahhahaha Mas falando sério, o que mais me incomodou nesse texto foi a falta de consideração pela etimologia. Homem vem do latim humus, significa ser que vem da terra, originalmente não possui relação nenhuma com gênero (o mesmo se aplica ao inglês "man", no inglês arcaico era necessário adicionar um prefixo para ser referir especificamente à um macho; "were-"), já nigger vem do latim niger que significa preto e não tem sentido pejorativo em si só. Ou seja: Não, o homem não inventou a palavra homem para oprimir a mulher e americano nem sequer inventou a palavra niger. As palavras são inocentes sim, o contexto é quem é opressor.