Redação Pragmatismo
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Copa do Mundo 03/Jul/2014 às 10:12
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O vilarejo que assistiu a Copa do Mundo na TV pela primeira vez

No Ceará, vilarejo de Cafundó assiste aos jogos da Copa do Mundo na televisão pela primeira vez

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Jovens assistem Copa do Mundo pela primeira vez (Bruno Xavier | Nigéria Filmes)

Cafundó, segundo o dicionário Houaiss, significa “local de difícil acesso, especialmente quando situado entre montanhas ou quando longínquo e pouco habitado”. Ou ainda, “baixada estreita entre encostas ou lombas altas e íngremes” e, por fim, “parte ou aposento de prédio ou habitação sem muita iluminação”.

As definições não poderiam ser mais cabíveis para designar uma pequena vila que atende por esse nome. À exceção da última, pelo menos a partir do final de 2011: em Cafundó, vilarejo que pertence ao município de Choró, em um rincão do sertão central cearense, encravado em uma serra onde predomina uma vegetação mista de caatinga, cerrado e floresta tropical, e onde só se chega a pé após 50 minutos de uma subida íngreme -e põe íngreme nisso- a energia elétrica só apareceu lá há dois anos e meio, dentro do programa federal Luz Para Todos.

E foi graças também ao helicóptero que transportou 46 postes de iluminação, além dos jumentos que subiam e desciam a serra, conduzindo materiais necessários para a implantação da rede.

Com isso, as 23 famílias dessa localidade, onde a agricultura de subsistência é a principal atividade -feijão, fava, milho, jerimum e muita manga, entre outros, quando dá chuva-, trocaram o breu das lamparinas e as fumaças de querosene e diesel pelas lâmpadas.

Muitas compraram geladeira para armazenar e estocar alimentos; máquinas de lavar também chegaram. E pequenos televisores, quase todos de tubo, com acesso a 31 canais pela parabólica.

De maneira que Cafundó está assistindo a Copa do Mundo pela primeira vez.

Impressionante

Deitado em uma rede, enquanto acompanhava Inglaterra x Uruguai em um televisor de 14 polegadas, o garoto Valdenir Queiroz do Nascimento, 15, confidenciou: “Quando assisti a um jogo de futebol pela primeira vez, foi uma reação muito forte. Fiquei emocionado. O tamanho do campo me impressionou. Não sabia que era tão grande assim, nunca tinha visto os torcedores e nem o juiz”.

Valdenir, que veste sua chuteira todos os dias para bater bola com seus colegas -mas não nos horários dos jogos da Copa, pois não perde um-, afirma que seu sonho agora é um dia ir ao estádio. “A vontade existe, mas é difícil, né? Pelo menos a TV dá uma noção de como é”.

Flamenguista, ele é fã de Neymar e achou que Daniel Alves, na lateral direita, estava devendo. “Boa mesmo está a seleção da Holanda. Mas levo fé no nosso time”.

E como foi que Valdenir acompanhou a Copa de 2010? “Aquela Copa não foi nada. Basicamente assistia no rádio de pilha. Era muito ruim: você nem sabia quem era o jogador”. Seu irmão Valdelino, que ficou fã do apresentador Rodrigo Faro, emenda: “pela primeira vez a gente vai ver o Brasil campeão”.

Conhecimento

Algumas centenas de metros adiante, pois em Cafundó não há vizinhos de porta -as casas são espalhadas-, estava Raimundo Silva de Oliveira, também conhecido como “Piroca”, em frente à TV.

“A Copa é tudo. A gente aprende sobre os outros países. Camarões, por exemplo, eu nem sabia que existia direito, nunca tinha visto a gente de lá. É bonito esse tanto de seleção, de gente do mundo inteiro. Fora esses estádios. Não sabia que no Brasil tinha tanto estádio bonito”.

Na Copa de 2010, Raimundo conseguiu fazer funcionar seu aparelho de TV à base de placas solares e bateria de carro. “Mas a gente dependia basicamente do sol. Se fizesse um dia quente, dava pra assistir um jogo inteiro.”

Todos entrevistados pela reportagem apontaram algumas mudanças na rotina da vila, com a chegada da TV. Antigamente o pessoal dormia por volta das sete, agora dorme mais tarde. As visitas aos vizinhos se tornaram mais escassas. Na falta de outras opções de lazer, há relatos de quem assista mais de sete horas de TV por dia.

“A televisão informa sobre o que está acontecendo. Mas tudo depende da interpretação. Muitos mudaram tentando imitar o que passa na tela”, diz Otaciano Gomes de Souza, 23, professor da vila.

Ele dá aulas diariamente, do primeiro ao quinto ano. Depois, as crianças precisam pegar ônibus para seguir até a escola municipal de Choró, o que leva duas horas.

A primeira TV da vila foi instalada na casa de Otaciano. O primeiro programa que viram, ele conta, foi “Chaves”. “As crianças ficaram tão impressionadas que pareciam querer entrar na tela”.

Entre as mulheres, o sucesso são as novelas. Tatiana Silva de Oliveira, 16, que também está assistindo à Copa, gostou de “Avenida Brasil”.

Segundo a Coelce, empresa responsável pela implantação da rede elétrica em Cafundó, a obra durou 40 dias; 46 postes, 18 transformadores, 12 cruzetas e cerca de 300 kg de condutores foram levados em 30 viagens de helicóptero. Só assim era possível transportar o material até a região. Enquanto isso, jumentos subiam a serra transportando equipamentos acessórios, como ferramentas.

“Quando a gente viu aquele bicho avoando eu pensei, agora vai!”, afirma Antonio Preto, 74, um dos mais antigos moradores da vila.

O Luz para Todos, cujo desafio é acabar com a exclusão elétrica no país, é coordenado pelo Ministério de Minas e Energia, operacionalizado pela Eletrobrás e executado pela Coelce. Segundo a Coelce, o programa beneficiou 178 mil famílias no Ceará desde 2004, fazendo com que mais de 99% da população do Estado tenha eletricidade.

Luz é alegria.

Morris Kachani, Folhapress

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Comentários

  1. Lucas Lucas Postado em 03/Jul/2014 às 10:55

    Viva a inclusão!

  2. Lucas Postado em 03/Jul/2014 às 20:31

    Excelente. Que isso aconteça cada vez mais, pois sabemos que esse não é o único caso ainda, nessa até então, real situação.