Redação Pragmatismo
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Copa do Mundo 01/Jul/2014 às 18:01
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Palestinos assistem jogos da Copa em "muro da vergonha"

Palestinos usam "Muro da Vergonha" como telão para ver jogos da Copa. Restaurante na cidade de Belém projeta partidas do Mundial de futebol na barreira que simboliza a segregação na Cisjordânia e o conflito israelo-palestino

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Clientes do “The Wall Steak House” assistem à partida da Copa do Mundo projetada no Muro da Cisjordânia (Reprodução/Activestills.org)

Do alto de seus oito metros de comprimento, o muro simboliza a segregação. Ao separar os palestinos da cidade sagrada de Belém do resto da Cisjordânia, tornou-se um dos emblemas da ocupação israelense dos territórios árabes. Além de servir de tela para artistas como Banksy expressarem sua indignação e ativistas rabiscarem suas palavras de ordem, a população palestina encontrou outra maneira de se apropriar dessa barreira imposta por Israel há mais de dez anos: projetar nela as partidas da Copa do Mundo, evento esportivo que congrega 32 nações diferentes e cujo slogan oficial — “juntos num só ritmo” — é mais uma provocação à construção do paredão.

A iniciativa partiu de um dono de restaurante aficionado por futebol, Joseph Hasboun. A casa de carnes que gerencia, “The Wall Steak House”, estampa logo no nome a paisagem a que seus clientes têm direito ao se acomodar no estabelecimento. Do outro lado da rua, lá está ele, o muro. Desde o dia 12 de junho, quando o Brasil inaugurou o Mundial contra a Croácia, a parede tem também outra função e serve de telão para a transmissão dos jogos da Copa.

“É algo como uma resistência civil. Eles podem colocar esse muro, mas não podem nos impedir de fazer isso”, relata o advogado palestino Ihab Jaser, 33, ao veículo local The Jewish Journal, enquanto assistia ao empate entre Alemanha e Gana. “É um lugar bonito, é ao ar livre e tem algum significado”, completa Hasboun, o dono do restaurante.

A transmissão ao vivo dos duelos futebolísticos já se tornou uma tradição, começou em 2010 no Mundial da África do Sul e virou ponto de encontro para grupos de jovens palestinos — e também alguns turistas de passagem por Belém — vibrarem com os grandes craques do futebol. De lá para cá, uma mudança. Para atender à demanda, Hasboun investiu em uma tela maior e agora são quase 20 metros quadrados emprestados pelo muro à nobre causa.

A “reforma”, entretanto, desagradou parte da clientela. Isto porque, para bancar o upgrade, Hasboun teve que cobrir com tinta branca a pintura de um camelo gigante feita pelo artista de rua espanhol Sam3. Questionado sobre por que não pintou a tela alguns metros para o lado, Hasboun tem uma defesa técnica: “O equipamento de projeção já estava instalado ali”.

Baixa audiência

Embora a Copa no Brasil esteja presenteando o público com bons jogos e muitos gols — para a alegria dos donos de bares, que torcem por mesas cheias e copos esvaziados — a frequência no “The Wall Steak House” tem sido abaixo da esperada. Desde o sequestro dos adolescentes israelenses, há duas semanas, a Cisjordânia virou palco de uma força-tarefa do Exército vizinho. Durante a caçada pelos autores do rapto, cinco palestinos já foram mortos e centenas detidos, enquanto cidades foram sitiadas pelas forças israelenses, controlando a entrada e saída de moradores e conduzindo buscas indiscriminadamente na casa das pessoas.

O dono do restaurante disse que pelo menos dois grupos de clientes, habitués da casa e fãs de futebol, decidiram não comparecer à transmissão da peleja com medo de serem parados na rua, enquadrados e revistados por militares israelenses.

“Se eles continuarem a entrar todas as noites em nossas casas, pode haver outra intifada”, comenta Jaser ao The Jewish Journal, referindo-se aos movimentos palestinos de resistência contra a ocupação israelense. Foi, inclusive, após o último desses levantes, a 2ª Intifada, que teve início em 2000, que Israel se pôs a erguer o muro, considerado uma “cerca de segurança” para proteger seus cidadãos dos ataques palestinos.

Símbolo da divisão e do acirramento do conflito israelo-palestino, o “Muro da Vergonha”, como também é conhecida a barreira, recebeu recentemente outra entidade “supranacional”. Além de servir de suporte para a transmissão dos jogos da Copa, suas paredes também encararam a paradigmática visita do papa Francisco. Distante apenas algumas quadras da fachada do restaurante-sede das projeções, o líder da Igreja Católica saltou do papa-móvel e encostou na parede para rezar e pedir por paz no Oriente Médio.

Felipe Amorim, Opera Mundi

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